Voz Cosmopolita79 (VC) foi uma publicação quinzenal produzida pelo Sindicato dos Empregados em Hotéis e Similares80 do Rio de Janeiro, que afirmava dar continuidade ao que vinha sendo publicado em O Cosmopolita. Sua redação localizava-se no mesmo endereço de OC e sua distribuição era efetuada através dos mesmos mecanismos pelo quais o mesmo se fazia difundir, ou seja, listas de subscrição, vendas por número avulso no valor de $100, distribuição gratuita, quando necessário, e assinaturas: semestral no valor de 3$000 e anual no valor de 5$000. Segundo o Grupo Editor da publicação, as funções do periódico eram:
A defesa dos interesses da classe, cooperando pelo seu aperfeiçoamento moral, material e intellectual.
Publicar sob o titulo Voz Cosmopolita, um jornal cujas colunnas serão francas a toda e qualquer manifestação de pensamento dos companheiros, desde que sejam observadas a logica e a razão, e estejam de accordo com a orientação do Grupo.
Promover conferencias sociológicas, de propaganda associativa e meios de lucta contra a exploração capitalista, batendo-se desta forma pela emancipação collectiva.
Corresponder-se e manter assídua correnpondencia com todos os jornaes de classe congeneres. [...]
Empenhar seus eforços pelo congraçamento unilateral das classes congêneres de todo o paiz, creando um organismo maximo e forte. Crear em seu seio um secção de debatetes sociais, afim de aprimorar e desenvolver os conhecimentos intellectuaes de seus componentes81.
Os fins da agremiação são apresentados pelo grupo editor através de uma linguagem essencialmente libertária, em termos ideológicos. A classe a que se refere o grupo editor significa unicamente a categoria profissional a qual o sindicato representa. É comum nesse período os periódicos sindicais definirem determinada categoria profissional como classe, todavia, não devemos perder de vista a diferença conceitual existente no mesmo termo quando empregado em circunstâncias distintas.
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Todos os números de Voz Cosmopolita analisados nesta pesquisa e que correspondem aos anos de 1922 até 1926, com algumas falhas na série, encontram-se no Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (CEDEM), armazenados no fundo: Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano (ASMOB) em propriedade do Instituto Astrojildo Pereira – (IAP).
80 Cf. FERREIRA, Maria Nazareth. op. cit. p.78. 81
Sem autor, Bases de accordo do grupo editor da Voz Cosmopolita, Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 01.01.1922. p.3.
O emprego do termo classe em VC aproxima-se mais da tendência ácrata de associação que, em geral, se dá através dos sindicatos, de grupos políticos ou pequenas agremiações do que da tendência marxista ou maximalista, que entende a organização partidária como pilar fundamental da luta proletária. Nesse segundo sentido, a classe ganha um significado universalista, pois não são os ofícios que definem os membros da classe, mas sim as condições de exploração a que todos os trabalhadores, inexoravelmente, estão expostos sob o sistema capitalista.
No que concerne à administração da publicação o grupo editor82 de VC preocupou-se também em fazer claras as suas respectivas atribuições. Nesse mesmo texto esclarecedor sobre os objetivos da publicação, o autor deixa evidente que os recursos disponíveis para manter o periódico em circulação advêm das quotas dos aderentes, das assinaturas e dos anúncios. Uma comissão executiva83 seria formada por seis membros para realizar os trabalhos. Essa comissão seria aclamada por uma reunião de todo o grupo que deveria ocorrer uma vez ao mês. Ao secretário geral do grupo caberia a tarefa de redigir um balancete minucioso após a publicação de cada número do jornal com o movimento de receitas e despesas, o qual deveria ser apresentado ao grupo na próxima reunião. Cada aderente do grupo deveria contribuir com a quantia de 5$000 no ato da inscrição, pagando mensalmente após a adesão o valor de 2$00084.
Como se pode ver, a distribuição das atribuições da administração de VC era muito semelhante à de um partido político, organizado através de uma diretoria subdivida por hierarquias de funções, pouco distante das primeiras expressões organizativas dos sindicatos profissionais.
