A câmara municipal é uma instituição representante do Poder Legislativo Municipal que existe no Brasil desde que foi instalada pelos portugueses em 1532, conforme o modelo das câmaras de vereadores de Portugal, na vila de São Vicente, em São Paulo. Durante o período colonial, a câmara gozava de amplos poderes, sendo alguns hoje de atribuição das prefeituras, uma vez que era o único órgão de governo representativo da colônia. De acordo com Prado Júnior (2008), no Brasil colonial, cabia à câmara: aforar parte de suas terras, fazer várias nomeações, fiscalizar o comércio local, editar posturas, julgar e processar crimes de injúria e pequenos furtos, taxar e arrematar impostos entre outras atribuições.
No Regime Imperial brasileiro (1822-1899), os poderes atribuídos às câmaras municipais tornaram-se mais restritos devido à Constituição de 1824, na qual foram estabelecidos os quatro poderes: Legislativo, Executivo, Judiciário e Moderador. Esse último, também denominado Poder Imperial, não era, no Brasil, totalmente separado do Poder Executivo que era exercido pelos ministros do rei. Isso resultou na concentração de poderes nas mãos do imperador. Apesar disso, no Regime Imperial, o Brasil permaneceu ligado à
Igreja Católica e essa, por sua vez, se manteve presente nas decisões políticas locais e na cultura religiosa dos brasileiros.13
Além dessa divisão em quatro poderes, no período imperial, o Brasil foi dividido em províncias, cujos presidentes eram nomeados pelo imperador e também foram criadas as Assembleias Provinciais14, limitando ainda mais o poder local exercido pela câmara municipal. No entanto, ao mesmo tempo que teve suas atribuições reduzidas, a câmara municipal manteve sua “autonomia” local, bem como algumas funções remanescentes do período colonial.
A presença da câmara nas vilas e cidades das províncias estava garantida pela Constituição Imperial. No capítulo II, do artigo 167 da Constituição de 1824, está definido que “em todas as Cidades, e Villas ora existentes , e nas mais, que para o futuro se crearem haverá Camaras, as quaes compete o Governo economico, e municipal das mesmas Cidades e Villas.” (BRIGAGÃO E SILVA, 2003, p. 138).
O artigo seguinte da Constituição mencionada determinava que as câmaras seriam eletivas15 e compostas do número de vereadores determinados por lei; sendo o presidente da câmara aquele que obtivesse o maior número de votos. “As Câmaras serão electivas, e compostas do número de Vereadores, que a Lei designar, e o que obtiver maior número de votos, será Presidente.” (BRIGAGÃO E SILVA, 2003, p. 138). O artigo 169 afirma que o exercício das funções municipais pela câmara, a formação de suas posturas, a aplicação das suas rendas, suas particularidades e atribuições serão decretadas por uma Lei Regulamentar.
O cenário das câmaras municipais brasileiras continuou a ser alterado após a proclamação da República, em 1899, pois o governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891) decretou o fechamento das câmaras municipais e autorizou a nomeação dos membros dos chamados Conselhos de Intendência pelos governadores dos Estados (AVELAR, 1970). Em 1905, foi criado o cargo de Intendente que permaneceu nos municípios durante a República Velha (1899-1930), haja vista que a figura do prefeito não existia nesta
13 A Constituição de 1824 assegura a Religião Católica Apostólica Romana como a religião oficial do Império
(BRIGAGÃO E SILVA, 2003). A separação entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro só aconteceu com a Proclamação da República em 1891 (FAUSTO, 1997).
14 De acordo com Fausto (1997), competia às Assembleias Provinciais “a competência para fixar as despesas
municipais e das províncias e para lançar os impostos necessários ao atendimento dessas despesas.” (FAUSTO, 1997, p. 163).
15Conforme Fausto (1997), no Regime Imperial o voto era censitário, ou seja, só podia votar quem atendesse a alguns requisitos, incluindo os de natureza econômica, denominados censo. As mulheres estavam excluídas dos direitos políticos.
época. Neste período republicano, a câmara continuou a exercer o Poder Executivo local e o Poder Legislativo.
Apesar dessas mudanças, o poder local exercido pelos conselhos obteve uma maior autonomia, pois, conforme Rodrigues, Reston e Reis (2001), na Constituição de 1981, o município aparece como parte do Estado Nacional, uma vez que o Brasil passou a ser uma República Federativa constituída pela união do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios.
