5. Konu ile İlgili Araştırmalar
2.1.1. Tahâret Kitabı
2.1.1.2. Guslün Farzları
Na questão da corroboração, juntamente com a idéia de refutação definitiva, talvez tenhamos um dos pontos da filosofia de Popper que mais se prestam a uma incorreta interpretação. Max Black, por exemplo, incorre nos dois erros:
As generalizações, ou hipóteses, podem ser conclusivamente falsificadas, embora nunca verificadas, jamais se revelando verdadeiras. (...) E a indução parece esgueirar- se pela porta dos fundos, através da teoria popperiana da “corroboração”, isto é, dos critérios que nos permitem avaliar a força relativa das hipóteses não tornadas falsas pelos fatos observados.326
Cabe reconhecer é claro, a favor de Black, que a idéia de corroboração em muito se afasta do sadio senso comum. Senão vejamos. Enquanto os argumentos dedutivos levam a conclusões que nunca excedem as premissas, os indutivos são aqueles cujo conteúdo da conclusão excede as premissas, nesse tipo de argumento, em que pese estarmos certos da verdade das premissas, essa certeza não nos garante a verdade da conclusão; o máximo que nos é possível postular é que a conclusão, a partir das premissas dadas, é mais frequentemente verdadeira. Além disso, enquanto nos argumentos válidos o acréscimo de novas premissas não altera a conclusão, nos argumentos indutivos o grau de plausibilidade da conclusão parece ser afetado pelo acréscimo de premissas pertinentes. Nessa perspectiva, apesar de não ser logicamente possível pela indução estabelecermos a certeza de uma hipótese, ainda assim seríamos capazes de atribuir à hipótese induzida algum grau de probabilidade. David Hume por exemplo, quando discute a idéia de probabilidade327 o faz pressupondo a imutabilidade
324 RAS, § 15, p. 137. 325 RAS, § 15, p. 138. 326
BLACK, M. Justificação da Indução, IN: MORGENBESSER, S. Filosofia da Ciência, p. 222. 327
dos processos naturais, o que torna o aumento das informações contidas nas premissas relevantes para elevar o grau de confirmação da conclusão. Popper, como vimos anteriormente, partilha da fé metafísica nas regularidades, mas a questão da não- verificabilidade coloca-se em um plano completamente distinto. Quer a natureza seja ou não regular, a defesa da não-verificabilidade é metodologicamente importante, e é nesse sentido que irá entabular uma discussão.
Supondo-se uma quebra da uniformidade natural – amanhã o sol não aparece – deveríamos revisar nossas teorias de modo a explicar por que anteriormente apareceu, já que as teorias anteriormente explicavam isso, e porque agora não acontece o mesmo. Isto é, o que antes era explanans passará agora a ser o explanandum, para o qual necessitaremos de um novo explanans:
Penso, pois, que seria errôneo asseverar que as regularidades naturais não sofrem alteração. (tratar-se-ia de um tipo de enunciado que nem pode ser defendido nem contestado). Deveríamos dizer que ele é parte de nossa definição de leis naturais se postulamos que estas hão de ser invariantes com respeito a espaço e tempo, e se postulamos que elas não podem apresentar exceções.328
Temos assim em Popper de um lado a crença nas regularidades – metafísica - e de outro a definição de lei – metodologia – como não admitindo exceção e, portanto, passível de refutação por seu confronto com o mundo. O Realismo regular postulado enquanto crença refuta a lei natural enquanto estrutura metodológica descritiva. Buscar suprimir a metafísica conduz ao princípio de indução o que nos levará a uma regressão infinita ou ao sintético a priori, tal como já discutimos § 3.1. Todo o problema é que parece ser intuitivamente muito aceitável afirmar que o aumento do número de informações nas premissas sirva de apoio crescente à conclusão, daí porque defender a idéia de que os testes corroboram a teoria, seja interpretado pelos críticos como admissão, ainda que pela porta dos fundos, da indução. Para deixarmos o conflito mais claro, acompanhemos de forma rápida qual seria a estrutura de uma explicação científica confirmada indutivamente.
Inicialmente Wesley Salmon, como todo bom lógico, define os seus termos começando pela palavra ‘hipótese’, que será empregada tanto no intuito de abranger leis quanto teorias:
(...) um enunciado funciona como hipótese quando tomado na qualidade de premissa – premissa cujas conseqüências lógicas podem ser examinadas e comparadas com fatos realmente observados. Se a comparação for favorável, isto é, quando uma conseqüência da hipótese resulta verdadeira, tem-se um caso comprobatório da hipótese em questão. Se a comparação for desfavorável, tem-se um caso refutatório.
