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ÇKBT 'NİN DEZAVANTAJLAR

D- Vagal inhibisyon: Hipotansiyon gelişir(32) E Myokard infarktüsü (%0,05)

3. GEREÇ VE YÖNTEM

Começo esta história com a história de vida de um pastor, músico e mestre de obras, ex- aluno do MEBIC e à época desta investigação frequentava a turma de aceleração (3ª e 4ª) do

Colégio Cora Coralina. João, 50 anos, é casado, tem quatro filhos, nasceu no interior do município de Pindaí (BA) e, há vinte anos, reside no bairro Alto Caiçara, cidade de Guanambi (BA). Seus pais se separaram quando era criança, logo teve que trabalhar muito para ajudar a mãe a criar suas duas irmãs, como ele mesmo conta.

“Minha infância e minha juventude foram de muito trabalho e muito sofrimento. Estudei até a 3ª série, mas foi um estudo fraco, esqueci tudo, só não esqueci de fazer o meu nome. Queria estudar quando vim morar em Guanambi, mas não deu. Não deu pra estudar de jeito nenhum. Vontade era muita de estudar, mas as condições não permitiram e entre a sobrevivência e o estudo, a minha mãe escolheu a sobrevivência”.

Assim como João, outros participantes dos cursos de EJA do Brasil afora como os demais sujeitos desta pesquisa apresentam histórias de vida escolar pregressa com algumas características muito similares. Assim, verifiquei que a maioria é de origem rural, de famílias pobres, e tem experiência de trabalho na roça desde a infância, ou nos afazeres domésticos além de cuidar de vários irmãos menores. Escola no campo, inexistia ou ficava muito afastada de suas residências, o que dificultava a conciliação de trabalho para ajudar na manutenção da família e estudo. Assim, além do acesso à escola ser difícil, a família também não percebia o valor dela para os filhos, não considerando a leitura e a escrita importante para a vida. Somava-se a tudo isso, a falta de professor fixo.

Desse modo, João ficou mais de trinta anos sem estudar e, em 2001, um irmão da igreja o aconselhou a voltar à escola levando-o até o MEBIC. Depois que se alfabetizou, ingressou no Colégio Cora Coralina. No primeiro ano não conseguiu se adaptar à dinâmica da escola, então, no segundo semestre retornou ao MEBIC. Mas, como pretendia continuar os estudos até concluir o ensino fundamental, se organizou melhor e no ano seguinte retornou à escola onde continua, mesmo com muitas dificuldades. Assim,“Estou na escola, né, porque sinto

necessidade de aprender, principalmente agora depois que assumi o ministério de pastor... preciso demais da escola”.

De acordo com ele, uma das coisas que contribuíram para sua inserção na escola foi a apresentação das paródias “Eu vou contar, eu vou contar...” e “Sertão pobre, sertão rico...”, que ele fez com outro colega no auditório do CETEP para os educadores de EJA de Guanambi e região. “Quando a gente vai apresentar, a gente caracteriza bem, veste na alma

o personagem pra gente aprender com o que estamos fazendo e alegrar o povo”. Mais

adiante acrescenta: “Depois dessa apresentação, não era mais um simples desconhecido,

qualquer um, eu e meu colega não éramos mais anônimos, todo mundo da escola se dirigia a nós para dizer uma palavra”. Percebi que os constrangimentos e experiências de

discriminação vividas no ambiente escolar e na sociedade corroeram a autoestima de João e seu amigo, mas, à medida que foram conquistando, na escola, uma posição de destaque, de liderança, de comunicação através de várias linguagens, a autoestima foi recuperada.

Outra entrevistada foi Priscila, é líder da associação de moradores do bairro, integra a pastoral da criança, aluna egressa do MEBIC e frequenta a turma de aceleração (3ª e 4ª) do Colégio Cora Coralina. Tem 40 anos, é casada e tem quatro filhos. Nasceu no interior do município de Guanambi (BA) e, aos cinco anos, migrou com sua família para a cidade e foram morar no bairro Alto Caiçara, onde construíram uma casa num terreno doado pela prefeitura. Com seis anos, perdeu a mãe, e uma família do centro da cidade passou a criá-la. Essa família tinha dois filhos e, na ocasião, o dono da casa adoeceu de meningite e precisou viajar para Salvador. No trecho abaixo, mostro o que identifico como coisificação do sujeito:

“Um dia, enquanto brincava com a filha do casal que me pegou para criar, aconteceu um acidente: fui queimada e fiquei dois meses internada no hospital. Quando me recuperei um pouco e saí do hospital, a dona que havia se comprometido em me criar me devolveu para a minha avó [...]. Penso que, pelo fato de ter me queimado muito, ela achou que eu não ia servir pra nada. A queimadura foi profunda, deixou muitas cicatrizes, mas não me impede de fazer nada... Trabalho na roça, faço faxina nas casas de família, trabalho como doméstica, etc. [...]) a morte de minha mãe mudou a minha vida” (Priscila, 40 anos).

Nesses trabalhos, segundo ela, foi muito humilhada e explorada, principalmente quando era solteira. Quanto às lembranças da trajetória escolar são marcadas por medo do professor, inserção precoce no trabalho e tardia na escola. Quando criança e jovem não estudou porque o trabalho doméstico não permitiu. Sabe que os patrões da cidade têm preferência pelas domésticas que vêm da zona rural, principalmente as que vêm morar nas dependências de

empregadas, situadas nos fundos das residências porque a jornada de trabalho das domésticas

nessas condições se estende da hora em que se levanta até a hora em que vão se deitar, além disso, não há folga. Também muitos patrões não permitem que as empregadas estudem para não ficarem espertas, ou não conhecerem os direito trabalhistas70.