[...] o Brasil adotou, em 1891, uma nova Constituição, a primeira do regime republicano. Deixou de ser um país unitário para tornar-se uma República Federativa constituída pela união indissolúvel dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. (RODRIGUES, RESTON, REIS, 2003, p. 16). Após o fim da República Velha, Getúlio Vargas assumiu o poder em outubro de 1930, pelo voto indireto. Desde o início do seu governo, Vargas adotou medidas centralizadoras, pois, em novembro do mesmo ano, ele assumiu os poderes Executivo e Legislativo, dissolveu o Congresso Nacional e os legislativos estadual e municipal. Para a execução de tal medida, foram nomeados interventores federais para os estados, sendo demitidos os antigos governadores (FAUSTO, 1997).
Através dessa medida, Vargas limitou o poder local concentrando todo o poder em suas mãos. Todavia, segundo Avelar (1970, p. 264), entre o período de 1934 a 1937 “haveria assembleias estaduais e câmaras municipais”, porém os poderes das câmaras foram ainda mais limitados a partir da criação das prefeituras que assumiram o Poder Executivo nos municípios. Dessa forma, restou às câmaras municipais apenas o Poder Legislativo.
Em 1937, Getúlio Vargas implantou o Estado Novo (1937-1945), um regime de caráter ditador que concentrou a maior soma de poderes até o momento da história do Brasil independente (FAUSTO, 1997). Neste período, as câmaras municipais foram novamente dissolvidas, sendo nomeados interventores para o governo nos estados. As câmaras municipais só foram reabertas com a deposição de Vargas. Em seguida, foram realizadas eleições para prefeitos e vereadores que tomaram posse no ano de 1947. As câmaras reassumiram o Poder Legislativo e começaram a delinear a forma que possuem hoje.
Durante o governo militar (1964-1985), as câmaras municipais passaram por mais um período de perseguições. O ato institucional nº 5 que entrou em vigor no governo de Costa e Silva, estabeleceu plenos poderes para o presidente da República, podendo este dissolver o congresso, as Assembleias Legislativas e as câmaras municipais e assumir o Poder
Legislativo durante o recesso da câmara. Isso promoveu o abuso de poder do governo militar sobre as câmaras; muitos vereadores foram perseguidos e algumas câmaras foram fechadas.
Após o período de redemocratização do Brasil, as câmaras tiveram sua autonomia assegurada, a partir do artigo 1º da Constituição de 1988 que garante aos municípios a união indissolúvel com os Estados e o Distrito Federal na constituição do Estado Democrático. Além disso, essa autonomia é confirmada, na Constituição citada, nos artigos 18 e 29, tirando todas as dúvidas sobre a autonomia dos municípios e sua integração federativa: “a organização político-administartiva da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos [...].” (BRIGAGÃO E SILVA, 2003, p.180). O artigo 29 estabelece que os municípios serão regidos por lei orgânica aprovada e promulgada pela câmara municipal:
O Município reger-se-á por lei orgânica, votada em dois turnos, com o interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços dos Membros da Câmara Municipal que promulgará, atendidos aos princípios estabelecidos nesta Constituição, na constituição do respectivo Estado. (BRIGAGÃO E SILVA, 2003, p.189).
Isso retirou de uma vez a participação do legislativo estadual. Embora a constituição de 1891 já instituisse a união federativa entre Estados, Municípios e o Distrito Federal, somente a Constituição de 1988 garante a autonomia municipal assegurada nos artigos citados. Com a promulgação da Carta Magna de 1988, as câmaras municipais possuem especificamente as funções de legislar no âmbito municipal, fiscalizar o Executivo local e administrar, a partir da elaboração de seu Regimento Interno, sua estrutura de organização e os seus funcionários.
Na atualidade, as câmaras contam com a participação das mulheres no Plenário como Vereadoras, Suplentes e Secretárias de Mesa, contrariando a forte participação masculina nos séculos anteriores. As câmaras passaram a ser o órgão base de representação da democracia nos municípios, pois os seus vereadores são eleitos pelo voto direto do povo no regime de voto proporcional aos partidos a que pertencem. É importante ressaltar que a quantidade de vereadores é proporcional à quantidade de habitantes. Isso é regulamentado pela Constituição de 1988, no artigo 29, parágrafo IV que afirma: “número de Vereadores proporcional à população dos municípios.” (BRIGAGÃO E SILVA, 2003, p.189).
Apesar de terem passado por perseguições e restrições de suas atribuições ao longo de sua história, as câmaras municipais conseguiram sobreviver às mudanças sofridas pelo Brasil, no passar dos séculos, sem perder sua força de representação local. Isso se deve não só
por terem se modernizado ao longo dos anos, mas sobretudo pela participação popular na luta pelo estabelecimento da democracia em nosso país.
3.2 A Câmara Municipal na Paraíba nos séculos XIX, XX e XXI: atribuições e funcionários