328
Diz-se que uma hipótese está confirmada se é adequadamente sustentada pela evidência indutiva.329
Salmon vai se deter em analisar as hipóteses na medida em que elas se estruturam a partir do método hipotético-dedutivo, que compreenderia três passos:
1. Formular a hipótese. 2. Deduzir as conseqüências.
3. Observar no intuito de confirmar ou não as hipóteses.
Além desses três passos cabe reconhecer que a hipótese, enquanto enunciado universal, nada revela sobre uma circunstância específica, o que implica a necessidade de um enunciado a propósito das condições a partir das quais a lei em questão está sendo submetida a teste, esse enunciado são as ‘condições iniciais’, o que constituiria a seguinte forma lógica, que a exceção do significado atribuído ao termo ‘observacional’, é o mesmo modelo admitido por Popper.
Hipótese.
Condições Iniciais. Predição Observacional.
Se genericamente este exemplo é correto, nem sempre na prática as coisas se passam de forma tão simples. Propõe Salmon que analisemos esse caso concreto:
Valendo-se de sua teoria geral da relatividade, posta como hipótese, Einstein deduziu que os raios luminosos que passassem próximos do Sol deveriam sofrer um desvio. Em 1919, durante um eclipse solar, observou-se que havia, realmente, um desvio dos raios luminosos, desvio esse que era de valor sensivelmente igual aquele previsto pela teoria. De um modo bastante dramático, as constatações confirmaram a teoria de Einstein.330
Neste caso concreto uma série de variáveis comparece de modo a tornar as condições iniciais claramente satisfeitas: o desvio dos raios depende da massa do Sol, o que torna necessário um enunciado sobre ela; este cálculo deve ser teorizado não pode ser observado; da mesma forma a deflexão dos raios. Todas essas variáveis envolvem hipóteses auxiliares que, por sua vez, devem ser confirmadas de forma independente e anterior. Para analisar esse argumento admitamos que as hipóteses auxiliares sejam verdadeiras, bem como que as condições iniciais estejam claramente enunciadas. Partindo desses pressupostos podemos concluir que, se a conclusão for falsa, então alguma de suas premissas é falsa. É claro que a falsificação pressupõe que já tenhamos outra hipótese para substituir a falseada; mas por outro lado, a confirmação da predição não torna o argumento verdadeiro sob o ponto de vista
329
SALMON, W. Lógica, p. 106. 330
dedutivo, pois teríamos a falácia do conseqüente. Para que este argumento seja indutivamente correto, necessitamos de alguns cuidados:
Em primeiro lugar cabe responder se é possível ser a confirmação verdadeira mas a hipótese falsa, sendo outra hipótese a alternativa verdadeira, o que leva Salmon a reconhecer que: “Sucede, na realidade, que há uma infinidade de hipóteses que qualquer fato observado confirma. A questão é selecionar, dentre todas as que permitiriam deduzir a predição observacional, aquela que é, com maior probabilidade, a verdadeira.”331 Para tanto se faz necessária uma estimativa anterior da probabilidade prévia que uma hipótese possui, de modo a delimitar que tipo de apoio o caso comprobatório vira a lhe fornecer. Entende o autor por ‘probabilidade prévia’ a probabilidade de ser ela verdadeira sem considerarmos os seus possíveis casos comprobatórios. A propósito da maneira de se avaliar isso, Salmon nos apresenta alguns critérios:
Simplicidade, entendida aqui como clareza e apreensão subjetiva . Compatibilidade com teorias já aceitas.
Conhecimentos gerais previamente aceitos. Argumento de autoridades dignas de crédito.
Feitas essas ressalvas, a forma lógica de um argumento hipotético dedutivo confirmado de maneira indutiva seria a seguinte:
A Hipótese não tem probabilidade prévia desprezível. Se a Hipótese é verdadeira então a conclusão é verdadeira. A predição observacional é verdadeira.
Nenhuma outra hipótese é altamente confirmada pela verdade da predição. A Hipótese é verdadeira.
Como uma lógica da descoberta não está em questão, mas apenas a validação, aparentemente chegaríamos pelo caminho indutivo aos mesmos resultados de Popper: dado o caráter indutivo de toda a confirmação, nenhuma hipótese científica é definitivamente confirmada ou verificada pela experiência. É essa semelhança aparente, juntamente com sua plausibilidade intuitiva, que conduz críticos como Max Black a afirmar algum viés indutivista
331
em Popper a partir da corroboração. Todavia esse não é o caso, bastando para tanto que acompanhemos o raciocínio de Popper com alguma atenção.
Comparemos dois argumentos332:
Todos os Homens Fumam. X% dos Homens Fumam.
Jack é Homem. Jack é Homem.
Jack Fuma. Jack Fuma.
