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F. Fısk-Büyük Günah İlişkisi

1. Hâricîler

“Da mesma forma que eu achava que tinha que ser m issionária na Igreja Metodista [...] considerei que, na luta

arm ada, deveria ir em direção às últimas consequências”.

vinham antes da nossa turma eram mais velhas. Bem solteironas... Queriam uma oportunidade boa pra casar... Talvez com pastores metodistas... Uma coisa bem assim, de época. Elas eram

muito “carolas”. Essa minha turma não. Era uma turma nova e cheia de perspectivas em todas

as áreas da vida. Excepcionalmente, era uma turma nova e resolvida. Daí você encontrava um monte de moças com preocupações sociais fortes e muito ligadas à Igreja. Você as coloca em um mesmo lugar com três horas de leituras por dia... Leituras obrigatórias. Já pode imaginar no que dá? Com todo aquele movimento, de 1965, 1966, 1967, 1968. Tudo acontecia na rua! Mais que isso tudo... Pois a teologia da libertação corria lá no seminário. Então a gente... Eu já tinha certa consciência política nesse tempo... Tanto que fui para a Igreja Metodista, e para o Instituto Metodista, já com a preocupação em dar um conteúdo político para a minha opção religiosa. Sem esse viés político a minha escolha religiosa não teria sentido nenhum.

Eu não era... Como posso dizer isso? Eu não era dessas pessoas que aceitam as coisas sem questionar seus conteúdos e suas respectivas práticas. Sempre fui assim mesmo, questionadora. Desde menina. Sempre fui assim. A gente se juntou com um grupo de jovens da Aliança Bíblica Universitária, ABU. Nós nos juntamos com um pessoal da Igreja Metodista que já estava engajado na luta política e social dentro ou fora do âmbito eclesiástico. Esse pessoal metodista estava se direcionando para a Ação Popular, AP.

Era o Anivaldo Padilha, o Fernando (que já morreu), o Celso... Era um grupo de jovens lideranças da Igreja Metodista com essa preocupação político-teológica. Eu participei de muitos acampamentos de jovens... Aí começaram as passeatas nas ruas. Então, nós começamos a nos organizar ainda como secundaristas. É... Conseguimos tirar a reitora do Instituto Metodista, Dina Rizzi, que era muito conservadora e reacionária... Tiramos também a Sarah Bennett, que era uma missionária americana muito conservadora e fechada. A gente tirou essas mulheres! Elas saíram. Elas não davam a abertura que nós queríamos. Nós colocamos o professor Pitágoras que era pastor da Igreja Metodista. Ele era irmão do Paraíba, que era o nosso representante no atual Conselho Mundial de Igrejas. Bem, hoje o Conselho se chama Conselho Mundial de Igrejas, mas antes tinha outro nome. E ele, o Pitágoras, que passou a dar abertura para a gente sair, passear e tudo mais... Depois da derrubada do conservadorismo, nós poderíamos sair quando quiséssemos... Porque, antes, nós tínhamos que ficar lá no Instituto Metodista durante todo o tempo. Não podíamos sair sem autorização das professoras, da reitora ou da vice-reitora.

A gente começou um movimento nosso, com características próprias, das meninas modernas e progressistas. Tanto que eu me lembro da última vez que fui para o Instituto Metodista. Causamos um trauma tão grande para a Igreja Metodista que eles fecharam o Instituto Metodista, em 1968. Assim como eles fecharam a faculdade de teologia por causa da greve dos alunos no interior daquela instituição. Na faculdade de teologia os alunos chegaram até a enterrar armas para se prepararem para a guerrilha, pois alguns estavam convictos da luta armada. Quando me formei no Instituto Metodista, recebi uma base muito grande porque frequentava a biblioteca. Lá tinha de tudo. Assim... Tinha Sartre, tinha Simone de Beauvoir, tinha Paul Tillich, tinha Karl Marx, tinha tudo. Porque, na parte da formação propriamente dita, elas eram muito cuidadosas e atentas às teorias modernas. Nós tínhamos todos os livros na biblioteca. Era só querer. E eu queria! Não apenas eu, mas um grupo inteiro... Essa amiga, aqui do Rio de Janeiro, que acabou se tornando noiva do Mozart Noronha, e outras amigas, estavam bastante interessadas em conhecer as ciências sociais. Nós procurávamos os caminhos da leitura e da formação acadêmica sobre política e religião. E procurávamos contato com os grupos de esquerda. Buscávamos contato com todos os grupos de esquerda. No início, nós nem sabíamos as diferenças existentes entre um grupo de esquerda com relação aos outros. Por isso, nós buscávamos essa formação teórica e prática em todos os lugares. Só

sabíamos, no início, que éramos da esquerda política que marcou nossa formação humana e acadêmica.

