De maneira a identificar as concepções das professoras em relação ao conhecimento, elaboramos as seguintes questões: O que é conhecimento? Como se adquire conhecimento? Como o professor aprende conhecimento, para ministrar suas aulas? Como se passa de um menor conhecimento para um maior conhecimento? Como o bebê adquire conhecimento?
No que diz respeito ao que vem a ser conhecimento, obtivemos as seguintes respostas:
O conhecimento está relacionado ao saber, sejam estudos ou experiências. (Questionário, professora Antônia).
O conhecimento é dividido em três áreas: o científico, a prática e a técnica. (Questionário, professora Helena).
Nota-se, a partir das respostas dadas pelas professoras, que parece existir a compreensão de que o conhecimento é experiência de vida, ou o conhecimento está no plano teórico, apresentando diferentes fontes de conhecimento. Becker (2009) atesta que essa dicotomização está muito presente nas concepções epistemológicas do professor.
A interpretação das falas sobre o conhecimento desvela uma concepção empirista, experiência como vivência: o conhecimento se dá pelos sentidos, conheço porque vi ou porque ouvi.
Para Becker (2009), a visão empirista traduz o conhecimento como algo que vem do meio físico ou social: “O conhecimento é algo que do mundo do objeto (meio físico e social); portanto, o mundo do objeto é determinante do sujeito, e não o contrário” (p. 12).
A professora Antônia reafirma sobre a experiência resultar no conhecimento, oferecendo uma resposta breve.
Através de informações absorvidas nas interações com outras pessoas e com o meio físico e natural. Também quando nos referimos a uma acumulação de teorias, ideias e conceitos. O conhecimento surge como um produto dessas aprendizagens. (Questionário, professora Helena).
O conhecimento se adquire através das experiências vivenciadas durante o decorrer da vida. (Questionário, professora Antônia).
Quanto às concepções de como se adquire o conhecimento, observamos a reafirmação da questão da experiência, a despeito de a professora Helena parecer relacionar o conhecimento com o aprender.
Piaget (1972, apud BECKER, 2009) frontalmente desautoriza a ideia de o conhecimento ser resultado direto da aprendizagem, quando afirma: “[...] considero que o desenvolvimento explica a aprendizagem e esta opinião é contrária a opinião amplamente sustentada de que o desenvolvimento é uma soma de unidades de experiências de aprendizagem” (p. 68). Nesse caso, seu estímulo pode ter partido pelo meio externo, mas a sua construção é de caráter interno e pessoal, assimilada pelos esquemas ou estruturas.
No que tange ao conhecimento para ministrar suas aulas, ambas respondem também de uma forma breve e ampla, relacionando o estudo e a prática promovedores de conhecimentos.
Através de pesquisas e estudos de práticas, de acordo com cada faixa etária. (Questionário, professora Helena).
O conhecimento começa com estudos, porém, o professor se aperfeiçoa na prática de sala de aula. (Questionário, professora Antônia).
As concepções sobre conhecimento são vagas, nos discursos das professoras, o que leva a assumirem práticas não refletidas em concepções epistemológicas, de senso comum. Conforme Becker (2009), “[...] o conhecimento é concebido como um ajuste ou uma adaptação, no sentido vulgar do termo, entre a mente e as coisas. Esta identificação acontece por uma vivência ou por uma experiência de vida” (p. 37).
Remetendo-nos novamente à experiência como vivência, o conhecimento acontece no momento prático, no plano sensorial. Segundo Becker (2009), para essa concepção, a “[...] vivência é determinada, portanto, pelo mundo externo, pelo mundo do objeto, mas enquanto este incide no plano subjetivo da afetividade dando lugar a uma experiência de vida” (p. 37). A crença no poder determinante da experiência – prática – parece tão arraigada, definindo-se como concepção de conhecimento-adequação.
Mesmo na questão relacionada à passagem do conhecimento menor para outro conhecimento maior, as experiências são evidenciadas como forma determinante do conhecimento.
Através de novas e várias experiências, ela observa, depois começa o processo de assimilação. (Questionário, professora Helena).
Para isso, é necessário cursos relacionados ao tema, troca de experiências com profissionais da mesma turma, e a busca do professor em estar aperfeiçoando seu conhecimento. (Questionário, professora Antônia).
