A pesquisa qualitativa ofereceu-nos elementos que, de acordo com Max Weber, ajudaram-nos hierarquizar alguns traços dos valores e interesses segundo os critérios subjetivos dos indivíduos. Percebendo que, por meio desses traços característicos, os indivíduos sem religião dão significados às suas vivências e experiências de vida, os reunimos e os apresentamos ordenadamente em um quadro ideal, não-contraditório, mesmo que inicialmente tenham-nos se manifestado de modo confuso.
Um traço de valor que observamos, a princípio, foi em relação à família. Os entrevistados ainda apostam na importância da família no processo de sociabilidade da criança e do jovem. No item sobre o grau de confiança nas instituições, 62% (43 entrevistados) disseram confiar totalmente na família e 38% (26) confiam até certo ponto. Segundo os entrevistados, a família ‗permanece sendo essencial‘ e ‗base para a vida humana‘, ponto inicial para ‗a formação da consciência‘ da criança. Mesmo que venha passando por profundas transformações, ela ainda ‗é capaz de influenciar mudanças na vida da criança e do jovem‘. Disse um dos nossos
entrevistados: ―A família é uma grande instituição; acho que é a base de todo ser; é ali que vai ser gerada a consciência inicial, seu pensar sobre a sociedade‖116. Outro
avalia da seguinte forma:
―Com relação à família, eu acredito da seguinte forma: por motivos de mudanças culturais e tecnológicas, mudanças que aconteceram de uns trinta a quarenta anos até hoje, a família hoje não é mais aquele de trinta, quarenta anos atrás; e os seus princípios básicos já não são mais os mesmos. Eu acredito que a família é, sim, uma base fundamental para a estrutura de um país, mas infelizmente, hoje, diante das mudanças que aconteceram, a família é um pouco desfeita, falida, um pouco bem diferente do que era antes. Porém, os princípios, os preceitos, são ainda valiosos e que ainda continuam vigorando‖117.
Não obstante às considerações positivas quanto à família, foi consenso, nas falas dos entrevistados, o reconhecimento de que as mudanças sociais, culturais e tecnológicas alteraram também o conceito de família. Um dos maiores impactos atuais pelo qual a família passa, foi ter deixado de prestar uma formação humana básica à criança. Consequência: ―a tendência dos jovens foi migrar para outros grupos com os quais se identificam, mantendo novos relacionamentos, com uma dose de associação, muitas vezes, maior do que com a própria família‖118. Outro
considerou que ―os jovens quando sentem alguma falta na família, a válvula de escape deles é o encontro com as tribos‖119. Ainda outro observou que a família
deixou de ser a ―primeira escola de uma criança‖.
A desestruturação da família foi avaliada pelos nossos entrevistados sob dois prismas: primeiro, por questões financeiras e sociais; depois, pela falta de formação humana dos pais para lidar com as novas gerações e as próprias crises entre os
116 DANILO Rosa de Lima é Jovem de 22 anos, solteiro, considera-se preto e de camada média
baixa, mora com a mãe e irmãos, não trabalha, mas cursa pré-vestibular na instituição Educafro há três anos, preparando-se para faculdade de Ciências Sociais. Nessa instituição, ele também foi professor de cidadania. Mas disse que teve que se afastar da entidade para se dedicar aos estudos. Revela: ―A instituição é importante, mas tem um momento que você tem que priorizar certos pontos se não você não consegue caminhar‖. Essa entrevista foi realizada no dia 30 de abril de 2011, na sede da Educafro, São Paulo-SP.
117 FRANCISCO Genigleyson. Esta entrevista foi realizada na Estação de Metrô do Capão Redondo,
zona sul, no dia 25 de maio de 2011.
118 Idem.
119 DAVI, jovem tem 28 anos, solteiro, considera-se pardo, de camada baixa, mora com a mãe e duas
irmãs, trabalha como auxiliar de farmácia, e curso a faculdade de Farmácia na UNICASTELO. Está no terceiro ano, e tem perspectivas para o futuro: ajudar a família e ainda fazer um curso de teatro porque gosta. Entrevista realizada no dia 17 de maio de 2011.
pares. Aqui, os cinco casos de separações dos pais não foram avaliados como consequência dessa crise entre os pares. Mas segundo os entrevistados, existem boas relações entre seus pais após a separação do casamento.
