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O originário - essa representação funciona sozinha -, apenas no início do nascimento e, logo após, é substituída pelo processo primário. Isto porque, inexoravelmente, a realidade de separação se impõe. Com a realidade se impondo surge à negação, o ódio e obriga a psique a se ver destituída do poder de auto- engendrar prazer.

Logo, o modo de funcionamento primário entra em cena muito cedo, com a finalidade de dar conta da presença e ausência da mãe e dos afetos – de prazer e desprazer – que daí advém. Isto significa que o primário começará a funcionar quando o conceito de separável se impuser. A psique representará o vivido por uma fantasia. Está-se aqui diante do registro do inconsciente, ou seja, do indizível.

73 Maria Lucia Vieira VIOLANTE, Da Metapsicologia Psicanalítica, In: Piera Aulagnier, p.23. 74 Piera AULAGNIER, A Violência da Interpretação: do pictograma ao enunciado, p. 45.

Aulagnier em Um Intérprete em Busca de Sentido I concebe a fantasia “como o núcleo primeiro e irredutível do inconsciente, onde se inscreve de modo indelével a relação do sujeito com o desejo”75

O postulado que rege o primário é a onipotência do desejo do Outro. Toda a atribuição da causa do vivido será remetida a este postulado. Este Outro será visto como querendo dar ou recusar prazer, sendo a mãe, via de regra, o representante do Outro. No caso do desprazer, que também é atribuído ao desejo do Outro, dará lugar ao masoquismo primário. Portanto, “esta interpretação projetada sobre o desejo do Outro é fundamento do masoquismo primário.”76

Violante escreve em Piera Aulagnier: Uma Contribuição Contemporânea à Obra de Freud:

No limite das representações do originário, o primário inscreve psiquicamente a cena primária. Esta constitui o núcleo de toda organização fantasmática, sendo testemunha do ‘engrama pictográfico’∗ - do que une uma parte do corpo ao outro, penetrando- o; ou que o corpo expulsa, rejeitando a parte da qual deseja a destruição. Trata-se no primeiro caso, de um ‘ato’ de amor e, no segundo, de ódio. Por meio desse modelo, o bebê forja todas as respostas a cerca de sua própria origem – é o que a criança pequena quer saber, quando indaga de onde vêm os bebês -, do desejo e da relação entre seu espaço corporal e do outro”. 77

Portanto, toda a construção do primário tem sua base – a cena primária – que é feita de material oriundo do originário, “graças ao empréstimo que este faz do modelo somático, ou seja, ou do apropriar-se e do rejeitar.”78

Num segundo momento do primário, a imagem da palavra aparece como ‘significação primária’. Ela não terá signo lingüístico. Essa significação primária será constituída por seqüências fonéticas escutadas pelo bebê – que ainda não forma frase, mas que informam ao primário a respeito do desejo materno, em dar ou recusar prazer.

Postula Aulagnier em Violência da Interpretação que:

Se é verdade que o primário tem como primeiro material a imagem da coisa, é necessário acrescentar que a representação fantasmática

75Piera AULAGNIER , O desejo de saber em suas relações com a transgressão, In: Um Intérprete em Busca de

Sentido I, p.171.

76 IDEM, A Violência da Interpretação: do pictograma ao enunciado, p. 73.

Engrama Pictográfico é um traço mnésico não assimilável a uma imagem. (V. I. – p.71).

77 Maria Lucia Vieira VIOLANTE, Piera Aulagnier: Uma Contribuição Contemporânea à Obra de Freud, p.34. 78 Ibid., p 35.

que daí resulta é a figuração de um estado da psique, que acompanha qualquer excitação sensorial erógena. È porque o ouvido começa por ‘ver’ o escutado, que a imagem da coisa e a imagem da palavra poderão fundir-se, e o resultado é que o sujeito só poderá ver enquanto ele pode se ‘pensar’ como aquele que vê.”

E em rodapé ela acresce a seguinte informação:

Ver, ouvir, pensar o escutado: a partir do momento em que a imagem da palavra se converte num material metabolizável pelo processo primário, toda hierarquização torna-se possível.79

O registro do escutado e da voz merecem destaque especial, em particularmente, devido ao lugar preponderante que ocuparão no sistema semântico da constituição do Eu. E para finalizar esta parte do originário, a representabilidade do pictograma (originário) e o cênico da figuração (primário) tem como materiais, objetos modelados pela psique materna, que os dota de índice libidinal. Para que o objeto seja alçado a status de objeto psíquico, Aulagnier escreve que:

Este objeto só é metabolizado pela atividade psíquica do infans, se e à medida, que o discurso da mãe dotou-o de um sentido de testemunho, por sua nomeação. Neste sentido, ‘ingerido’ com o objeto, Lacan verá na introjeção originária de um significante, a inscrição de um traço unário. E é verdade que é sempre uma palavra ou um significante que a criança ingere.80

Com um acréscimo de Aulagnier:

Nós nos separamos dele [Lacan], entretanto, no que se refere ao destino desta incorporação: o originário ignora o significante, ainda que este último permaneça o atributo necessário para que o objeto se preste à metabolização radical que o processo o faz sofrer.81

Lacan afirma que o sujeito que fala é antes de mais nada, um sujeito que foi falado anteriormente. Essa condição do homem ser falado é atributo da linguagem. O pictograma, por sua vez, para pensá-lo, ou seja, torná-lo dizível, somente através da construção e de uma hipótese que são obra do Eu. Entretanto, há uma dificuldade do sujeito em aceitar que o que é de seu conhecimento e, portanto, no poder do discurso, não acompanha o poder de modificação. Para uma modificação da realidade – “faz parte do projeto do Eu”.82

79 Piera AULAGNIER, A Violência da Interpretação: do Pictograma ao Enunciado, p.88. 80 Ibid., p. 107.

81 Ibid., p. 107. 82 Ibid., p. 103.

2.1.4 Com o Advento do Eu, O Secundário e a Representação