A discussão sobre poder é importante como elemento para pensar as práticas políticas que explicam seus sentidos e suas diferentes dimensões, numa sociedade cujo modelo é falocrático e que, por esta razão, continua interferindo nas relações individuais, sociais e políticas, reproduzindo-se como uma herança patriarcal. Analisar como essas relações se estabelecem no Legislativo e como as mulheres vivenciam e constroem esse poder é importante para se compreender a forma como esse poder interfere na ação das parlamentares e como sua ação política pode intervir nos processos sociais.
Fica evidente, no diálogo que estabeleci com as parlamentares, a clareza que a maioria delas tem acerca das desigualdades de gênero. A forma como se articulam ou atuam reflete aquilo que autoras como Pateman (1993) enfatizam: que a inclusão das mulheres na sociedade civil se dá igualmente enquanto membro de um sexo, nesse caso o feminino, considerado inferior e enquanto mulheres, o que implica reconhecer que “corpo, sexo e diferença sexual são inseparáveis da subordinação civil” (PATEMAN, 1993, p. 329).
Dessa forma, o argumento patriarcal que separa o trabalho doméstico e as relações íntimas da esfera pública, retirando as mulheres da discussão política sobre cidadania, é inconcebível pelas teóricas feministas, que, por sua vez, consideram as relações patriarcais incompatíveis com relações democráticas.
Das dificuldades observadas e verbalizadas pelas deputadas maranhenses, refletidas também nas falas de outras parlamentares entrevistadas em Portugal e no município de Araraquara – São Paulo, o problema da desigualdade numérica interfere na ação das mulheres, seja reforçando sua “timidez”, seja por estarem sempre na posição de “vitrine” e, nesse aspecto, serem permanentemente “vigiadas” em seus gestos, vestuários, falas articuladas ou desarticuladas. Essa desigualdade também interfere nos projetos que apresentam e na dificuldade em aprová-los, dificuldade essa também sentida em outros parlamentos. Na França, por exemplo, Mossuz-Lavauenfatiza:
Acontece que as dificuldades encontradas pelas mulheres estão no centro das preocupações dos favoráveis. E parece-lhes que essas desigualdades e dificuldades seriam enfrentadas em melhores condições em assembléias comportando 50% de mulheres do que o são hoje. A agenda política seria então determinada de tal maneira que, quando se tratasse por exemplo do
desemprego, seria levada em conta a maneira muito específica como afeta as mulheres. O mesmo se aplica a tudo que diz respeito ao tempo parcial de trabalho (que é quase uma exclusividade das mulheres), às famílias monoparentais (basicamente assumidas por mulheres) e todos os problemas passíveis de serem discutidos por representantes eleitos do povo. Para enfrentar os problemas das mulheres, não será melhor confiar em assembléias paritárias, em vez de assembléias compostas por 90% de homens? (MOSSUZ-LAVAU, 2001).
O questionamento da autora é o mesmo das deputadas maranhenses, que rediscutem o papel das cotas e hoje cobram uma posição mais clara dos partidos políticos sobre essa questão. Nenhuma análise da atuação das mulheres no Legislativo deve estar desvinculada das relações de poder que estão sedimentadas nessas organizações patriarcais, como ressalta Sineau (1991), quando afirma que
a predominância masculina nos lugares de poder tem também causas internas ao meio político, entre as quais, em primeiro lugar, o funcionamento oligárquico das organizações partidárias. Estas fazem o jogo fácil de acusar a fraqueza do activismo das mulheres para as sub-representar nos órgãos diretivos, ou de invocar a misoginia da opinião pública para lhes recusar as investiduras eleitorais. Sendo em princípio lugares abertos de formação e de selecção políticas, os partidos funcionam, com demasiada freqüência, como cenáculos de investiduras especialmente fechados às mulheres, como de resto aos jovens (SINEAU, 1991, p. 578).
O certo é que o Poder Legislativo ainda é marcado pela dominação masculina e, em certa dimensão, ainda funciona como um campo de batalha, onde os homens são os generais. No Legislativo maranhense, porém, as mulheres demonstram na ação política que se traduz em atos legislativos que esse poder também tem a marca e a rebeldia das mulheres refletida em suas falas insistentes ou em seus obsequiosos “silêncios”. No entanto, esses silêncios obsequiosos não são características apenas das mulheres, como observei em minhas constantes visitas à Assembléia. Essa peculiaridade se manifesta também na maioria dos homens que compõem o Legislativo maranhense.
Fica evidente, ao analisar a ação parlamentar maranhense, que seus limites estão consubstanciados nas articulações partidárias e na interlocução direta com o Executivo. Nesse sentido, a desigualdade numérica, a dificuldade de articularem pautas comuns em torno das questões de gênero é determinante na ação política das mulheres.
Ao analisar as várias imbricações da ação política das parlamentares, também não se podem desconsiderar as disputas presentes entre as duas facções
políticas que dominam o cenário maranhense: o grupo Sarney / Roseana e o grupo José Reinaldo / Jackson Lago71, que dividem as opiniões e são objeto de matérias diárias em todos os jornais da cidade72.
