• Sonuç bulunamadı

4. ERZURUM MERKEZ KÖYLERİ MANİLERİNİN İNCELENMESİ

4.3. Gurbet-Ayrılık Maniler

(23) Por isso o Reino dos Céus foi feito semelhante ao homem rei, que quis

ajustar palavra com seus servos.80

As primeiras palavras procuram ligar a parábola que se inicia ao diálogo anterior, que trazia a pergunta de Pedro sobre o perdão e a resposta excessiva de Jesus. A parábola então é pensada como um complemento àquela resposta de Jesus, e por isso mesmo já sabemos que ela deve tratar da questão do perdão ilimitado. Mesmo o leitor que lê o evangelho pela primeira vez não esperará surpresas ou novidades temáticas; já fomos avisados sobre o tema que agora, por meio do emprego de um novo gênero, será desenvolvido.81

Uma possível dúvida é: como sabemos que estamos diante de uma parábola? A verdade é que nós gostaríamos de encontrar uma intervenção do narrador em terceira pessoa do tipo mais tradicional, que diria algo como: então Jesus lhe contou uma parábola dizendo... Mas o autor não quis interferir no texto com a voz desse narrador, preferiu ligar as unidades textuais através da voz do próprio Jesus, de forma que o narratário (o receptor da mensagem no nível narrativo) continuará sendo Pedro. Segundo João Leonel esta é uma característica narrativa distintiva do Evangelho de Mateus; ele afirmou que nesse evangelho a voz do narrador interfere menos na narrativa que nos demais evangelhos canônicos, dando sempre preferência à voz de Jesus. Também disse que isso é uma estratégia literária consciente: “A comunicação que se estabelece tem por objetivo propiciar uma vinculação o mais estreita possível entre Jesus e os leitores do evangelho” (Ferreira, 2006a, p. 54-55). Mas mesmo sem a apresentação do narrador nós sabemos que estamos lidando com uma parábola a partir do versículo 23, no qual encontramos alguns importantes elementos característicos do gênero. O

80 Texto grego: (23) Dia. tou/to w`moiw,qh h` basilei,a tw/n ouvranw/n avnqrw,pw|

basilei/( o]j hvqe,lhsen suna/rai lo,gon meta. tw/n dou,lwn auvtou/Å

81 Mesmo assim, comentaristas como Ulrich Luz observaram certa falta de coesão, e disseram que o nexo entre o

diálogo e a parábola é débil (2003, p. 96). É certo que a parábola de 23-35 funciona independentemente dos versos anteriores e que a relação entre as unidades deve ter se originado no processo composicional do Evangelho de Mateus. Mas isso não muda muita coisa para o leitor, que está sendo induzido pelo contexto literário a ler a parábola a partir do diálogo que a precedeu.

tema ou objeto de ensino está lá e novamente é o “Reino dos Céus”; também encontramos sem dificuldade o ponto inicial do elemento de comparação, “um homem rei...”, que aparece logo após a famosa expressão é semelhante, que aqui, todavia, aparece conjugada no tempo aoristo e na voz passiva: “foi feito semelhante”.

Questão que nos parece muito relevante é a do personagem que vai protagonizar a narrativa. No lugar do chefe da casa da parábola que estudamos antes encontramos um “homem rei”, designação que num primeiro momento parece enigmática. Mais curioso do que a designação é que essa forma de nomear o personagem não volta a aparecer ao longo da parábola, sendo substituída apenas por “senhor” nos versículos seguintes. Levando em conta a recorrência, a segunda forma prevalece sobre a primeira, mas fica uma dúvida sobre o porquê da mudança. Como exegeta equipado com os referenciais teóricos do Método Histórico-

Crítico Ulrich Luz vê neste ponto uma “fratura” no texto, e aponta a possibilidade de uma

autoria coletiva para o mesmo, ainda que depois dessa “fratura” ele não veja novos sinais de falta de coesão. Ele propõe que a parábola tenha ganhado uma versão escrita somente quando se produzia o Evangelho de Mateus, supondo que ela já circulava oralmente antes disso e que dessa suposta versão oral mais antiga teriam sobrados certos resquícios no texto (2003, p. 97). Tentando resolver o problema de outra maneira empregamos Peter Lampe, autor já citado em nosso primeiro capítulo por ter escrito um artigo sobre as relações entre patronos e clientes no mundo romano. Ele afirma que os clientes podiam chamar um patrono de dominus (cuja forma grega é kyrios), que se traduz por senhor, ou até mesmo de rex (cuja forma grega é

basileýs), que em nossa maneira de ver é o rei que está em pauta na parábola de Mateus

