Teoria, prática e/ou relação teoria e prática são expressões presentes nos discursos de professores/as acerca de sua formação. Julgamos pertinente explicitar como concebemos esses conceitos que são destacados pelos/as docentes na atualidade e, por conseguinte, neste trabalho.
Consideramos que teoria e prática são duas dimensões distintas que no fenômeno educativo não estão isoladas, visto que não compreendemos a prática educativa como a aplicação direta de teorias educacionais, como uma transposição imediata, na qual o/a professor/a assume o lugar de executor/a.
Entendemos que tanto a teoria quanto a prática desempenham papéis essenciais, mantendo uma relação caracterizada pela unidade. A prática de todo professor/a desvela teorias, reconhecidamente ou não. Entretanto, é preciso ressaltar que teoria e prática “[...] sem fundir nem se opor uma a outra, mantenham sua distinção específica” (VÁZQUEZ, 2007, p.57).
Impossível tratar de teoria e prática sem pensar no contexto educativo e no campo da sistematização teórica e, nesse campo, impossível não recordar Vázquez (2007), revelando-o ou omitindo-o. O autor na obra Filosofia da Práxis assinala a práxis, de forma consistente, situando-a no âmbito da interpretação do marxismo.
Ao tratar de práxis, Vázquez (2007, p.27) remonta a conceituação grega que se referia à “[...] ação propriamente dita” e explicita o uso indistinto para práxis e prática até defini-la como “[...] atividade consciente objetiva, sem que, por outro lado, seja concebida com o caráter estritamente utilitário que se infere do significado do ‘prático’ na linguagem comum”. Vázquez aponta o sentido de práxis como atividade real, objetiva.
O senso comum designa o prático reduzido a uma única dimensão, a do prático-utilitário; “prático é o ato ou objeto que produz uma utilidade material, uma vantagem, um benefício [...]” (VÁZQUEZ, 2007, p.33). Nesse mesmo sentido, do ponto de vista da produção capitalista, o prático é o que produz um novo valor.
Nessa perspectiva de que a concepção de práxis não extrapola o caráter utilitário, individual, as atividades teóricas, artísticas ou da Cultura de Movimento, entre outras, são desprezadas, por não corresponderem a esse fim, não satisfazerem, nessa perspectiva, a necessidades imediatas da vida. Desse modo,
diante dos problemas, mesmo reconhecendo a intervenção da consciência, o prático dispensa a teoria, e busca as soluções na própria prática. Há uma distinção entre teoria e prática, sem que se reconheça que a prática necessita da teoria (VÁZQUEZ, 2007).
Ao longo do tempo, diferentes posições foram assumidas reforçando a dicotomia teoria e prática, atitude hegemônica, ou buscando a unidade teoria e prática. Com o marxismo, sem desconsiderar o importante passo dado por Hegel e por Feuerbach, a práxis é concebida como atividade humana transformadora da realidade natural e social.
Em seu percurso histórico, a humanidade foi rejeitando a dimensão prática, acarretando a dissociação entre pensamento e ação, trabalho intelectual e físico/manual, teoria e prática. Mesmo com o Renascimento, quando atividades como a pintura aparece com status elevado, proclamava-se uma relação direta com a ciência, exaltando o artista em relação ao artesão, situado num plano inferior.
Em nosso trabalho, tal como Vázquez, concebemos uma relação na própria prática de “autonomia e dependência mútuas” entre teoria e prática. Ressaltamos que a autonomia é relativa pelo estabelecimento dessa dependência que implica uma relação de vinculação, de unidade, não de identidade. Essa separação da teoria com a prática só se dá de modo artificial, por um processo de abstração. Da mesma maneira que a atividade teórica, subjetiva não é práxis, também não o é a atividade material sem a dimensão subjetiva, representado pelo lado consciente da atividade. A atividade prática é, ao mesmo tempo, “[...] subjetiva e objetiva, dependente e independente de sua consciência, ideal e material” (VÁZQUEZ, 2007, p.262).
É preciso esclarecer que, para Vázquez (2007, p.219), “toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”. A atividade é entendida como “[...] o ato ou conjunto de atos em virtude dos quais um sujeito ativo (agente) modifica uma matéria-prima dada”. Atividade é considerada em um sentido amplo que não se restringe ao especificamente humano.
A intervenção da consciência é o que vai caracterizar a atividade como especificamente humana – a transformação pelo sujeito humano é um ato consciente, com fim. O resultado existe primeiro idealmente, como mero produto da consciência de um sujeito social; depois, como um resultado ou produto efetivo.
Conhecer está, portanto, relacionado a um fim. A atividade da consciência corresponde a “[...] elaboração de fins e produção de conhecimento em íntima unidade” (VÁZQUEZ, 2007, p.224).
