Na pós-modernidade, são variadas as formas de apresentação das TDs, uma vez que as novas tecnologias da era digital, com destaque para o avanço da Rede Mundial de Computadores, possibilitam uma nova estruturação do texto. Assim, textos digitais como e- mails, blogs, textos dos chats, ou mesmo artigos de revistas e de jornais eletrônicos, dentre muitas outras TDs que são disponibilizadas pela rede mundial em sites e homepages, possuem maior maleabilidade em sua estrutura, se comparados às formas anteriores de texto oral ou impresso de que originam, devido aos recursos de sons e imagens disponíveis no suporte digital, bem como a rapidez de recebimento de informações proporcionada pela Rede Mundial de Computadores.
Vejamos como exemplo, o e-mail8 como uma mensagem eletrônica de composição e recebimento rápidos. Para Marcuschi (2010), esses dois aspectos caracterizam esse gênero no suporte digital9. Ao compararmos o e-mail com a estrutura da carta, observamos que os textos são mais curtos, pois, devido à rapidez do cotidiano, as mensagens tendem a ser mais objetivas numa linguagem menos formal, muitas vezes não possuem abertura e fechamento,
8 Oliveira e Paiva (2010) explica que o termo e-mail em inglês é utilizado tanto para o texto produzido para esse
fim como para o endereço eletrônico de cada usuário. Em português, o termo e-mail é utilizado para o texto como mensagem eletrônica e o termo correio eletrônico para o canal de transmissão da mensagem.
9 Existe na linguística textual uma discusão acerca da classificação do e-mail como gênero textual, suporte ou
serviço em função de atividades comunicativas, porém, neste estudo, tomamos o e-mail como um gênero eletrônico escrito que contém suas características próprias, conforme Oliveira e Paiva (2010).
contêm os emotions10 e, dependendo do programa de mensagens, podem conter sons e imagens. Além dessa semelhança com a carta, conforme Oliveira e Paiva (2010), o e-mail, agrega ainda características do memorando, do bilhete, da conversa face a face e da interação telefônica.
Dessa forma, a constatação de que o e-mail é uma TD totalmente nova não é exatamente verdadeira, pois, apesar de ser diferente dessas TDs mencionadas, evoca algumas características das mesmas na tela do computador. Conforme foi apresentado na definição das TDs, a evocação é um dos seus traços defindores.
Considerar a Td só desde o seu lado textual unicamente tem em conta só um aspecto dela, precisamente o aspecto que nos interessa, mas que não é explicável sem a contrapartida que o evoca. [...] pode haver tradições evocadas pelo canal ou meio de comunicação, como o telefone, o SMS e o telegrama. (KABATEK, 2006, p. 511).
Assim, o e-mail, através do computador conectado à Internet, pode evocar outras tradições que o antecedem, corroborando com o elo entre tradição e inovação das TDs, haja vista que as novas tecnologias permitem essa transformação dos textos. Dessa forma, é ilusório pensar que o mundo se renova por completo, uma vez que as novidades podem aparecer através das novas tecnologias, mas depois se descobre que não era tão novo como pensamos (MARCUSCHI, 2010). Marcuschi afirma ainda que existe uma relação entre a evolução dos textos e os meios tecnológicos que eles se desenvolvem. Tomando por base as ideias de gênero defendidas por Bakhtin (1919), Swales (1990) e Miller (1984), o autor explica que um novo meio tecnológico deve influir na natureza do gênero produzido:
Se tomarmos o gênero como texto situado histórica e socialmente, culturalmente sensível, recorrente, “relativamente estável” do ponto de vista estilístico e composicional, segundo a visão bakhtiniana (Bakhtin, 1979), servindo como um instrumento comunicativo com propósitos específicos (Swales, 1990) e como forma de ação social (Miller, 1984), é fácil perceber que um novo meio tecnológico, na medida em que interfere nessas condições, deve também interferir na natureza do gênero produzido. (MARCUSCHI, 2010, p. 20).
Marcuschi (2010, p. 124) acrescenta ainda que “o suporte não é neutro e o gênero não fica indiferente a ele”. Do mesmo modo, uma determinada TD que é publicada em um suporte impresso pode adquirir novas características quando transcritas no suporte digital,
10 De acordo com Marcuschi (2010), os emotions (ícones para sentimentos e emoções) são mais utilizados nos
podendo ser bem diferente de sua sua versão impressa quando disponibilizada na Internet, uma vez que o texto é organizado de forma a facilitar as distâncias do mundo moderno. Para Marcuschi (2010, p.174), “isso não significa que o suporte determine o gênero e sim que o gênero exige um suporte especial.”
Essas transformações das TDs são potencializadas pelo computador, porque nos tempos das mídias digitais, o computador tornou-se um suporte que é mais que um simples instrumento de inscrição de textos, tendo em vista que a Internet11 tornou possível o sonho do universal, ou seja, possibilitou a conexão entre os textos sem ter limites entre suas fronteiras. Segundo Pierre Lévy (1996):
O computador não é um centro, mas um pedaço, um fragmento da trama um componente incompleto da rede calculadora universal [...] tornou-se impossível traçar seus limites, fixar seu contorno. É um computador cujo centro está em toda parte e a vivo, pululante, inacabado, virtual, um computador de Babel, o próprio ciberespaço. (LÉVY, 1996, p. 47).
