• Sonuç bulunamadı

O estádio estético é aquele no qual a pessoa – esteta – apreende a realidade por meio do sentimento. Assemelha-se, desse modo, ao ideal romântico que constata a dificuldade da razão de operar a mesma apreensão, uma vez que esta o faz de maneira analítica, perdendo a totalidade do real. O sentimento teria a capacidade de colher sua unidade, o que se chamaria apreensão estética. Nesse sentido, o esteta não estabelece compromisso com os particulares para não perder o todo. Sua relação com estes é superficial. Não estabelece compromisso. Ao contrário, atém-se ao que agrada os sentidos. Há aqui uma absolutização da subjetividade. Por perceber- se como um ser de possibilidades, pretende mantê-las em aberto. Decisões implicam perdas de possibilidades – embora acabem abrindo outro infinito possível. No mais, nada garante o sucesso das escolhas feitas. Porque a idealidade (daquilo que se apresenta como possível) se distingue da realidade (quando se tenta concretizar o possível). O indivíduo não pode controlar a existência. E, para se manter no controle evitando o fracasso, o esteta não estabelecerá compromissos, simulando liberdade. Não quererá vincular-se a nada. A liberdade é possibilidade de escolhas e só se realiza quando opções são feitas. Não obstante, o não escolher já é escolha, ainda que não seja uma opção consciente do indivíduo. Por não ser decisão clara, afigura-se mais a um simulacro de liberdade.

Don Juan é um exemplo de esteta dado por Kierkegaard. Seu desejo não se volta para o que há de excepcional em uma mulher, mas ao que é comum a todas as mulheres. Sua busca pela generalidade é busca pelo infinito, que tenta efetivar-se na multiplicação infinita das experiências finitas. Por isso, terá inúmeras donzelas e não terá, de fato, nenhuma. Outra postura também seria a do romântico que nunca chega a completar sua união com a amada para, mantendo as possibilidades em aberto, não arcar com a responsabilidade de um possível fracasso da relação (idealizada), caso esta venha a se efetivar. Se o segundo não se relaciona com realidade, mas sim com a ideia, o primeiro, tampouco. Em sua preferência pelo gênero em detrimento do indivíduo, não chega a afirmar um “tu”, a alteridade. Preferirá a fugacidade do momento a um compromisso que o leve a afirmar o outro. Assim, sua busca por prazer momentâneo se dá com o intuito de olvidar da instabilidade da existência. Essa tentativa de controle não passa de uma afirmação exacerbada do eu, que acaba perdendo a si mesmo. Ele se perde ou na multiplicidade do mundo – sem habitar o tempo, já que vive no instante que não o presentifica –, ou na idealidade romântica – que o abstrai do real. Afirmar-se no tempo requer compromisso com o real, mas o esteta se entedia e foge. Não pode deparar-se com a própria condição existencial.

Até o instante do esteta é uma aparência de instante. Ao viver o momento, quer trazer de volta prazeres passados. Mas esses também passam. Então se lança na busca de prazeres novos. Relaciona-se com o futuro por força da frustração do passado querendo fazer do presente um tempo que não passe. E como não se pode deter o instante de satisfação, a vida estética será marcada pelo vazio e pelo tédio. A infinidade de desejos do esteta o faz viver a angústia de nunca se satisfazer. O eu é o centro de sua vida e, nessa afirmação do eu, perde a si mesmo, fugindo do fracasso existencial na generalidade do mundo ou na idealidade, fugacidade do momento ou reflexão desencarnada. A absolutização do eu, que caracteriza o esteta, chama-se ironia.

Compreendendo o eu, para além de qualquer determinação e superior às delimitações conceituais, a ironia é estado de espírito ou atitude intelectual que ressalta as distinções entre a vida infinita e a vida finita, entre o infinito e suas manifestações particulares. A multiplicação infinita de experiências finitas pretende, na flutuação sobre generalidades, salvaguardar o eu como norma absoluta elevada sobre o mundo. Nada pode contê-lo, por isso não estabelece compromisso e exalta a subjetividade. Ironicamente, tudo está referido a ele, ao passo que, esteticamente, está desprendido de tudo. A ironia é elevação da subjetividade para além das determinações. Está implicada aqui uma consideração de superioridade sobre o mundo. O riso irônico é o riso que se compreende acima da realidade.

A partir da visão kierkegaardiana se pode postular que, se o eu é o absoluto do ironista, tudo o mais é ridículo. Aquilo que poderia ser o trágico da existência é reduzido a fragmentos patéticos, todos igualados ao que é inferior ao eu. A comédia irônica pode tratar coisas opostas como iguais e encontrar aí seu riso. A objetividade do real é reduzida a um real que se refere ao

eu. Assim, pode-se rir de tudo porque o eu está a salvo. Tudo o que não é eu se iguala ridiculamente em sua fragilidade. Nesse sentido, a ironia é corrosiva. Destrói tudo o que tenha aparência de absoluto, menos o eu. A vida é uma grande comédia. Para Kierkegaard, contudo, ela não é ruim. Consiste em uma cultura específica que experimenta valores, evidenciando a fragilidade das coisas (e permitindo encontrar o que tem consistência – caso da ironia socrática que segue de um método para uma nova construção de saber denominada maiêutica). A ironia permite fabular apropriando-se do discurso alheio e negando-o ao mesmo tempo uma vez que opera pela generalidade. Flutua sobre os sentidos gerais da imagem evidenciando a fragilidade da verdade das coisas. Toda a imagem é polissêmica e a verdade é a subjetividade. Ou seja, seu sentido se encontra na relação. A subjetividade irônica desliza por entre os sentidos de uma imagem em tensão que é cada sentido e não o é, imagem tensa ou crítica, como se dirá no capítulo seguinte. O ironista se distancia da representação. Pretende-se acima do mundo, do bem e do mal, e comporta-se como ridente.

A ironia aprofundada, como elevação da própria subjetividade, pode fazer com que o indivíduo reconheça sua singularidade e interioridade. Por querer distinguir-se do mundo pode chegar à percepção de que a individuação só se alcança na afirmação do eu no mundo, no escolher sobre si-mesmo, no fazer opções. Poderá, enfim, estabelecer compromisso com o real em vez de fugir da finitude. É por isso que a ironia não é exclusividade do estético. Como reflexão, não está, stricto sensu, no estético; por se demorar nas contradições da existência, também não é propriedade de um estádio seguinte. Ao contrário, a ironia é um interestádio que, sendo marca do estético, viabiliza um salto para estádio ético.

Benzer Belgeler