No universo do processo ontocriativo ao qual Kosik se refere, a produção de conhecimento se manifesta, do mesmo modo, como atividade consciente que objetiva a um
fim, isto é, na forma da produção de conceitos, hipóteses, teorias ou leis mediante as quais o homem conhece a realidade. Não se trata de uma atividade realizada abstrata e puramente como mera atividade da consciência, mas como atividade baseada na práxis objetiva da humanidade, como qualquer outra atividade. Vázquez (2007) pondera:
Não se conhece por conhecer, mas sim a serviço de um fim, ou série de fins que pode ter como elo inicial o da conquista da verdade; por sua vez, como já assinalamos, os fins que a consciência produz levam em seu seio uma exigência de realização, e essa realização pressupõe – entre outras condições – uma atividade cognoscitiva sem a qual tais fins nunca poderiam ganhar chão, isto é, realizar-se. Por outro, todo fim pressupõe determinado conhecimento da realidade que ele nega idealmente, e nesse sentido – como índice de certo nível cognoscitivo – não poderia tampouco se desvincular do conhecimento (Op.Cit., p. 224).
Vê-se que o conhecimento humano é um modo complexo de apropriação da própria realidade. Como atividade consciente, integra-se inerentemente à prática do homem de transformar a natureza exterior e à própria natureza, posto que as atividades cognoscitiva e teleológica da consciência interagem na práxis organicamente. No entanto, vale destacar conforme Vázquez, que o conhecimento se coloca em relação à prática por meio dos fins e não limitado à esfera da consciência, ou seja, uma atividade que se opera apenas no pensamento, “se não salta para a esfera da ação, não pode se identificar com a atividade prática que chamamos práxis” (Idem, p. 236).
Barata-Moura segue com criterioso alerta no que diz respeito às atividades do pensamento. Ele diz: “nem toda atividade humana é, em si mesma, e desde logo, prática. De um ponto de vista próprio, a prática é atividade materialmente transformadora” (BARATA- MOURA, 1994, p. 90). A atividade do pensamento, da reflexão, da própria produção do conhecimento, se não se converte em ato material de transformação da realidade objetiva e, portanto, do indivíduo mesmo que a opera, não consiste em atividade prática, em práxis. Ou seja, só é possível construir ou transformar a realidade humano-social pela prática. O autor luso arremata:
No interior desta complexidade múltipla (por vezes contraditória) de determinações e relações, como ingrediencia sua (e não como instância dualizadamente justaposta ou sobre-imposta), a prática desenvolve e consuma um incontornável poder de reconfiguração (da realidade). Em suma, para compreender e para transformar a realidade – o horizonte do nosso viver concreto – a instancia da prática é decisiva. (Op. Cit., p. 89)
Ora, na atividade prática, o sujeito age sobre uma matéria que existe (na natureza ou na sociedade) independentemente de sua consciência. O fim de sua atividade é a transformação real, objetiva, da realidade primeira para satisfação de suas necessidades. Sem que efetive uma ação transformadora do objeto externo, ou seja, caso permaneça limitado à
sua atividade subjetiva ou psíquica - que não se objetive materialmente - o resultado de sua atividade não se concretizará, não sendo efetivada, portanto, nenhuma modificação da realidade em que vive, seja do meio ou dele mesmo como ser social. Afinal, como afirma Vázquez (2007, p. 225) “o produto de sua atividade transformadora é um objeto material que subsiste independentemente do processo de gestação e que, com uma subjetividade própria, se afirma diante do sujeito, isto é, adquire vida independentemente da atividade subjetiva que o criou”.
Sobre a relação entre a produção material e a atividade teórica15 cabe sempre alertar para o fato de que, embora esta última seja indispensável a qualquer ato de transformação da realidade - na medida em que elabora e organiza perspectivas, projetos, hipóteses, estabelecendo finalidades - a atividade teórica em si não é capaz, por si (ou seja, sem a dimensão efetivamente prática), de transformar a realidade concreta.
Parece improvável, no entanto, que alguma produção teórica não se relacione à vida prática se consideramos que, na perspectiva da totalidade, estabelece-se uma relação intrínseca e necessária entre os dois momentos (pensamento e ação) na produção do conhecimento. Na Tese II sobre Feuerbach, Marx (2002, p.100) nos aponta: “A discussão sobre a realidade ou a irrealidade do pensamento – isolado da práxis – é puramente escolástica”. Entendemos deste trecho que pretender separar a práxis da produção do conhecimento, desconectando-as, já se tendo admitido que a prática representa não só critério de validade da teoria, mas também seu fundamento; já se tendo ademais reconhecido sua primazia em relação à teoria; ou seja, quando já se tenha claro o lugar de cada uma destas esferas na formação ontológica do ser humano, a questão do isolamento entre conhecimento e práxis configura como uma dispensável formalidade mecânica e antidialética.
