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Dentre essas metas estabelecidas pelo Projeto Parteiras Tradicionais do Amapá (1995), era necessário alcançar uma das metas prioritárias relacionada ao recebimento de salário que é direito, reivindicado pelas parteiras. O governo do Amapá estabelece a remuneração das parteiras tradicionais para os anos de 1995 a 2002. Tal meta dependia também do Ministério da Saúde, da inclusão dessa categoria no Sistema Único de Saúde

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Esses dados foram fornecidos pela Agência de Valorização de Parteiras Tradicionais (AVPT/SIMS), em fevereiro de 2013.

(SUS). Entretanto, como o salário das parteiras ainda não tinha sido regularizado a nível nacional, o governo do estado do Amapá deu apoio às parteiras distribuindo mensalmente, através de suas associações, uma cesta de complementação alimentar (SILVA, 1999, p. 7). Esta é umas das estratégias políticas de recompensa financeira ao trabalho dessas mulheres que prestam serviços de saúde em comunidades interioranas.

O valor da bolsa é simbólico e advém de um programa de renda mínima: Programa Família Cidadã. Dentre os critérios para receber a bolsa está, a participação em curso de capacitação de parteira e ser membro de Associação de Parteiras Tradicionais. No entanto, existe as queixas de algumas parteiras sobre a quantidade de bolsas, pois é inferior ao número de parteiras, mesmo sendo capacitadas, elas não recebem o benefício. Das 25 parteiras entrevistadas, cinco não tem acesso a essa bolsa, embora, preencham os requisitos do programa realizando partos.

Na visão das parteiras que recebem o benefício, o pagamento da bolsa representa um avanço muito importante, pois para elas, até 1998 nem se ouvia falar em pagamento mesmo que fosse um valor irrisório, assim o contentamento é visível na fala de cada parteira e visto como uma grande ajuda, do ponto de vista desta parteira:

A partir desses cursos de capacitações a gente fomos é criando assim uma expectativa de vida melhor, a partir desse momento, o governador decretou que cada uma parteira, tinha que receber a bolsa parteira, nós não tinham beneficio nenhum, então foi dado um salário-mínimo na época pra cada parteira que fizesse seus partos, porque a gente não recebia nada a não ser um “muito obrigado” ou um pouco de farinha ou uma cacho de banana, ou uma galinha caipira, até mesmo um porco era o pagamento que as pessoas davam pras parteiras né? E o governador achando que deveria dar uma ajuda aí criou uma bolsa cidadã que dava um salário-mínimo pra cada parteira aí depois do governador Capiberibe sair, aí foi tirado né? Agora é só meio salário pras parteiras e até hoje muitas delas recebem esse meio salário- mínimo, como gratificação pelo seu trabalho, porque muitas vezes a parteira chega na casa da grávida ela não tem nem se quer um café pra tomar, nem se quer um cueiro, uma fralda uma coisa pra colocar a criança, então a parteira tendo, é ela que ajuda a parturiente, daquele momento, que a parteira vai pra casa da grávida, ela é responsável pelo marido, pelas crianças e pela casa, ela toma conta da casa durante agora já é só três dias antes era oito dias, ela só entregava a mulher depois que ela ganhava o bebê e o bebê depois de oito dias, hoje como, devido, já está mais fácil já tem mais os hospitais os postos de saúde nos municípios, já tem o médico da família, mas nós continua acompanhando os três dias e depois de três dias entregam a mulher já com o bebê na mão do marido (Terra, parteira tradicional).

Pelo depoimento acima, pude perceber que algumas parteiras veem no governo que criou o Programa Família Cidadã, “gratidão” e não exercício de cidadania. Como a parteira Terra, a positividade e agradecimento dessas mulheres são pelo benefício e também pela oportunidade de poder participar dos cursos e “aprimorar seus conhecimentos” (expressão das parteiras).

