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Como visto, na prática, os grupos focais não aconteceram exatamente da maneira como havíamos previsto. Mas este tópico visa trazer as principais características e condições que fizeram parte de seu desenvolvimento.
Os três grupos focais tiveram entre uma hora e duas horas e oito minutos de duração, sendo que dois foram realizados no Departamento de Educação da UNESP, campus Rio Claro, enquanto um foi realizado na sala da coordenação da Escola I07.
Ao todo, contamos com 12 participantes, sendo elas: PI03; PI08; PI14; PE02; PE22; PE33; PD81; PS29; PS34; PS45; PRD19; P272. O quadro 03 abaixo pode sintetizar essas informações:
Grupo Focal Dia Duração Local Participantes
GF1 22/07 1h35 Laboratório de Educação Ambiental, Departamento de
Educação (UNESP/RC). PI03; PE33; PD81.
GF2 22/07 2h08 Laboratório de Educação Ambiental, Departamento de
Educação (UNESP/RC). PI08; PI14; PE02; PS39; PS45. GF3 29/07 e 05/08 0h33 + 0h27 =
1h00
Sala da coordenação da
Escola I07. PE22; PS34; PRD19; P272.
Quadro 4: Características dos grupos focais realizados.
Todos os grupos tiveram o áudio gravado, mas também foram filmados com uma câmera de vídeo, que foi muito importante na identificação das vozes de cada participante durante a transcrição. O grupo foi acompanhados por mim, que moderei as discussões, e pela assistente de pesquisa, que auxiliou com o material de gravação, como também estava à disposição para ajudar nas anotações necessárias, principalmente no caso das participantes não aceitarem a gravação.
Logo no início dos grupos explicávamos brevemente o que é um grupo focal, deixando claro que não era necessário esperar as perguntas do moderador, que poderiam confrontar as opiniões das colegas, concordar ou discordar, falar sobre assuntos que se lembravam a partir das discussões realizadas, realizar perguntas às demais participantes, enfim, explicamos que deveriam ficar bem à vontade para realizar quaisquer colocações que julgassem pertinentes, como em um bate papo.
Então mostrávamos a importância de se captar o áudio e a imagem, enfatizando que haveria a necessidade de transcrever todas as falas e que isso é facilitado com as gravações, a partir das quais se pode ter acesso as falas na íntegra. Contamos que a filmagem seria importante para diferenciarmos quem estava falando em cada momento – especialmente quando, nas discussões acaloradas, as pessoas acabam falando juntas. Também deixamos
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claro que o material das gravações só seria utilizado para fins da pesquisa e que seria deletado assim que as análises fossem concluídas.
Nenhum dos participantes se opôs as gravações. Antes de iniciar a discussão, entreguei uma folha para cada participante, na qual eles deveriam preencher em que escola e em que série estão atuando no momento, como também assinalar novamente a mesma lista de livros de autoajuda que foi apresentada no questionário.
Porém havia espaço para pontuarem se leram outros livros dos mesmos autores contemplados na lista, e outro espaço para pontuarem outras leituras significativas que fizeram neste ano. Expliquei que a lista deveria ser preenchida a fim de verificarem se leram mais algum livro, se tinham se esquecido de algum, pois já fazia tempo que responderam ao questionário.
Para iniciar o grupo, distribuímos diversos livros considerados de autoajuda sobre a mesa, o que, em alguns momentos, suscitou discussões, comentários, reflexões. Algumas professoras observavam as capas, outras pegavam alguns livros e começavam a folheá-los. Essa estratégia foi principalmente importante no GF2, conforme será detalhado no capítulo que trata das análises de dados.