82 O Grupo Editor de Voz Cosmopolita era constituído por: José Moreira, Sergio Gonzalez Blanco, Eladio Cid,
Anthero Corrêa, José Baptista Ferreira, Antonio J. da Costa, Luiz do Nascimento, Francisco Bastos, José J. da Costa Junior, Argemiro Doval, Alexandre Rodrigues, Francisco Villar, José Gomes Pereira de Faria, Pedro Giotti, Augusto Moreira, Antonio Soares Valente, Angelo de Souza, Guilherme Saraiva, Antonio Pinto Moreira, Julio Moreno, Bento Alonso, José Ferreira Morgado, Manoel Solfo Aljam, Antonio Belmonte, Verissimo Solha Fernandes, Joaquim Ribeiro e Antonio Pontes. Cf. sem autor, “Grupo Voz Cosmopolita”, Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 01.02.1922. p.3.
83
A comissão executiva de Voz Cosmopolita do primeiro semestre de 1922 era composta por: José Moreira (secretário geral), Augusto Moreira (secretário de correspondência), José J. Costa Junior (tesoureiro), Argemiro Doval (corpo de redação), José Baptista Ferreira (corpo de redação) e Antonio Pontes (corpo de redação). Cf. Ibid. p.3.
Cabe acrescentar que Voz Cosmopolita retoma suas atividades no ano de 1922, após a interrupção de três anos desde a sua última publicação. Não coincidentemente este é o ano da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB) de caráter comunista, ano em que VC se filia ao mesmo e se torna um veículo de propaganda comunista não oficial, visto que o periódico oficial do PC do Brasil era A
Classe Operária, criado em 1925 pela direção do PCB.
O que é interessante observarmos é que mesmo assumindo abertamente a filiação com o comunismo, a presença de elementos claramente libertários (LT) acompanhou a publicação por longos anos, entretanto, a diminuição da presença de referências ao anarquismo foi gradual, assinalando a mudança de postura da publicação. No ano de 192285 encontramos vinte textos ou pequenas notas em que o anarquismo se faz presente. Em 192386, esse número diminui para cinco passagens, em 192487 cai novamente para uma passagem. Em 192588, devido ao aumento no número de jornais disponíveis para análise encontramos nove referências ao anarquismo e em 192689, último ano em que a publicação circula, encontramos um total de seis referências.
Entre os textos que categorizamos como libertários selecionamos dois exemplos que evidenciam as formas com que VC entendia o anarquismo e o apresentava aos seus leitores. O primeiro deles retrata em forma de poema os ideais libertários e a questão da desigualdade social; dois temas muito presentes nos debates operários. Lírio de Rezende, autor do poema, expressa em versos também o anticlericalismo, doutrina cara aos anarquistas como segue abaixo:
Affirman ser Deus bondoso
- Isso é o que mais me consome... Trabalho, sou religioso,
E tenho passado fome... Aos grandes naturalistas, Que ao Gênesis fazem guerra, Pergunto, alongado as vistas;
85
Dispomos de nove números de Voz Cosmopolita correspondentes ao ano de 1922 para análise.
86
Dispomos de oito números de Voz Cosmopolita correspondentes ao ano de 1923 para análise.
87
Dispomos de dois números de Voz Cosmopolita correspondentes ao ano de 1924 para análise.
88 Dispomos de vinte números de Voz Cosmopolita correspondentes ao ano de 1925 para análise. 89
Dispomos de doze números de Voz Cosmopolita correspondente ao ano de 1926 para análise. A média dos dados é apresentada em gráfico quantitativo ao final deste capítulo.
