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Antes de seguir com o deleitoso tema dos prazeres da mesa, adianta-se que a gastronomia aqui abordada estende-se a partir de seus princípios, como da “arte de comer bem”, definida pela Académie Française na primeira década do século XIX (KELLY, 2005, p. 58). Admite-se que a gastronomia aqui tratada está além de um modelo que se restringia a atender à nobreza, quando o arauto Brillat-Savarin (1755-1826) elucidou em seus versos o conjunto de prazeres dessa gastronomia de outrora:

O prazer de comer é a sensação atual e direta de uma necessidade que se satisfaz.

O prazer da mesa é a sensação refletida que nasce das diversas circunstâncias de fatos, lugares, coisas e personagens que acompanham a refeição.

O prazer de comer, nós o temos em comum com os animais; supõe-se apenas a fome e o que é preciso para satisfazê-la.

O prazer da mesa é próprio da espécie humana; supõem cuidados preliminares com o preparo da refeição, com a escolha do local e a reunião dos convidados. O prazer de comer exige, se não a fome, ao menos o apetite; o prazer da mesa, na maioria das vezes, independe de ambos. (SAVARIN, 1995, p. 170)

O prazer vindouro da gastronomia, como conclamado na corte francesa, ainda que se mantenha entre alguns comensais na contemporaneidade, embrenhou-se em outros temperos, pois as iguarias, postas à mesa, e os sublimes cenários que as envolvem, passaram a fazer parte da lógica do espetáculo e, como tal, os prazeres da mesa também passaram a ser vislumbrados e sonhados pelas vias do fetichismo.

Tal afirmação apoia-se em Maria Rita Kehl (2003) que, com base em Debord (2005), ressalva que “a vida contemporânea é toda mediada pelo espetáculo” e, como tal, “‘nosso’ espetáculo abarca toda a extensão da vida social, porque se traduz na forma de imagens industrializadas; imagens que são mercadorias, portanto, funcionam socialmente como fetiches” (KEHL, 2003). Sendo assim, se “na sociedade espetacular [...] todas as nossas

relações, hoje, são mediadas pelo fetiche da mercadoria/imagem” (ibidem), infere-se que os momentos à mesa, e os consequentes prazeres em torno dos alimentos – que antes de tudo são bens nutricionais, fariam parte dessa premissa. Assim, a comida como um bem alimentício e inerente à sobrevivência humana, enquanto envolta pelo espetáculo, insere-se na relação social que é mediada por imagens e transforma-se em uma delas. Essa condição dada ao alimento vai ao encontro do que ressalva Debord (2005, p. 34): “o espetáculo é uma permanente guerra do ópio para confundir bem com mercadoria; satisfação com sobrevivência, regulando tudo segundo as suas próprias leis”.

Com o fetichismo imperando frente aos alimentos, os prazeres da mesa - enquanto envoltos pelo espetáculo - ganham novas prerrogativas. Kehl (2004), ao arguir sobre o gozo, aborda o papel da publicidade no movimento de um mercado que é determinado pelas leis do capital. Para ela, “nosso gozo fugaz de neuróticos submetidos às leis do mercado, embasbacados pelo brilho fetichista das mercadorias, serve ao Capital, único senhor cujo gozo não encontra limites” (ibidem, p. 9). Segundo a autora:

Se o publicitário, munido das mais avançadas técnicas de pesquisa de mercado, sabe perfeitamente o que quer conseguir de seu público-alvo, é ele quem está em posição de mestre do gozo em relação aos neuróticos que fazem (o que o Outro manda) sem saber o que estão fazendo. As eficientes técnicas de sondagens das motivações, tendências e demandas emergentes do público consumidor colocam ao alcance dos publicitários um saber que os torna capazes de agenciar as motivações inconscientes dos consumidores e responder a elas com um produto, uma imagem, uma marca. No estágio atual do capitalismo, que poderíamos chamar, com Debord, de estágio espetacular, a alienação analisada por Marx vem se aperfeiçoando na medida em que o inconsciente trabalha para a acumulação de capital: com isso a servidão se torna cada vez mais voluntária (Ibidem, p.11).

O objeto selecionado nesta tese aborda os discursos das revistas segmentadas em gastronomia de luxo, portanto, a publicidade também é um tópico recorrente. Assim, sustentamos que essas ponderações explicitadas pela autora se estendem para os demais textos, que são aqui analisados, mesmo porque, segundo ela, “a proliferação da mercadoria- imagem consolida a ‘democratização’ do gozo, uma vez que, se poucos têm acesso à posse das mercadorias, todos podem ter acesso ao gozo das imagens” (ibidem, p. 13).

