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A er r a v dade rave , r a , de er d da a e e a de er , a re era e a er a a de d r patologizantes e criminalizantes que fazem com que o senso comum as ve a a r a e re ada de e a dade, e a er r ada A ar r de a a, e er “de rde ad ” de ar e a sexualidade perigosamente marginal.

(Larissa Pelúcio, Sexualidade, gênero e masculinidade no mundo dos t-lovers: a construção da identidade de um grupo de homens que se relacionam com travestis)

Desejar exualmente um homem e proporcionar-lhe prazer desde a infância é quase um imperativo no processo de transformação do gênero (o que nos diz muito acerca das estreitas ligações entre gênero e sexualidade na cultura desse grupo) e um marco inicial no processo de percepção e auto-reconhecimento da “d ere a” da qual são portadoras. Este parece ser um traço diferenciador

das transsexuals ou transgendered da America do Norte e Europa [...].

(KULLIK apud BENEDETTI, Toda feita: o corpo e o gênero das travestis.) Figura 8- Silicone Blues 2

Fonte:LAERTE. Muriel Total. 2009. Disponível em: < http://murieltotal.zip.net/arch2009-03-08_2009- 03-14.html >. Acesso em 22 jul. 2014.

Observemos, como neste primeiro momento da narrativa de Muriel, há traços bem distintos das tirinhas que compõem a narrativa Muriel Total: a começar pelo fato de que a tirinha foi pintada em preto e branco, mas não em cores, e somando-se ao fato de que as primeiras tirinhas estão nomeadas como Silicone Blues, pode-se, muito bem, interpretar tratar-se de uma vida triste anterior à experiência transgênera, que é, nesse momento, a construção do feminino em Hugo. A esse respeito, como efeito de memória discursiva, o colorido está ligado à ideia de alegria, à plenitude da vida, mas, ao mesmo tempo, aos movimentos sociais LGBT; já o preto-e-branco remete a memórias em torno de uma vida antiquada, uma vida estanque; ao mesmo tempo, o preto-e-branco também pode se referir, em contraste com o colorido, com tristeza.

De contraparte, ainda há a memória criada sobre os termos que compõem o nome da narrativa, Silicone e Blues: o primeiro, fazendo referência a um dos signos que compõem a/uma travestilidade; o segundo, termo originário da língua inglesa, que, esteticamente, na música negra estadunidense, refere-se a um gênero musical, podendo ser traduzido por tristezas ou sofrimentos, aludindo à experiência negra da escravidão nos Estados Unidos da América. Assim, o termo indica, aqui uma tristeza que havia antes do início da construção do feminino. Tal construção é indicada pela

autoexplicação que é característica da tirinha em questão sobre os temas relacionados à sexualidade, ao corpo, ao sexo e ao gênero.

De início, no primeiro quadro, Hugo, ao enunciar ...Sexo? Masculino, porque? [sic], e apresentando as feições do rosto de modo a demonstrar virilidade e expressar incômodo, refere-se a sexo, não só diferenciando-se do que está descrito em pela performance feminina indicada pelo uso do silicone, recriando seios, como se tratando de sua anatomia masculina: eis porque tanto a palavra Masculino aparece em destaque, como porque seu aspecto viril de suas expressões faciais e gestualidade no primeiro quadro. Dessa maneira, ele justifica que é um homem que gosta de sentir-se feminino. E, assim, o faz afirmando, no segundo quadro, tratar-se de um corpo todo feito de silicone, ao mesmo tempo em que, já no terceiro quadro, justifica como que, para não causar confusão quanto ao que ou a quem ele é, quando enuncia Fiz isso por razões estéticas! ...Acho o corpo da mulher tão mais, sei lá!. No enunciado, a expressão sei lá está deslocada do sentido de não saber algo a respeito. Associada ao termo mais, intensificador, a expressão sei lá! totaliza toda uma gama de qualificadores positivos para designar o corpo da mulher,