- De que foi creada a Têrra?... Vida é morte, morte é vida... Ambas são tudo e são nada... Sempre a sorte anda escondida Durante a nossa jornada... Confrontando os animais, Seus costumes, seu viver; - Os homens são canibais, Gosam – fazendo soffer... Ha de extinguir-se o Planeta, Antes dele a Humanidade, Sem attingirmos a meta De livre comunidade...90
O poema de Lírio de Rezende remonta diretamente ao ideal libertário fundado sob as bases do anarquismo comunista. Possivelmente por isso é que ainda encontramos nesse primeiro ano da publicação uma epígrafe sobre o ideário político de Errico Malatesta91, ainda que o tema desenvolvido pela mesma seja a propósito do “divisionismo” dentro do movimento operário. A mensagem de Malatesta é de apoio às atividades sindicais, entendendo, porém, o proletariado como uma classe única que deveria se dedicar a produzir reações no sentido de uma mesma fraternidade, ainda que as convicções ideológicas fossem um pouco distintas. O segundo exemplo de que falamos é uma epígrafe de Pi y Margall92 acerca da
anarquia e do esforço que a classe trabalhadora deveria empreender para torná-la real. Nas palavras do autor:
Por uma direção habil e energica, é possível realisar ainda essa Anarchia que tanto assusta as gentes. Falamos, não da Anarchia que recorre ás bombas de dynamite, mas sim da Anarchia que tem por fim diluir a auctoridade em livres instituições. A actual revolução politica não tem feito, senão ir cerceando a autoridade, para que os indivíduos e os povos sejam cada vez mais livres. A Anarchia racional não é mais, realmente, do que a ultima consequencia dos principios sobre os quaes se baseia a nossa conducta93.
90
Cf. REZENDE, Lírio de., Reticências..., Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 01.02.1922. p.2.
91 Cf. MALATESTA, Errico, sem título, Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 01.07.1922. p.2.
92 Francisco Pi y Malgall foi um político e escritor catalão que sofreu influências de Proudhon e utilizou-as em
suas estratégias políticas enquanto esteve no poder.
93
Os princípios elencados acima parecem deixar claro que as concepções políticas bakunianas estavam totalmente descartadas de seu programa de ação. Primeiramente, pelo fato de que muitos dos leitores e contribuintes dessa publicação estavam organizados desde 1919 sob as bases do Partido Comunista do Rio de Janeiro (de caráter libertário), o que Bakunin jamais poderia tolerar já que sempre se colocou em terreno contrário a qualquer formação partidária. Em segundo lugar, o
espontaneísmo tão apregoado por Bakunin nunca foi acreditado por parte desses
militantes; ao contrário, a construção gradual de uma identidade política e o fortalecimento das instituições operárias é que sempre estiveram em primeiro plano.
Outro ponto essencial a ser levado em consideração quando trabalhamos com jornais operários deste período, é que os indivíduos engajados nas organizações que administravam a produção e circulação desses jornais buscavam a legitimidade enquanto movimento representativo dos trabalhadores. Coesão e unidade eram palavras de ordem nesse momento, já que os militantes engajados no sindicato vislumbravam na organização de suas ações o sucesso na conquista de seus direitos. Além disso, a própria busca por legitimidade, como organismo representativo, conforma parte de uma identidade que agrega novos elementos paulatinamente. A coesão tão almejada reverberou nas páginas de Voz Cosmopolita como podemos ver no trecho abaixo, extraído de um artigo sem autoria de fevereiro de 1922:
Uma analyse ponderada e reflexiva, alliada a uma experiência assaz amadurecida levou-nos á convicção absoluta de que urge a cooperação de todos os elementos para uma convergência mais real e positiva. Os gestos isolados, ainda que nobres, empregados até hoje no sentido de melhorar as condições de vida dos que soffrem as consequencias do desiquilibrio economico e social, são a maior prova, pelo seu quase sempre infructifero resultado, das conclusões a que chegamos. A falta de methodo de organisação societaria, a isenção de moralidade da applicação das energias e finalmente a ignorância em que muitos se encontram ainda, acerca dos fins das associações de classe contemporâneas, constituem evidentemente as razões do que vimos affirmando [sic]94.
Os anos de 1920 representaram para o movimento operário o acirramento das ondas repressivas, por esta razão, também, é que, mesmo considerando as
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diferenças ideológicas existentes no interior dos sindicatos, a necessidade de união e de coesão se fazia cada vez mais presente. São muitos os textos que criticam a formação de tendências, não como uma forma de cercear a liberdade dos militantes, tampouco no intuito de conduzi-los a apenas uma tendência política. O interesse do Centro Cosmopolita, particularmente, reside na capacidade de fortalecer o movimento operário e atrair novos membros.
