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Gerçek Faydalanıcının Gizlenmesi ile İlgili FATF-Egmont Raporu

1. GERÇEK FAYDALANICI KAVRAMI VE GERÇEK FAYDALANICI KAVRAMININ

2.1. Gerçek Faydalanıcının Gizlenmesi ile İlgili FATF-Egmont Raporu

“Ah! Eu digo... Eu vivi essas coisas todas.” Wadih Bedran

O processo de emigração e o estabelecimento dos imigrantes árabes e ju- deus no Brasil podia significar tanto um projeto individual como um projeto familiar. As dificuldades pelas quais passava o núcleo familiar no país de origem in- fluía, em muito, na decisão da emigração, que aliava um certo espírito aventureiro à busca de uma melhor situação para a família. Os que chegavam ao Rio se en- volviam na luta pela sua sobrevivência, que significava moradia e trabalho. Por outro lado, continuavam atrelados ao país de origem e à família, pois, de uma certa forma, sentiam uma certa responsabilidade pelo seu sustento.

O relato do libanês Wadih Bedran expressa bem essa experiência vivida por vários imigrantes. Wadih nasceu em 1908,na cidade libanesa de Cachmouth (pronunciada Schmut), distrito de Batroum. Seu documento de emigração de n. 917, emitido em Trípoli, no dia 22/9/1923, pelo “Haut-Commissariat de la Républi- que Française en Syrie et au Liban”, atesta que partiu de Beirute dia 12 de outubro de 1923, com uma parada um dia depois e com escala maior em Gênova, Itália, em 25 de outubro. O documento atesta também que Bedran tinha 15 anos de ida- de, e que o motif da emigração era: rejoindre sa mère, ir ao encontro de sua mãe:

(...) [Meu pai]... tinha muitas árvores (...), de fazer aquele bicho de seda. Bicho de seda... [Tinha também] nozes, e de lauze, lauze... No lugar de comprar, tirava pra comer. Nozes,

104 B.F. são as iniciais do Bar Bunda de Fora, que por ser tão pequenino, não comporta muitas pessoas que ficam com metade do corpo dentro do bar e a outra de fora! Seus proprietários são portugueses e um deles sempre conta com orgulho ter nascido na mesma cidade de Carmem Mi- randa. Os comerciantes vão várias vezes por dia ao B. de Fora, como dizem alguns, tomar café ali, ou comer sanduíche de pão francês com carne assada.

amêndoas, uva, figo .... Tudo que é negócio de frutas ele tinha (...). A minha mãe veio para o Brasil. Meu pai não. (...)Tinha irmãs do papai... Então ela veio na casa deles, na praça da República, 82. (...) Meu pai não..., tinha que tomar conta da terra lá e ela veio com as pa- rentes dele. (...) Agora, ela veio pra ganhar em dinheiro e mandar pra ele...

Wadih Bedran vem ao encontro da mãe e reproduz o mesmo tipo de inser- ção na cidade que seus conterrâneos e dá continuidade a uma cadeia de ajuda fa- miliar, ao mandar para o Líbano uma parte do dinheiro que recebe com seu trabalho no Rio de Janeiro, como rememorou em seu depoimento:

(...) Não, tinha um quebrado de dinheiro... Algum... Dez dólares ou sete dólares, parece. Tinha sete ou seis dólares. Chegaram comigo aqui. Bagagem... é... minha mala. Era uma mala grande e uma pequena. Que trouxe foi a roupa só. Pra botar, só. Trouxe umas fotografias, ti- nha tirado lá. Meu pai, minha mãe. Não trouxe nada. Naquele tempo era... a minha mãe é que mandava dinheiro pra nós... Não, não é cada mês. Dois, três meses. O que ela podia economizar. Porque mãe é mãe, né? Se pode economizar, ela pegava e mandava pra lá. [Eu] .... Vim para trabalhar. Agora, ajudar tem que ajudar porque... . A minha irmã, tinha um irmão e uma irmã. A minha irmã que me criou na falta da minha mãe. Me carregava no braço assim. Aquele amor, aquele carinho de uma irmã, sabe o que é? Não existe igual. Então, eu cheguei aqui e primeiro um tostão, mandei pra ela.

Wadih Bedran e seus pais. Líbano, prov. 1915. Wadih Bedran. Saara, 1996. Acervo família Bedran. Reprodução CIEC/UFRJ.