Mas com a fragmentação da família, conforme os entrevistados, assiste-se também à quebra de laços familiares – a ‗comunhão e unidade‘ que fortaleciam os nós em uma ‗comunidade de vida e comunidade de sentido‘, usando os termos de Berger (2004). Ou seja, rompeu-se o envolvimento dos pais na vida dos filhos que passaram a priorizar outros locus de sociabilidade (grêmios estudantis, galeras, tribos, baladas, festas, espaços públicos, galerias, shoppings, torcidas organizadas, grupos musicais e de danças).
As trajetórias de saídas trouxeram como efeito o desapego à família, e o distanciamento do diálogo e do compartilhamento de vida no interior da família (pais e filhos). Alguns indivíduos afirmam que a ausência dos pais na vida dos filhos faz com que estes não sintam apoio e cuidado em seus momentos limites (indecisões, tristezas, sofrimentos, escolhas claras). Além disso, muito cedo tiveram que lidar não só com a autonomia, mas também formar uma consciência segundo a qual devem fazer suas próprias escolhas sem a interferência de um outrem; nesse caso particular, dos pais.
Nesse contexto, o ‗excesso de liberdade‘ abandonou os indivíduos ao oceano de alternativas cujas opções são realizadas em conformidade com suas vontades, desejos e preferências. Obviamente, os filhos sentem-se inseguros em muitas ocasiões por não saberem quais alternativas assumir. Ademais, eles percebem dois tipos de educação: uma centrada em pais liberais e outra, em pais moderados. Os primeiros deixam os filhos bastante livres para suas escolhas; os segundos impõem limites e procuram influenciar, de certa forma, a educação dos filhos.
Diante das transformações, exige-se nova compreensão da família, considerando as mais variadas formas de arranjos sociais atuais, onde vivem indivíduos com diferentes níveis sociais, culturais, profissionais e éticos. Foi mencionada a adoção de crianças por casais homoafetivos e mulheres que educam seus filhos sem a presença dos pais, e vice-versa, homens que convivem sozinhos com os filhos sem o convívio das mães.
Um segundo traço, nós construímos utilizando dezesseis (16) itens (cf. anexo) em que solicitamos que os indivíduos manifestassem cinco (5) interesses pelos
quais realizam suas experiências de vida. Desses sobressaíram: educação (44%), trabalho (25%), viagem (25%), navegar na Internet (25%) e fazer compras (19%) (cf. gráfico 22).
Gráfico 22 – Interesses dos sem-religião para experiências de vida (%).
Fonte: Antonio Leandro da Silva. Pesquisador, PUC-SP/2012.
Estatisticamente, a educação atinge o primeiro lugar com 44% de interesse. As razões para essa escolha foi o desejo de fazer ‗uma boa universidade‘, prestar ‗concurso público‘, ter um ‗bom emprego‘, ‗ajudar a família‘, alcançar um ‗bem-estar social‘. O segundo item foi o trabalho (25%) em virtude do acesso a um emprego que lhes garanta salário suficientemente bom para atender dois outros itens: viajar (25%) e fazer compras (19%).
Mas esses interesses, no contexto de experiências de vida, são compatíveis com as escolhas das atividades prediletas dos entrevistados. Pois de quinze (15) itens (cf. anexo), os indivíduos assinalaram: estudar (40%), ouvir música (40%), viajar (33%), fazer exercícios acadêmicos (26%) e namorar (26%) (cf. gráfico 23).
Gráfico 23 – Atividades prediletas dos indivíduos sem religião (%).
Fonte: Antonio Leandro da Silva. Pesquisador, PUC-SP/2012.
44% 25% 25% 25% 19% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 45%
Educação Trabalho Viagem Navegar na Internet Fazer compras
40% 40% 33% 26% 26% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40%
Estudar Ouvir música Viagem Fazer exercícios
Os estudos tornam-se uma das atividades prediletas dos indivíduos sem religião. Esses dados refletem de igual forma nas análises dos dezesseis (16) itens apresentados, solicitando que escolhessem os temas sobre os quais mais gostariam de conversar com a família, com os professores e amigos. Assim, cinco temáticas tornaram-se preferenciais pelos indivíduos da pesquisa: educação (75%), família (38%), política (38%), trabalho (32%) e drogas (25%) (cf. gráfico 24).
Gráfico 24 – Temas que os sem-religião gostariam de conversar com a família, com os professores e com os amigos (%).
Fonte: Antonio Leandro da Silva. Pesquisador, PUC-SP/2012.
