Douglas Kellner é o grande testemunho de Herbert Marcuse, da importância do objetivo de Marcuse em construir uma dialética que responda a exigências libertárias emergentes do capitalismo tardio. Sua análise da obra “Razão e Revolução” confirma a importância de Hegel para a construção de uma dialética que se contrapõe à civilização da unidimensionalidade. Denúncia de que a organização social, política e cultural distancia-se do questionamento da instrumentalização do desempenho das capacidades humanas pela lógica do desempenho econômico, como o valor essencial, como a unidimensionalidade a se considerar do humano.
Russel Rockwell é com Kellner, dos pesquisadores atuais que mostram como Marcuse se destaca como um teórico crítico na explicação dos textos de Hegel. Rockwell destaca a relevância sociológica das categorias-chave nas secções finais, as mais complexas, do trabalho mais complexo de Hegel:
Os novos documentos recém publicados de Marcuse mostram sua tentativa singular em conceber a dialética hegeliana propriamente como a mesma força prática de transformações sociais. Mais importante é a relação entre teoria e prática que Marcuse investigou na dialética da ideia da verdade e a ideia do bem-a ideia absoluta de Hegel. (ROCKWELL, 2004, p.141)
Ao completar cinquenta anos da “Razão e Revolução”, Kevin Anderson apresentou um trabalho em conferência de especialistas socialistas, acontecida em NewYork em 1991. um artigo sobre analistas da obra de 1941, publicado pela Associação de Sociologia Americana na cidade de Pittisburg. Kevin testemunha que a obra de Herbert Marcuse foi o primeiro estudo em inglês sistemático que trata da relação Hegel-Marx. “Esta obra introduziu os conceitos hegelianos e marxistas como alienação, subjetividade, negatividade e a crítica ao empirismo pela Escola de Frankfurtianos nos Estados Unidos. (ANDERSON, 1993, p. 243)
R&R introduziu as principais obras de Hegel do ponto de vista marxista e apresenta o trabalho de Marx como fundamentado no conceito de Hegel. “Teoricamente o trabalho de Marx é apresentado não só como uma crítica ao capitalismo, mas também, mas também fundamentação para uma crítica ao comunismo estalinista.” (ANDERSON, 1993, p. 244)
A crítica de Marcuse às experiências comunistas é muito explícita na obra, nunca ele deixou de expor que as experiências socialistas desviam–se do conteúdo do humano da economia política para a exclusividade de sua atenção para o desenvolvimento produtivo sob critérios econômicos, no entanto o motivo de R&R era enfrentar as tendências empiristas e positivistas para as quais a teoria social estava se voltando.
Kevin Anderson refaz o percurso dos cinquenta anos da obra R&R, relembrando as discussões dos assuntos tratados como a negatividade, idealismo, crítica ao empirismo, citando os autores que não aceitam os argumentos de Marcuse e igualmente os que destacam a avaliação de Marcuse sobre a relação Hegel-Marx. Com o subtítulo “Discussões críticas desde 1960: Colletti e Kellner”, Kevin faz uma prolongada apresentação do livro de Kellner “Herbert Marcuse e a Crise do Marxismo” (Kellner, 1984). Cita avaliação de Kellner como a seguinte: “o principal da interpretação de Marcuse é valorizar os componentes radicais de Hegel propiciando uma poderosa crítica do empirismo e do positivismo” (ANDERSON, 1993, p. 256) Anderson ainda destaca a diferença entre a teoria crítica de Marcuse e as de Horkheimer e Adorno, cujo elemento diferenciador é a atenção de Marcuse à variante crítica ligada à política revolucionária marxista. Em relação às análises de Kellner, Kevin destaca que o autor dedica todo o capítulo quinto de seu livro à análise de “Hegel, Marx e Teoria Social: Razão e