Certamente para essas mulheres humildes, a bolsa parteira representa um incremento de renda importante, que via de regras, não possui outras fontes de rendas ou recursos. Em muitas comunidades da região amazônica, a presença do dinheiro é restrita e para algumas parteiras é oriunda de benefícios como pescadoras ou aposentadorias ou são beneficiárias de programas de renda implementados pelo poder público. Neste sentido, as parteiras reconhecem nesta bolsa uma grande ajuda, como se pode ver no relato da parteira:

A bolsa parteira contribui muito pra minha vida. Muito principalmente, pra mim assim que eu sou uma mulher que agora só dependendo a base de remédio, negocio de artrose, artrite, entendeu? Dantes a gente não ganhava nada, quinze anos que a gente recebe essa bolsa há quinze anos eu me lembro bem o dia, já faz quinze anos e a gente andou bastante pra conseguir. A deputada Janete, o Capi, todos se interessavam, davam todo esses interior, elas orientava como era que a gente devia fazer. Daí levou, aí a gente ganha esse ajuda não é muito, pelo menos aqui, pra comprar andiroba, pra cuidar da mulher e da criança. E aí que olha, um tempo desse, teve uma mulher que teve neném aí que tava com problema duma coisa que tava saindo aquela secreção preta e as vezes a gente compra água inglesa, as vezes a gente não tem condição, aí você já tendo na sua casa, ai você já leva, já sabe, pra casa da parida né (Luz, parteira tradicional,grifos meus).

Sem dúvida o programa bolsa parteira interferiu na vida dessas mulheres como vemos na narrativa de Luz e contribui de alguma forma para que elas se sintam valorizadas. Embora esse benefício, não se configure de forma efetiva como direito trabalhista e também seja seletivo, ao que parece tem conotação política que demarca a vigência de um governo no poder. Importante perceber que a implantação desse programa modificou na reconfiguração do perfil dessas protagonistas que ao receberem o que elas chamam de “ajuda”, muda também suas vidas e se firmando os laços de solidariedade. Como se percebe na fala da interlocutora acima com esse dinheiro ainda dá pra “comprar andiroba”39. Urge a necessidade de refletir acerca dos acontecimentos ao longo desses 15 anos que as parteiras recebem essa bolsa do programa. As parteiras do Amapá estão cadastradas no Sistema Único de Saúde - SUS e recebem atualmente uma bolsa equivalente a meio salário-mínimo vigente no País, através de um convênio entre o Governo do Estado e o Ministério da Saúde.

De certo modo, a instituição da chamada bolsa parteira produziu uma verdadeira corrida de mulheres das localidades interioranas do Estado e, até mesmo, nas cidades com maior índice populacional para inserir-se nesse programa social das parteiras. Ao possibilitar reconhecimento e visibilidade pública, o Programa encorajou muitas mulheres a assumir a sua condição de parteira. Entretanto, o pagamento da bolsa propiciou o ingresso nessa atividade,

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Andiroba é um óleo retirado da andirobeira, uma árvore nativa da Amazônia. Esse óleo tem várias utilidades para as parteiras, entre elas, serve para “afumentar baques” (massagear), curar umbigo de bebê e puxar mulher grávida e no pós-parto.

de mulheres que, até aquele momento, não revelavam interesse em desenvolver essa prática, constituindo-se mesmo uma estratégia de sobrevivência40.

Vale ressaltar que os dados disponibilizados no setor responsável pela coordenação do Programa – Agência de Valorização de Parteiras Tradicionais (AVPT) – revela aspectos importantes a serem destacados: das 1531 parteiras cadastradas no Programa, 1240 já são beneficiadas com a chamada bolsa parteira. Isso equivale dizer, que é um número significativo quase o total de parteiras cadastradas.

4.2 Descrevendo etnograficamente os Cursos de Capacitação de Parteiras Tradicionais

Embora desde a década de 1940 já existisse curso para parteira no Brasil é em 1990 que os cursos são retomados com mais força, com uma política pública do Ministério da Saúde e nela contida o Programa Nacional de Parteiras Tradicionais (PNPT). A preocupação com a escassez de parteiras profissionais, partos higiênicos e seguros faz com que organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo de Populações das nações Unidas (FNUAP) e o Fundo das nações Unidas para a Infância (UNICEF) promovam treinamentos para parteiras leigas como forma alternativa de saúde de mulheres e crianças sem acesso a serviços modernos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1992).

O Ministério da Saúde divulga as principais atividades do PNPT e, na maioria das vezes, entra com o respaldo político, parte da logística material (os livros, a alimentação e a hospedagem durante o evento) e os recursos humanos. As secretarias estaduais financiam as bolsas de material obstétrico e os municípios, além de convidar as participantes e autoridades sanitárias locais, devem disponibilizar o local e o transporte até os cursos e, depois do mesmo, garantir a reposição do material dos kits. A ONG Partejar está a cargo da organização da ementa didática do curso e a definição da mão-de-obra técnica. Quer dizer, é necessária uma articulação governamental em três níveis, regional, estadual e federal, e uma parceria com as ONGs e movimentos sociais locais (TORNQUIST, 2004).