Desse modo, observa-se então que, as mercadorias, imbricadas ao campo da gastronomia, estão banhadas pelos signos que agregam valor a elas, e farão a vez do capital simbólico desse campo - o capital culinário. Envolvidas por signos, elas carregam seus mistérios e, com essa forma fantasmagórica, mudam seu poder de troca, pois passam a ser

vistas pelo ângulo do fetichismo. Para Kehl (2003) “a definição mais simples do fetichismo da mercadoria, é a de que ele é resultado de uma operação que oculta, sob a aparente equivalência objetiva das mercadorias, as diferenças – sob as formas de dominação e exploração – entre os homens que as produziram”.

O caráter misterioso em que as mercadorias são mantidas no campo da gastronomia, que as distanciam de serem determinadas por seu valor-de-uso, convoca os atores ao hedonismo, quer pelas vias dos prazeres da mesa ou pela distinção que elas venham a oferecer aos agentes do campo. Desse modo, é atendida a lógica cultural do capitalismo globalizado, que lida com valores signos e não apenas com mercadorias, em que a mercadoria nunca aparece como mercadoria, mas com a aura da economia sígnica que a sombreia.

Ao apoiar-se nas análises das revistas e nesses conceitos apresentados, busca-se compreender, a partir deste capítulo, as relações de força entre os agentes e/ou as instituições que fazem parte do campo da gastronomia, verificando, assim, como eles mantêm e distribuem suas fichas do capital culinário, a fim de manter a lógica do espetáculo que sustenta esse campo. Desse modo, serão apresentadas as relações, as posições e os benefícios específicos dos e para os agentes, assim como as regras e os limites tácitos que demarcam as dinâmicas fronteiras que tangenciam as tramas que enredam o espetáculo em torno da gastronomia. No mais, infere-se que os prazeres da mesa, enquanto relacionados ao campo da gastronomia, estão ancorados no fetichismo, portanto, eles incluem-se nesse roteiro.

Bourdieu e Wacquant (ibidem, p. 159) afirma que para analisar um campo são necessários três momentos: “analisar a posição do campo frente ao campo do poder”; traçar um mapa das posições ocupadas pelos agentes e instituições que façam parte do campo e analisar os hábitos dos agentes e os sistemas de disposição que eles adquirem na trajetória definida no campo. Com base nesse apontamento, tem-se consciência de que esta pesquisa não dará conta de, enfaticamente, mapear todas essas determinações para delinear o campo da gastronomia. Assim, prevê-se que serão necessárias investigações futuras para atender às lacunas que se manterão aqui em aberto, ainda mais por se tratar de um campo bastante complexo, e com muitas frentes, e que pode ser abordado por diversas áreas. No entanto, confia-se que, as análises aqui discutidas serão suficientes para constatar os traços principais desse campo, e sua relevância diante do poder intrínseco a ele demandado, inclusive por tratar-se de um campo que é mantido pela lógica do espetáculo, portanto, que “encontrou as condições sociais do grande comércio e da acumulação dos capitais [...]” (DEBORD, 2005, p.30).

Assim, pretende-se com as análises das revistas Prazeres da Mesa e Go Where

Gastronomia, as publicações selecionadas para serem abordadas neste capítulo, dar-se conta de arrazoar sobre essas questões em torno do campo da gastronomia, ampliando, assim, as ponderações já abordadas nos três primeiros capítulos, em que foram discutidas, mais amiúde, as imagens das iguarias expostas em Gula, Alta Gastronomia e Menu.

Desse modo, com as análises de Prazeres da Mesa e Go Where Gastronomia, propõe- se que o leitor atente para o fato de que o capital culinário – que se infere como sendo o capital simbólico do campo da gastronomia, não é constituído pelas mercadorias propriamente ditas, que teriam um valor de troca nesse campo, mas sim pelas propostas culinárias com seus acessórios afins, contextualizadas em um cenário em que elas tornam-se imagens-atratoras. Para que isso ocorra, é necessária a atuação de actantes específicos, como chefs de cozinha, críticos gastronômicos, restauranteurs, sommeliers, entre outros, com seus títulos ou cargos que nomeiam cada ator desse campo e legitimam suas posições. Nesse complexo cenário, em que se mantém esse coletivo exposto, é que se forma o espetáculo e se sustenta a operação do fetiche – e dos prazeres da mesa – em torno das mercadorias-signos.

Benzer Belgeler