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Tratamos, na primeira parte desta pesquisa, do processo de estruturação da cidade. Esse processo se deu de forma lenta, (des)contínua e contraditória durante os dois primeiros períodos que elegemos para a análise, isto é, entre 1870-1930 e 1930-1980. Utilizaremos aqui o conceito de reestruturação para o terceiro período, que vai de 1980 aos dias atuais. Embora saibamos que o processo de reestruturação da cidade não se deu „da noite para o dia‟, como pode sugerir o recorte temporal, entendemos que, por Juazeiro do Norte está ligada a processos mais amplos do ponto de vista econômico e político, a década de 1980 torna-se significativa, pois ela é, no Brasil, basilar para se entender as novas lógicas de produção do espaço urbano, particularmente nas cidades médias, e que no Ceará um novo projeto político- econômico de guinada neoliberal é posto em prática pelo Estado na produção do espaço urbano85.

Mesmo o processo de reestruturação tendo se iniciado na década de 1970 em escala internacional, tratando-se do contexto urbano e do arranjo espacial das cidades, os rebatimentos deste processo, principalmente referentes ao centro das cidades, se tornam mais visíveis na década de 1980, mas de forma desigual conforme a formação socioespacial, principalmente em países como o Brasil. De acordo com Villaça (2009), já nos anos 1950 e 1960 a produção de novas áreas de concentração de comércio e serviços nas cidades brasileiras pode ser verificada com a formação de subcentros no Rio de Janeiro (anos 1950), se generalizando nas demais metrópoles brasileiras e mesmo em algumas cidades médias a partir dos anos 1970.

Entretanto, é a década de 1980 considerada por muitos pesquisadores como o período de consolidação de uma nova urbanização brasileira, caracterizada, dentre outros fatores, pela maior participação demográfica e funcional das cidades médias e/ou intermediárias, pari

passu com o que ficou conhecido como “involução metropolitana” (SANTOS, 2008b). É

nesse período, também, que novos agentes e lógicas de estruturação do espaço urbano passam a ser postas em prática, o que redefine paulatinamente a relação centro-periferia nas cidades

85 Sobre o que se convencionou chamar de “Governo das Mudanças” encabeçado por Tasso Jereissati e sua

brasileiras – metrópoles e médias cidades – ao passo que a concentração única, que expressava centralidade no espaço urbano, entra em redefinição (SPOSITO, 2010a).

O processo de reestruturação do espaço urbano é complexo. Pode ser enfocado por vários ângulos de análise, e está atrelado “às mudanças recentes da economia e das práticas sociais, quer no que se refere a novas formas de produção industrial, quer no que se refere a novas formas de distribuição e consumo” (SPOSITO, 2004, p. 261). Em outras palavras, “a reestruturação do espaço urbano é parte de uma evolução mais ampla da economia capitalista contemporânea” (SMITH, 2007, p. 29).

Para Smith (2007), a reestruturação do espaço urbano está atrelada à transformação das áreas centrais das cidades, em que ganha destaque o processo de gentrificação ao lado da suburbanização. Afirma ele que “a reestruturação do espaço urbano é geral, mas de maneira nenhuma universal” (SMITH, 2007, p. 20). Ou seja, é geral porque é um processo que acontece no decorrer de crescimento de toda e qualquer cidade86, levando-a a um novo arranjo, mas não é universal porque não acontece ao mesmo tempo em todas as cidades, é um processo desigual do ponto de vista espaço-temporal.

Sposito (2004, p. 312), por sua vez, prefere resguardar o conceito de reestruturação para “fazer referência aos períodos em que é amplo e profundo o conjunto das mudanças que orienta os processos de estruturação urbana e das cidades”. Tal raciocínio se fundamenta em Soja (1993), para quem

A reestruturação em seu sentido mais amplo, transmite a noção de uma “freada”, se não de uma ruptura nas tendências seculares, e de uma mudança em direção a uma ordem e uma configuração significativamente diferentes da vida social, econômica e política. Evoca, pois, uma combinação seqüencial de desmoronamento e reconstrução, de desconstrução e tentativa de reconstituição, proveniente de algumas deficiências ou perturbações nos sistemas de pensamento e ação aceitos [...] pode-se descrever essa freada-e-mudança como uma reestruturação temporal-espacial das práticas sociais, do mundano para o mondiale [mundial] [...] A reestruturação não é um processo mecânico e automático, nem tampouco seus resultados e possibilidades potenciais são predeterminados. Em sua hierarquia de manifestações, a reestruturação deve ser considerada originária de e reativa a graves choques nas situações das práticas sociais preexistentes, e desencadeadora de uma intensificação das lutas competitivas pelo controle das forças que configuram a vida material. (SOJA, 1993, p, 193-194).