Assim, levei um roteiro de perguntas, buscando suscitar os tópicos importantes para esse segundo momento. O roteiro3 dividiu-se em cinco blocos, sendo eles:
Bloco 1 – Literatura de autoajuda: buscava aprofundar aspectos já mencionados no questionário, relativos às motivações e contribuições proporcionadas pelos livros;
Bloco 2 – Outras leituras: buscou conhecer a relação das professoras com outro gênero textual, também aprofundando uma questão oriunda do questionário;
Bloco 3 – Escola: nesse desejava-se saber como a equipe gestora e a coordenação lidam com o processo de formação, com as leituras citadas e com os desafios vivenciados pelos professores ao longo do trabalho docente. Em alguns momentos foi possível partir da pergunta do questionário que indagava quais leituras foram realizadas a partir da indicação da escola;
Bloco 4 – Trabalho docente: aqui questionou-se a relação entre as leituras e o trabalho do professor; sobre aspectos vinculados ao trabalho coletivo e ao trabalho com os alunos, questões que não estavam explícitas no questionário;
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Bloco 5 – Formação continuada e profissionalização: nesse foram realizadas diversas perguntas inerentes à formação dos professores (inicial, continuada, aprendizagem com a prática), além de suscitarmos alguns questionamentos inerentes à própria profissão, a aspectos que constituem a profissão, à função do professor etc.
Em alguns momentos as próprias professoras tocavam em pontos que eu gostaria de abordar, sem que a pergunta fosse realizada por mim, o que fez com que esse roteiro fosse utilizado de forma aberta, podendo algumas questões não terem sido feitas por já terem sido contempladas ou terem sido feitas em uma ordem diferente da proposta inicialmente, com o intuito de corroborar a linha de pensamento que vinha sendo discutida, visando à fluência dos debates.
Em algumas situações também foi necessário romper com o que vinha sendo debatido para resgatar o foco do grupo, pois houve momentos, especialmente no GF2, em que as professoras tocaram em pontos bastante distantes da proposta inicial e das questões pertinentes aos objetivos da pesquisa.
No final das discussões sempre agradecíamos às professoras e explicávamos que enviaríamos o texto transcrito ao e-mail delas, a fim de que elas conferissem o conteúdo desse, se sendo permitido suprimir ou acrescentar algum aspecto. Também esclareci que entraria em contato para convidá-las para a Defesa da Pesquisa e que, posteriormente à conclusão do trabalho, eu conversaria com a Secretaria Municipal da Educação ou com as escolas participantes para planejar um(ns) momento(s) adequado(s) para apresentar a pesquisa finalizada aos professores da rede.
Com relação ao desenvolvimento dos grupos, considera-se que o Grupo 2 (GF2) foi o que mais se aproximou de um grupo focal tal como é proposto. Desde o início, as professoras começaram a explorar os livros sobre a mesa e a discutir sobre eles, sendo que falaram sobre diversos assuntos sem que eu os suscitasse, confrontaram os pontos de vista das colegas, acrescentaram opiniões pertinentes, formularam questões, relataram experiências que geraram sentimentos diversos (alegria, emoção, admiração, indagação, contrariedade, pena, humor, entre outros).
Nos outros grupos demorou mais tempo para que as participantes começassem a interagir, sendo que no início sempre esperavam meus questionamentos ou intervenções. Da metade para o final é que se soltaram mais, fazendo intervenções referentes às falas das colegas e conversando diretamente entre elas, sem olhar para mim.
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No GF3 uma das professoras se preparou para o momento: levou materiais de leitura que gosta, foi com uma camiseta pertinente às suas falas e, inclusive, levou um trecho do livro
Pais Brilhantes, professores fascinantes (CURY, 2003).
´ É preciso considerar que esta foi a primeira vez que lidei com essa técnica de coleta de dados, apesar de estar acompanhada pela assistente de pesquisa, uma doutoranda mais experiente em lidar com essa técnica. Ao final de cada grupo, ela tecia comentários sobre meu desempenho, a fim de obter uma melhor performance nos próximos.
Desenvolver os grupos focais permitiu-me reconhecer a complexidade pertinente à essa técnica. É desafiador encontrar os momentos e a quantidade de intervenções adequados, evitando ser diretiva em excesso, mas também não assumindo uma postura laisse-faire. O trabalho de moderador exige muita concentração, pois é preciso relacionar o que as professoras estão discutindo com os objetivos da pesquisa e com o roteiro de questões e, simultaneamente, perceber em quais temáticas elas tocam a fim de realizar intervenções que não constranjam ou inibam as participantes.
Gatti (2005) também alerta para essa complexidade: “O trabalho com grupo focal não é fácil. [...] Os dados gerados nos grupos – quando se trata mesmo de grupo focal – são de natureza complexa, volumosos, refletindo tanto ambiguidades como conflitos, para além dos consensos” (p. 67).