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capacidade tecnológica

Tratar as questões tecnológicas em nível macro é reconhecer que a tecnologia apresenta um conteúdo sistêmico essencial, caracterizado pelo ambiente institucional, social e econômico mais geral que se manifesta em espaços geográficos específicos. O desenvolvimento tecnológico das empresas se verifica em ambientes que envolvem sistemas de interação entre empresas, instituições públicas e privadas voltadas à pesquisa, à educação e ao treinamento, culturas nacionais, sistemas de apropriabilidade9, estruturas de mercado, condições de financiamento e políticas públicas de ciência e tecnologia (SILVEIRA, 1999).

9 A apropriabilidade tem a ver com a possibilidade de a empresa garantir para si os benefícios da introdução de uma inovação tecnológica bem-sucedida, protegendo-a da imitação pelos concorrentes. Envolve os mecanismos de proteção legal, via patentes, marcas registradas, direitos autorais e de propriedade.

A idéia de um sistema nacional de capacidade tecnológica emergiu, na América Latina, no final da década de 60, fundamentada nos trabalhos de J. A. Sábato, que procurava compreender o desenvolvimento tecnológico através do estudo das relações entre tecnologia, crescimento e relações internacionais. A partir desses estudos, foi concebido o chamado Triângulo de Sábato que apontava as intra e inter-relações entre três atores – as empresas (setor produtivo), o governo e a infra-estrutura científico-tecnológica – como fundamentais para a habilidade de um país em identificar, avaliar, selecionar, usar, absorver, adaptar, aprimorar e desenvolver tecnologias adequadas às circunstâncias de mudança (DAHLMAN, 1992).

Para Meyer-Stamer (1992) e Patel e Pavitt (1994), a construção da capacidade tecnológica nacional depende da conjugação de esforços em diversos setores da sociedade e se estrutura sob quatro conjuntos principais de instituições representados na FIG. 8: (a) o setor empresarial (organizações, associações e entidades privadas); (b) os governos nacionais financiadores e reguladores; (c) as universidades e outras instituições orientadas para a pesquisa básica e treinamento para a sua realização; e (d) o sistema educacional geral

FIGURA 8 – Pilares da capacidade tecnológica nacional

FONTE – Adaptado de Meyer-Stamer (1992) e Patel e Pavitt (1994)

Capacidade Tecnológica Nacional Governos nacionais (Financiamento e regulação) Empresas Instituições de orientação científico-tecnológica Sistema educacional geral

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Esses arranjos institucionais, construídos ao longo da história. a partir de ações planejadas e conscientes ou formados a partir de uma série de decisões não planejadas e/ou desarticuladas, são chamados de Sistemas Nacionais de Inovação (SNI). Segundo LUNDVALL10, citado por Silveira (1999), um SNI é constituído por elementos enraizados e/ou localizados dentro das fronteiras de um Estado-Nação que apresentam características particulares e que interagem na produção, difusão e uso de conhecimento novo economicamente útil.

Um Sistema Nacional de Inovação é composto pelas instituições nacionais, pelas estruturas de incentivo e pelas competências acumuladas que determinam o ritmo e a direção do aprendizado tecnológico em um país (Patel e Pavitt, 1994, p.78).

Para lidar com a variedade desses arranjos institucionais nos diversos países, Patel e Pavitt (1994) propuseram a classificação dos SNI conforme uma tipologia que descreve três categorias básicas. A primeira categoria abrange os sistemas maduros de inovação que permitem aos países manterem-se na liderança do processo tecnológico internacional. Compreende os sistemas de inovação dos principais países capitalistas – Estados Unidos da América, Japão e Alemanha – que disputam a liderança tecnológica, além de Inglaterra, França e Itália que se mantêm próximos apesar de um dinamismo tecnológico menor. Essas nações são identificadas pela capacidade de gerar inovações radicais11 e liderar a produção científica mundial.

10 LUNDVALL, B. A. National systems of innovation: towards a theory of innovation and interactive learning: introduction. Londres: Pinter Publishers, 1992

11 As inovações radicais caracterizam-se por causar mudanças drásticas, alterar conceitos correntes, romper com o paradigma sobre o qual estão assentados os valores e comportamentos tradicionais das empresas.