segundo Hugo. Ocorre que o efeito de sentido de ‘não saber’ muito produz sentido

de ‘sentir ser melhor do que outra coisa’, referindo-se ao fato de que se sabe que o corpo da mulher é mais do que o corpo do homem. Aqui, a ideia ainda é de uma dualidade permitida por regras heteronormativas. Hugo, anteriormente, referiu-se ao seu ser masculino através da ideia do sexo; neste momento, ele justifica o seu ser referindo-se às qualidades superiores do corpo da mulher. Ou seja, trata-se, ainda, da repetição discursiva dos pares masculino/feminino, homem/mulher.

Todavia, Hugo ainda permanece situado em um território árido e rugoso, não permitindo ou mal permitindo que ele deslize, alargando as fronteiras desse mesmo território, no que diz respeito aos discursos sobre sexualidade humana. Hugo, mesmo demonstrando que seu gênero também pode ser outro, ainda assim, o faz permanecendo no mesmo território discursivo. Esse território de onde enuncia Hugo está marcado por uma formação discursiva heteronormativa, uma vez que não só vincula a prática de travestismo ao homossexual, como ainda exclui, tratando como algo negativo a imagem do indivíduo homossexual. E isso está dito por ele no último quadro: por meio de gestos corporais de desconforto, expressando raiva e desgosto, franzindo as sobrancelhas, olhando para o lado e cruzando os braços, ele diz Só falta agora começarem a achar que eu sou viado [sic]. Portanto, pode-se dizer que o

efeito de sentido da tirinha, obviamente é o de ironizar o discurso que vincula a homossexualidade às práticas de travestismo e às travestilidades. Essa mesmo discurso da travesti como homossexual masculino que quer se passar por mulher é encontrado em práticas discursivas do final do século XIX e início do século XX, constituindo o cotidiano de grupos minoritários de homossexuais, conforme observamos, a seguir, em Tamagne (2014, p. 426-427):

Porém, também nos ambientes populares, “pederastas” e fairies (fadas) escolhiam se apresentarem de maneira feminina, por intermédio da maquiagem e de acessórios espalhafatosos. As prostitutas, paramentadas com nomes de atrizes da moda, afetavam poses provocadoras de modo a dar mais visibilidade a seu comércio, mas também para suscitar o desejo de homens que não se viam como homossexuais, mas que não eram por isso insensíveis a seu charme.

Com isso, percebe-se o nascimento, não necessariamente da travesti como a compreendemos hoje – apesar de o excerto se referir àqueles indivíduos travestidos que exerciam a prostituição –, mas de uma prática e indícios de modos de ser baseados na transfiguração dos gêneros. Ou seja, observa-se, então, que há um

objetivo marcadamente político no tocante à performance dúbia do gênero – o que

pôs em xeque o próprio padrão heteronormativo.

Mas, ainda segundo o modelo científico estabelecido no século XIX, a homossexualidade era compreendida em uma forma dúbia em que tais incoerências do duplo não necessariamente teriam de ser justificadas na aparência, mas, ao contrário, era a aparência do efeminado, um efeito de um psicologismo binário pelo qual se compreendia o homossexual como um modelo psíquico do hermafrodita; não se tratava, obviamente, de hermafroditismo, mas de uma justificação científica para o homossexual afeminado. Figurar nos manuais médicos do século XIX, essa era a

sanção que sofria o invertido sob um novo nome – o homossexual.