Outra norma vigente dentro do Centro Cosmopolita e, particularmente, no interior da diretoria de Voz Cosmopolita diz respeito às punições àqueles que descumprissem os acordos firmados em reuniões e assembléias, que causassem danos aos cofres da associação e que lesassem o ideal de solidariedade e respeito instituído pelo grupo. As punições, em geral eram a multa ou a expulsão do indivíduo do sindicato. Em conseqüência disso, o nome do militante envolvido no problema seria publicado nas páginas do jornal o que, provavelmente, lhe renderia a exclusão natural de qualquer outro organismo operário da cidade. Em texto de Astrojildo Pereira, datado de 1923, observados exatamente isso, quando o mesmo afirma:
Na passada directoria, foram demitidos dos cargos respectivamente o 2º thesoureiro e 2º secretario, os socios Coryntho de Souza e Antonio Gonçalves. Tal exemplo constitue uma demonstração de que de facto ainda há quem queira zelar e tomar a sério o desenvolvimento e a estabilidade de determinados principios que são o ponto de partida e a razão da propria existencia de uma associação de classe. Jamais se poderia permitir que, seja por ignorancia ou seja por vaidade, consciente ou inconscientemente, de pratiquem e sejam tolerados quaesquer attentados de lesa solidariedade. [...]
Lições e exemplos como este approveitam sempre, e já que não livram de sermos atraiçoados, ao menos servem para levar ao terrano pantanoso de onde jamais deviam ter sahido, esta ou aquella lesma que, arrastando-se da base aos píncaros das montanhas, conseguem de tal fórma, approximar-se dos ninhos dos condores95.
A preocupação em resguardar a moral e a ética no seio da diretoria dessas organizações sempre esteve em primeiro plano, por esta razão é que se publicam comumente as expulsões de alguns elementos que não contribuem com a ordem e o bom andamento dos trabalhos da organização. Também por esta razão é que a diretoria é renovada regularmente. As eleições ocorrem sob a forma de convenções em que duas ou mais chapas que se candidatam e são eleitas, ou não, pelos
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associados. Imediatamente após a aprovação de determinada chapa, seu respectivo programa é publicado no jornal da organização96.
No ano de 1926 foram publicadas duas estimativas de tiragem da publicação. Em 6 de fevereiro de 1912, a tiragem de VC alcançou um total de quinze mil exemplares, enquanto em 22 de fevereiro de 1926 esse número cai significativamente para cinco mil exemplares. Os valores são publicados na primeira página da publicação97, talvez para incentivar a aquisição e venda por parte dos militantes da publicação ou, em hipótese diferente, para expor a variação constante nesses números, o que transmite uma impressão de “transparência” e honestidade por parte do grupo editor.
Partindo de nossas categorias de análise, encontramos uma mudança substancial na composição do jornal a partir do ano de 1924. Este foi o ano de homologação da inscrição do PCB na Internacional Comunista de Moscou, o que pode ter relação com o aumento da presença de textos que trouxessem de alguma forma o marxismo (MX) para as páginas de Voz Cosmopolita. Esse traço deve ser levado em consideração, pois a partir desse momento muda completamente o perfil da publicação, que iniciou suas atividades como um veículo de propaganda e agitação anarquista, para se tornar a partir de 1924, um veículo de propaganda e agitação eminentemente marxista.
De 1924 em diante diminuem as referências libertárias e aumentam em grande proporção as referências marxistas. No ano de 1925 encontramos um total de quarenta e nove passagens que estabelecem uma relação positiva com o marxismo; esse número só é inferior à presença de referências sindicais (SIND) que nesse ano é de cem, o que, em se tratando de uma publicação ligada a um organismo sindical, não é de se estranhar. A divulgação de periódicos e revistas ligados ao PCB, como A classe operária (jornal oficial do partido) também passa a fazer parte da composição de Voz Cosmopolita.
96 Cf. sem autor, Eleições administrativas para 1925-26: chapa approvada na convenção do dia 7 de julho, Voz
Cosmopolita, Rio de Janeiro, 15.07.1925. p.2.