Nós nos formamos no Instituto Metodista em 1968. No final de 1968, porém, eu fiz o vestibular para o curso de serviço social na Pontifícia da Universidade Católica de São Paulo, PUC. Só que fiz no período noturno porque tive que trabalhar arduamente para conseguir a minha graduação. Antes disso, em 1968, nós terminamos o curso na Igreja Metodista. Só que eu e minhas amigas não queríamos ser esposas de pastores, simplesmente. Formamo-nos e, depois, todos os progressistas acusados de comunismo foram expulsos da Igreja Metodista.

Eu fui “violentamente” expulsa da Igreja Metodista. Segundo eles, nós não poderíamos fazer parte do Corpo de Cristo. Eles disseram: “vamos expulsar esse bando de comunistas diabólicos”. Mas, na época, não me preocupei com isso. Nem pensei assim: “ah... vou pro inferno agora”.

Fui expulsa da Igreja de Cristo? Era uma questão que não me tocava mais. Não era importante pertencer à Igreja Metodista – naquele momento. Eu tinha muito claro que eu queria militar não mais na Igreja. Já tinha feito todos os questionamentos que deveria fazer em relação à fé e à crise naqueles tempos de disputa teológica. Critiquei muito a mistificação das coisas. Critiquei muito a imbricação da fé com as instituições religiosas. Critiquei o preconceito com as religiões populares. Lembro-me da gente, lá no Instituto Metodista, no primeiro ano, todas novinhas e tal... Nossa crise foi descobrir que não existiu um coral de anjos para cantar quando Jesus nasceu. Descobrimos que existiam variações muito graves nas interpretações bíblicas conservadoras.

Não houve nada daquilo que achávamos! Sabe, eram cenas teológicas, assim, muito fortes. Sofremos a reinvenção das nossas concepções acerca da fé cristã. Trago, na memória, de que essas separações pequenas entre religiosidade e fé, teologia. Do tipo, assim: “nossa, não existe

inferno como vocês das igrejas protestantes descrevem?”. Mais: “não existe um diabinho enfiando um tridente cheio de fogo nos condenados?”. Sabe esse tipo de coisa? Aí já não era

mais uma preocupação minha. A igreja teria que ser mais sincera com os fiéis... Mas, “na

boa”? A Igreja já tinha deixado de ser importante, porque a política assumiu um lugar

preponderante na minha forma de pensar e de fazer as coisas. Quando entrei na faculdade para fazer serviço social, em 1969, as coisas mudaram um pouco. Passei no vestibular e, em 1969, comecei a fazer o curso de serviço social. Nem lembro se comecei a faculdade em 1969. Não, não... Em 1970 eu fui presa. Foi em 1969 mesmo. Logo que entrei na faculdade, a primeira coisa que fiz foi procurar as pessoas de esquerda... Não foi difícil encontrá-las.

O nosso trote foi uma palestra sobre a reforma universitária com o Abelardo. Abelardo não... É... Aquele que morreu... Da ALN... Eu não lembro o nome dele, nossa! Mas não era o Abelardo... Era outro. Aí, no trote realizou-se um teste... O teste aconteceu com base nessas coisas: quem falava, quem perguntava, quem aparecia mais. Depois, os líderes de esquerda procuraram os que se destacavam e, consequentemente, chamava-os pra conversar sobre diversas possibilidades. Eles sabiam fazer o trabalho proselitista para as esquerdas. Cada um com o seu respectivo grupo. Aí eu acabei entrando... Tinha muita gente da AP, mas muita gente era da ALN na escola de ciências sociais da PUC. Não era uma coisa de se escolher, simplesmente... Eu participei de várias reuniões de Movimento Estudantil. Assisti os vários grupos falando, discursando... Eu perguntava sobre os diversos temas... Nós líamos muito... Havia uma preocupação muito grande com a formação teórica dos militantes de todos os grupos da esquerda brasileira. Não era como é agora... A esquerda contemporânea não lê e é muito leve, muito superficial. A gente lia, estudava e fazia grupos para estudos. E eu gostava de ler. Ainda gosto, claro. Nós tínhamos uma grande bagagem... Tive sorte de pegar grupos esquerdistas que sustentavam uma preocupação muito grande com a formação de seus pares.

