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Tragédias mundiais, indiscutivelmente, teriam sido as responsáveis pela recolocação – ou colocação – do Estado na posição de provedor de bens e segurança sociais. Foram, sem dúvida, ditadores de um modo distinto de enfrentar as faces múltiplas da questão social os eventos ruidosos que marcaram a arena do mundo no século XX: a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), a Depressão Econômica de 1929 (1929–1933), a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), entre outros.

Carreira (1996) afirma que foi somente após a Primeira Guerra Mundial que vários países introduziram em seus textos constitucionais dispositivos que regiam questões relacionadas à ordem econômica e social. E cita como a de maior renome a Constituição de Weimar.

A Europa, devastada pela Primeira Guerra Mundial, buscou em suas sobras e escombros o elemento de sua reconstrução: o nacionalismo desmedido. Pelo mundo espalharam-se suas efígies mais odiosas: na Itália, sua materialização coube a Benito Mussolini, sob a expressão do fascismo; na Alemanha, foi forjado pelo furor desmesurado de Adolf Hitler, na forma do nazismo; na União Soviética, pelas mãos e obras de Stalin (1924–1953).

Acho oportuno trazer, aqui, o que Brecht (1989, p. 17) escreveu acerca de nacionalismo. Ele que bem soube o que significou esse sentimento:

O sr. K. não achava necessário viver num determinado país. Ele dizia: “Posso passar fome em todo lugar”. Mas um dia passou por uma cidade que era ocupada pelo inimigo do país no qual vivia. Então cruzou com um oficial do inimigo, que o obrigou a descer a calçada. O sr. K. desceu, e notou que estava aborrecido com esse homem, e não apenas com ele, mas sobretudo com o país ao qual ele pertencia, de modo que desejou que esse país desaparecesse da face da Terra. “Por que me tornei um nacionalista por um minuto?”, perguntou o sr. K. “Por ter cruzado com um nacionalista. É por isso que se deve eliminar a estupidez, porque ela torna estúpido aquele com quem cruza”.

Finda aquela guerra, à Alemanha impusera-se o ônus da reconstrução dos territórios devastados, mas vencedores(?) naquele conflito bélico. E, mais tarde, sob os mantos do nacionalismo cego, fervoroso, ensandecido de Hitler, a Alemanha,

humilhada, que abafara suas mágoas e dores morais, iria não muito tempo depois desaguá-las em mares sangrentos, numa reedição mais aprimorada daquele evento bélico.

Afirma Simmel (1977) que os conflitos decorrem do ódio, da inveja, da necessidade, da riqueza. Assim – penso –, deve a humanidade indagar-se acerca do que tem ainda por assistir e, sobretudo, ao que terá de submeter-se para que se vejam expurgadas essas formas de imputação de humilhação que países poderosos entendem como seu direito praticar contra aqueles sobre os quais já lançaram as raízes e os frutos da pobreza.

É, ademais, importante que não seja esquecido, por toda a humanidade, que sentimentos de mágoa, insatisfação, injustiça, perda, vingança, ódio, revolta e outros tantos podem constituir sementes que poderão em qualquer momento, sob novos ou velhos ventos e chuvas, germinar situações em que se reavivem as dívidas pendentes, as perdas não reparadas e as feridas não cicatrizadas. Sobremaneira se as feridas são, a todo tempo, tocadas sem leveza, fazendo-as dor permanente. E, novamente, lembrando Brecht (2000, p. 64):

A chuva

Não volta para cima.

Quando a ferida não dói mais Dói a cicatriz.

Reafirmando o que disse atrás, a cicatriz é uma metáfora de um discurso; uma possibilidade de um ato (re)fundador, (re)instalador. Mas conflito não é sinonímia de violência! É preciso, disso, não esquecer! Assim também, não é bom esquecer que as pazes oriundas das guerras não exterminam os ódios e as sementes que eles lançam sobre perdedores e vencedores, indistintamente, nos campos em que combateram os dois inimigos.

É fato que, ao fim da Primeira Guerra, vieram a se tornar potências mundiais os Estados Unidos – no Ocidente – e o Japão – no Extremo Oriente. Em contrapartida, a Alemanha via a miséria cada vez mais próxima de si.

A Primeira Guerra Mundial (1914–1918), bem como a Revolução Russa (1917) fariam o mundo herdeiro de outra ordem econômica, política e social. Não só o nacionalismo irrompia com a guerra: o protecionismo econômico arraigado nas

nações ricas era o outro ídolo que se punha em permanente e obsessiva idolatria, no pós-guerra.

A fome e a gana de poder fazem acender a disputa pelos clarões dos holofotes do mundo: Japão e EUA são os novos declarados antagonistas.

Os esforços alemães na direção de enfrentar a crise econômica por que atravessava, em decorrência da herança da guerra, mostraram-se inócuos. Não redundaram em mudanças significativas, naquele quadro crítico, as medidas que o governo alemão encetou, em torno de 1923, para controle da inflação vertiginosa que o país estava a enfrentar. O quadro ganhara proporção, cor, dimensão e tom de tragédia: “[...] a hiperinflação já havia feito milhões de vítimas: agudo descenso no nível de vida da classe média e de todos os assalariados, ruína dos comerciantes etc.” (CATELLI, 1966, p. 19). E nesse exato cenário é que, pouco mais tarde, iriam pulsar as vontades cruéis e sangrentas de Hitler.

Enquanto a Alemanha agonizava, os Estados Unidos e o Japão regozijavam-se. Os EUA se tornariam, assim como a Inglaterra, os “banqueiros do mundo” (CATELLI, 1966, p. 19). A indústria americana, em franco processo de expansão e vertiginoso enriquecimento – via adoção de um padrão, cada vez mais especializado, de produção (fordismo) –, ofertava seu manto protetor-financista – a juros impagáveis – a países menos favorecidos.

Uma riqueza produtora de riqueza – a especulação financista –, que parecia inesgotável, foi indiscutivelmente um fator importante no curto-circuito ocorrido naquele teatro, deixando no escuro, em primeiro lugar, a estrela do espetáculo: os EUA. Também não menos importante foi o fato de que, como declara Catelli (1966, p. 35): “Grande parte da população não conheceu aumento no seu poder aquisitivo comparável ao desenvolvimento da economia, de forma que o mercado interno não cresceu nas mesmas proporções que a produção”. Mais uma vez esse evento ganhava a cena!

A tragédia financista anunciada, em 19 de outubro, pelo New York Times tem seu apogeu na fatídica quinta-feira, 29 de outubro de 1929: o crack da Bolsa de Valores de Nova York. A partir dali, como efeito de uma onda gigantesca, episódios trágicos foram avolumando-se, ganhando corpo, ocupando, em curto espaço de tempo, o cenário no mundo inteiro. Era a Depressão Econômica de 1929: desemprego, miséria, falências, suicídios, fome, mortes. O mundo financeiro estava sendo devastado! O mercado mostrava, de novo, do que era capaz! Mas ele já vira

essa lição; já era um repetente! Sabia o caminho que deveria percorrer para retomar o trilho...