Se por um lado a maior parte dos imigrantes sírios e libaneses cristãos so- nhavam em “fazer a América”, prosperar e retornar ao país de origem, no caso

dos judeus, estes não pensavam em um retorno, na medida em que a emigração representava geralmente um rompimento com um ambiente de perseguições reli- giosas e étnicas, que inviabilizam a sua volta. Observamos, em alguns depoi- mentos, que o processo imigratório é narrado como um conjunto de elementos que ‘forçam’ a saída de seus países de origem. Os judeus sírios e libaneses, além dos problemas econômicos, apontam discriminações e perseguições contra eles, além da obrigação em fazer serviço militar considerado longo, abusivo, persecutó- rio e desrespeitoso em relação às normas da religião judaica, como causas da emigração. Essa obrigatoriedade em relação ao serviço militar é descrita por Boris Fausto em seu livro sobre judeus de origem turca que emigraram para o Brasil: “Prestar o serviço militar constituía uma obrigação que, mais do que qualquer ou- tra coisa, simbolizava a integração de um membro de uma comunidade autônoma em um Estado nacional. Realizar esse ato contra a vontade era uma situação vivi- da como uma imposição insuportável. Tanto assim que a decisão de emigrar, lon- ge de ser apenas familiar e isolada, foi tomada por centenas de famílias sefaradis em Constantinopla, em Esmirna, em Ourla e em outras cidades do Império Oto- mano”.105

Na década de 1920, muitos imigrantes judeus chegam ao país, o que se deve também ao fato de estarem em vigor as leis restritivas à entrada de judeus nos Estados Unidos e na Argentina, países preferidos por muitos desses imigran- tes. Alguns judeus turcos também imigraram nesta época para o Rio de Janeiro e muitos se instalaram na avenida Gomes Freire, com negócios de tecidos e cami- sarias, e alguns poucos na região do Saara. Muitas das lojas sefarditas nesta ave- nida abasteciam os vendedores ambulantes asquenazitas que moravam na praça Onze. Tal como os judeus sírios e libaneses, também não gostavam de serem chamados de ‘turcos’, e se adaptaram facilmente ao Brasil e aos brasileiros.

105 Cf. FAUSTO, B. Negócios e ócios – história da imigração. São Paulo: Companhia das Letras,

1997, p. 34-35. Neste livro, o autor narra a sua história familiar, de origem judaica turca, usando um gênero que os historiadores conhecem como “ego-história”.

Aprenderam rápido o português e isto pode ser atribuído ao fato de falarem o ladi- no, um dialeto judeu-espanholado.106

Em seu depoimento, Isaac Nigri, rememora a trajetória de imigração de seu pai, um judeu libanês, que se estabeleceu na região da rua da Alfândega:

(...) até 1914, porque em 14 fechou-se; não havia mais... da Europa pra cá não podia vir, devido à guerra, a I Grande Guerra da Alemanha. O grande perigo foi ali, porque na zona onde eles moravam, no Líbano, era uma zona de muito ataque; na época dos turcos, havia muita guerra interna. E eles tinham medo, as mães tinham medo, porque eles tinham que servir ao exército por obrigação; porque eles eram libaneses. Aliás, na época nem libane- ses eles eram, era domínio francês ali, não é? Mas..., se houvesse alguma guerra eles te- riam que ir ao... Poucos voltavam, pouquíssimos voltaram. Então as mães, com medo, mandavam os mais velhos..., principalmente os homens, que serviriam para a guerra, mandavam vir embora. Então meu pai veio pra cá em 1913, se juntou a um tio e primos, e cada um começou a trabalhar à prestação, vendendo bugigangas nas ruas e batendo de porta em porta. (...) Até que em 1918, durante a Guerra Mundial, ele conseguiu abrir uma portinha aqui na Marechal Floriano, na antiga rua Larga. E de lá ele fechou em 20 ou 21, se não me falha a memória, e veio pra rua da Alfândega, 285 – sobrado. Ele residiu nos fundos, e a sala, na frente, existia a sala de visitas, e ele fez ali o seu próprio negócio. O meu pai vendia calçados pra homem e senhoras(...) Ele vendia para os revendedores, para os prestamistas venderem para os consumidores.

O acaso também trazia imigrantes para o Brasil, como o polonês Miguel Kafensztok, nascido em 1903, e que chegou ao Rio em 1921, como contou em entrevista para o Projeto Memória do Saara. Foi viver na praça Onze, trabalhando como tipógrafo, sua profissão de origem. Na década de 1940, com a construção da avenida Presidente Vargas e “destruição” da praça Onze, se transfere para a rua Buenos Aires, nos limites do atual Saara. Seu filho e neta dirigem hoje a tipo- grafia, que durante muitas décadas era uma das únicas, no Rio de Janeiro, a tra- balhar com o tipo gráfico do alfabeto hebraico:

(...) Então, eu comecei a... surgiu uma idéia para... ir para o estrangeiro... para ir para outro país para trabalhar. Porque na Polônia não tinha serviço. Eu fui procurar em Varsóvia tra- balho mas Varsóvia tinha muitos desempregados nessa profissão. Então eu tinha um ami