A segunda categoria – os sistemas intermediários – envolve os países que apresentam elevado dinamismo tecnológico, fruto não da sua capacidade de gerar novas tecnologias, mas, principalmente, de uma elevada capacidade de difusão, relacionada a uma forte atividade tecnológica interna, que permite a absorção criativa das inovações geradas nos centros mais avançados. Conforme Albuquerque (1996), essa é uma característica de países como Suécia, Dinamarca, Holanda e Suíça, além dos países asiáticos de desenvolvimento recente acelerado, como Coréia do Sul e Taiwan, que desenvolveram especializações nacionais bastante claras em determinados segmentos do mercado internacional. São países que apresentam expressiva capacidade de assimilar tecnologia dos países líderes e de desenvolver inovações incrementais12.

A terceira categoria – os sistemas incompletos – na qual se enquadram Brasil, Argentina, Índia e México, engloba os países que apresentam um sistema de ciência e tecnologia, mas não um sistema de inovações. Embora possuam, de algum modo, uma infra-estrutura tecnológica que produz pesquisas, pesquisadores, serviços tecnológicos, normas, procedimentos e conhecimentos, e que possibilita um grau razoável de transferência de tecnologia, esses países ainda não construíram um arranjo institucional para “apoiar e interagir organicamente com as empresas de quem se espera vencerem num mercado mais exposto à concorrência acirrada do mundo globalizado” (SILVEIRA, 1999, p.198). São países que dependem do acesso à tecnologia estrangeira através da importação direta ou da presença de empresas multinacionais (ALBUQUERQUE, 1996; SILVEIRA, 1999).

12 As inovações incrementais são alterações efetuadas em produtos e processos com o intuito de aumentar a eficiência das estruturas produtivas existentes.

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Patel e Pavitt (1994) definiram ainda uma série de indicadores, a partir dos quatro tipos principais de instituições de um SNI, que poderiam ser utilizados para mensurar a eficiência e a eficácia dos esforços de cada país na corrida pelo desenvolvimento tecnológico: (a) patentes e gastos com P&D13 das empresas privadas; (b) parcela do Produto Interno Bruto (PIB)

investido em P&D – governo; (c) gastos com P&D, artigos publicados, números de citações desses artigos – universidades; e (d) nível de qualificação geral da população – sistema educacional. A comparação internacional, a partir desses indicadores, poderia de alguma forma ajudar na identificação dos pontos fortes e dos pontos fracos de cada SNI, constituindo- se em subsídio para a tomada de decisão e formulação de políticas públicas e privadas.

Segundo Matesco e Tafner (1998), os esforços empreendidos por determinados países no sentido de elevar o nível geral de educação, de ampliar os investimentos públicos e privados em pesquisa científica e tecnológica e de massificar os resultados desses investimentos em melhoria do bem-estar e aculturação da sociedade têm garantido a eles papel de destaque no cenário político e econômico internacional.

Santos (2001) ressalta que os dados relativos ao investimento em P&D como proporção do PIB revelam que o Brasil investe pouco em capacitação tecnológica quando comparado com os padrões internacionais. Além disso, diferentemente da realidade de países como Japão e Coréia do Sul, os investimentos do setor privado brasileiro em atividades inovativas tem ficado abaixo dos padrões internacionais. Ao longo do processo de industrialização brasileira, ressalvando-se algumas dezenas de exceções notáveis, a capacitação tecnológica limitou-se ao

13 As atividades de P&D podem ser descritas por três componentes: pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento experimental. A pesquisa básica, também denominada fundamental ou pura, tem como objetivo a expansão do conhecimento científico sem a preocupação explícita de aplicar os novos conhecimentos obtidos. A pesquisa aplicada pouco difere da pesquisa básica em termos de procedimentos e metodologias, porém apresenta objetivo distinto – adquirir novos conhecimentos com vistas ao desenvolvimento ou aprimoramento de produtos, processos ou sistemas. A ênfase está na aplicação prática dos resultados e na solução de problemas. O desenvolvimento experimental objetiva a construção de um protótipo e/ou montagem de um processo experimental a partir do acervo existente de conhecimentos técnicos. Visa à comprovação ou à demonstração da viabilidade técnica ou funcional de novos produtos, processos ou serviços.

domínio das práticas convencionais de produção e aprendizado das engenharias de processo, adaptação e desenvolvimento de produtos.