Tais disputas têm uma relação direta com a sucessão estadual e com a definição de candidatos para as próximas eleições. Nessa disputa, estão em jogo a continuidade da oligarquia, a sobrevivência do governador na política, a ascensão da oposição no governo e a reeleição dos/as deputados/as.
Na ordem do dia do debate político, insere-se mais uma vez a questão da igualdade x diferença. Se Roseana se elegeu nos dois mandatos anteriores com forte apoio da mídia, que também reforçava sua identidade feminina, hoje esse discurso parece não convencer mais, haja vista as críticas que muitas antigas aliadas fazem ao seu estilo de administrar e aos conflitos que esta acirrou com a classe política. A maioria das criticas feitas pelas antigas aliadas se refere à não aprovação de projetos que tinham como objetivo ampliar e/ou garantir direitos das mulheres.
Mas a atual senadora divide as pesquisas para as próximas eleições ao governo do Maranhão, apoiada pelos quadros do PFL, do PMDB, do PTB e do PV. Sua indicação é considerada por seus aliados como um reflexo de sua “boa administração”. O discurso político adotado pela governadora, aliado à cobertura midiática intensa, a transformou num modelo para seus/uas aliados/as. Por outro lado, sua administração, marcada pela ampliação da miséria e pela ausência de políticas sociais73, é argumento que estimula as mulheres dos partidos de oposição a adentraram na política, apresentando-se como contraponto à ética na política e um rol de propostas historicamente defendidas pelo movimento de mulheres, propostas essas que não foram atendidas no governo de Roseana.
71
As declarações de apoio do governador ao ex-prefeito Jackson Lago me levaram a considerá-los como sendo do mesmo grupo político.
72 Observem-se nas fontes bibliográficas as manchetes, editoriais e matérias dos principais jornais referentes aos meses de setembro de 2005 a janeiro de 2006.
73
O Maranhão além das máscaras. Tipiti. Revista editada por organizações não governamentais do Maranhão. Esta publicação, lançada em julho de 2002, faz um mapeamento da situação sociopolítica no Estado a partir de um olhar de diversas organizações que analisam das questões agrárias aos grandes projetos implantados no governo de Roseana Sarney, que tiveram impactos muito grandes, ao acentuar mais ainda a miséria de um Estado conhecido como um dos mais pobres da federação.
Nesse cenário de disputas entre os dois grupos políticos, outra mulher polemiza as discussões políticas atuais. Trata-se de Alexandra Tavares, esposa do governador e atualmente respondendo pela Secretaria de Desenvolvimento Social. As declarações da imprensa local e nacional demonstram uma animosidade muito grande entre Alexandra Tavares e Roseana Sarney, também reforçada pelo governador, que critica a ex-governadora por deixar o Estado numa situação de penúria e com dívidas impagáveis.
Assim, podemos afirmar que a discussão sobre a ação da mulher no Legislativo maranhense está de alguma forma relacionada com a sucessão estadual, com a avaliação do governo de José Reinaldo e com a formação das listas partidárias, definidoras dos próximos deputados/as eleitos/as. Além disso, não deve ser desconsiderada a relação do governo Lula com o grupo Sarney, que detém vários cargos no governo federal e que, por muito pouco, não nomeou Roseana Sarney ministra das Cidades.
A quase nomeação da senadora foi tema de diversos articulistas políticos, tendo sido bastante criticada pela imprensa do Sul do País. Exemplo disso é o editorial (FOLHA DE SÃO PAULO, 14/01/2005, p. A2, c. 1-2) que, de um lado, critica o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e, de outro, desqualifica a senadora, demonstrando um preconceito quanto a sua condição de nordestina, mas deixando claras as rupturas no quadro político do Estado. Com isso vão sendo minadas as pretensões de Roseana de voltar ao Executivo em 2006. A nomeação para um ministério do governo de Lula seria certamente uma grande alavanca para o projeto político de Roseana Sarney.
Na conjuntura atual, o quadro político do Maranhão está praticamente delineado para as próximas eleições, que serão disputadas por Jackson Lago / José Reinaldo contra Roseana Sarney. O que ainda está indefinido é se Lula apoiará o projeto dos Sarneys. A verticalização recentemente aprovada no Congresso Nacional facilita as alianças, o que leva a crer que, em alguns estados, Lula será neutro. Essa conclusão é reforçada pela posição que o Partidos dos Trabalhadores no Maranhão já assumiu de apoiar a “Frente de Libertação do Maranhão”, adiantando os prognósticos de que essa aliança pode contribuir para mudar o
quadro político-partidário e, conseqüentemente, as articulações no Legislativo estadual.
Uma avaliação mais profunda sobre o assunto, porém, somente será possível após a primavera, em outubro, quando os resultados das eleições terão definido os rumos deste Estado que não tem inverno e onde o calor do verão esquenta as disputas.