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4. ERZURUM MERKEZ KÖYLERİ MANİLERİNİN İNCELENMESİ

4.8. Asker Maniler

A parábola em questão dá, dentro do discurso mateano, continuação ao diálogo entre Jesus e Pedro sobre o dever de perdoar (v. 21-22), e como vimos, começa com uma introdução típica (v. 23). Ainda veremos alhures que a conclusão dessa parábola (v. 35), tão breve como sua introdução, volta ao tema inicial do perdão dando um acabamento formal ao texto. Mas nesse momento nosso interesse irá se voltar para o que há entre essas duas extremidades que emolduram a parábola, e já que estamos falando de formas e estruturas, cabe dizer que este conteúdo central está dividido em três cenas narrativas (Luz, 2003, p. 96), as quais podem ser facilmente delimitadas pelo fato de começarem, cada uma delas, com o uso de um particípio aoristo no grego.86 Nas próximas linhas nos ocuparemos apenas da primeira dessas cenas, que coloca no palco um importante personagem, chamado “devedor” ou apenas “servo”.

(24) E tendo ele começado a ajustar foi levado a ele um devedor de dez mil

talentos.87

(25) E não tendo ele para pagar o senhor ordenou ser ele vendido, e a mulher e

os filhos e tudo quanto tem, e ser pago.88

(26) Tendo caído então o servo se prostrava frente a ele dizendo: “Sê paciente

para comigo, e tudo te pagarei”.89

(27) E tendo ficado compadecido o senhor daquele servo, o libertou e a dívida

perdoou para ele.90

86 Na primeira cena (v. 24-27) temos avrxame,nou (particípio aoristo, médio, genitivo, masculino, singular de

a;rcw), que traduzimos por “tendo começado”; na segunda (v. 28-30) temos evxelqw.n (particípio aoristo, ativo, nominativo, masculino, singular de evxe,rcomai), que em nossa tradução ficou “tendo saído”; e na terceira cena (v. 32-34) ivdo,ntej (particípio aoristo, ativo, nominativo, masculino, plural de o`ra,w), que ficou “tendo visto”.

87 Texto grego: (24) avrxame,nou de. auvtou/ sunai,rein proshne,cqh auvtw/| ei-j

ovfeile,thj muri,wn tala,ntwnÅ

88 Texto grego: (25) mh. e;contoj de. auvtou/ avpodou/nai evke,leusen auvto.n o`

ku,rioj praqh/nai kai. th.n gunai/ka kai. ta. te,kna kai. pa,nta o[sa e;cei( kai. avpodoqh/naiÅ

89 Texto grego: (26) pesw.n ou=n o` dou/loj proseku,nei auvtw/| le,gwn\

makroqu,mhson evpV evmoi,( kai. pa,nta avpodw,sw soiÅ

90 Texto grego: (27) splagcnisqei.j de. o` ku,rioj tou/ dou,lou evkei,nou avpe,lusen

Na narrativa o “homem rei” parece ter o oferecimento de empréstimos como modo de obtenção de riqueza, e essa é uma ação condizente com a realidade dos homens ricos do Império Romano. Nesse ponto, vamos transcrever várias linhas de Paul Veyne (2009) que retratam com novos detalhes a atividade administrativa dos patronos e a função dos escravos nos seus negócios. Esse retrato esclarece grandemente o quadro que a parábola nos traz:

A gestão de um patrimônio de bens de raiz implicava que o dono supervisionasse o cultivo de suas terras, vigiasse seu administrador ou escravo intendente, vendesse pelo melhor preço os produtos da propriedade; devia também emprestar dinheiro a juros para nunca deixá-lo parado. (2009, p. 130)

[...] um rico “pai de família” tem como intermediários alguns de seus libertos e também seus escravos: concedeu a estes últimos uma autonomia financeira e uma capacidade jurídica que lhes permitem atuar nos negócios como homens livres, mas por conta do senhor. (2009, p. 133)

Frequentemente o administrador nasceu livre e se vendeu como escravo a fim de fazer carreira. O senhor confiava nele. A contabilidade da época não era a nossa; o administrador não prestava contas a intervalos determinados: o senhor e ele ficavam anos sem fazer um balanço. Seu dever era manter uma anotação honesta das entradas e saídas para prestar contas quando por qualquer razão resolvessem pedi-las [...] Azar do administrador que nesse dia não pudesse apresentar uma soma líquida significativa da diferença entre o total das entradas e o total das saídas! (2009, p. 133)