Revolução”. Kevin concorda com Kellner que o marxismo hegeliano desenvolvido em R&R, apesar de alterações desde 1941, continua expressando o âmago da visão esquerda radical de Marcuse. “Esta perspectiva, embora apareça em forma diversa nos 60, ao mesmo tempo é um retorno parcial à perspectiva revolucionária da esquerda da Alemanha nos anos vinte, como é visto pelos escritos de Lukacs e Korsch.” (ANDERSON, 1993 p. 257)
Kevin inicia seu artigo mostrando a originalidade de R&R, fazendo um levantamento amplo dos autores que revisitaram os temas do positivismo, negatividade, empirismo, iluminismo, o significado positivo da negatividade. No segundo item: Resenhas e Críticas nos anos quarenta”, Kevin aborda desde as críticas anti-empiristas e anti-positivistas de Marcuse até as abordagens que aproximam as análises de Marcuse ao conteúdo da Ideia Absoluta de Hegel como é a análise de Dunayevskaya que contrapondo-se a Marcuse afirma que: “Precisamente onde Hegel soa mais abstrato, parece estar mais próximo, mais chegado a todo o movimento da história, aí ele coloca o sangue-vital da dialética – negatividade absoluta... Hegel tem aberto novos caminhos por levar o lógico às oposições mais extremas.” (Dunayevskaya, 1989 pp. 31-32)
Em seu último subtítulo: “Enfrentando o desafio do pósmodernismo” Kevin Anderson inicia pela pergunta que o entrevistador, Frederick Olafson, faz a Marcuse: “Se seria possível para as filosofias atuais serem construídas a partir de autores clássicos? Marcuse responde: Diria que sim. E diria enfaticamente que uma das provas é a existência continuada e o desenvolvimento da teoria marxista... Isto é, naturalmente, um idealismo enormemente modificado, mas elementos dele permanecem na teoria social e política. (Olafson – 1974, 1988, p. 103) Kevin aremata que está muito claro que Marcuse permaneceu um marxista hegeliano até sua morte. A classificação de Marcuse como marxista-hegeliano é utilizada também por Richard Popkin. Kevin Anderson considera que embora Popkin possa representar uma perspectiva cristã radical, ele (Popkin) representa uma alternativa ao anti-humanismo de Derrida, devido o marxismo-hegeliano de Marcuse, “Nós tivemos um contacto mais direto como este vibrador hegeliano humanista que a França pôde ter tido, mesmo dentre outras figuras–líder no pensamento alemão, que vieram nos anos vinte para a América ou passaram pela França brevemente a caminho para a América.” (POPKIN, 1969, p. 61)
Ainda como testemunho da pertinência e da contemporaneidade da significação de uma alteração institucional qualitativa, é importante citar como Jeffrey Herf se pronuncia em 30 de Agosto de 1979, em Boston por ocasião da Convenção Anual da “American
Sociological Association", em cerimônia realizada em memória de Herbert Marcuse, morte ocorrida em 29 de Julho desse ano. Jeffrey dá grande atenção ao espírito da Nova Esquerda: “Grande Recusa ou mais simplesmente o esforço em fundir teoria social e prática política emancipatória, foi a forma de toda sua vida e obra.” (HERF, 1979, p. 27) Destacado por Jeffrey, Marcuse sonha com uma sociedade diferente qualitativamente, “dimensão suprimida pelo produtivismo tanto do capitalismo existente quanto da teoria e da prática socialista.” (HERF, 1979, p. 25) Marcuse vincula alteração social, não simplesmente com a substituição de um sistema de dominação por outro, mas com uma alteração que signifiqe um “salto qualitativamente novo, um novo nível de civilização no qual os indivíduos seriam capazes de desenvolver suas próprias necessidades em solidariedade com o outro”. (HERF, 1979, p. 25) Uma nova mentalidade de “emancipação dos sentidos e da sensibilidade”, resultante da fusão da estética e da política deixada para trás pela ética puritana e pelo marxismo ortodoxo.