Ao analisar a OMS, a autora diz que a visão desta organização referem-se a parteiras como figuras associadas à tradição, às sociedades rurais, excluídas dos modernos serviços de saúde; e ainda, essas parteiras “leigas” são responsáveis por mais de 60% dos partos em países em desenvolvimento, segundo a própria OMS reconhece em seus documentos. Também forçosamente reconhece que nesta atuação constante em muitas áreas

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Houve uma grande corrida de pessoas com intuito de ganhar o benefício, porém, as medidas tomadas para cadastramento fez com que muitas mulheres que não eram parteiras recuassem, por medo de serem descobertas. Maiores detalhes em Silva (2005, p. 108).

rurais – nas quais o serviço de saúde é precário ou mesmo inexistente – elas precisam receber um treinamento adequado. É assim que estas parteiras são vistas e descritas pela OMS, e é partir desta concepção – ’saberes’ não modernos – é defendida a necessidade de oferta de cursos de capacitação para parteiras leigas ou tradicionais (TORNQUIST, 2004).

Sobre essa visão da OMS, reflete Tornquist:

Na história social da assistência ao parto, vimos o lugar a que foram sendo confinadas as parteiras, na medida em que avançava a medicalização e, com ela, os conflitos e tensões que se desdobraram nos mais diversos atritos entre profissões. Somente assim é possível entender como, na visão da OMS, a parteira é reconhecida – enquanto prestadora de serviços de saúde e mesmo capaz de realizar intervenções salvadoras – como elemento a mais (talvez remanescente de tempo antigo) em um complexo sistema de atenção ao parto que deve ser alvo de treinamentos e de formação específica. Cabe destacar, nos documentos citados, o fato de as normas culturais e tradicionais serem vistas entre bloqueadoras de seu treinamento e provavelmente ineficazes, em uma clara associação entre um determinado nível cultural que essas parteiras teriam e o resultado que alcançam (TORNQUIS, 2004, p. 224).

É neste contexto que se encontra sentido para analisar os programas de capacitação de parteiras tradicionais, cujos objetivos proclamados são: reduzir a mortalidade neonatal e materna e diminuir os custos que um programa de atendimento de inspiração universal implica. Desta forma, recomenda-se a notificação e o registro dos atendimentos domiciliares, uma espécie de caixa-preta da assistência no Terceiro Mundo.

O caso do Estado do Amapá é um dos exemplos desta questão: segundo dados da OMS e do SINASC, o Amapá é o Estado com menor índice de cesarianas e de mortalidade materna. Estima-se que cerca de 20 a 30% são partos domiciliares feitos por parteiras tradicionais – aquelas, de nível educacional insuficiente e com fortes normas culturais bloqueadoras dos treinamentos. Embora a precariedade dos registros seja notável no âmbito de uma assistência tradicional, estas estimativas têm chamado a atenção de organismos como a UNICEF, co-promotora dos programas de capacitação, cujo coordenador em Belém, em seu prefácio ao livro Parindo um novo mundo, afirma: “O que sabemos é que o Amapá apresenta a menor taxa de mortalidade infantil das regiões Norte e Nordeste e que esta taxa situa-se, historicamente, alguns pontos abaixo da média brasileira, contribuindo, portanto, para a melhoria da taxa nacional.” (CAPIBERIBE, 2002, p. 8).

O Ministério da Saúde sob a orientação da OMS, é bastante claro quanto aos critérios de participação do programa: ser reconhecida pela comunidade como parteira. O crescente interesse pela participação parece indicar a importância que os cursos levados ao interior conferem ao ofício, no sentido de seu reconhecimento social e sua legitimidade governamental, ou até mesmo, como reinvenção de uma tradição, como sugerem as

expectativas pelo curso e a sensação de ‘empoderamento’ que a identidade de parteira parece vir adquirindo nas regiões onde o programa tem se institucionalizado, como o caso do Amapá e do Pará (TORNQUIST, 2004. p. 234).

