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Existe outro aspecto interessante em relação ao centro principal que o diferencia das outras áreas, que é a especialização interna. Esse aspecto é uma característica do centro das cidades e Johnson (1974, p. 170) já levantara essa questão, afirmando que “el centro de la ciudad no es uma región urbana homogénea”. A especialização no centro principal de Juazeiro do Norte pode ser encontrada em algumas ruas. A Rua São Pedro, por exemplo, perpassa por três bairros: o Centro, o Salesianos e o Santa Tereza. Ao longo de seu percurso, é possível identificar algumas especializações internas do ponto de vista funcional.

Na altura do bairro Santa Tereza, onde a rua termina, observa-se uma especialização funcional pela concentração de estabelecimentos ligados a serviços automotivos. São oficinas e mecânicas, que comercializam peças de carros e de motos, que se encontram no setor sul da referida rua. No bairro Salesianos, vizinho ao Santa Tereza em direção ao setor norte, é possível notar uma certa concentração de lojas de material de construção. É importante lembrar que essas concentrações de estabelecimentos não anulam a presença de outros ramos de atividades, que se mesclam e se misturam em determinados locais. É possível ver, por exemplo, mercearias e alguns estabelecimentos vinculados a outros ramos como de confecções, calçados, farmácias e outros.

Já no centro, a Rua São Pedro apresenta uma concentração das lojas de eletrodomésticos entre as Ruas São Francisco e Santa Luzia. Há de modo mais claro, uma mescla de atividades comerciais e de serviços, destacando-se, além das lojas de móveis e eletrodomésticos, as joalherias, bijuterias, roupas e confecções, lanchonetes, farmácias entre outras. Há especialização notada no centro principal também na Rua Padre Cícero, com a presença de um corredor com uma concentração significativa de estabelecimentos de serviços de saúde que, segundo o nosso levantamento de campo, constam mais de 45 entre clínicas médicas das mais variadas especialidades, como oftalmologia, cardiologia, fonoaudiologia e clínicas de exames laboratoriais.

Além desta, a Rua São Paulo apresenta especialização funcional no que tange às mercearias e aos estabelecimentos atacadistas, principalmente nas proximidades do Mercado Central. Nas proximidades da Basílica Menor, observa-se uma concentração de usos misto do solo, com a presença significativa de “ranchos” e pousadas para os romeiros nas Ruas Dr. Floro, Padre Cícero e da Matriz.

No âmbito dos serviços bancários, o centro da cidade concentra a maior quantidade de agências bancárias distribuídas por algumas ruas do centro principal. Das 12 agências existentes na cidade, oito delas estão localizadas no centro, o que reforça ainda mais o seu papel de espaço privilegiado para as atividades financeiras. São duas agências do Bradesco, uma do Itaú, uma do Banco do Brasil, uma do HSBC, uma do BicBanco, uma da Caixa Econômica Federal e uma do Banco do Nordeste.

Quadro 5 - Juazeiro do Norte. Localização das agências bancárias no centro principal e datas de instalação.

Instituição Endereço Bairro Data De Início

Banco Bradesco S.A. Rua Santa Luzia, 321 Centro 20-10-1972 Banco Bradesco S.A. Rua da Conceição, 503 Centro 15-05-2006 Banco do Brasil S.A. Rua São Francisco, 315 Centro 03-05-1959 Banco do Nordeste do Brasil S.A. Rua São Pedro, 333 Centro 01-10-1957 Banco Industrial e Comercial S.A. Rua Santa Luzia, 391 Centro 31-10-1974 Caixa Econômica Federal Rua da Conceição, 361 Centro 23-08-1973 Hsbc Bank Brasil S.A. - banco

múltiplo Rua Santa Luzia, 433/439 Centro 26-03-1997

Itaú Unibanco S.A. Rua São Pedro, 1056 Centro 27-12-2007

Fonte: BACEN - Banco Central do Brasil (2013) e pesquisa de campo (2012-2013). Organização: Cláudio Smalley Soares Pereira (2013).