97
Cf. sem autor, sem título, Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 06.02.1926. p.1; sem autor, sem título, Voz
A partir de 1924 encontramos também obras de Marx como O manifesto
comunista e O dezoito de Brumário, publicadas em VC como folhetins. O Pravda,
periódico oficial da URSS, também é referenciado na publicação de forma simpática no que se refere a sua administração pela irmã de Lênin e Zinoviev, (líder revolucionário russo), no ano de 192598. A presença do marxismo no interior do VC é
tão enfática que até mesmo os problemas envolvendo o trotskismo e o marxismo- leninismo dentro do PCB eram debatidos nas páginas do jornal99. Uma espécie de cartilha para atuação política foi publicada no jornal no ano de 1925. Sob autoria de Francisco Silva o texto desenvolve os avanços obtidos através da conscientização política dos militantes. Segundo ele:
Aprofundamo-nos nas obras de Marx, Engels e Lenine;
Não fazemos a minina concessão á philosophia idealista, mesmo de um Hegel, em que a realidade é subordinada á Idea de cada um, á phantasia de cada um;
Subordinarmos as nossas idéias, os nossos desejos, á realidade histórica; [...]
Comprehendemos que toda a luta econômica e política é uma luta de classes, e vice-versa; [...]
Lançaremos as massas a palavra de ordem: Todo o poder aos trabalhadores das cidades e dos campos! Todo o poder ao governo dos operários e de lavradores pobres!100.
A mudança de foco da publicação também afeta a presença de elementos anticlericais, típicos das publicações ácratas. Entre o que categorizamos como
anticlericalismo universal (ACUNIV) e o que categorizamos apenas como anticlericalismo (AC) contabilizamos um total de trinta e quatro referências
distribuídas entre todos os números de jornais disponíveis para análise ao longo dos cinco anos estudados, o que significa um número muito baixo em se tratando de uma publicação que surge como um periódico eminentemente anarquista.
Entendemos, com base nesses dados, que VC não persiste até o fim de sua publicação como um periódico ligado essencialmente ao anarquismo. Tampouco encontramos nessa publicação um espaço aberto aos dois grupos políticos, ou seja, anarquistas e comunistas, para publicação de suas idéias, e embate entre elas unicamente. O que percebemos através da análise dos conteúdos impressos é a
98
Cf. Sem autor, A Pravda, Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 01.02.1925. p.3.
99
Cf. Sem autor, Trotski, Voz Cosmopolita, Rio de Janeiro, 15.02.1925. p.1.
100
mudança substancial na presença de elementos ácratas, que diminui muito, e o aumento significativo da presença de elementos marxistas. O crescimento dos últimos, por sua vez, acompanha a afirmação do Partido Comunista do Brasil (PCB). Em artigo de D. Cerqueira, datado de janeiro de 1926 e publicado na primeira página de Voz Cosmopolita, encontramos a seguinte mensagem:
A luta sem esmorecimento do proletariado contra os capitalistas e os escravizadores de todo genero, tornou-se no Brazil uma necessidade igual á de Russia contra o czarismo. [...]
E’ chegada a hora da actuação, sem desfallecimentos , daquelles que têm fé e sabem querer. Só a disciplina dos communistas existentes no Brazil, constituidos em partido invencível, poderá realizar a grande obra da Internacional inspirada por Lénine. [...]
Só o Estado proletario, o grande internacionalismo poderá salvar o Brazil e fazer a felicidade dos que trabalham e que suam o sangue para obter o pão. Não nos esqueçamos nunca de Lénine, o mestre, o guia immortal: ou o bolchevismo ou a morte. Quem não estiver comnosco é contra nós. Unamo-nos, proletários que vivem no Brazil. Viva o communismo apostolado por Marx e Lénine!101.
Em paralelo a esse tipo de texto, já no ano de 1923, um ano após o cisma irrompido entre anarquistas e comunistas e a constituição do PCB, encontramos um texto sem autoria criticando as formas de organização sindicais que, segundo o autor, tinham pouca efetividade na luta contra o capitalismo. A crítica é direcionada às organizações ácratas e a forma como entendiam a organização operária no início do século XX. Nas palavras do autor:
Vai-se refazendo a organização syndical. Vào engrossando os quadros syndicaes, distribuem-se mais cadernetas e coliza-se um pouco mais cada semana. E para muitos chama-se isto fazer organização. [...]
Se é assim, que valor tem uma organização condemnada irresistivelmente a ser pulverizada quando bem entende a classe opposta, burgueza? Que mérito teria um exercito numeroso em tempos de paz, mas que se desarticula totalmente ao primeiro embate da guerra?
O mal é devido a que nos empenhamos em manter de pé modalidades de organização surgidas no período anterior á guerra. E não obstante, a correlação das forças sociaes e a coordenação economica mudaram