Fleischer (2006), em seu artigo Treinamentos de Deus e Treinamentos da Terra: Parteiras e Cursos de Capacitação em Melgaço, Pará, relaciona os principais objetivos dos cursos, em linhas gerais são: a) conhecer o perfil das parteiras e do atendimento por elas oferecido; b) anatomia reprodutiva do corpo feminino; c) importância do pré-natal; d) sinais de complicação e risco na gravidez, parto e puerpério; e) mapeamento da infra-estrutura local para traçar um plano de referência; f) higiene pessoal (lavar unhas, dedos, mãos e braços e calçar luvas); g) distribuição de kits, livros, camisetas, certificados, ajudas de custo e diárias; h) fomento de associações de parteiras e de “identidade de classe”. Ao apreciar esses objetivos, a autora, constata que esta ementa é similar aos cursos para parteiras em outros países, como por exemplo, Pigg (1997) no Nepal, Alto et Clt (1991) na Papua Nova Guiné, Greenberg (1982) na Guatemala, Mani (1980) na Índia, Beeman e Bhattacharyya (1978) no Irã. Essa padronização se deve, à influência e autoridade de agências como a OMS e a UNICEF(FLEISCHER, 2006b, p. 230).

As Antropólogas Jordan (1989) e Fleischer (2006b), etnografaram cursos de parteiras. Para Jordan, que etnografou os cursos no interior do México, os treinamentos da biomedicina são um espaço privilegiado em que a obstetrícia biomédica e cosmopolita é apresentada como um authoritative knowledge, quer dizer, “[...] o conhecimento que, em um contexto particular, é visto como importante, relevante e consequente para a tomada de decisões.” (JORDAN, 1989, p. 925). Para essa autora, esses treinamentos têm intuito, apropriações e desdobramentos muito mais simbólicos e políticos do que técnicos, tanto para quem desenha e implementa quanto para quem recebe e reproduz os cursos. Fleischer, diz que seus dados etnográficos pretenderam mostrar como as parteiras de Melgaço/PA, “aprendem” muito mais do que identificar um parto “arriscado” ou esterilizar uma tesoura, e acrescenta:

Nos cursos, elas angariavam uma expertise do que, como, com quem e quando falar sobre partos. Falar e circular pareciam ser as principais estratégias de um empoderamento específico, talvez muito mais individual e familiar do que as expectativas feministas e coletivistas do Instituto Partejar; talvez muito mais políticas do que o investimento técnico-obstétrico feito pelo Ministério da Saúde e pelas agências internacionais. (FLEISCHER, 2006, p. 239).

Semelhante ao que, Jordan encontrou entre parteiras no México e Fleischer, entre as parteiras de Melgaço, as parteiras do Amapá também “reproduzem os cursos exatamente da mesma forma como estes lhes foram apresentados”, sendo de uma forma discursiva peculiar delas.

No Estado do Amapá, o Programa de Capacitação de Parteiras foi um dos carros chefes do governo de João Capiberibe, do PSB, no período de 1995 a 2002, e, declaradamente, através do empenho da primeira-dama Janete Capiberibe. Trata-se de uma experiência na qual o estado assumiu as ações mas também buscou a parceria com as ONGs ligadas à REHUNA e com as associações civis ali presentes. No primeiro momento rumo a efetivação dos cursos, foi a realização de um seminário promovido pelo governo do Amapá em parceria com o CAIS do Parto. Teve início o I Seminário Estadual de Parteiras tradicionais com o tema: Vamos trazer à luz os problemas da nossa profissão, realizado no período de 29 a 30 de abril de 1996. Esse seminário teve por objetivo geral “articular a rede local de parteiras com a rede nacional” (cf. folden da programação do evento, abril/1996). A intenção do evento foi fortalecer o movimento de parteiras por melhores condições de trabalho e, ainda, promover um intercambio cultural entre as parteiras de todo o país.

As parteiras do Amapá, “treinadas” são na maioria oriundas de áreas rurais e ribeirinhas, são chamadas pelo poder público para comparecer à cidade ou em suas localidades para compartilharem seus saberes e também de forma articulada trocarem suas experiências e assim socializam suas práticas com outras parteiras. É importante frisar que esses treinamentos estão sob a vigilância e o controle do poder biomédico.

A figura a segui refere-se ao primeiro curso de capacitação de parteiras realizado na cidade de Macapá-AP. A realização foi uma parceria entre o Governo do Estado do Amapá e o CAIS do parto.