Kosik (1995, p.33), neste sentido, defende que “toda teoria do conhecimento se apoia, implícita ou explicitamente, sobre uma determinada teoria da realidade e pressupõe uma determinada concepção da realidade mesma”. No trecho a seguir, ele descreve - numa concepção materialista e dialética - como se dá a relação imanente entre produção do conhecimento e a realidade, na prática:
A teoria materialista distingue um duplo contexto de fatos: o contexto da realidade, no qual os fatos existem originária e primordialmente, e o contexto da teoria, em que os fatos são, em um segundo tempo, mediatamente ordenados, depois de terem sido precedentemente arrancados do contexto originário do real. Como é possível, porém, falar do contexto real, em que os fatos existem de maneira primordial e originária,
15Compreendemos teoria aqui, de acordo com (Vázquez, 2007, p.17), como a “estrutura sistêmica que permite ordenar e hierarquizar de forma concreta o conjunto que pode parecer caótico do ponto de vista superficial de manifestações concretas da mesma”.
se tal contexto só pode ser conhecido pela mediação de fatos que foram arrancados do contexto do real? O ser humano não pode conhecer o contexto do real a não ser arrancando os fatos do contexto, isolando-os e tornando-os relativamente independentes. Eis aqui o fundamento de todo conhecimento: a cisão do todo. Todo conhecimento é uma oscilação dialética (...), oscilação entre os fatos e o contexto (totalidade), cujo centro ativamente mediador é o método de investigação (Kosik, 1995, p. 57, grifo nosso).
O filósofo marxista nos provoca a compreender que a realidade objetiva, - não a natural16, mas a criada pela práxis humana - é o alicerce concreto da vida social e que o conhecimento muda com ela conforme sua dinâmica, que se dá de forma interativa, dialética, isto é, num movimento que configura a totalidade concreta17: “a cisão do todo”. Classifica esta como a característica fundamental de todo conhecimento dialético, que exige um processo de mutualidade ativa entre o todo e cada um dos fatos isolados. Fatos estes que somente podem ser conhecidos a partir de seu descolamento da realidade e posterior submissão à análise, à investigação, o que Kosik chama de “reprodução espiritual da realidade”. Sem o referido movimento, a compreensão dialética da realidade concreta não se realiza, estabelecendo-se então a concepção geral de uma “má totalidade” 18, fragilizando-se assim, as possibilidades de transformação efetiva, revolucionária desta realidade.
Isto porque o conhecimento guarda a imprescindível função de legitimar, consolidar, disseminar, problematizar e, consequentemente, orientar as diversas práxis – embora, reiteramos, nunca sozinho seja o agente de transformações materiais. A práxis, como vimos, é antes de tudo, ação objetiva. Portanto, não se pode afirmar que a riqueza da realidade depende ou muda a partir da mudança do mero pensamento em si ou da compreensão que dela se tem, ainda que se apreenda o caráter de indivisibilidade e autonomia na relação entre produção de conhecimento dialético e realidade concreta.
Nas Teses sobre Feuerbach, ao combater o materialismo contemplativo daquele, Marx (2002) insiste no reconhecimento da dimensão humano-sensível da práxis e na necessidade de transformação prática do mundo19. Analisando-as, Barata-Moura (1994, p. 95- 96), afirma que a qualificação de ‘sensível’ aparece porque se manifesta aos sentidos, e sendo
16Importante observar que aqui não negamos a realidade natural como base ontológica da realidade humano- social. Na distinção das duas ordens de realidade, é a realidade natural que torna possível, a partir de sua transformação pelas práticas humanas, a constituição da realidade humano-social. A distinção, portanto, se faz necessária por considerarmos ser também a realidade natural uma realidade objetiva.
17“Na realidade, totalidade não significa todos os fatos. Totalidade significa: realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjuntos de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido” (KOSIK, 1995, p.43).