Muitas dessas palavras de Paul Veyne parecem mesmo escritas para explicar nossa parábola, mas na verdade evidenciam que tal cenário fictício não era nem um pouco estranho àquele tempo e lugar. No texto mateano o versículo introdutório dizia que aquele senhor pretendia “ajustar palavra” com seus “servos”, no plural (v. 23); porém, a partir do versículo 24 temos um recorte nesse tempo de ajustes, pois apenas o momento dos ajustes entre o patrono e um dos seus escravos é narrado entre os versículos 24 e 27. Sobre sua dívida, agora estamos mais conscientes de que ele era um administrador, um escravo que negociava o dinheiro do seu senhor a fim de multiplicar seu patrimônio. O texto também parece nos indicar que tal prestação de contas não era constante, e que o escravo devedor, por não desempenhar bem seu trabalho, não estava preparado para esse acerto. Notemos que nesse primeiro versículo (v. 24) o devedor “foi levado” até o “homem rei”, e o uso passivo do verbo prosfe,rw nos dá a impressão de que tal cobrança não é efetuada amigavelmente.

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Esperamos não superinterpretar o texto neste ponto, mas nos parece que o devedor não foi simplesmente convidado, nem tampouco se apresentou ao credor por conta própria, mas teve de ser levado, o que se justifica pelo fato de ele saber que não tinha como pagar sua dívida. Essa leitura não é tão absurda quando nos damos conta de que o tal homem devia “dez mil talentos”, e portanto, estar diante do “homem rei” para um acerto de contas era algo que ele com certeza preferiria evitar.

Falando da dívida, o “talento” é uma antiga medida de peso que segundo Carlo Rusconi equivalia a cerca de 34 quilos (2005, p. 449). Essa definição não nos diz exatamente a que tipo de material o texto se refere, mas é provável que esse peso devesse ser pago em prata, como trazem as versões da Bíblia cujas traduções para o português são mais dinâmicas que literais. Assim, a dívida do servo da parábola equivale a milhares de quilos de prata, uma quantia obviamente impagável. Para se ter uma ideia de quão chocante é esse valor, podemos o comparar a outra menção aos “talentos” feita por Flávio Josefo: segundo o escritor judeu, pouco antes daqueles tempos a arrecadação de tributos por Arquelau na Judeia e Antipas na Galileia juntos equivalia a aproximadamente seiscentos talentos (B.J. 2.94-97). Sem dúvida é intencional o exagero da parábola que apresenta um único homem que deve dez mil talentos, e exageros intencionais é o que chamamos de recursos literários. Este é o primeiro desvio que a narrativa faz em relação à descrição do cotidiano ordinário, e supomos que aqui o leitor/ouvinte devia saltar do seu lugar admirado por tão grande soma.

O comentarista Ulrich Luz se baseia neste exagero presente nos “dez mil talentos” para dizer que o emprestador da parábola, o “homem rei”, devia mesmo ser um monarca (2003, p. 97); para ele, só um verdadeiro rei poderia dispor de valor tão elevado. Outra vez discordaremos de Luz e seguiremos afirmando que estamos lidando com um patrono que empresta um valor absurdo, e que as possíveis discrepâncias são todas propositais. Lemos já na primeira cena que o tal emprestador acaba perdoando o devedor, e com isso, o tamanho absurdo da dívida perdoada destaca o tamanho do perdão concedido, que deve ser condizente com o perdão imensurável do “setenta vezes sete” sugerido por Jesus há pouco (v. 21-22).

Seguindo para o versículo 25, antes do perdão aparecer na história vemos que o servo não tinha como pagar sua grande dívida. O contrato seria descumprido, e por não ter suas expectativas realizadas, era natural que o emprestador reagisse punindo o descumpridor. Enfurecido, o emprestador dá ordens para que o escravo descumpridor do acordo seja vendido. Com o servo, sua mulher e filhos que naturalmente também eram escravos seriam vendidos e o valor arrecadado usado para que a dívida fosse parcialmente paga, o acordo

razoavelmente cumprido e as expectativas do emprestador minimamente satisfeitas. Sob a ótica do senhor de escravos até essa venda era uma solução insatisfatória, mas imaginamos que o escravo que tinha uma posição razoavelmente privilegiada como administrador das riquezas de seu senhor estaria sendo punido pela troca de senhores, pela disjunção com aquele bondoso patrono que o colocara em posição privilegiada em relação à classe escrava.