Isso aconteceu por todos os lados. Tanto na Igreja Metodista, naquele momento, na qual existia uma forte preocupação com a formação dos seus pastores, dos seus profissionais. Tudo, na Igreja, na PUC, sustentava-se com uma visão mais ampla, mais humanística... Na política esquerdista as cosias eram muito fortes. Quando entrei na PUC, aproximei-me dessas pessoas ligadas às esquerdas. Porque não foram somente eles que se aproximaram, pois eu mesma também procurei estabelecer um diálogo repleto de ações. Porque eu achava... Veja... Da mesma forma que eu achava que tinha que ser missionária na Igreja Metodista, quando me tornei protestante, considerei que, na luta armada, deveria ir em direção às últimas consequências. É uma coisa, viu? Essa é uma característica muito pessoal. Sou assim mesma... Radical! Atualmente, tomo bastante cuidado para não me equivocar com essa minha

característica pessoal. Você tem que manter sempre o “dado da realidade presente...”. Não

pode ir até o fim de qualquer jeito.

Para mim, atualmente, é muito mais um movimento de racionalidade do que de impulso... Aí acabei auxiliando, em 1969, o Centro Acadêmico da PUC. No final do ano teve eleição. Eu ajudei em tudo. A ditadura militar, por meio do decreto-lei Nº 477, “AI-5 das universidades”, tinha feito a reforma universitária. Tinha mudado tudo, tudo, tudo. Eles colocaram na ilegalidade os centros acadêmicos. E você só poderia fazer os diretórios acadêmicos com a autorização da direção da escola. Ainda assim, fui para o centro acadêmico do curso de serviço social e era por lá que nós fazíamos os panfletos, fazíamos as panfletagens, fazíamos

as festas para conseguir dinheiro cujo propósito era “bancar” o pessoal da esquerda que vivia

clandestinamente. De todos os grupos... Não apenas da ALN... O pessoal da escola da manhã, do centro acadêmico, era majoritariamente da AP. Do noturno, era da ALN. Participamos de todas as passeatas de 1969.

Participei de todos os movimentos contrários à vinda do Rockefeller ao Brasil. Nesse ensejo, nós fizemos grandes manifestações. Nós ajudamos na denúncia do acordo MEC-USAID cujo subproduto foi, entre outros, o decreto-lei Nº 477 que disciplinava as universidades e, consequentemente, o movimento estudantil no Brasil. Eu sempre tive, e ainda tenho, muita

facilidade para criar “redes de contato”. Eu estava na legalidade e não tinha grandes

responsabilidades em termos políticos. Não tive que ficar clandestina. Era presidente do centro acadêmico e tinha um respeito muito grande das pessoas do movimento estudantil. Fiquei bastante tempo fazendo esse trabalho de dar suporte logístico às ações acadêmicas da esquerda política. Dei apoio logístico para a ALN, porém também – se necessário fosse – para outras pessoas de grupos distintos. Estabeleci um contato muito forte com o CEDI, que na época editava o Tempo e Presença, e com pessoas como Jether Ramalho, Anivaldo Padilha e outros. Nós apoiávamos uma série de iniciativas da esquerda política brasileira. Em geral, entretanto, a esquerda não tinha nenhum tipo de preconceito.