Ainda Kevin Anderson serve-nos para apresentar o grande estudioso e divulgador da obra de Herbert Marcuse, ele cita o livro de Douglas Kellner “Herbert Marcuse and the Crisis of Marxism” como o estudo teórico de “Razão e Revolução” o mais meticuloso até o momento, afirma ainda que Kellner dedica maior afinidade com as obras posteriores como a “Ideologia da Sociedade Industrial, o Homem Unidimensional”. Kevin cita a observação de Kellner que considera que “o elemento principal da interpretação de Herbert Marcuse em „Razão e Revolução‟ é valorizar os componentes radicais em Hegel”, (KELLNER, 1984, P.133) propiciando uma eficaz crítica ao empirismo e ao positivismo. Kevin ainda comenta que sua análise de “R&R” é falha em não destacar adequadamente características singulares do marxismo hegeliano de Marcuse que tem uma orientação diversa de Adorno e Horkheimer tanto em relação à dialética quanto à política; a diferença já está visível em 1941. O marxismo hegeliano de Marcuse em 1941 nos auxilia igualmente a antecipar um aspecto de sua obra dos anos sessenta: “o seu retorno público a uma específica política revolucionária de esquerda que seus companheiros de Escola de Frankfurt Adorno e Horkheimer abandonaram logo no início dos anos quarenta.” (ANDERSON, 1993, p. 256) Embora importante o destaque de Kevin Anderson sobre as consequências da compreensão hegeliana nas posições políticas revolucionárias de Marcuse nos anos sessenta e setenta, destacam-se de Kellner os elementos necessários para compreender-se a alteração institucional a partir da obra de 1941. Kellner é o grande testemunho da importância do objetivo de Marcuse em construir pela conjugação marxista-hegeliana, uma dialética sólida capaz de fundamentar primeiro o crescimento de uma teoria social crítica ainda em seu primórdios e principalmente em fundamentar a
compreensão da alteração institucional qualitativa do capitalismo afluente. “Marcuse enfatiza os elementos críticos-revolucionários em Hegel, retomados por Marx, argumentando que a teoria marxiana é a autêntica continuação e desenvolvimento da filosofia de Hegel.” (KELLNER, 1984, p. 130)
Para Kellner, por toda a obra R&R, Marcuse está interessado na elucidação das categorias centrais de uma dialética como a apresentada por Hegel e Marx, que transformaram-se em suas próprias categorias. “Sua compreensiva apresentação da dialética de Hegel, focada nos elementos emancipatórios de seu pensamento e método, mais que destacar elementos dúbios e reacionários do idealismo de Hegel, revela um profundo compromisso com a dialética marxista-hegeliana.” (KELLNER, 1984, p. 140)
Recordando Kevin Anderson, Kellner cita que: “Embora Marcuse, em sua teoria crítica pós Segunda Guerra, raramente debata a filosofia de Hegel, todo o seu projeto exemplifica o espírito e o método da dialética que a R&R objetivava desenvolver.” (KELLNER, 1984, p. 141) Marcuse descobre antecipações de Marx em Hegel e elementos de Hegel em Marx e frequentes similaridades de doutrina, isto está claro desde os primeiro estudos teológicos de Hegel, comentados por Marcuse e citados por Kellner: “são motivados pelo problema político da relação entre o indivíduo e sociedade, analisando pela primeira vez a alienação do indivíduo na ordem capitalista emergente.” (KELLNER, 1984, p. 141)
Kevin e Kellner coincidem na observação que Marcuse procura mostrar que a filosofia política de Hegel não é de modo algum compatível com o fascismo, conforme Kellner esclarecera que Hegel desenvolveu uma teoria racional do Estado e destacou a importância do domínio pela lei.
“Marcuse combate as interpretações de Hegel como um pensador proto- fascista ao colocar as teorias marxianas e hegelianas como „filosofia negativa‟ que é racional, crítica e subversiva do pensamento conformista e contrastando com a „filosofia positiva‟ que expandiu-se depois da morte de Hegel e que defende a subordinação da razão à autoridade de fato estabelecida.” (KELLNER, 1984, p. 130)
Kellner na tentativa de compreender em Marcuse a distinção entre a dialética de Marx e a de Hegel interpreta esta distinção pela diversa relação entre teoria social e filosofia. “Na interpretação de Marcuse a passagem é da filosofia para a teoria social: „todas as categorias filosóficas da teoria marxiana são categorias econômicas e sociais enquanto que as categorias econômicas e sociais de Hegel são todas conceitos filosóficos‟.” (KELLNER, 1984, p. 142)
Para Kellner, Marcuse com o objetivo de mostrar a incompatibilidade entre a filosofia de Hegel e o fascimo, parece inicialmente interessado em mostrar os elementos radicais da filosofia de Hegel que tornaram-na alvo das críticas conservadoras. Ele procurou mostrar que as ideias básicas de Hegel, as conexões com Marx e com a teoria crítica. R&R continua para Kellner como texto-chave do desenvolvimento de um marxismo-hegeliano. O livro revela elementos que constituem o próprio pensamento de Marcuse. Conforme Kellner: “Portanto, embora em sua obra posterior a Segunda Guerra Mundial ela não iria agressivamente tomar posições hegelianas, ele iria continuar defendendo a dialética, a razão crítica e momentos emancipatórios do idealismo hegeliano”. (KELLNER, 1984, p. 147)”