Quando o texto nos apresentou o servo como incapaz de cumprir com a sua “palavra”, já abriu diante do leitor duas possibilidades. A primeira era a que traria a ira do patrono, que resultaria na punição do descumpridor do contrato, e tudo isso poderia ser lido como representação do cotidiano. O segundo caminho possível era o do perdão, que de certa forma fora sugerido pelo diálogo de Pedro e Jesus antes da parábola (v. 21-22). O texto brinca com seu leitor; escolhe a primeira opção e anuncia a desgraça do devedor, mas depois reverte o quadro transformando esse final numa falsa conclusão. No versículo 26 o narrador nos deixa ouvir o clamor do devedor, que tenta reverter os resultados de sua sanção. Ele pede paciência ao emprestador e promete ainda pagar a dívida. Esta ação desesperada resultaria numa guinada nos acontecimentos, e no versículo seguinte o senhor muda sua primeira decisão, acaba perdoando a dívida e, como já sugerimos, dando a liberdade ao escravo que supostamente fracassara nos seus planos.

Temos aí um termo complicado no grego, que é o verbo splagcni,zomai, que aparece conjugado como um particípio aoristo na voz passiva (splagcnisqei.j). A tradução do verbo em nossa versão foi “tendo ficado compadecido”.91 Foi através dessa

paixão, desse sentimento, que o senhor muda seus planos, e aí atingimos o clímax dessa

sequência narrativa. O servo pedira paciência ao senhor, clamou pedindo um novo prazo tentando fora de hora rever os termos do contrato estabelecido. Mas o seu clamor teve efeitos maiores que os esperados, e o senhor não somente refaz o contrato, mas decide mesmo o esquecer, além de lhe conceder o status de homem liberto. O perdão exagerado, excedente, é tema que motivou a parábola de Jesus em seu diálogo com Pedro, e aparece aqui como o elemento mais surpreendente da primeira cena. O emprestador desiste de seu valor, não quer mais reaver seus dez mil talentos e nem mantém o escravo sobre seu domínio; assim, esse personagem oferece um exemplo extremo do princípio moral ensinado por Jesus. Está em pauta aquilo que Frank Kermode chamou de “retórica de excesso” quando falou sobre a

91 Conforme Carlo Rusconi, o verbo teria se originado a partir de “splagcni,zw”, que seria algo como comer

as vísceras da vítima depois de um sacrifício (2005, p. 423-424). Naquela cultura, o sentimento que conhecemos por compaixão seria comparado a sentir as próprias vísceras sendo devoradas.

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narrativa mateana (1997, p. 419-424). Ele observou que o Evangelho de Mateus transmite suas ideologias através de imperativos a favor do excesso, isto é, pede que se faça sempre mais do que o normal, mais do que o pedido. Talvez o principal exemplo desse recurso retórico mateano esteja no capítulo 5, quando Jesus, embora comprometido com o cumprimento da tradição legal judaica, acaba por transmitir novos mandamentos baseados na excedência deles (Mt 5.17-48). Era necessário superar a “justiça” dos fariseus (v. 20) que se consideravam cumpridores dos mandamentos, então, o autor de Mateus argumenta que a Lei, embora completa, insubstituível, ainda poderia ser melhorada, e era isso o que Jesus lhes teria ensinado através daquelas radicais exigências. Agora, na parábola do capítulo 18, a “retórica de excesso” volta para ensinar sobre o perdão ilimitado.

Se a parábola acabasse aqui, teríamos: o Reino dos Céus é como um homem que abre mão de seus direitos quando se vê diante de um “pequenino”, como um discípulo que perdoa a dívida do irmão que não pode pagar deixando-se guiar pelo amor ao próximo que excede qualquer direito ou contrato. Entretanto, a parábola seguirá com uma segunda parte que acrescentará uma ameaça àqueles que não assimilam a exigência do perdão aqui exemplificada. Claro, a religião mateana é retributiva, e se há recompensas aos justos, deve haver também punições aos injustos.

Benzer Belgeler