Para Matesco e Hasenclever (1998), podem ser apontadas três explicações principais para a pouca eficácia dos SNI de países em desenvolvimento, sobretudo do Brasil:

(a) ausência de mecanismos sistemáticos de financiamento público para os investimentos em desenvolvimento tecnológico de um maior número de empresas e segmentos industriais. Isso se deve em grande parte à instabilidade da economia desses países que desequilibrou o seu aparato institucional-financeiro;

(b) proteção generalizada e continuada concedida ao setor produtivo. Até o início da década de 90 os investimentos foram direcionados fundamentalmente para a expansão da capacidade instalada. A proteção da indústria do país inibiu a ação inovadora e diminuiu o dinamismo de diversos setores. “A falta de competidores externos tornava pouco atrativos e justificáveis os investimentos em novos produtos ou processos” (p.4). Matesco e Hasenclever (1998) ressaltam que apesar de os países desenvolvidos terem também adotado medidas protecionistas, essas medidas foram combinadas, em grande parte dos casos, com estratégias empresariais agressivas de capacitação e inovação tecnológica;

(c) baixo nível de qualificação dos recursos humanos. indispensável não só à incorporação e assimilação do progresso técnico advindo de tecnologias do exterior, como também à geração autônoma de inovações.

Os países avançados têm reconhecido a importância, cada vez maior, do apoio ao processo de aprendizagem tecnológica e ao desenvolvimento da capacidade inovadora de suas empresas para o aumento da competitividade internacional e a absorção positiva de seus efeitos no conjunto da nação. Na medida em que as regras do comércio internacional dificultam o

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exercício protecionista explícito, aqueles países voltam-se para a articulação de mecanismos implícitos de suporte às atividades tecnológicas de suas empresas (SILVEIRA, 1999). Entre esses mecanismos estão os incentivos fiscais à absorção e realização de P&D, o encorajamento à integração com os centros de oferta de tecnologia – universidades, centros de pesquisa, laboratórios – e o apoio a áreas tecnológicas vitais (informática, novas fontes de energia, biotecnologia) através do suporte financeiro a programas de pesquisa e à formação de recursos humanos.

O desenvolvimento se define quase exclusivamente em termos da capacidade de geração autônoma do conhecimento, da capacidade de disseminá-lo e da capacidade de utilizá-lo. Esta é a verdadeira diferença entre os países cujos cidadãos são capazes de realizar plenamente o seu potencial como seres humanos e aqueles que não têm esta capacidade (Adbus Salam, Prêmio Nobel de Física, citado por MATESCO e HASENCLEVER, 1998, p.2).

A importância do papel desempenhado pelo ambiente econômico, pelas instituições e pelas políticas de uma nação no estímulo à construção de vantagens competitivas de suas empresas já foi levantada por Porter (1989b). Segundo o autor, o ambiente nacional14 em que as

empresas nascem e aprendem a competir é essencial para explicar porque elas são capazes de superar as grandes barreiras à mudança e promover inovações consistentes, capazes não só de estabelecer vantagens competitivas, como ainda ampliar essa vantagem ao longo do tempo.

14 De acordo com Porter (1989b), esse ambiente nacional é formado por quatro determinantes – condições de fatores, condições de demanda, indústrias correlatas e de apoio, e estratégia, estrutura e rivalidade das empresas – que lapidam o que o autor chamou de Diamante da Vantagem Competitiva Nacional.

Sem perder de vista que os fatores sistêmicos são fundamentais à melhor compreensão do fenômeno em estudo, a presente pesquisa dirige seu foco para a administração de tecnologia no nível micro, ou seja, nas empresas. “A capacidade tecnológica de um país depende da existência de empresas capazes de inovar e orientadas para o aumento da competitividade. Sem elas, os outros três pilares são inoperantes” (FIGUEIREDO, 1994, p.606). Pretende-se, no entanto, tratar questões relativas às interações da empresa em estudo com organizações externas (governo, universidades, fornecedores, clientes, outras empresas) no que tange, principalmente, à aquisição de conhecimentos tecnológicos.

Benzer Belgeler