86 “Todo processo de crescimento e desenvolvimento urbano consiste em um constante arranjo, estruturação e

reestruturação do espaço urbano. O que é novo, hoje, é a intensidade em que esta reestruturação do espaço se apresenta, como um componente de uma ampla reestruturação social e econômica das economias capitalistas avançadas” (SMITH, 2007, p. 20).

Avançando a partir desta perspectiva, Sposito (2004, 2007) propõe uma distinção do ponto de vista da escala geográfica para ajudar a entender as transformações dos espaços urbanos a partir do ponto de vista da reestruturuação. Segundo a autora, as alterações espaciais na escala do espaço urbano seriam conceituadas como reestruturação da cidade, enquanto que, a reestruturação urbana, ficaria reservada para entender os processos de reestruturação na escala regional e da rede urbana. Mas, longe de ser uma oposição dicotômica, adverte a autora que “essa distinção conceitual tem a intenção, apenas, de destacar o que se toma como prevalente, em cada momento da análise, porque não há reestruturação urbana sem reestruturação da cidade e vice-versa” (SPOSITO, 2004, p. 312).

É importante ressaltarmos aqui, antes de prosseguirmos, que analisar a reestruturação do espaço urbano ou qualquer outra reestruturação (econômica, política, social, econômica) não significa uma ruptura total com o passado preexistente. Esse processo se dá, como o próprio Soja (1993) afirmou, em “uma mescla complexa e irresoluta de continuidade e mudança. Como tal, a reestruturação se enquadra entre a reforma parcial e a transformação revolucionária, entre a situação e perfeita normalidade e algo completamente diferente” (SOJA, 1993, p, 193-194). Neste sentido, não são só as transformações e as mudanças que a reestruturação espacial se refere, mas como estas se articulam contraditoriamente e dialeticamente com o preexistente, com a forma espacial que condiciona os novos processos,

lógicas e práticas. É como afirmou Braudel (1987, p. 44), quando escreveu que “jamais existe entre passado, mesmo passado longínquo, e tempo presente uma ruptura total,

uma descontinuidade absoluta ou, se preferirem, uma não-contaminação. As experiências do passado não cessam de prolongar-se na vida presente, de a fecundar”.

No âmbito da cidade isso é fundamental, visto que, como afirmou Roncayolo (1986), a cidade é uma continuidade histórica, um produto social, que perpassa os modos de produção, que tem na duração o seu valor principal. A cidade é, então, uma continuidade/ descontinuidade espaço-temporal (LEFEBVRE, 2008a). Isto ficará claro no decorrer da análise de Juazeiro do Norte, em que o processo de reestruturação do espaço urbano que se assiste não se refere a uma substituição e/ou declínio absoluto do centro da cidade, mas a uma perda relativa de seus papéis frente às novas áreas de centralidade que surgiram nas últimas duas décadas; em outras palavras, o centro principal de Juazeiro do Norte ainda exerce um papel importante, mesmo com o surgimento dos novos espaços de concentração de comércio e serviços.

Todavia, não se pode descartar o papel que o novo promove no contexto da produção do espaço, pois, como escreveu Santos (2008b, p. 107), “a chegada do novo causa um choque. Quando uma variável nova se introduz num lugar, ela muda as relações preexistentes e estabelece outras. Todo o lugar muda”. A chegada das novas formas comerciais modernas e o surgimento das novas áreas de centralidade na cidade estudada são exemplos deste processo da inserção do novo e das tensões deste com o velho. Assim, continuidade e mudança, velho e novo, estruturação e reestruturação estão presentes na análise da redefinição da centralidade em Juazeiro do Norte.

Consideramos, então, que a redefinição da centralidade no espaço urbano, bem como as alterações das formas e dos conteúdos do centro e da periferia87 nas cidades, faz parte do processo de reestruturação (mas não no sentido apresentado por Smith (2007) da gentrificação, que é, apenas, uma das facetas das transformações dos centros e das áreas centrais das cidades) no sentido do surgimento de novas áreas de concentração de comércio e serviços que acabam por alterar as lógicas de estruturação da cidade que até então estavam postas.