A atividade da consciência tem um caráter teórico, uma vez que, por si só, não transforma a realidade social ou natural. A sua prática – elaboração de fins ou produção de conhecimentos - não se materializa ou se objetiva. São consideradas atividades, não são práxis. A atividade prática é uma atividade real, objetiva ou material que tem como objeto a natureza ou a sociedade. O fim dessa atividade é a transformação real e o resultado é uma nova realidade (VÁZQUEZ, 2007).
Logo, a atividade subjetiva, psíquica, que não se objetiva materialmente não pode ser considerada práxis. É preciso que o sujeito social, sob determinadas condições subjetivas e objetivas, exerça uma ação real sobre um mundo real: objetos naturais, produtos de uma práxis anterior ou o(s) próprio(s) homem(ns). Nesse processo, ele “[...] age conhecendo, da mesma maneira que [...] se conhece agindo” (VÁZQUEZ, 2007, p.224). Concordamos com o referido autor (2007), ao afirmar que a práxis não se reduz a necessidades prático-utilitárias, pode atender a uma necessidade mais geral da ordem da política, da expressão e comunicação ou da própria investigação teórica. Em uma perspectiva histórico-social, a prática é produção/transformação da realidade, como fundamento da constituição e desenvolvimento da realidade humana. Assim, mesmo que tenha, como fim, uma atividade teórica, ainda, nesse caso, a intenção posterior é a de servir a uma determinada atividade prática.
Entendamos melhor, portanto, a atividade teórica. Como dissemos anteriormente, para Vázquez (2007), a atividade teórica corresponde tanto a produção de fins como a de conhecimentos. Segundo Vázquez (2007, p.232), “ainda que a ‘prática’ teórica transforme percepções, representações ou conceitos, e crie o tipo peculiar de produtos que são as hipóteses, teorias, leis, etc., em nenhum desses casos se transforma a realidade”. O objeto da atividade teórica são percepções ou sensações ou conceitos, teorias, representações ou hipóteses. O fim é elaborar ou transformar esse objeto, por meio de atividades, tais como: compreender, interpretar, analisar, abstrair, sintetizar, entre outras, visando como produtos novas teorias.
Então, refletir sobre a prática pedagógica, discutir com os pares, estabelecer objetivos, definir estratégias metodológicas, avaliar, são atividades diretamente relacionadas à prática, mas não imprimem o caráter de prática.
Concordamos com Vázquez (2007) que, mesmo considerando a unidade da teoria e prática e que tais atividades sejam efetivadas por um corpo não fragmentado, que são condicionadas pelas práticas do sujeito, elas são da ordem da subjetividade, não se identificando com o que estamos defendendo que é a prática/práxis. Lembremos que a práxis envolve a atividade prática transformadora da realidade social ou natural, adequada a fins.
Nesse sentido, a teoria contribui para a transformação do mundo, para a atividade prática transformadora, mas, por si só, efetivamente não é possível fazê-la. A teoria pode explicar a ação, guiá-la, confrontá-la, fundamentá-la, ampliá-la, enriquecê-la, relacionar-se com a prática e é revelada, nas tomadas de decisão, nas atitudes, nos materiais, ou seja, a atividade teórica se revela objetivada no dia a dia. Nas palavras de Vázquez (2007, p.249), “[...] a teoria e a prática se unem e se fundem mutuamente”.
Se estamos abordando a relação entre teoria e prática, tendo como foco o fenômeno educativo, compreendido como um processo histórico e social que tem aspectos teóricos e aspectos práticos, entendemos que a teoria depende da prática na medida em que esta a respalda, em um diálogo da prática à teoria e também desta para a prática. A relação teoria e prática se dá na articulação das discussões e das ações, contribuindo para a formação continuada de professores/as. Nessa articulação, continuamente, são tecidas pelos sujeitos encarnados redes de saberes, construídas por cada um e pelo coletivo.
Esse trânsito se efetiva em nossas reflexões e discussões em sala de aula, envolvendo as apreciações de um vídeo, de uma fotografia, de um espetáculo; os relatos da prática pedagógica; as leituras e vivências corporais; entre outras atividades frequentes em nosso cotidiano nos dispositivos de formação. São cenas de momentos que refletem a unidade teoria e prática e podem provocar possíveis mudanças, de forma não-linear.
Desse modo, em nosso caso, o valor da prática pedagógica é assim enfatizado na teoria e esta se desenvolve em nome da prática, em busca de respostas para satisfazê-la e, outras vezes, influenciando-a na criação e no
encaminhamento de uma nova prática. Essa atitude consciente ocorre pela atitude reflexiva do sujeito, na qual teoria e prática se entrecruzam, se entrelaçam.
4.6 SOBRE A REFLEXÃO COMO PRÁTICA E PROCESSO DE FORMAÇÃO