(2008, p. 434).82 Se isso estiver correto não haveria qualquer problema na coesão do texto quando se substitui “rei” por “senhor”, já que ambos os termos seriam sinônimos na linguagem cotidiana das cidades de então. Aqui nos pareceu conveniente nos deter um pouco mais para averiguar como Mateus emprega esse mesmo título noutros casos:

Em Mateus capítulo 2 Jesus foi chamado de rei (v. 2), assim como Herodes Magno (v. 1, 3, 9) e depois seu filho Antipas (v. 22). O mesmo título pôde ser aplicado aos três personagens porque o evangelho atribui a todos eles algum tipo de poder político e territorial, (também em Mt 4.8; 10.18), mas nenhum deles deve ser confundido com um governante típico de um regime monárquico. Um verdadeiro rei talvez seja o da parábola de 22.1-14. As outras passagens, todavia, parecem demonstrar que o uso de rei pode ser mais amplo, sendo

82 Peter Lamp cita em nota de rodapé, como exemplo, uma passagem de Horácio (Epístolas 1.7.37) em que “pai”

119

usado também para designar ricos e poderosos patronos. Ou seja, a afirmação de Peter Lampe parece estar certa também em relação ao Evangelho de Mateus; rei pode ser simplesmente uma pessoa rica, como parece estar refletido com mais clareza em Mateus 11.8, que falando sobre homens ricos que se vestem com roupas finas, diz: “Mas o que saístes a ver? Um homem vestido em roupas finas? Vede, os que usam roupas finas estão nas casas dos reis”.83 No paralelo sinótico desse texto em Lucas 7.25 há uma diferença importante: em vez de “nas casas dos reis” (evn toi/j oi;koij tw/n basile,wn) o texto lucano traz “nos palácios reais” (evn toi/j basilei,oij), mostrando que o termo em Lucas talvez possua a conotação monárquica que em Mateus não há.

Fora de Mateus podemos encontrar outras evidências que fortalecem a proposta de Lampe, de que rei pode ser um modo de se referir a um patrono. Em 1Coríntios 4.8 o narrador Paulo diz aos seus destinatários: “já estais satisfeitos, já enriquecestes, sem nós reinastes; oxalá de fato reinastes, para que nós também reinássemos convosco”. Também no Evangelho de Tomé 81 temos algo relevante neste sentido: “Jesus disse: ‘Quem enriqueceu, se torne rei, mas quem tem a força, que possa renunciar a ela’”. Em ambos os casos o título não é monárquico, os textos são produtos do ambiente imperial romano e não há sucessões hereditárias ou mesmo cortes. Ser um rei em cada um desses casos parece apenas implicar uma posição de autoridade, baseada no poder ou na riqueza.

Vontando ao texto nós diríamos que tanto rei como senhor são simplesmente formas distintas que estão sendo empregadas para se referir a uma espécie de patrono. Quer dizer que mais uma vez a linguagem mateana se aproxima do mundo Greco-romano sem exprimir preconceitos em relação a gentios ou homens ricos; mostra uma integração natural ao seu ambiente urbano e imagina o Reino dos Céus (seja em sua plena manifestação escatológica ou em sua limitada expressão concreta entre os discípulos de Jesus) sendo dirigido por um patrono rico que se relaciona com seus servos a partir da reciprocidade institucionalizada do sistema clientelista. Embora toda a parábola virá a contribuir com o ensino que se quer transmitir sobre o Reino dos Céus, é principalmente por meio deste “homem rei” ou “senhor” que o fará.

A história a ser contada na parábola começa exatamente com a ação do tal “homem rei”, que “quis ajustar palavra com seus servos”. Esse “ajustar palavra” é nossa tradução

83 Texto grego: avlla. ti, evxh,lqate ivdei/nÈ a;nqrwpon evn malakoi/j

hvmfiesme,nonÈ ivdou. oi` ta. malaka. forou/ntej evn toi/j oi;koij tw/n basile,wn eivsi,nÅ

literal de suna/rai lo,gon, que sem nenhum prejuízo é traduzido por “acertar contas” pelas versões brasileiras da Bíblia, oferecendo uma tradução mais dinâmica que literal para o que realmente parece ser um ajuste de contas do tipo que se procede em tribunais (Luz, 2003, p. 99). A compreensão parece simples: o “homem rei” decide ver seus servos, que aparecem assim, sem qualquer apresentação, para prestar contas dos valores que administravam com a finalidade de proporcionar lucro ao patrono. Como veremos, trata-se da cobrança de dívidas, mas o “ajustar palavra” é relevante para que saibamos que o tal contrato parece ter sido ajustado apenas verbalmente.