É vasta a bibliografia existente sobre o tema dos centros das cidades e da formação de novas áreas de centralidade no espaço urbano, comumentemente identificadas como “novas centralidades”88. Sem realizar uma profunda discussão sobre os conceitos de centro e centralidade – esforço este já realizado por Tourinho (2006), que faz uma incursão sobre as propostas teóricas da temática em tela na produção acadêmica dos geógrafos, dos sociólogos e dos arquitetos e urbanistas ao longo do século XX, e outros autores como Sposito (1991, 1998, 2001, 2010) – faremos aqui, antes de adentrar ao empírico propriamente dito, isto é, a cidade de Juazeiro do Norte, uma breve contextualização do debate sobre centro e centralidade baseado em alguns autores que nos servem como referencial, dando atenção especial para os processos e as formas nas quais se manifesta a redefinição da centralidade na escala do espaço urbano.

Existe certo consenso entre os pesquisadores a respeito das transformações da centralidade na cidade no tocante ao período em tela. A década de 1970 é a mais lembrada no que se refere à alteração da estruturação da cidade e urbana, quando o par centro-periferia

87 O debate sobre a periferia requer um aprofundamento que foge às pretensões deste trabalho. No entanto,

indicamos Burgel (1991) e a edição nº 42 da revista Espaço e Debates, cujo tema é “A periferia revisitada” para o leitor que deseja se aprofundar no tema.

88 Sobre isso ver Ascher (2001), Borja (2001a, 2001b), Portas (2001), Sposito (1991, 1998, 2001, 2004, 2010),

passa a ser redefinido num contexto urbano global, momento também em que o centro e a centralidade na escala da cidade passam a ser problematizados e questionados em suas próprias conceituações (TOURINHO, 2004). É a época em que centro e centralidade deixam de ser confundidos entre si (figura 8).

Isso é importante porque a redefinição da centralidade na cidade não é um processo tão novo quanto parece, pois data do início do século XX, tendo sido alvo dos estudos da Escola de Chicago89 e posteriormente com a reconstrução do centro das cidades após a Segunda Guerra Mundial (TOURINHO, 2004). A diferença consiste em que, somente após os anos 1970, essa redefinição se dispersa pelo mundo, o que não significa dizer que todas as cidades passaram a apresentar estruturas multicêntricas, mas que a redefinição do par centro- periferia passou a ocorrer em cidades de menor porte das diferentes redes urbanas e regiões do espaço global.

Figura 8 - Esquema sintético de redefinição da centralidade no espaço urbano. Fonte: Bonnet e Tomas (1989, p. 8).

Sposito (2010a) chama a atenção para quatro determinantes que influenciaram a redefinição da centralidade no espaço urbano após os anos 1970.

1) As novas localizações dos equipamentos comerciais e de serviços concentrados levam à mudanças na estrutura e no papel do centro principal ou tradicional, o que provoca uma redefinição do centro, da periferia e da relação centro-periferia; 2) A rapidez das transformações econômicas que marcam a passagem do sistema produtivo fordista para formas de produção flexíveis impõem mudanças na estrutura interna das cidades e nas relações entre as cidades de uma mesma rede; 3) a redefinição da centralidade urbana não é uma dinâmica nova, porém adquire novas dimensões e se consideramos o impacto das transformações atuais, não somente nas metrópoles e grandes cidades, mas também nas cidades de média importância; 4) o uso do automóvel e o aumento da importância do lazer e do tempo destinado ao consumo reorganizam o quotidiano das pessoas e a lógica de localização dos equipamentos comerciais e de serviços (SPOSITO, 2010a, p. 199).

Surge, assim, o que se tem chamado na literatura especializada de “novas centralidades”. De maneira geral, as “novas centralidades” – muitas vezes chamadas de “novas áreas centrais” ou “novos centros”, termos que tem se multiplicado nos estudos sobre o tema em tela, mas de maneira equivocada como apontou Tourinho (2004) – caracterizam-se como espaços de concentração de atividades econômicas, principalmente ligadas ao terciário – comércio e serviços – que se localizam fora do centro principal de uma cidade, podendo se expressar, do ponto de vista da forma espacial, de diferentes maneiras (subcentro, shopping

center etc.).