Em 1970, eu era presidente do centro acadêmico. Nesse tempo comecei a me ligar e a ter contato com o pessoal da ALN. Vou explicar algumas coisas importantes. Em uma organização de esquerda, tinha-se a frente de massa e a frente militar. A frente militar era composta por aquele pessoal treinado pra fazer as ações armadas. Eu sempre fui... Nunca... Sempre mantive um pavor sobre a ideia de pegar em armas. Aí é uma coisa estrutural em mim... A ideia de matar alguém me choca bastante... Prefiro morrer se a escolha for essa... Agora que eu tenho filhos já não sei... As coisas mudam bastante para uma guerrilheira que tem filhos, pois as ameaças são maiores. Mas na época eu não tinha filhos. Por isso, sempre tive um pavor que não era necessariamente relacionado às ideias religiosas... Minhas características pessoais eram diferentes. Eu era aquela negociadora. Conversava, conseguia, convencia. Conseguia casas para abrigar pessoas... Arranjava remédio para quem estava doente... Era outro esquema... Outro tipo de realização. Eu não sou... Se tivesse que pegar em

armas e sair atirando... Esse tipo de coisa eu acho que não faria. Não... Não seria... Não me sairia bem... Não era aquilo que eu gostaria de fazer. O Carlos Eugênio (Clemente), por exemplo, tem uma habilidade especial com armas e com a guerrilha...

Quero, aliás, falar só brevemente sobre a contribuição que o Clemente concedeu ao repórter Geneton Moraes Neto... Foi uma excelente entrevista, pois demonstrou como o general Humberto de Souza Mello, que era linha-dura, participou de uma igreja batista lá no Bairro de Vila Mariana e a ALN queria sequestrá-lo para trocar por presos políticos. Isso demonstra tanto o envolvimento do pastor batista daquela Igreja, quanto a intensidade das ações da ALN... Eu sei que o envolvimento do pastor era grande, pois foi beneficiado pelo Regime Militar em relação a uma Campanha de Evangelização que fez... Agora, eu não estive naquela ação e o Carlos Eugênio sobreviveu para contar a história. E o Clemente não dá entrevistas com frequência porque não gosta de abrir, mas falou com o Geneton. Você poderia conversar com ele informalmente para tentar descobrir detalhes da ação na porta da Igreja Batista de Vila Mariana – não se iluda com a entrevista. Ouça novamente a entrevista jornalística que ele deu para o Geneton, pois pode te ajudar também. Eles chegaram com armas na porta do templo batista e renderam o general que frequentava lá, mas o que você queria? Queria que eles dissessem: respeitem a casa do Senhor? Era luta, guerra, batalha.

Me lembrei que algumas mulheres foram importantes na frente militar. Seguem-se como exemplos a Guiomar, a Cidinha Costa, a Cidinha Santos... São mulheres que tinham vocação... Elas faziam esse tipo de coisa muito bem. Pessoalmente, elas tinham essas habilidades. Eu era mais voltada ao trabalho... Meu trabalho era de formiguinha, mesmo. Eu acho que tem muito a ver com o trabalho de missionária, às vezes. Queria mesmo convencer os outros e ganhá-los, não pela força da violência, mas pelo argumento ou pela persuasão. Queria ganhar as pessoas através do exemplo. Tinha muito isso, assim como no movimento estudantil ou nos trabalhos missionários protestantes. Eu tinha que ganhar pelo exemplo. Assim fui ensinada na tradição protestante e na perspectiva missionária. Eu assistia aula todos os dias. Não acontecia como atualmente, no Movimento Estudantil, em que o povo vai para a

faculdade apenas como “desculpa barata”. Sabe o estudante profissional que fica a vida inteira

desenvolvendo essas mesmas atividades? Não era assim! Nós tínhamos que estar em sala de

aula para que os outros percebessem que, além de “bons politicamente”, nós éramos também

ótimos alunos. Bons estudantes! Queríamos mesmo que eles nos respeitassem por causa do nosso exemplo. Essa era a postura, na época, de todos os militantes do Movimento Estudantil. Há outro detalhe importante... É que a esquerda armada brasileira, entre 1974 e 1975, sempre foi considerada pelos militares como uma turma de bandidos. A repressão sempre tentou misturar a gente com drogas. Tentaram o tempo todo... Eles queriam dizer que, além de terroristas, nós éramos traficantes. Eles nunca conseguiram nos misturar. No Brasil isso nunca