Destaca-se, nesse item, a educação: um dos elementos fundamentais para a vida desses indivíduos. Essa preferência reflete-se também nos depoimentos colhidos durante a pesquisa qualitativa, pois a educação foi concebida como ‗base para toda sociedade – boa para a saúde, para o mercado de trabalho, para as pessoas ocuparem cargos públicos‘. Segundo um dos informantes, ‗a pessoa bem educada exerce sua posição de maneira excelente‘. Outro disse: ―Estudar, você automaticamente, se abdica de várias coisas que você teve acesso. Mas minha estratégia é a seguinte: dedicar-me radicalmente aos estudos, a fim de alcançar boa qualificação, tornando-me um diferencial‖120. Ainda, um terceiro manifestou as
razões por que se dedica aos estudos: ―Eu quero estudar, receber bastante conhecimento, prestar concurso na área [farmácia] para ter estabilidade, dar boas
120 Danilo. Essa entrevista foi realizada no dia 30 de abril de 2011, na sede da Educafro, São Paulo-
SP. 37% 18% 18% 15% 12% Educação Família Política Trabalho Drogas
condições para a família, crescer, prosperar, expandir, passar um dia isso adiante‖121.
Essa acentuada e determinada atenção aos estudos acadêmicos é um dos traços característicos dos indivíduos pesquisados. Esse valor lhes assegura perspectiva de futuro. Significa que estamos diante de indivíduos que querem se expandir e completar a si mesmos. Em termos profissionais, pensam segundo as ‗diferenças‘, e não em sentido de ‗ser‘. Esse traço difere de qualquer busca de conhecimento de si mesmo senão de potenciais que os tornem diferentes naquilo que podem fazer e criar. Não pensam em um ‗eu‘ em sentido fixo, estável, mas de crescimento profissional, podendo migrar para outras áreas. Isso faz com que desenvolvam potenciais com restritas influências de instâncias externas. Podemos perceber isso de forma contundente através do discurso de um dos nossos entrevistados:
―Olha, em primeiro lugar, eu estou investindo no exato momento na educação, um dos valores que eu mais tenho me apegado ultimamente, porque durante algum tempo, eu pensava diferente, mas hoje, eu vejo dessa forma: família é um dos valores que sempre foi, é, e jamais vai deixar de ser, um dos principais valores de uma pessoa no seu desenvolvimento, na sua estrutura, mas no meu caso, eu tive que sair de casa, deixar minha família, para correr atrás de uma educação melhor, poder cursar um ensino superior. Eu acredito que a educação, sim, é o principal valor‖122.
Em contrapartida, os indivíduos criticam tanto a escola quanto o sistema educacional, porque não favorecem ensino de qualidade aos alunos do Ensino Público. Afirmam que a educação está falida. Sentem-se muito pessimistas em relação à educação de qualidade. Avaliam que o Ensino Fundamental e Médio têm que ser melhorados estruturalmente com equipamentos tecnológicos e com um corpo docente qualificado. Segundo um dos entrevistados, ―hoje, a escola pública da periferia não tem qualidade. Infelizmente, você é segregado na periferia, onde existe uma educação de menor qualidade, pelo simples fato de morar em um lugar mais afastado do centro‖123.
121 Davi. Entrevista realizada no dia 17 de maio de 2011.
122 Francisco Genigleyson. Entrevista realizada na Estação do Metrô do Capão Redondo, zona sul, no
dia 25 de maio de 2011.
123 Danilo. Essa entrevista foi realizada no dia 30 de abril de 2011, na sede da Educafro, São Paulo-
Outro informante comenta que os jovens têm que se qualificar cada vez mais para o mercado de trabalho, e cabe ao Estado a obrigação de fornecer melhores condições de ensino tanto aos alunos quanto aos professores. Segundo esse entrevistado: ―os adolescentes veem hoje a escola como uma obrigação, e isso faz com que eles acabem não gostando de ir à escola; isso acaba dificultando muito no seu desempenho profissional‖. Depois, argumentou que os indivíduos não trabalham com prazer porque suas escolhas profissionais não são compatíveis com aquilo que gostariam de fazer.
Por outro lado, outro afirma que os programas de ensino do Governo Federal elevaram a camada baixa a um nível de melhor qualidade de vida; nos últimos anos, os jovens dessa camada foram estimulados a estudar, a fim de se qualificar e entrar no mercado de trabalho. Enfim, culpa alguns jovens que não têm interesse pela formação profissional e arremata: ―Porque, às vezes, o jovem vem de uma família que não tem ninguém que tenha passado aquele nível de educação e, daí, acha que aquele é o nível dele também; chega ali e para, não quer continuar; falta-lhe motivação para querer mais; ele não quer romper as barreiras‖.