Visto que a centralidade se caracteriza como o do lugar do central (TOURINHO, 2004), o “essencial do fenômeno urbano” (LEFEBVRE, 2008b, p. 108), e sendo responsável pela articulação das diversas partes da cidade através dos fluxos e processos (SPOSITO, 2001, 2010), e o centro se caracteriza como a forma espacial, em outras palavras, a “expressão territorial do processo” que é a centralidade (SPOSITO, 2010), centro e centralidade são conceitos que se articulam e formam uma unidade dialética. Forma e processo, fixo e fluxo, continente e conteúdo são pares que exemplificam essa relação conceitual. Lefebvre (2008b), embora use a expressão “centro urbano”, esclarece a natureza do centro da cidade (adiante voltaremos à questão do “centro urbano” e do “centro da cidade”).

O centro urbano é preenchido até a saturação; ele apodrece ou explode. Às vezes, invertendo seu sentido, ele organiza em torno de si o vazio, a raridade. Com mais freqüência, ele supõe e propõe a concentração de tudo o que existe na natureza, no mundo, no cosmos: frutos da terra, produtos da indústria, obras humanas, objetos e instrumentos, atos e situações, signos e símbolos. Em que ponto? Qualquer ponto

pode tornar-se o foco, a convergência, o lugar privilegiado. De que sorte que todo o

espaço urbano carrega em si esse possível-impossível, sua própria negação. De sorte que todo espaço urbano foi, é, e será concentrado e poli(multi)cêntrico. A forma do espaço urbano evoca e provoca essa concentração e essa dispersão: multidões,

acumulações colossais, evacuações, ejeções súbitas [...] Não existe cidade, nem realidade urbana, sem um centro. Mais que isso: o espaço urbano se define, já dissemos, pelo vetor nulo; é um espaço onde cada ponto, virtualmente, pode atrair para si tudo o que povoa as imediações: coisas, obras, pessoas. Em cada ponto, o vetor espaço-tempo, distância entre conteúdo e continente, pode tornar-se nulo (LEFEBVRE, 2008b, p. 44 – 90 – grifos do autor).

No que tange à centralidade, Lefebvre (2008b) segue o mesmo caminho no que se refere o método, e mostra que não só o centro é dialético, mas a centralidade também o é. Assim, é fundamental considera-la

como movimento dialético que a constitui e a destrói, que a cria ou a estilhaça. Não importa qual o ponto possa ser central, esse é o sentido do espaço-tempo urbano. A centralidade não é indiferente ao que ela reúne, ao contrário, pois ela exige um conteúdo. E, no entanto, não importa qual seja esse conteúdo. Amontoamento de objetos e de produtos nos entrepostos, montes de frutas nas praças do mercado, multidões, pessoas caminhando, pilhas de objetos variados, justapostos, superpostos, acumulados, eis o que constitui o urbano (LEFEBVRE, 2008b, p. 108).

Refletindo acerca da formação da centralidade90, Castells (1979, p. 230) afirma que

La centralidad urbana proviene, en un primer punto, de la expresión a nível de espacio de lo que los estudiosos llaman desde hace tiempo la división social del espacio. Es decir, en la medida en que hay una división del trabajo en la sociedad, en la medida en que hay distintas actividades y distintos niveles sociales ligados a estas actividades, esta división se espacializa y al espacializarse hay, a la vez, elementos de diferenciación y elementos de coordinación, tanto a nivel social como espacial. Los centros urbanos son la expresión de esta necesaria coordinación de las actividades y categorias sociales en su dimensión espacial. Es decir, los centros urbanos son la organización espacial de la puesta en relación, de intercambio, de la coordinación, con respecto al proceso de la división social del trabajo.

Em outro trabalho, Castells (1988) vai além, distinguindo centralidade e centro das cidades.

Este conceito [a centralidade] refere-se à combinação de vários processos sociais no espaço [econômicos, políticos, simbólicos]. Não há uma centralidade, mas um conjunto de processos que a definem. Estes processos não são necessariamente redutíveis aos centros urbanos que, eles, são entidades espaciais concretas, ligados com a história de uma cidade particular. Eles correspondem a diferentes modalidades de hierarquização urbana, de trocas na cidade e de atividade de inovação própria aos centros (CASTELLS, 1988, p. 29)91.

90 A centralidade para Castells (1979) é formada por quatro elementos: “Primer elemento: coordinación; segundo

elemento: concentración de actividades; tercer elemento: se relaciona a la necesaria accesibiiidad de las zonas centrales, conforme se desarrolla el proceso de crecimiento urbano [...] Un cuarto proceso que concurre a la formación de la centralidad es la diferenciación simbólica del espacio y la concentración de dichos procesos simbólicos en ciertos lugares espaciales” (CASTELLS, 1979, p. 230-231).