Aparentemente, apesar de não ser válido, no segundo argumento as razões parecem fornecer algum grau de razoabilidade à conclusão. “O que parece mostrar que o problema da indução se resolverá assim que tivermos desenvolvido uma teoria da probabilidade que nos permita determinar a probabilidade de uma conclusão indutiva – isto é, de uma hipótese – sendo dadas algumas premissas indutivas, ou da ordem do testemunho.”333
O raciocínio formalizado seria o seguinte:
P(H, E) = R
Onde:
P = Probabilidade. H = Hipótese.
E = Evidência Disponível.
R = Valor da probabilidade, que se dá entre 0 e 1.
Para Popper o equívoco desse raciocínio é elementar: devido ao caráter universal de ‘H’, qualquer que seja o número de instâncias de ‘E’ a probabilidade334 de ‘H’ nunca irá transcender a zero. Não nega Popper ser aceitável admitirmos que dadas certas hipóteses seja possível distinguir entre elas a partir dos resultados de seus testes: certas idéias estão mais
332 RAS, § 27, p. 217. 333 RAS, § 27, p. 218. 334
A questão da probabilidade ocupa quase a metade de LScD e RAS, a estamos discutindo apenas nos limites que se colocam para os nossos objetivos, ao leitor interessado na questão em si mesma considerada, a leitura de dois textos é proveitosa: LAKATOS, I. Cambios en el problema de la lógica inductiva, IN: LAKATOS, I. Matemáticas, ciencia y epistemologia, GILLIES, D. A Contribuição de Popper à Filosofia da Probabilidade, IN: O´HEAR, A.(org.) Karl Popper: Filosofia e Problemas.
bem testadas pela experiência do que outras, algumas talvez ainda sequer tenham sido testadas, ou mesmo não possam ser, etc.... Nesse sentido, não parece haver dificuldade em aceitarmos que hipóteses possam ser graduadas a partir dos testes e da resistência que apresentaram frente a esses.“(...) proponho que se chame ao grau de uma hipótese, ou ao grau que ela resistiu aos testes, o “grau de corroboração” (e não a “probabilidade”) dessa
hipótese.”335. O que a primeira vista pode parecer apenas um problema terminológico,
envolve no entanto questões de fundo. Seja:
A = no lance de um dado sair 6. B = no lance de dois dados sair 12. C = lançamento dos dados.
P(A Λ B, C) ≤ P(A, C)
Na conjunção de ‘A’ e ‘B’ temos no máximo, ainda que em geral seja intuitivamente inferior, uma probabilidade igual a ‘A’ enquanto individualmente considerado, isto é, parece
ser lícito afirmar que ‘A‘ tem uma probabilidade superior do que ‘A Λ B’; mas se aqui
recordarmos que os testes se referem a enunciados básicos e que estes designam uma classe universal de enunciados, então o que parece ser apenas intuitivamente aceitável, a menor probabilidade da conjunção, será real. Por outro lado, a conjunção dos enunciados informa mais do que cada um tomado isoladamente, o que significa que poderá ser mais amplamente testado. Dessa maneira, quanto maior a informação, maior será a testabilidade e, por conseqüência da definição apresentada, maior será o seu grau de corroboração e menor a sua probabilidade. O que nos permite concluir que se a ciência evolui na direção de explicações cada vez melhores, ela evolui de fato na direção da improbabilidade e na busca da corroboração.
Um modelo de confirmação indutiva como o de Salmon, por exemplo, apresenta portanto apenas uma similaridade aparente com o esquema de Popper. Para Popper na indução os casos comprobatórios não só não teriam qualquer influência para a sustentação da hipótese, como também sua busca restringiria o caráter informativo da explicação científica, afinal de contas se toda observação é desde sempre teórica, e se os enunciados básicos apresentam uma classe universal, a possibilidade de encontrarmos casos comprobatórios será
335
imensa, o preço pago no entanto será igualmente imenso: a redução do conteúdo informativo; já no esquema da corroboração, apenas os casos que resultem de testes podem oferecer apoio as pretensões de uma hipótese.
Na perspectiva verificacionista sobre este assunto, há, pois, uma relação lógico-formal simples – a instanciação – cuja presença ou ausência decide se ‘e’ (evidência) apóia ‘h’ (hipótese) ou não: se ‘e’ é um caso de ‘h’, então apóia ‘h’. Na minha perspectiva a situação é menos simples: só se ‘e’ resultar de tentativas autênticas ou sinceras de refutar ‘h’ é que se pode considerar que ‘e’ apóia ‘h’.336
Popper reconhece é claro, que a atitude que guia a severidade dos testes não pode ser formalizada, e aqui cabe admitir que talvez opere com uma imagem algo idealizada da atividade científica, sendo esse um dos flancos pelos quais é possível introduzir uma crítica partindo da história da ciência, tal como veremos a seguir.
336