Por ser um potencializador da informação, o computador conectado à Rede Mundial de Computadores proporcionou o surgimento do hipertexto. Todavia, é importante diferenciar o que caracteriza esse tipo de texto digital do texto linear que conhecemos, também encontrado na Internet, como no caso das atas digitais que compõem o nosso corpus de pesquisa. De acordo com Pierre Lévy (1996):
A abordagem mais simples do hipertexto que, insisto, não exclui nem os sons nem as imagens, é a de descrevê-lo, por oposição a um texto linear, como um texto estruturado em rede. O hipertexto seria constituído de nós (os elementos de informação, parágrafos, páginas, imagens, sequências musicais e etc) e de ligações entre esses nós (referências, notas, indicadores, “botões” que efetuam a passagem de um nó a outro. (LÉVY, 1996, p. 44).
Mesmo não tendo as mesmas características do hipertexto mencionadas, um texto inscrito no computador não é o mesmo texto do suporte impresso, porque este não é mais organizado num suporte encadernado, ou seja, a tela em que o texto é lido não é mais um objeto manuseado diretamente pelo leitor como ocorre com o texto impresso. Para Chartier (1999):
11 Marcuschi (2010) explica que a Internet é um caso limite entre serviços de comunicação e suporte, mas afirma
que pessoalmente considera a Internet como um suporte que alberga e conduz gêneros de formatos diversos. Com base nessa afirmação do autor, consideramos, neste estudo, a Internet como um suporte.
A inscrição do texto na tela cria uma distribuição, uma organização, uma estruturação do texto que não é de modo algum a mesma com a qual se defrontava o leitor do livro em rolo da Antiguidade ou o leitor medieval, moderno e contemporâneo do livro manuscrito ou impresso, onde o texto é organizado a partir de sua estrutura em cadernos, folhas e páginas. (CHARTIER, 1999, p. 12-13).
Apesar da distância entre a tela do computador e o leitor, o texto eletrônico, disponibilizado pelo espaço virtual, permite que as pessoas estejam mais próximas da informação. No cotidiano dos tempos modernos, o leitor pode ter acesso facilmente à informação pública através das páginas da Web e deparar-se com uma quantidade ilimitada de textos que contém sons e imagens em fração de segundos e armazená-los na mémória de seu computador, pen-drives e CD-Roons, haja vista que o texto eletrônico está disponível na Internet para qualquer indivíduo a quaisquer hora e lugar, basta que, como já foi dito, ele possua um computador conectado à Rede Mundial de Computadores. Em espaços públicos e privados que disponibilizam a leitura em obras impressas é preciso ir até o local em seu horário de funcionamento, esperar que um funcionário localize a obra nas estantes e fazer um registro de empréstimo.
Essas considerações são relevantes para explicar o fenômeno de transformação das atas camarárias que são objeto de análise deste estudo, uma vez que as atas das câmaras municipais de João Pessoa também estão acompanhando as transformações da era digital. As atas que eram escritas à mão ou à máquina de escrever e armazenadas em livros de registro específicos, hoje, estão disponíveis na homepage da câmara municipal de João Pessoa de forma acessível a qualquer cidadão que possua um computador conectado à Internet. Precisamos identificar nessas atas online12 até que ponto o novo suporte afetou a estrutura dessa TD em relação a sua versão manuscrita, considerando o que permaneceu e o que se transformou nesse processo.
No próximo capítulo, trazemos algumas considerações sobre o contexto sócio- histórico de produção das atas de câmara que constituem o corpus desta pesquisa, tendo em vista a ideia de que, as tradições discursivas, do mesmo modo que os gêneros textuais, refletem as transformações históricas e sociais ocorridas na sociedade na qual estão inseridas.
12 Mesmo havendo a cópia impressa das atas online na câmara municipal de João Pessoa, a ata digital não é a
mesma em relação à ata manuscrita ou digitada, pois ela existe num suporte diferente e nem pode ser lida da mesma forma que suas versões anteriores.
03 A CÂMARA MUNICIPAL NO BRASIL E NA PARAÍBA DO IMPÉRIO À REPÚBLICA: SOBRE O CONTEXTO DE PRODUÇÃO DAS ATAS
Coseriu (1979, p. 236) afirma que “explicar uma obra significa, antes de mais nada, reconstruir seus entornos”, ou seja, para explicar os textos faz-se necessário associá-lo ao contexto histórico e social de sua produção. Diante disso, neste capítulo, discutimos os fatores históricos e sociais dos períodos imperial e republicano do Brasil e da Paraíba em que estão inseridas as câmaras municipais e as atas das câmaras paraibanas. Abordamos, no primeiro tópico, as mudanças de regime sofridas pelo Brasil, apontando a situação de funcionamento das câmaras municipais no Império e na República. No tópico seguinte, discutimos sobre as atribuições das câmaras municipais paraibanas desde o século XIX até os tempos atuais, como também, destacamos a presença de seus funcionários, dando ênfase aos secretários. No último tópico, fazemos um retrato sócio-histórico da Paraíba, destacando alguns fatores que interferem na forma de escrita das atas das câmaras municipais na Paraíba.