91 Tradução nossa, do original: “Ce concept se réfère à la combinaison de plusieurs processus sociaux dans

l'espace. I ln' y a pas un e centralité, mais uu ensemble de processos qu il a définissent. Ces processus ne

sont pas nécessairement réductibles à des centres urbains qui, eux, sont des entités spatiales concrètes, liées à l'histoire d'une ville particulière. Ils correspondent plutôt à différentes modalities de la hiérarchisation urbaine, des échanges dans la ville et d'activité d'innovation proper aux centre” (CASTELLS, 1988, p. 29).

Diante disto, sabendo que centro e centralidade são conceitos relacionados, mas distintos, os novos espaços de concentração de comércio e serviços nas cidades têm sido caracterizados como “novas centralidades”, ou seja, novas áreas que articulam o território da cidade e que expressam os atributos antes encontrados apenas no centro principal ou tradicional.

Mas seria a expressão “novas centralidades” a melhor para fazer referência a estas novas áreas de concentração de atividades econômicas do terciário no espaço urbano? Existiriam, de maneira oposta, “velhas centralidades”? Se a relação entre centro e centralidade é inexorável, isto é, um não existe sem o outro (SPOSITO, 2001), falar de novas centralidades significa estar se falando de novos centros? Se sim, o que é então o centro? Ele vai além do aspecto funcional e econômico? Engloba a dimensão simbólica, do lúdico, da festa? Se não, qual diferença entre o centro e estas “novas centralidades”? “Para entender hoje as questões referentes ao centro é fundamental explorar o conceito de centralidade urbana, assim como, para compreender as áreas de nova centralidade, é essencial voltar à pergunta pelo centro” (TOURINHO, 2004, p. 12).

O centro é caracterizado na ampla bibliografia especializada como um espaço dotado de qualidades que o diferenciam das demais áreas da cidade (BEAUJEU-GARNIER, 1965, 1970, 1988a, 1988b; LABASSE, 1970; LÉVY, 1986; MONNET, 2000; OSTROWETSKY, 1994, PERNELLE, 1970; SANTOS, 1959; SZULC, 1975; TOURINHO, 2004; SALGUEIRO, 1996; SPOSITO, 2010a; VILLAÇA, 2009, 2012) sendo nesta área em que os valores e funções urbanos, o preço do solo, a densidade da atividade comercial e de serviços, a presença de estabelecimentos de lazer e diversão diurna e noturna, de edifícios públicos, do anonimato e da liberdade se apresentam com maior intensidade (RENDU, 1970). Para Labasse (1970, p. 8), “o centro é de fato um pouco de tudo de uma só vez, quer dizer, uma reunião das mais altas manifestações da vida de relações, segundo o princípio de nodalidade que está no coração da noção de cidade”. E o autor continua, afirmando que “para o geógrafo, o centro é em definitivo o lugar ou o ponto de convergência onde a cidade exerce e afirma o poder e de onde se dirige uma imagem que exalta a radiação” (LABASSE, 1970, p. 8)92. O centro da cidade, portanto, não pode ser entendido apenas pelo ponto de vista funcional,

92 Tradução nossa, do original: “Le centre est en fait un peu tout cela à la fois, c‟est-à-dire le rassemblement des

plus hautes manifestations de la vie de relations, selon le príncipe de nodalité qui est au coeur de la notion de ville. Pour le geografe, le centre est en définitive le lie ou le foyer de convergence où la ville exerce et afirme as puissance et d‟où se dérage une image qui em exalte le rayonnement” (LABASSE, 1970, p. 8).

embora este seja um elemento essencial. Como escreveu Labasse (1970, p. 14) “nenhuma análise puramente funcional nos permite entender a realidade substancial do centro”93, ou seja, “a noção de centro da cidade tem um significado tanto espacial, histórico, funcional e sociológico” (BEAUJEU-GARNIER, apud BONNET; TOMAS, 1989, p. 3) 94.

O centro da cidade, desta forma, não é tido por nós como a mesma coisa que o Distrito Central de negócios – Central Business District (C.B.D) – tão característico das cidades dos Estados Unidos e Canadá. Este é compreendido mais como um espaço em que a funcionalidade é excessiva, um espaço de negócios por excelência, onde o prestígio se confunde com a riqueza, o poder e o espírito de competição (LABASSE, 1970). A habitações, o comércio e a rua, esta última como lugar de diversidade de atividades e do favorecimento de práticas de espaço que favorecem os contatos sensoriais, são eclipsadas pelo C.B.D (LÉVY,

Benzer Belgeler