Como as demais atividades comerciais e de serviços, os bancos e as atividades financeiras também precisam de estratégias de localização para poder funcionar, estratégias

estas que se baseiam em economias de aglomeração por meio da concentração espacial114. No âmbito do espaço urbano – e da rede urbana também – os bancos não se distribuem de forma homogênea, mas sim de forma seletiva, baseada no que Garrocho-Rangel e Campos-Alanís (2010) chamam de “sítios estratégicos”. Estes sítios estratégicos se referem a espaços na cidade que facilitam a realização das atividades financeiras, isto é, maximizam a acessibilidade ao cliente, as vendas de serviços bancários e as ganâncias da firma (GARROCHO-RANGEL; CAMPOS-ALANÍS, 2010), e são exemplificados a partir de pelo menos quatro exemplos:

[...] lo atractivo del sitio (una plaza comercial de lujo es más atractiva que un barrio marginal), los costos de transporte (usualmente el centro de la ciudad o los subcentros de actividad son más accesibles que las zonas periféricas), la calidad de las vialidades (una gran avenida ofrece más ventajas de ubicación y visibilidad que una calle secundaria) o las percepciones diferenciadas de los clientes (la apreciación de la seguridad en ciertas zonas de la ciudad o lo atractivo que le resultan ciertos espacios intraurbanos a cada segmento del mercado) (GARROCHO-RANGEL; CAMPOS-ANALÍS, 2010, p. 417).

Desse modo, o centro principal de Juazeiro do Norte parece ser o “sítio estratégico” privilegiado para a localização dos bancos, e pelo menos vinha sendo até o final dos anos 1990, quando outras áreas passaram a ser atraentes para o setor bancário – isso será visto mais adiante – relacionado a novas tendências de produção do espaço urbano e a segmentação social.

Mas o centro principal de Juazeiro do Norte, além de ter esse papel econômico forte, concentrando grande parte dos estabelecimentos comerciais e de serviços presentes na cidade, tem o seu papel na estruturação da cidade atual reforçado pela presença de equipamentos coletivos ligados à memória da cidade e a imagem mística do Padre Cícero, como a Praça Padre Cícero, a Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores e a casa do Padre Cícero. A centralidade simbólica115 com estes atributos e significados é singular ao centro principal. A presença desses fixos é importante porque esta cidade recebe anualmente milhares de

114 “[...] la mayoría de las firmas comerciales y de servicios (como las sucursales bancarias) ofrecen una mezcla

de productos que son sustitutos imperfectosy complementarios,y por tanto se organizan espacialmente en forma de clusters para facilitar y hacer más económico al consumidor su proceso de búsqueda y compra de productos, así como aprovechar otras importantes economías de aglomeración, como se explica” (GARROCHO-RAGEL; JUAN, 2010, p. 419).

115 A centralidade simbólica não se resume, teoricamente, ao centro da cidade. Pode, pelo contrário, expressar-se

além deste, dependendo da cidade, mas no caso de Juazeiro do Norte, os atributos simbólicos do centro só são encontrados neste espaço. Este tema merece um estudo à parte. Sobre a centralidade simbólica, ver Monnet (2000).

romeiros em devoção ao sacerdote, e a área de compras que os romeiros usam quando estão na cidade é exatamente o centro principal. Suas práticas espaciais estão restritas a esta área.

Essa é uma característica do centro principal de Juazeiro do Norte. Entretanto, nos últimos anos, mais precisamente, a partir do final dos anos 1980, novas lógicas passam a interferir na estruturação da cidade. O comércio passou paulatinamente a se instalar em outras áreas que não o centro principal, dando origem a novas áreas com expressão de centralidade. O que tem sido chamado de crise do centro da cidade e da centralidade116 (LABASSE, 1970; CASTELLS 1979; RENDU, 1970; FAILINCHT, 1970, LEFEBVRE, 2008a, 2008b, 2008c; TOURINHO, 2004; SPOSITO, 2010a; RIOS, 2001), no que se refere às novas localizações dos estabelecimentos de comércio e de serviços, passa a se manifestar também nesta cidade cearense, embora com nuances características, visto que esta área é ainda a que detém a maior concentração de atividades econômicas terciárias. É importante ter em mente que “cuando se habla de una centralidad urbana en crisis, se refiere a las ciudades en su conjunto en crisis [...]” (RIOS, 2001, p. 290) e que “se a cidade é a imagem da sociedade registrada no chão, a crise dos centros é um epifenômeno da crise da sociedade [...]” (FAINLICHT, 1970, p. 23)117. Sobre a crise do centro, Castells (1979) escreve que

[...] a la crisis del centro responde la adaptación funcional, económica y física necesarias a esta crisis del centro. Pero al mismo tiempo se utiliza esta crisis del centro y las necesarias operaciones de adaptación, por el capital inmobiliario y por los jntereses funcionales de las empresas. Sobre esta trama de relaciones se produce la intervención del Estado (CASTELLS, 1979, p. 234-235).

O resultado de tal crise é o surgimento de novos espaços de concentração de atividades comerciais, ou seja, “a desconcentração no interior da cidade se traduz na produção de novos pontos de concentração e, portanto, novas centralidades” (SPOSITO, 2010a, p. 219). Essa é a essência da centralidade segundo Lefebvre (2008b) e o seu caráter dialético faz com que todo centro destrua a si próprio por saturação porque remete a outra centralidade.