Um terceiro traço característico é que o desencantamento pela instituição religiosa explica-se não diretamente por causa da secularização, mas pela ruptura de confiança – da ―experiência do testemunho‖ (Derrida, 2000, p. 85) – nos líderes religiosos pelos escândalos morais (pedofilia, má administração financeira, perseguição a fiéis, descasos com a comunidade etc.). Rompeu-se, de certo modo, a influência da experiência do testemunho desses líderes na vida dos sem-religião, porque o que deveria ser ‗indene‘ – ‗são‘, ‗sagrado‘, ‗santo‘, heilig, holy – (DERRIDA, 2000) não responde mais ao apelo da fiabilidade, da fidelidade, do crédito e da fé.
E a questão moral torna-se traço crítico dos indivíduos à instituição religiosa os quais, ao mesmo tempo, fazem inversão crítica em suas avaliações, como narra um dos entrevistados:
―Hoje em dia, você escuta, por exemplo, na igreja evangélica, ―ah, é porque Deus não aceita homossexualidade, porque Deus não aceita a questão dos homossexuais, casar isso e tal‖. Eu acho isso ridículo, porque eu fico me perguntando: ―se hoje estamos aqui, do jeito que estamos, por que Deus impediria isso? Deus é um ser tão superior, tão poderoso, por que Ele pensaria diferente?‖. Acho que cada um tem direito de escolher, de optar por o que você quer; é a condição
que você deseja estar e as conseqüências são suas; não tem o que falar‖124.
Segundo essa pessoa, as religiões erram ao não conceber o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sendo a favor da união homoafetiva, defende que cada indivíduo tem o direito de escolher o que melhor lhe convém e assumir as consequências. Ele considera ridícula a moral que demoniza uma conduta homoafetiva.
O quarto traço indica que, em alguns entrevistados, não existe qualquer manifestação de uma ‗experiência de crença‘, de fidelidade imediata, que se possa identificar com ‗Outro‘. Uma ‗fé‘ que ―não se precipita para a fé em Deus‖ (DERRIDA, 2000). Simmel sugere também a ‗fé em si‘. Isso é possível quando não existe aquiescência ao completamente ‗Transcendente‘.
Nesse caso, os indivíduos deslocaram o relegare – fiabilidade, confiança, crença, ‗fé‘ irredutível – para sua própria força de vontade no processo de superação de limites advindos dos estudos, do trabalho, do acesso às tecnologias e das qualificações profissionais. O que assegura esses indivíduos é uma ‗experiência performática‘. Existe relação unitária com o ‗mundo‘ sob o aspecto de certeza de alcançar seus objetivos materiais e ideais. Portanto ―uma organização racional da vida‖ (WEBER, 2000, p. 415).
Uma quinta característica revela que os indivíduos sem religião desconhecem a ‗ética de convicção‘ em termos religiosos cujos fundamentos assentem no ‗direito religiosamente estereotipado‘, isto é, um direito ‗sagrado‘; houve o rompimento com as normas sagradas. Não encontramos, nas palavras de Weber, aquela tensão entre o ―postulado religioso e as realidades do mundo‖ (WEBER, 2000, p. 386). Com isso, assistimos ao fim do direito divino que reivindica para si a obediência da criatura.
Sexto traço: a afirmação dos indivíduos exclusivamente no trabalho profissional não está associada ao ético-religioso – como conteúdo da doutrina da predestinação pela graça de Deus – senão às suas próprias vontades subjetivas, de escolhas e preferências e ao suporte jurídico-trabalhista. Existe crescente busca de um saber/fazer diferente. As ações não são orientadas por representações mágicas
e/ou ético-religiosas, mas por perspectivas assentadas em seus valores e interesses individuais que respondam às suas necessidades e satisfações.
No sétimo traço característico dos sem-religião, descrevemos cinco (5) valores compartilhados para a construção de uma sociedade ideal, quais sejam: solidariedade 23%, respeito às diferenças 23%, igualdade de oportunidade 23%, respeito ao meio ambiente 19% e justiça social 12% (cf. gráfico 25).
Gráfico 25 – Valores para uma sociedade ideal segundo os sem-religião (%).