70

Veja-se a dissertação de mestrado de Patrícia Cappuccio de Resende (2007), em que descreve e analisa os modos de participação de empregadas domésticas nas culturas do escrito e procura compreender as relações que se estabelecem entre as empregadas domésticas e a cultura escrita existente no ambiente de trabalho, assim como as estratégias que utilizam para, em seu trabalho e em sua vida, lidar com as diferentes manifestações dessas culturas.

Do período escolar, essa entrevistada lembra que começou a estudar com dezesseis anos, porém, durante aquele ano frequentou a escola por seis meses, pois morava próximo a um prostíbulo e à noite havia muitos homens perambulando pelas ruas. Por isso, a avó não permitiu que estudasse. No ano seguinte, casou-se, depois vieram os filhos, então deixou o sonho de estudar por vinte anos. Voltou a estudar há quatro anos, no Projeto MEBIC. Ela se considera inteligente. Ficou no MEBIC apenas dois anos e logo após se matriculou no Colégio Cora Coralina.

Outro aluno entrevistado, Jeremias, é solteiro, tem 15 anos e trabalha bastante em uma fazenda no interior do município de Guanambi. É aluno egresso do MEBIC e frequenta a turma de aceleração (3ª e 4ª) do Colégio Cora Coralina. Quando criança, frequentou durante quatro anos o ensino fundamental da rede municipal e, segundo ele, não conseguiu aprender. Contou com indignação que na escola foi rotulado por garoto problema, retardado, etc. Segundo ele, “no início do ano já sabia que não ia aprender”, “não ia passar de ano”. Diante disso, ele explicita em seu depoimento que seu vínculo com a escola, a professora e os colegas era negativo. Não aguentando mais essa situação, abandonou a escola e foi estudar no MEBIC, junto com sua mãe e seu padrasto e, assim, durante um ano foi alfabetizado.

Curioso é que não foi matriculado no MEBIC porque tinha apenas 11 anos, porém, ficou

encostado. Observava os jovens e adultos fazerem as atividades e imitava-os. Com orgulho,

relatou que ajudava a mãe e o padrasto nas atividades e com isso, no período de um ano, aprendeu a ler e escrever. No ano de 2007, ele, a mãe e o padrasto se matricularam na rede municipal. Jeremias (3ª e 4ª série) e sua mãe (1ª e 2ª série) continuam frequentando as aulas, e o padrasto (1ª e 2ª série) desistiu porque não deu para conciliar estudo e trabalho.

Por fim, a última entrevistada, Ana, é solteira, tem 28 anos, tem uma filha e trabalha como ajudante em um salão de beleza. Migrou, com a idade de 10 anos do interior do município de Guanambi para a cidade e foi residir no bairro Brasília. É aluna egressa do MEBIC e frequenta a turma de aceleração (3ª e 4ª) do Colégio Cora Coralina. Quando criança estudou até a 4ª série, mas confessa que esqueceu tudo. Relatou que, quando tomou a iniciativa de voltar a estudar, teve medo de ir diretamente para a escola. Então, quando soube do MEBIC, se matriculou, pois, segundo ela, queria “um lugar discreto, tinha vergonha,

medo, insegurança”. A verdade é que não gostaria de ser vista pelas clientes do salão onde ela

trabalhava como ajudante. Sentia medo de seus serviços serem rejeitados pela sua condição de semianalfabeta. No trecho abaixo, ela nos fala da interrupção dos estudos e o reduzido uso social das habilidades adquiridas na escola levaram-na à regressão, à condição de semianalfabeta:

“Cheguei no MEBIC e fingi que eu era analfabeta [...], eu esqueci tudo que aprendi na escola primária porque eu não pratiquei[...]. Mas, quando a professora de lá foi explicando, eu fui puxando na memória, aí fui lembrando, logo a professora percebeu que eu tava adiantada e me propôs ir para a escola, no início tive medo, mas, como uma amiga minha também foi fazer a prova pra entrar lá, na escola, aí eu também fiz a prova e entrei na 3ª e 4ª. A professora falou que eu podia ir pra 5ª série e ser colega da minha amiga, mas eu não quis, pra mim a 5ª série era demais pra mim. Eu sei que tenho que colocar meu braço onde minha mão alcança. Ainda não é a 5ª série (risos), mas eu vou chegar lá, se Deus quiser e se a escola continuar.”

Por fim, a propósito desse depoimento, confirmam Galvão e Di Pierro (2007) que boa parte dos analfabetos funcionais brasileiros são formados por egressos de estabelecimentos de ensino precários. Essas autoras discutem questões sobre construção de indicadores de analfabetismo e seu oposto, o letramento. Analisam a evolução desses conceitos e sua importância para o campo da EJA. Destacam fatores que influenciam no letramento da população71. Concluem em seus estudos que, embora a pesquisa Indicador Nacional de Alfabetismo (INAF) alerte que a escolarização formal não é o único fator determinante dos níveis de alfabetismo de jovens e adultas, que certos mínimos de escolaridade constituem as bases necessárias para a manutenção e o desenvolvimento das habilidades típicas do alfabetismo.