“pegou”, porque tratava-se de uma questão de princípios. Nós não permitíamos, inclusive, por

parte dos militantes, nenhum tipo de envolvimento com as drogas ou com os bandidos. Até porque isso criava sérios problemas de segurança interna. É que a gente gostava de manter

clara a diferença entre quem era revolucionário e quem era da “vida mundana”. Bandido é

diferente de revolucionário. É... Até tinha um movimento muito forte que a gente usa pouco hoje... Uma pessoa que vai para ilegalidade por vias da criminalidade... Que tem profissões ilegais, digamos. Essa pessoa, do crime, tem tanta vontade de ser aceita pela sociedade burguesa, de ter acesso ao que a sociedade oferece, que vai de qualquer jeito para os seus braços (de forma ilícita). Nós sempre marcamos as nossas diferenças em relação aos bandidos, aceitos ou não, pela sociedade burguesa no Brasil. Recusamo-nos a ser isso... Ressalte-se que a gente não queria essa sociedade! A gente queria outra sociedade! Por isso, nós não queríamos simplesmente encontrar os caminhos da aceitação por meio da ascensão

socioeconômica. Isso era pouco. E nem almejávamos nos adaptar pelo hábito desenfreado do consumo.

Quando eu fiquei... Fiz o contato... Como estava no apoio logístico, guardei muita gente na minha casa. Guardei gente na casa da minha mãe. Inclusive um cara que era do Grupo Tático Armado da ALN ficou na minha casa. E eu iria morar com o Carlos Eugênio. O contrato de aluguel da casa era uma coisa. A gente iria montar um aparelho (era o nome que se dava). É... Eu ficaria dando esse apoio. Meu nome estava legal. Mas nós ficaríamos juntos – eu e o Carlos Eugênio – assim como um casal. Na verdade, o meu contato forte na ALN era mesmo o Carlos Eugênio. Quando fui presa, portanto, meu grande companheiro na ALN era o Carlos Eugênio. Só que eu não sabia quem ele era e as coisas importantes que ele fazia. Sabia, sim, que ele era do comando que estava em São Paulo. Ele estava procurando lugar para ficar. Eu estava lá, disponível, para ficar com ele e, por outro lado, a minha amiga Idinaura (que morava na república de estudantes comigo), ficaria com o Rafael de Falco – que foi preso posteriormente lá em casa. Então, nessa coisa...

Só um detalhe importante! Houve um momento, quando entrei na faculdade, em que tive contato com todos esses grupos esquerdistas, mas a preocupação com a vida cristã, religiosa, teológica, foi sendo obscurecida por coisas mais prementes. Eram as questões do momento revolucionário que eu estava experimentando. Não dava para ficar preocupada com as

questões teológicas... Com as grandes questões religiosas, com as teologias, “com isso”, “com aquilo”. Eu não precisava mais justificar uma porção de coisas. Já estava muito claro que eu

tinha feito uma escolha política bem definida. Não importava mais se eu acreditava em Deus, se não acreditava em Deus... Sabe quando isso tudo fica secundário? Eu entrava nessas discussões, antes de ir pra ALN, durante todo o tempo no Instituto Metodista. Tudo isso foi suficiente para me deixar resolvida. Atualmente, sou uma pessoa, uma mulher, muito bem resolvida nas diversas áreas da vida.

Acabei presa. Morávamos em uma casa. Eu e mais duas amigas dividíamos o mesmo teto. Morávamos juntas na mesma casa. Levei gente para ser guardada em nossa casa. Inclusive, muitas dessas pessoas que guardei estavam sendo procuradas na casa dos meus pais. É lógico que não levei a pessoa vendada para a casa dos meus pais. As pessoas guardadas conheciam bem o caminho da nossa casa. Evidentemente, a minha família me chamava pelo nome. Não

utilizava meu “nome de guerra” com a minha família, claro. Essa pessoa que ficou na minha

casa era operário. Era um operário de Osasco e era um guerrilheiro da ALN. Chamava-se Wilson. Foi preso em uma ação num banco... Eles foram fazer uma ação em um banco e a família dele estava passando muita fome. Ele tinha me pedido, e solicitado para os companheiros da ALN, que pegássemos um pouco do dinheiro, que era pra guerrilha, que era para manter os clandestinos, e déssemos para a família dele. Porque eles estavam com muita fome... Não deram esse dinheiro a ele, pois não era para isso que aquela ação no banco havia se realizado. Daí, ele ficou meio mal visto pela ALN. Porque ele estava muito preocupado

Benzer Belgeler