Quanto aos servos, outras considerações se fazem necessárias: segundo nosso julgamento, o substantivo plural servos (dou/loi) bem poderia ter sido traduzido por

escravos. Temos motivos para acreditar que esse personagem coletivo não nos quer remeter a

homens livres do mundo romano, mas a escravos. Há boas evidências quanto a isso no texto: no versículo 25 um dos servos que devia muito e não podia pagar sua dívida é ameaçado; ele seria vendido com sua mulher, filhos e bens para que o senhor recuperasse parte do valor perdido.84 Clamando esse escravo devedor por perdão, diz o texto que o seu senhor se compadeceu, perdoou a dívida e “o libertou”. Partindo do grego, esse o libertou (avpe,lusen auvto.n) também poderia ser traduzido de outras formas, como o soltou, o

absolveu, mas pode ser que estejamos diante de um caso nada incomum naqueles dias em que

um senhor concedia a liberdade a um escravo, pelo que deixamos “o libertou” em nossa tradução, mantendo essa possibilidade de leitura aberta. Mais adiante, o mesmo escravo supostamente liberto desempenha um papel de emprestador semelhante àquele de seu antigo senhor e se revela indigno das dádivas recebidas. No final da parábola, no versículo 34, o mesmo servo volta ao antigo senhor e é punido por ingratidão; mas agora, talvez por seu novo status de liberto, não se menciona mais a venda do homem. Então, diz o texto que ele é entregue aos verdugos para sofrer até que a antiga dívida fosse paga, e na linguagem Greco- romana isso quer dizer que ele seria colocado nas mãos de torturadores municipais, que ofereciam nas cidades um serviço pago aos senhores que tinham a necessidade de punir seus escravos com violência física (Veyne, 2009, p. 62).

84 Mas segundo John E. Stambaugh e David L. Balch, mesmo se o tal servo for um homem livre ele poderia ser

feito escravo e vendido num caso assim. Eles escreveram: “Os emprestadores de dinheiro estavam bem protegidos, formal ou informalmente, de insolvência. Sob a lei grega, romana, ou oriental, os credores, pelo que parece, podiam escravizar permanentemente ou temporariamente os devedores que não pagassem ou não pudessem pagar” (2008, p. 64).

121

Uma possível dificuldade que se pode ter com essa leitura se dá quanto ao próprio empréstimo que teriam sido feitos a escravos. Sobre isso, sabemos que os escravos podiam exercer uma atividade comercial muitas vezes patrocinada por seus senhores, o que multiplicava o patrimônio do senhor e podia dar início a uma carreira de negócios para o escravo rumo à liberdade e à honra (Veyne, 2009, p. 130, 133).85 Ainda vamos tratar disso com mais detalhes, mas a passagem popularmente conhecida como “Parábola dos Talentos” em Mateus 25.14-30 já lança boa luz sobre a questão, pois trata de um patrono que se ausenta e entrega dinheiro para que seus escravos administrassem seus bens em seu favor, o que se fazia muitas vezes emprestando dinheiro a juros para pessoas próximas ou não (Veyne, 2009, p. 135). De fato, muitos escravos podiam ter suas próprias posses e negócios e, obtendo sucesso, eles negociavam com os senhores a própria libertação e até a de sua companheira e filhos. Quando finalmente se tornavam libertos, eles não poderiam mais administrar os bens dos seus antigos senhores, e seguiam a vida geralmente a partir da vocação que tinham para o comércio, profissão de boas possibilidades econômicas que era mal quista pela nobreza, que como já dissemos, prezava sua ociosidade e só dava valor à riqueza que vinha da posse de terras cultiváveis. Os escravos libertos seguiam como clientes de seus antigos senhores, deviam-lhes eterna gratidão, pelo que seriam até punidos se não agissem de acordo com esse costume (Veyne, 2009, p. 86-87, 116-118). Em suma, estamos sugerindo que o “servo” da parábola mateana é um desses escravos que administram os bens dos senhores e que sonham com a liberdade e razoável independência financeira. Todavia, o servo da parábola não tem sucesso no seu empreendimento e acaba devendo muito dinheiro ao seu senhor, mas ainda assim é absolvido e até libertado pelo generoso patrono. Depois disso, o “servo” da parábola age como homem livre cobrando dinheiro emprestado a seus “conservos”, mas voltará a