Diferentemente de uma sanção sofrida como forma de uma moral sexual de

base científica, podemos descrever outra forma de efeminação24 que, embora

24

“Ora, essa imagem, com a aura repulsiva que a envolve, percorreu séculos; ela já estava muito nitidamente delineada na literatura greco-romana da época imperial. Encontra-se no perfil do

Effeminatus traçado pelo autor de uma Physiognomonis anônima do Século IV; na descrição dos

padres de Atargatis, dos quais zomba Apuleu nas Metamorfoses; na simbolização que Dion de Prusa propõe do da ō da intemperança, numa de suas conferências sobre a monarquia; na evocação

semelhante, não se trata do que, na Scientia Sexualis, se denomina de travestismo. Trata-se de observar, na Antiguidade greco-romana, uma concepção negativa do indivíduo que se fazia com aspecto da estética feminina, mas não do uso dos prazeres pelos rapazes. Observemos o que dizem Sêneca, Sócrates e Aristófanes apud Foucault (2007b, p. 21-22):

Poder-se-ia ver essa imagem também no retrato da juventude decadente tal como a vê Sêneca, o Retórico, com grande repugnância ao seu redor: “ paixão doentia de cantar e dançar enche a alma de nossos efeminados; ondular os cabelos, tornar a voz suficientemente tênue para igualar a carícia das vozes femininas, rivalizar com as mulheres através da lassidão de atitudes, estudar-se em perquirições muito obscenas, eis o ideal de nossos adolescentes... Enfraquecidos e enervados desde o nascimento, eles assim permanecem, sempre prontos a atacar o pudor dos outros sem se ocupar com o seu próprio”. Porém, esse perfil, com seus traços essenciais, é ainda mais antigo. O primeiro discurso de Sócrates no Fedro a ele faz alusão quando repreende o amor que se tem aos rapazes flácidos, educados na delicadeza da sombra, ornados de maquilagens e adereços. É também com esses traços que Ágaton aparece nas Tesmoforias – tez pálida, faces escanhoadas, voz de mulher, roupas de açafrão, redes – ao ponto do seu interlocutor se perguntar se na verdade ele está na presença de um homem ou de uma mulher.

Disso, podemos tomar referência a como a efeminação se trata de um conjunto de técnicas de elaboração do corpo e do gênero, ancoradas em um sistema de enunciabilidade possível. Ainda assim, tais enunciações de gênero do effeminatus não se tratam, exatamente, da mesma enunciabilidade feminina moderna. Mas, mesmo que, na modernidade, se percebam enunciabilidades repetivelmente reconhecíveis, podemos dizer que, tanto a prática de travestismo observada e patologizada no século XIX quanto a forma de se conceberem as travestilidades no

século XX – bem como no primeiro decênio do XXI – não produzem o mesmo

sentido de ser que tinha, o effeminatus, na Antiguidade greco-romana. Nesta última, não existia uma interdição, um controle nem patologização do ato de se efeminar;

pelo contrário, antes de uma haver imposição, havia proposição – como nos

exercícios de temperança (FOUCAULT, 2007b). E, se um tal comportamento do effeminatus, tinha uma compreensão de falta de tempero para uma austeridade, o mesmo não ocorria com as relações de amor entre os indivíduos de sexo masculino

fugaz dos pequenos retóricos todos perfumados e encaracolados que Epiteto interpela no fundo de sua sala e aos quais perguntam se são homens ou mulheres.” (FOUCAULT, Ibid., p.21)

– embora o uso dos prazeres pelos rapazes fosse pauta de uma economia desses usos. A esse respeito, Foucault (2007b, p.22), através da literatura clássica, reconhece que

Seria inexato ver aí uma condenação do amor pelos rapazes ou daquilo que, em geral, chamamos de relações homossexuais; entretanto, é necessário reconhecer aí o efeito de apreciações fortemente negativas a propósito de certos aspectos possíveis da relação entre homens, assim como uma viva repugnância a respeito de tudo o que pudesse marcar uma renúncia voluntária aos prestígios e às marcas do papel viril. O domínio dos amores masculinos pôde muito bem ser “livre” na Antigüidade grega, em todo caso bem mais do que o foi nas sociedades européias modernas; não resta dúvida, entretanto, que bem cedo se vê marcar intensas reações negativas e formas de desqualificação que se prolongarão por muito tempo.