Fonte: Antonio Leandro da Silva. Pesquisador, PUC-SP/2012.
E a percepção dos mesmos em relação aos problemas atuais incide sobre cinco itens: educação (29%), alimentação (23%), família (16%), saúde (16%) e meio ambiente (16%). Nesse contexto, os sem-religião estão, portanto, preocupados com questões sociais que afligem a humanidade atual: alimentação, saúde e meio ambiente (cf. gráfico 26). Importante destacar que a questão ecológica torna-se um dos problemas sociais relevantes, e a educação (29%) sobressai como elemento primordial de preocupação social dos indivíduos.
Gráfico 26 – Problemas atuais que mais preocupam os sem-religião (%).
Fonte: Antonio Leandro da Silva. Pesquisador, PUC-SP/2012.
13; 19%
16; 23%
16; 23% 16; 23%
8; 12%
Respeito ao meio ambiente Solidariedade Respeito ao meio ambiente Igualdade de oportunidade Justiça Social 20; 29% 16; 23% 11; 16% 11; 16% 11; 16% Educação Alimentação Família Saúde Meio Ambiente
Há um traço particular que se manifesta na conduta dos sem-religião porque se apóia em sua liberdade individual, ou seja, de fazer suas escolhas e responder por suas consequências. Um interpretar e valorar a própria existência pode ser uma das características da modernidade. Essa seria talvez mais uma das rupturas com o pensamento metafísico-teológico. Assim, o valor é objetivado pelos indivíduos que têm o poder para valorar as coisas.
Dentro dessas circunstâncias, a modernidade é entendida como profundas mudanças sociais e culturais que se sucederam e ainda sucedem pelo processo de racionalização, atingindo todas as esferas da vida. A morte de Deus alcança o ápice dessa racionalização pelo fato de dispensar o ético-religioso. A consequência desse acontecimento revela que as ‗imagens do mundo‘ são sistematizadas não segundo a religião, mas de acordo com outras matrizes advindas das esferas da vida, como exemplo, do direito positivo não mais estereotipado do ‗sagrado‘, como afirma Weber.
E o que caracteriza a modernidade, numa perspectiva nietzschiana, é a percepção do indivíduo sobre si mesmo: não através do olhar das formações sociais senão dele mesmo. Ele não necessita de intermediações, pois ―O indivíduo é algo inteiramente novo e criador do novo, algo absoluto; todas as ações dizem respeito inteiramente a ele‖ (VP, § 767, grifo do original). Essa perspectiva nietzschiana, percebemos na fala de um dos nossos informantes:
―Eu acho que valor vai de cada um e não de família mais. Antigamente talvez fosse de família, mas eu acho que hoje em dia não mais, são os seus [dos indivíduos] próprios valores que estão em jogo. (risos). Os valores, hoje em dia, vão muito de acordo com a necessidade de cada um. Cada um tem a sua própria necessidade e faz disso sua condição social. Então, as pessoas se valorizam de acordo com aquilo que elas querem. Na verdade, não existem os valores da família. Eu acho que você vai construindo ai seus valores. Se para você roubar é um valor, você vai roubar, não existe mais isso. Isso vai depender do que você quer, na verdade; você constrói os valores de acordo com a sua necessidade‖125.
Nosso entrevistado apoia-se em suas próprias formas de pensar e criar modos de existir. Sua perspectiva é de que se o ladrão avalia que o roubo é um valor, então ele estaria escolhendo um sentido de valor para si. Essa é inversão
crítica, transvaloração do valor dos valores, pois o mandamento diz: ‗Não roubarás!‘. Seria isso uma vida pautada naquilo que Nietzsche chamou de irresponsabilidade, de imoralidade? Ou na direção do que Max Weber analisa: indivíduos cujas vidas são racionalizadas a partir de ―pontos de vista últimos extremamente diversos e nas mais diversas direções‖ (WEBER, 2004, p. 69).
Percebemos um tipo ideal de indivíduo nietzschiano cujo traço originário assenta-se no ‗espírito forte‘ [Esprit fort]. Neste se encontram energias, forças inflexíveis, perseveranças. É um indivíduo polifônico porque traz em si combinações simultâneas de várias melodias; um ‗gênio‘, porém, sem nada de mitológico ou religioso, nas palavras de Nietzsche, mas porque é alguém estimulado ao máximo de ‗desejo de se libertar‘, ou seja, ―é alguém que se perdeu completamente ao