85

Voltamos a citar excertos de Petrônio para ilustrar o cenário em que este texto está envolvido. Dessa vez, extraímos linhas do capítulo LXXV do Satíricon, em que o rico liberto Trimaquião, falando aos escravos e libertos pobres convidados para seu banquete, conta de maneira esclarecedora sua longa trajetória desde a escravidão, passando pelo recebimento da liberdade e da herança do patrono, pelos negócios bem sucedidos, e chegando à riqueza:

Eu peço a vocês: ânimo, minha gente! Eu também já estive na mesma situação de vocês hoje, mas cheguei até isto aqui pelo próprio esforço [...] E a fim de ter barba no rosto mais depressa, eu lambuzava a boca com óleo de lucerna. É, mas no entanto fui as delícias do meu patrão durante quatorze anos. E não é nenhuma vergonha o que o patrão manda. Eu no entanto satisfazia a patroa também [...] graças aos deuses, eu me tornei patrão de minha própria casa, e eis que acabei tomando o lugar do cabeça-oca do meu próprio patrão. Que mais? Ele me fez coherdeiro de César, e recebi um patrimônio digno de um senador. No entanto nunca ninguém está satisfeito. Eu quis entrar para os negócios. Resumindo, construí cinco navios, carreguei com vinho – valia ouro na época – e mandei para Roma [...] Numa só viagem arrendei a quantia de dez milhões de sestércios. Comprei na hora todas as terras que foram de meu patrão. Construí um palacete, comprei mercados de escravos e ao mesmo tempo comprei bestas de carga [...] Depois que em toda a minha região passei a ser o que mais tinha posses, eu pulei fora: me retirei dos negócios e passei a emprestar dinheiro para libertos.

prestar contas ao antigo dono (do qual nunca se libertaria plenamente) quando sua conduta é interpretada como uma forma de ingratidão.

Voltaremos a cada um desses detalhes ao longo da leitura, mas vale a pena ressaltar que entendemos a parábola a partir das nossas pesquisas sobre as relações entre senhores e escravos, além das sempre presentes relações clientelistas. No fim das contas, a laconicidade do texto ainda é o maior desafio aos leitores que vivem noutro mundo, como é nosso caso. As indefinições em relação ao real status dos personagens já foram mencionadas, mas ainda temos que considerar que a narrativa nega ao leitor os momentos em que os tais contratos de empréstimos foram firmados entre o “homem rei” e seus servos, e passa diretamente à execução deles. Estão implícitas informações relevantes como a riqueza do patrono que tem bens excedentes que lhe permitem oferecer empréstimos, assim como a carência econômica dos servos que tomam emprestado e se tornam devedores. Se sabemos que foram estabelecidos contratos de empréstimo, temos implícita também a informação de que o tempo estabelecido para os pagamentos já foi transcorrido, o que implica na obrigação de pagamento imediato dos valores e no desejo do patrono de reaver os bens que emprestou, e quem sabe, com o acréscimo de juros. A ausência de detalhes como esses não é nada surpreendente e não deve ser recebida pelo leitor como incompetência literária; lembremos uma vez mais que estamos falando do uso daqueles elementos ordinários da parábola, do emprego de imagens cotidianas que no seu tempo não careciam de explicações.

Apesar das dificuldades destacadas, os leitores que procuram por dados socioeconômicos em suas pesquisas sobre o antigo Mundo Mediterrâneo encontram nessa passagem de Mateus um material muito rico. Por mais breve que seja, o texto trata com naturalidade de diferentes estratos sociais por meio dos seus personagens e das relações econômicas que os aproximam. O texto mateano serve como evidência, por exemplo, para as afirmações feitas por historiadores que dizem que as relações pessoais de dependência entre patronos e clientes eram meios mais comuns para se solucionar problemas econômicos do que a intermediação de um sistema bancário (Lampe, 2008, p. 433). Por outro lado, vale observar que a construção de mundo de Mateus não atende aos interesses dos leitores que se utilizam dessa exegese sociológica para criticar a opressão imperial sobre a classe camponesa. O tal “homem rei”, que segundo nossa compreensão é um oikodespotes poderoso que empresta dinheiro em grande quantidade, não é por Mateus descrito como parte de uma classe opressora, antes, ele é apresentado positivamente na parábola, e é o protagonista de uma narrativa que fala sobre o Reino dos Céus, a sociedade ideal. Conclui-se que o clientelismo

123

em si, como sistema regulador das trocas de bens e mantenedor de estratos sociais, não é rejeitado, assim como a própria instituição da escravidão.

Benzer Belgeler