[...] no curso de sua realização, a concentração sempre enfraquece e se rompe. É preciso, então, um outro centro, uma periferia, um alhures. Um outro lugar e um lugar outro. Esse movimento, produzido pelo urbano, produz, por sua vez, o urbano. A criação se interrompe, mas por sua vez, para criar (LEFEBVRE, 2008b, p. 109).

116 Mesmo que a expressão “crise” seja um termo forte, usamo-la mais no sentido de redefinição da centralidade.

A opção pela palavra “crise” deu-se pelo fato de ser este termo que é mais usado na literatura quando se trata do centro e da centralidade urbana.

117 Tradução nossa, do original: “Si le ville est bien l'image de la societé inscrite sur le sol, la crise des centres et

Em Juazeiro do Norte, as novas áreas de concentração de comércio e serviços que surgiram, fora do centro principal, são o Pirajá, a área em que se localiza o Cariri Shopping e o Eixo Juazeiro-Crato. Estas novas áreas apresentam características diferentes entre si e o centro principal quanto à “idade”, ao aspecto funcional, os usos e apropriações, consumidores, áreas de influência, à morfologia, a estrutura fundiária e a centralidade que exercem ou expressam no conjunto da estrutura urbana. Passaremos a analisar o processo de desconcentração das atividades terciárias e a formação dessas novas áreas de centralidade no espaço urbano de Juazeiro do Norte e suas relações com o centro principal e a estruturação recente da cidade.

6.3 Caracterização das novas áreas de centralidade

6.3.1. Pirajá

O Pirajá é um bairro residencial que se adensou na década de 1980. Era parte da antiga periferia da cidade, conhecida como Arisco. Atualmente, o Pirajá é, além de um bairro populoso, contando com uma população de 14.800 habitantes (IBGE, 2010), uma área que concentra uma quantidade significativa de atividades terciárias. É considerado por muitos, inclusive pelo próprio poder público local, como um “novo e forte centro comercial da cidade118”.

A ocupação de onde hoje é o bairro Pirajá tem origem no final da década de 1930, quando se instalam as primeiras habitações. O terreno era de propriedade de Francisco Dias Sobreira, e lá se iniciou um pequeno comércio e venda de algodão e cereais em geral. O bairro recebe o nome de Pirajá devido ao Francisco Tavares Pirajá, que estabeleceu um pequeno comércio naquela área, nas proximidades de alguns sítios, como o Macacos, Fazenda Nova e Limoeiro (SOBREIRA, 2011).

De acordo com o relato de Sobreira (2011), alguns lotes de terras foram doados por Francisco Dias Sobreira e, assim, passaram a se instalar as primeiras casas, que já contavam de oito a dez nos anos de 1940, nos anos 1950 já possuía em torno de 100 casas, alcançando no final da mesma década um montante de 500 casas. No final dos anos 1960, o “Jornal

118 “Juazeiro ganha terceira agência do Banco do Brasil”. 2011. Disponível em:

<http://www.juazeiro.ce.gov.br/noticia/lista/04631.juazeiro,ganha,terceira,agencia,do,banco,do,brasil/>. Acesso em: 15 jul. 2012.

Gazeta de Notícia” publicou uma matéria em que se considerava o Pirajá, ao lado do bairro Franciscanos, como “duas pequenas cidades dentro de Juazeiro” (JORNAL GAZETA DE NOTÍCIA, Ano XLIII, nº. 12.228, 1969, p. 7, apud GOMES, 2013, p. 51). Para Sobreira (2011), a expansão e o crescimento demográfico do bairro foram facilitados pelo lançamento da Pedra Fundamental do Santuário de São Francisco, conhecida como Igreja dos Franciscanos, que dá nome a um bairro da cidade. Esta área em que o Pirajá surge compreendia o que se conhecia como Arisco, as áreas periféricas da cidade.

O Pirajá foi a primeira área da cidade em que se instalaram estabelecimentos comerciais que não mais buscavam se localizar no centro da cidade, sendo, portanto, a primeira evidência concreta de desconcentração de atividades terciárias. Tal processo, que data do final dos anos 1980 e início dos 1990, foi influenciado por obras de infraestrutura urbana, como a construção e a ampliação da Avenida Ailton Gomes nos anos 1980 e, sobretudo, pela construção do Centro de Abastecimento Gonzaga Mota, conhecido como Mercado Público do Pirajá (foto 21).

Foto 21 - Juazeiro do Norte. Avenida Ailton Gomes no primeiro plano e o Mercado do Pirajá destacado com a

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