Outrossim, podemos considerar tratar-se de uma relação política que havia, na Antiguidade, entre os gêneros e os sexos. Isto é, a reprovação do comportamento efeminado era em função da não-virilidade apresentada pelo mesmo. Desse modo, era a valorização da virilidade, o que era prezado na ascese grega; não era a relação de amor entre homens que era reprovada. Bem ao contrário disso, o que se

passou nos séculos seguintes da Era Cristã – cuja ascese era dada em termos de

renúnica de si, dos prazeres da carne como a verdade de si que deveria ser rejeitada em função da salvação –, tomam-se tanto o comportamento do efeminado (o do travestido) quanto a relação entre indivíduos do mesmo sexo (a pederastia) como, não só reprováveis, mas condenáveis. E essa interdição moral também incrustrou no momento da produção de saberes científicos sobre o sexo, desta vez, não mais em função de uma ascese da salvação, mas sim, em função de uma normalização.

Basta observar toda a produção dos comportamentos sexuais e das sexualidades periféricas inclusas nesse saber.

Figura 9 - Pecado e iniquidade

Fonte: LAERTE. Muriel Total. 2013. Disponível em: < http://murieltotal.zip.net/arch2013-04-21_2013- 04-27.html#2013_04-24_12_49_47-2063478-0 >. Acesso em 11 jun. 2014.

Observemos como Muriel é impeldia, pelo discurso cristão, a reconhecer a existência e a representatividade do pecado como o grande signo cristão. Ela reconhece haver pecado, entretanto, ela delira o sistema cristão, promove, nele, linhas de fuga, faz vazar, escoar o significado do pecado e inverte a posição de quem peca, visto que se em momento algum ela definiu o que é pecado, tampouco se definiu como pecadora. Disso, eis o deslizamento de sentido proposto pela tirinha: ela apenas pede à divindade cristã, como em oração, dizendo Deus! Fulminai todo o pecado e iniquidade!. Ele, por sua vez, apenas atende o pedido. Disso, Muriel, ao enunciar Idiota!! ...Você liquidou todas as minhas amigas e amigos!!, reconhece que não explicou ao que ela se referiu como pecado e iniquidade.

Em seguida, ela se manifesta contrariamente ao Cristianismo, atacando Deus e dizendo Já te ensino. Podemos fazer um trajeto de leitura, afirmando que a expectativa de Muriel sobre ter sua prece atendida era a de que o pecado não se referia às suas amigas e amigos transgêneras e transgêneros. No entanto, o posicionamento de Deus foi o esperado da formação discursiva cristã. No que fica dito, na tirinha, pela atitude divina de analizar o “pecado” para puni-lo, concluímos que, nessa formação discursiva cristã, o ideal de pecado da carne não se modificou, além de nunca ter reconhecido a homossexualidade e a transgeneridade como normais, devendo, estas, serem negadas em prol da salvação das almas. Esta ascese, a da negação de si, continua expressa pela atitude divina no terceiro quadro da tirinha, uma vez que, para Deus, a homossexualidade e as transgeneridades são abominações e devem ser abandonadas. Isso significa que a posição sujeito de

Deus permaneceu a mesma da formação discursiva cristã tradicional, na tirinha. Ao mesmo tempo, a formação também está corroborada por uma formação discursiva científica uma vez que a homossexualidade só existe nos termos da ciência bem como a transgeneridade. Se, para o cristianismo, a sua formação discursiva tratava da condenação dos pecados da carne, tratava de julgar pecaminosas as práticas sexuais não-procriativas e o uso indevido do corpo (morada de Deus), como no caso dos travestidos. No entanto, uma formação discursiva científica aparece nessa formação, tratando de homossexualidade, ou seja, um termo originariamente típico das patologias criadas e descritas pela ciência do século XIX, mas recuperando a memória do indivíduo hermafrodita através da concepção do psiquismo hermafrodita do homossexual.

Benzer Belgeler