Quanto maior a produtividade extraída da força de trabalho pelos proprietários dos meios de produção, maior será a grandeza da sua riqueza e maior será a acumulação de capital. Para extrair maior produtividade do trabalho, o capital aprimora suas técnicas continuamente. Para isto, lança mão de estratégias para extrair maior produtividade a custos mais baixos como, por exemplo, com a substituição da força de trabalho masculina pela feminina ou infantil, trabalho qualificado por aqueles com menos qualificação, a adoção de novas tecnologias, etc.
No caso dos catadores, viu-se que eles são os responsáveis pelo trabalho primário, o de coletar a matéria-prima que será processada pela indústria para a produção de novas mercadorias; viu-se também que, por receberem pelo produto de seu trabalho, precisam se lançar em jornadas diárias extenuantes. Uma relação que se revela perniciosa, por ser exatamente o fato de estarem numa condição social subalterna que os torna qualificados para este tipo de ocupação, afinal, dispor da opção de utilizar uma mão de obra a baixo custo na primeira etapa da produção é um dos fatores que possibilita à indústria tornar os preços dos materiais reciclados cada vez mais próximos dos materiais não reciclados.
Seriam os catadores uma das expressões do lumpemproletariado ou uma superpopulação relativa contemporânea, guardadas as peculiaridades da nova realidade do mundo do trabalho? Para Marx (1994, p. 747), “a força de trabalho disponível é ampliada pelas mesmas causas que aumentam a força expansiva do capital”. Esta é a lei geral, absoluta da acumulação capitalista. No capítulo XXII do Capital46, o autor caracteriza a importância da manutenção de uma força de trabalho assim estruturada:
[...] se uma população trabalhadora excedente é produto necessário da acumulação ou do desenvolvimento da riqueza no sistema capitalista, ela se torna por sua vez a
46 Valer-se das categorias históricas utilizadas por Marx para analisar as relações sociais de produção contínua sendo imprescindível para desmistificar discursos pseudoconcretos sobre as causas da miséria, do desemprego, da desigualdade social, situando-os, em realidade, como processos intrinsecamente relacionados à lei geral de acumulação capitalista - principalmente no seu estágio imperialista ou monopolista -, colocando-as como consequência da exploração do trabalho, da lógica de formação de uma superpopulação relativa, da necessidade de uma maior extração de mais-valia, etc.
alavanca da acumulação capitalista, e mesmo condição de existência do modo de produção capitalista. Ela constitui um exército industrial de reserva disponível, que pertence ao capital de maneira tão absoluta como se fosse criado e mantido por ele. Ela proporciona o material humano a serviço das necessidades variáveis de expansão do capital e sempre pronto para ser explorado, independentemente dos limites do verdadeiro incremento da população. (MARX, 1994 p. 733-734).
Observa-se, contudo, que numa sociedade onde tudo vira mercadoria, os resíduos por ela gerados convertem-se em único meio de subsistência de uma população também descartada pelo metabolismo do sistema e que, assim como o lixo, é reaproveitada, reutilizada pela indústria da reciclagem, como num processo atroz de sobrevida humana.
Dada a atual complexidade no circuito de acumulação do capital, de acordo com algumas análises, esta população não teria mais funcionalidade para o capital, podendo ser considerada, de fato, descartável. Souza (2005, p.5), afirma em sua pesquisa que a superpopulação relativa ou “massa marginal” hodierna têm assumido cada vez mais “uma formal afuncional, aumentando em escala global o contingente de trabalhadores supérfluos à dinâmica capitalista”. Afirma ainda que esta população tem se expandido progressivamente, “dado o nível de superfluidade de trabalhadores que, em condições de pobreza ou miséria absoluta, não logram chance alguma de (re)inserção no mercado de trabalho e, por conta disto, não exercem nenhuma pressão sobre o movimento de expansão do capital”. Para ele, o problema da marginalidade e do subemprego tem sido maior do que o do desemprego, principalmente nos países capitalistas periféricos.
À medida que a quantidade de precarizados e informais, parcela ativa do exército industrial de reserva (constituintes da superpopulação relativa estagnada) e pobres e miseráveis se torna cada vez maior, a superpopulação relativa (latente e flutuante) sofre um progressivo decréscimo (SOUZA, 2005, p.5).
Tal fenômeno está relacionado ao debate sobre o desemprego estrutural - fruto da revolução científico-tecnológica em curso -, que consigo traz reformulações profundas ao mundo do trabalho, como a diminuição da necessidade de grande quantidade de mão de obra para assegurar a reprodução ampliada do capital.
Praticamente esgotadas as condições de se criar postos de trabalho necessários para compensar os que são destruídos e incorporar a força de trabalho disponível, “um contingente cada vez maior de pessoas transforma-se de exército de reserva em lixo industrial humano – não apenas não tem trabalho ou capacidade de gerar renda suficiente como não tem as qualidades requeridas para nele reingressar” (BURSZTYN, 2000, p. 69). Para Burszty, estes trabalhadores perdem qualquer função produtiva ou de consumo significativo, ou se inserem de forma marginal no processo produtivo, e passam a se constituir em um peso
econômico para a sociedade (dos que trabalham e/ou tem renda) e para os governos. Desnecessários ao circuito central do consumo quando consideramos a informação da ONU47 de que 86% de todo o consumo global é feito pelos 20% mais ricos do mundo e que os 20% mais pobres são responsáveis por apenas 1% do consumo global.
Ao observarmos a importância da classe trabalhadora para a produção de riqueza nas sociedades antigas, que se valiam da escravidão ou da servidão, estas não eram consideradas ‘desnecessárias’. Ao contrário, constituíam grupos cuja manutenção física era de interesse geral dos dominadores. No caso do segmento da classe trabalhadora considerada supérflua na contemporaneidade, sua utilidade para a acumulação de capital parece atingir alto grau de prescindibilidade. Como analisa Bursztyn (2000, p. 39): “trata-se de uma nova categoria social que, sendo desnecessária, é passível de, no limite, ser eliminada fisicamente por serem inúteis e perigosos”. É neste lugar que os catadores de materiais recicláveis costumam ser situados na estrutura social. De acordo com Sousa (2010):
Cria-se, portanto, na periferia do sistema, uma “população supérflua” que se integra ou que se encontra no sociometabolismo do capital como uma população desnecessária para o circuito central da produção e do consumo. Trata-se de uma população crescente que vive das sobras produzida pelo circuito central de realização socioeconômica. Trata-se de uma população que vive entre as sobras, trabalha com as sobras e consome sobras, ou seja, que tem sua história vinculada aos (e que praticamente se esgota nos) processos de reciclagem. (Op. Cit., p. 161).
O setor de reciclagem, entretanto, em seu processo de acumulação de capital nos países periféricos - como já fora mencionado -, figura como grande absorvedor desta força de trabalho excedente. O caráter de prescindibilidade da “população supérflua” para a indústria de reciclagem, em específico, torna-se questionável. Em parceria com o Estado, representa socialmente uma forte oportunidade de geração de renda, “incluindo” trabalhadores que não tem chance no jogo formal do mercado. Em essência, esta população descartada proporciona ao capital uma fonte inesgotável de força de trabalho disponível.
3.4 Artifícios para a naturalização do absurdo.