18Para Kosik (1995, p.61-62), a má totalidade é aquela produzida pelo “processo de conhecimento que não descobre a autêntica objetividade histórica por baixo da aparente objetividade do fenômeno, tornando o conhecimento prisioneiro da intuição fetichista”.
assim, atesta a materialidade da atividade prática, cuidando para que no curso desta compreensão, “não se dissolva em subjetividade a materialidade” presente. Ainda assim,
não é, pois, a liminar desqualificação da “interpretação” que aqui se encontra em causa, mas outra coisa, muito diferente e de bem mais vasto alcance: não confundir uma diferente interpretação teórica para uma realidade que se deixa intocada – “inventar frases novas para interpretação do mundo existente” – com a instauração prática material da diferença (ou do diferente), isto é, com a transformação efetiva de um mundo carecido de mudança qualitativa ou estrutural. Aquilo que de nuclearmente se trata não é apenas de mudar as ideias ou de transformar as mentalidades – é de transformar mesmo, isto é, materialmente. (MOURA, 1994, p. 91).
O incansável e imprescindível combate dos estudiosos marxistas contra o limite da contemplação e do idealismo no âmbito da luta de classes e a necessidade de reafirmação do princípio do materialismo histórico de que os homens são sujeitos de sua própria história, requer a cuidadosa ponderação do papel do conhecimento e da subjetividade na práxis revolucionária. Numa concepção dialética de totalidade, é desafio atentar para as armadilhas dicotômicas. No que tange à práxis, superar as unilateralidades opostas, pensando o sujeito histórico em sua integralidade, reconhecendo-lhe todo o poder material de intervenção no mundo.
Konder (1995, p.124) infere com tranquilidade que “o que a práxis exige do sujeito é que ele não se limite à interpretação. Em nenhum momento, todavia, ela poderia prescindir do esforço interpretativo, que lhe permite corrigir-se autocriticamente, aperfeiçoar- se e alcançar seus objetivos, sua meta (telos)”. Também para Vázquez (2007):
A atividade prática é simultaneamente subjetiva e objetiva, dependente e independente de sua consciência, ideal e material, e tudo isso em unidade indissolúvel. O sujeito, por um lado, não prescinde de sua subjetividade, mas também não se limita a ela; é prático na medida em que se objetiva, e seus produtos são a prova objetiva de sua própria objetivação (Op. Cit., p. 262).
Portanto, para que a prática seja apreendida em seu papel inexorável de fundamento, fim e critério da verdade, necessita da mediação da atividade teórica, do conhecimento. Ou poderia a prática falar por si mesma, direta e imediatamente? Implica necessário entender que teoria e prática se relacionam mutuamente, interagindo organicamente na práxis, apesar de não constituírem atividades idênticas. Trata-se de uma relação intrínseca e autônoma:
A prática mantém sua primazia com respeito à teoria, sem que essa primazia dissolva a teoria na prática nem a prática na teoria. Por manterem relações de unidade e não de identidade, a teoria pode gozar de certa autonomia em relação às necessidades práticas, mas trata-se de uma autonomia relativa, uma vez que, como vimos insistindo, o papel
determinante corresponde à prática como fundamento, critério de verdade e fim da teoria. Ou seja, apesar de claros os fundamentos que levam a prática a manter primazia em relação à atividade teórica, não se pode admitir uma oposição absoluta entre ambas, ao considerar que a prática – concebida como práxis humana total – estabelece um vínculo imanente com as atividades da consciência, do pensamento. Ainda nos casos em que a atividade teórica se pretende autônoma, distanciando-se excessivamente da ação ou mesmo considerando que a prática lhe constitui mácula, estabelece-se aí, conforme Vázquez (2007, p. 242), não uma oposição absoluta, mas relativa, “ou melhor, trata-se de uma diferença – no seio de uma unidade indissolúvel”. Apreender tal relação de organicidade quando se determina o primado da práxis em relação à teoria é um passo elementar para reconhecer a dimensão humana em sua totalidade.
Toda esta discussão, contudo, se dá no contexto de um processo histórico social e que “a história do conhecimento (do saber humano em seu conjunto) e da práxis (das atividades práticas do ser humano) são abstrações de uma única e verdadeira história: a história humana”. Afinal:
É uma prova de mecanismo dividir abstratamente essa história em duas, e depois tentar encontrar uma relação direta e imediata entre um segmento teórico e um segmento prático. Essa relação não é direta e imediata, mas sim por meio de um processo complexo no qual algumas vezes se transita da prática à teoria, e outras destas à prática. (VÁZQUEZ, 2007, p. 256.)
A cada modo de organização social, inúmeras e complexas mediações se estabelecem a partir dos processos históricos constituídos pelo ser humano. No curso das modificações históricas, a concepção de práxis também se transforma, expressa no seio das contradições sociais. Enfim, “concomitantemente às modificações na concepção e na prática da práxis, modificaram-se de maneira correspondente também a concepção, a tarefa e o sentido da filosofia, assim como o conceito do homem e do mundo” (KOSIK, 1995, p. 218).