Nota-se também, na resposta da professora Helena, que a assimilação não corresponde à concepção construtivista, a qual compreende o conhecimento como o produto da ação do sujeito; assim, a concepção da professora está mais associada à interiorização, como se a criança não realizasse nenhuma atividade para sua constituição, assimilasse o conhecimento como cópia da realidade. Becker (2009) lembra que, para Piaget (1979), o empirismo “[...] tende a considerar a experiência como algo que se impõe por si mesmo, como se ela fosse impressa diretamente no organismo sem que uma atividade do sujeito fosse necessária à sua constituição” (p. 12).
Para o autor, apoiar-se nessa concepção de conhecimento é entendê-lo como algo que vem de fora, no primeiro momento, e que por vivência, no segundo momento, se transforma em conteúdo mental.
A professora Antônia parece pensar o conhecimento como um acúmulo de possibilidades, uma acumulação quantitativa de conteúdos e não uma construção interna, distinguindo-se de Piaget (apud BECKER, 2009), para quem a estrutura é construída e não dada, sem a criança agir e transformar a realidade.
Os conhecimentos mais simples não podem ser considerados condições suficientes para se atingir conhecimento mais complexos, frisa Becker (2008): “[...] a condição suficiente desta mudança, reside na construção de estruturas mais complexas, realizada pela ação e pela coordenação das ações do sujeito” (p. 63-64), diante do novo, do que lhe é desafiador. São estes os estímulos que vão contribuir para o sujeito agir, construir novos esquemas, de maneira que a capacidade de assimilar está ligada à medida com que sente interesse pelos conteúdos.
As respostas das duas professoras foram bem parecidas, no que concerne ao conhecimento adquirido pelo bebê, verificando-se que o termo adquirir foi empregado na questão, pois, se utilizássemos a expressão construir conhecimento, poderíamos induzir a resposta como um processo de construção, não sendo este nosso objetivo, mas exatamente averiguar de forma mais próxima do real as concepções das professoras pesquisadas.
Através de vivências e observar o novo. Estimulações do meio em que vivem. (Questionário, professora Helena).
Através de experiências vividas no ambiente familiar, escolar e social, com estímulos apresentados ou através de observação das crianças. (Questionário, professora Antônia).
É possível inferir que as professoras parecem compreender suas crianças como sujeitos passivos a cada novo conteúdo posto à sua frente, ao tomar o meio social como determinante; por conseguinte, o meio social – seja familiar, seja escolar – apresenta estímulos e a criança observa e aprende. Diferentemente, deve-se conceber a criança como detentora de conhecimentos anteriores e que, em face das novas informações, atribuindo significados, realiza novas construções através da ação física e mental, compreendendo o novo - isso não se faz presente nas concepções manifestas.
Becker (2001) pontua que a compreensão desses professores demonstra ser legitimada por uma epistemologia segundo a qual a criança é totalmente determinada pelo mundo do objeto ou pelos meios físicos e sociais.
Garms (2012), referindo-se a Piaget e Grèco (1974), sustenta:
[...] não somente uma aprendizagem não parte jamais do zero, quer dizer que a formação de um novo hábito consiste sempre numa diferenciação a partir de esquemas anteriores; mas ainda se essa diferenciação é função de todo o passado desses esquemas, isso significa que o conhecimento adquirido por aprendizagem não é jamais nem puro registro, nem cópia, mas o resultado de uma organização na qual intervém em graus diversos o sistema total dos esquemas que o sujeito dispõe. (p. 69).
Portanto, a teoria do conhecimento explicada por Piaget é de natureza ativa, pressupondo uma constante interação entre sujeito e objeto.
Diante das concepções de predominância empirista, presentes nas respostas das professoras, podemos inferir que suas crenças estão baseadas no senso comum, mesmo com formação acadêmica em nível superior, predominando em suas epistemologias a presença da base empirista, já sinalizada por Becker (2009), em que a experiência é vista como vivência e não como ação que descobre propriedades do objeto, transforma e constrói conhecimento.
Emerge, por conseguinte, a necessidade de o professor, por meio de estudos com elementos inerentes ao desenvolvimento da criança, dialetizar as relações objeto-sujeito, a fim de modificá-los e instrumentalizá-los, com a intenção de melhor entender as situações de construção de conhecimento da criança, pautando sua prática pedagógica numa concepção epistemológica.