A organização social e política de parteiras no Amapá significa um processo de rompimento do silêncio e das fronteiras que as separavam do medo de viverem na clandestinidade e invisibilidade social. Essa clandestinidade que as levou a invisibilidade não as tirou de cena das comunidades mais distantes onde não existem médicos, na verdade elas ficaram no anonimato nos grandes centros urbanos e hoje são reconhecidas pelo poder público. O movimento de parteiras surge da necessidade da luta pelo reconhecimento e valorização do ofício, ele cresceu e a liberdade foi conquista pelo encontro de mulheres que
vivenciam o parto domiciliar e como mecanismo de participação e organização, criaram nova identidade de parteira tradicional e assim o movimento vem se fortalecendo.
Percebe-se que apesar da forte influência partidária nesse movimento, as parteiras começam a ter postura frente as injunções políticas que vem influenciando desde o surgimento das primeiras reuniões para criação das associações. Também o movimento recebe apoio da Rede Nacional de Parteiras. Participam de encontros nacional, regional e internacional, momentos que segundo elas, de enriquecimento cultural, trocam experiências e testemunhos de vivências com a intensidade do sentimento que traduz a vida. Elas se viram saindo da “invisibilidade para o reconhecimento” do ofício como atesta o depoimento da parteira:
Agora nós já tem associação é uma garantia que nossa madrinha Janete Capiberibe conseguiu pra gente. Antes nós vivia na invisibilidade, ninguém ligava pra gente até aparecer uma filha de Deus e nos chamou pra se organizar, hoje somo reconhecida até prêmio nossa associação ganhou (Raio, Parteira Tradicional).
A parteira refere-se ao reconhecimento social, a institucionalização de parteiras e as associações em elas podem se reunir. As associações, se constituem para as parteiras, não só como espaço de discutir e reivindicar seus direitos, mais também como espaço de discussão sobre o saber-fazer e trocas de experiências. Quanto ao reconhecimento entendo que é relativo, condicional e subalternizante.
O prêmio mencionado pela parteira, foi recebido pela presidente da Associação Central das Parteiras de Macapá. O Prêmio Dr. PINOTTI - Hospital Amigo da Mulher é concedido anualmente a cinco entidades, cujos trabalhos ou ações merecerem destaque na promoção de acesso e qualificação dos serviços de saúde da mulher. A referida associação é bastante atuante e incentiva a todas as parteiras a participarem dos encontros e a se cadastrarem para serem beneficiadas pelos programas governamentais. Estas parteiras tradicionais são público-alvo dos cursos de capacitação. Entretanto, não se pode dizer que o coletivo de parteiras seja heterogêneo quanto à dimensão de classe, ao contrário, se identificam como mulheres de camadas periféricas, rural e ribeirinha e a maioria sem escolaridade, porém com uma capacidade e vontade de vencer todas as barreiras e entraves do ofício.
Fonte: Pesquisa de Campo, Macapá/2014.
Percebe-se o entusiasmo das parteiras quando estão reunidas. A movimentação de parteiras em todos os Municípios do Estado do Amapá, resultou na criação de associações de parteiras com intuito de fomentar atenção do poder público sobre a viabilidade de seu ofício. Assim, gradativamente essas mulheres assumem uma postura mais crítica diante da tutela do Estado. Para elas o atendimento domiciliar desenvolvido ao longo dos tempos em suas comunidades, não deve perder o caráter domiciliar.
Quadro 5 – Associação de Parteiras Tradicionais do Amapá
Nº ASSOCIAÇÕES/ MUNICÍPIOS/AP Nº de Parteiras
01 Associação do Laranjal do Jarí – ASARTALAJ 40
02 Associação do Mazagão 102
03 Associação do Oiapoque 111
04 Associação Mãe Luzia e Alegria e Paz -Macapá 247
05 Associação do Pacui 45
06 Associação do Bailique (Arquipélago Distrital de Macapá)
126
Total 571
Fonte: Gerência de Valorização de Parteiras Tradicionais, SIMS/AP.
As primeiras organizações de parteiras do Estado do Amapá surgem a partir de 1998, em associações reúnem-se com finalidade de dialogarem sobre suas práticas e seus conhecimentos. Existe uma identidade cultural e por isso elas compartilham suas experiências
e processam relações sociais vividas, duradouras e efetivas. Também nessas associações é fundante a discussão pela luta de seus direitos de cidadania. As associações são espaços de percepção de legitimidade, no ponto de vista social, existe uma identidade de parteira que se estabelece a partir de como seu ofício é construído na sua especificidade, dado pelo modo como encontram meios de justificar esse ofício e a forma como são reconhecidas pela comunidade em que vivem. Atualmente existem associações nos municípios que contém um número significativo de parteiras.
Fato importante é se a parteira não está registrada em associação não pode ser incluída em programas e benefícios do governo. Com efeito, as parteiras construíram uma inserção importante no movimento de mulheres, ainda que esse processo seja tutelado e controlado por instituições governamentais. O que caracteriza a fragilidade política da organização de parteiras é atribuído a influência do Estado (SILVA, 2005).
Importante ressaltar que essas parteiras compartilham de uma posição estrutural com outros indivíduos da mesma classe social e, nesse sentido, ser parteira é um dado social e cultural que se produz nos limites de seu campo de atuação envolvendo a comunidade e sua relação com a natureza e a feminilidade. Essas associações também são espaços legitimadores de resistência, que se ressignificam na luta pela falta de regulamentação da profissão e de direitos constituídos teoricamente e ainda não efetivados na prática.
5 “NÃO É PRA EXTINGUIR AS COISAS DA GENTE, É MAIS PRA ABRIR NOSSA MENTE”: OS SABERES E A INCORPORAÇÃO DE PRÁTICAS MÉDICAS
5.1 As parteiras existem porque resistem culturalmente: os cuidados com a gestação,