Figura 6 – I Curso de Capacitação em Macapá – AP

Fonte: Arquivo do CAIS do Parto – Curso de parteiras em Macapá (AMAPÁ1998a).

O primeiro curso de capacitação no Amapá, teve início no período de 09 a 13 de julho de 1996. Neste primeiro contato, parteiras e equipe de trabalho das Secretarias de

Estado formam um grande círculo e são apresentadas, iniciam a dinâmica do despertar com um “bom dia a todos e todas”. Houve apresentação das parteiras que moram na cidade e as que moram na floresta e assim cada parteira fala sobre as características de suas comunidades. Em seguida, teve uma dinâmica reflexiva sobre linha da vida. Reflexão esta que faz um passeio interior, revendo atitudes do passado. Foi feito também uma reflexão sobre o nascimento, 1ª menstruação, 1ª relação sexual, 1ª parto, aparelho reprodutivo, doenças sexualmente transmissíveis e o partejar.

No final do primeiro curso, foi apresentado simbolicamente um caldeirão, o qual foi inicialmente mexido pela Coordenadora do CAIS do Parto e Rede Nacional de Parteiras Tradicionais – Olinda/PE e uma parteira tradicional, as quais mexiam dizendo que “o mesmo estava bastante quente e que seu conteúdo era um suco mágico, que absorvido por todas, ajudaria a curar as tristezas e aperreios, pois está cheio de energia positiva e ingerido, renovaria as forças”. Esta é uma forma simbólica que representa a união e reconhecimento por tudo o que as parteiras fazem com sua arte de partejar.

Nesse primeiro curso de capacitação, participaram 698 parteiras identificadas no censo de 1999. Nessa capacitação, foram difundidas medidas preventivas para evitar complicações no parto e a noções de saúde da mulher. Além disso, foram realizados treinamentos sobre cultivo e utilização de ervas e plantas da Amazônia para a promoção da saúde. “A capacitação contribui também para que as parteiras compreendam seus direitos de cidadania”.

Nas capacitações, empregou-se metodologia participativa nos cursos: as próprias parteiras descrevem o modo como realizam os partos e, a partir destas informações, são desenvolvidas atividades complementares para otimizar o conhecimento e associá-lo ao conhecimento científico. Os temas discutidos referem-se à saúde da mulher e do bebê, tais como: aparelhos reprodutores; gravidez, seus sintomas e desenvolvimento; gravides de risco; complicações na gravidez e no parto; contracepção e DST (doenças sexualmente transmissíveis) / AIDS; encaminhamento da parturiente para o pré-natal realizando os exames e vacinação de rotina; higiene do bebê; tétano neo-natal; amamentação; vacinação infantil. Além desses temas diretamente relacionados às suas atividades, as parteiras refletem sobre a profissão e o movimento organizacional delas e sobre o movimento político do Estado e do País. Incentiva-se a participação das parteiras tradicionais em movimentos sociais e governamentais e que se reúnam em associações e redes, inclusive para garantir a legalização da profissão.

Embora a metodologia baseada na roda de conversa e na problematização seja nova nesse tipo de capacitação, ações educativas, especialmente na modalidade de treinamento e posterior supervisão, são práticas desenvolvidas com parteiras tradicionais desde 1942 (SESP). As motivações, em cada época, não parecem ter-se alterado significativamente. A concepção da parteira como alguém influente na população, que pode facilitar a interação entre a população e os profissionais de saúde ou gestores tem permeado tais iniciativas. A leitura dos documentos do Ministério da Saúde sugere que as parteiras se tornem agentes legitimados pelo Estado para suprir algumas de suas lacunas, embora poucas alternativas sejam encontradas e discutidas para o vínculo formal ou empregatício com serviços de saúde (BRASIL, 2012). Entretanto, observei nas conversas e no decorrer dos cursos e treinamentos e até mesmo pelas narrativas das interlocutoras, que elas ainda não tiveram a compreensão do seu papel de subalternidade a serviço da biomedicina.

Algumas entrevistas de parteiras que participaram desse primeiro curso, e assim elas relatam:

Eu fiquei maravilhada com esse curso, conheci outras parteiras e essas mulheres lindas que vieram conversar com a gente e pudemos trocar experiências dos nossos conhecimentos. Aprendi muita coisa nesse curso e quero que o governo possa realizar muitos curso pra nós. A gente sabe muito, mais precisa melhorar(Riacho,

Benzer Belgeler