106 Id., ibid. Não foram encontrados estudos específicos sobre judeus turcos no Rio de Janeiro,

mas Vivian Flanzer em sua dissertação de mestrado, op. cit., sobre os judeus da Ilha de Rhodes, e Helena Salem, no seu belíssimo livro Entre árabes e judeus – uma reportagem de vida. São paulo: Brasiliense, 1991., fazem referências a esse grupo étnico na cidade. Um pouco de cultura ladina pode ser apreendida através das memórias de Hank Halio. Cf.: HALIO, H. Ladino Reveries – Tales

of the Sephardic experience in America. New York: Found. for the Advancement of Sephardic Stu-

go meu que chamava Israel..., ele me sugeriu: – “Miguel, que você resolveu?” Eu disse que resolvi de ir procurar serviço, porque na Polônia não tem serviço, Varsóvia não tem, não adianta. – “Então, eu quero viajar pra Israel.” Ele disse: – “Então você vai viajar pra Israel.” Porque em Varsóvia tinha uma sociedade que se chamava HIAS. Essa sociedade era americana. Eles tinham filiais em toda parte do mundo, elas eram nas capitais. Eles fize- ram o serviço deles pra poder ajudar e orientar as pessoas que querem emigrar pra onde pode emigrar, não é? (...) Tinha que esperar a oportunidade quando tinha navio. Então eu escrevi uma carta pra HIAS então eu recebi uma resposta... Como é que é mesmo a res- posta? Assim: – “Você pode viajar para dois países”. Que países esses? Para Brasil e para África do Sul. Para Joanesburgo ou para Rio de Janeiro posso viajar. Então, outra carta eu mandei..., perguntei quando é que eu posso viajar... ir para o exterior. Ele respondeu que para Joanesburgo tem que esperar seis meses até o navio; para o Brasil, só daqui a dois meses. (...) Em 1929... Então eu respondi que eu vou querer ir ao Brasil, porque para o Brasil não precisa esperar tanto tempo. Mas... (...), eu não conhecia nada do Brasil, eu não conhecia nada de Joanesburgo, África, eu não conhecia nada, não conhecia, nem sabia a língua, nem sabia nada, mas eles me escreveram..., me mandaram propaganda do Brasil, uma brochura, não é?, da vida do Brasil e tudo isso para ter uma idéia... Eu cheguei no dia 21 de setembro. Foi na ilha das Flores.

Se por um lado as condições de emigração colocavam-os em situações di- fíceis e de conflito, a viagem era amenizada pelo ambiente de distração e amizade que se formava entre os viajantes, muitos indo para a mesma cidade e com as mesmas condições. Mas a imigração representava um “profundo corte, com vários desdobramentos, no plano material e simbólico”, como afirma Boris Fausto. E as viagens de navio marcaram muitos destes imigrantes, pois se de um lado repre- sentava uma ruptura, de outro lado, significava uma expectativa, que encerrava “esperanças, temores, incertezas”.107

A longa viagem aproximava os jovens que, com o mesmo destino e os mesmos sonhos, acabavam criando uma rede de relações que iria se desenvolver no Brasil, unindo-os quer seja por laços de amizade108, de vizinhança – muitos vão morar próximos uns dos outros – ou de trabalho. No caso dos judeus, havia uma rede de auxílio aos imigrantes recém-chegados, que tentava amenizar esta ruptu- ra, como relembrou Miguel Kafensztok em seu depoimento:

(...) Eu não posso me lembrar quanto tempo estava na ilha das Flores, mas depois..., nós chegamos de navio, chegamos no Rio de Janeiro e tinha muita gente que vieram para o Brasil, mas éramos sete rapazes que não tinha... que viajaram assim, nessas condições que eu, mas uma coisa interessante: eu viajei no navio 21 dias. Muito bom! Mas quando

107 FAUSTO, B. “Imigração: cortes e continuidades”, op. cit., p.14-15.

108 Os judeus asquenazitas usam a palavra ídiche schiffsbruder – que significa “irmãos de navio” –

navio começou a se aproximar do porto do Rio de Janeiro, aí comecei a ficar muito triste e aí começou a chegar a realidade, não é? A realidade, a realidade... fiquei pensando: – “ pra onde vou?” ... Eu não conheço a língua, não sei falar, não conheço ninguém, não tenho ninguém, não tenho nem amigos, nem parentes, então você fica muito triste. Fica pensan- do se o navio..., se não pudesse seguir a vida toda assim no navio, ficava uma beleza. (...) Tinha um membro do Relief esperando a gente. Cais do porto aqui na..., praça Mauá (...) Ele perguntou a todos os israelitas, né?, que embarcavam no Brasil alguns seguiram via- gem pra São Paulo, pra Santos... Éramos nós sete, alguns tinham parentes, alguns tinham irmão, irmã ou tinham conhecidos. Eu não tinha ninguém. Eu fui o único que não tinha nin- guém. Ele me deu o cartão, a gente se dirigia àquela sociedade beneficente. Saltei do na- vio e fiquei na praça Mauá... Não sabe as palavras..,. não sabe nada, mas a gente chegou até o ponto do bonde e tinha passageiros... a gente deu o cartão... deram o cartão pra gente e mostrou o cartão que a gente quer ir pra São Cristóvão..., para aquela rua lá. Lá eles deram..., já para os nossos serviços, eles deram fichas de manhã pra tomar café e de- ram ficha pra ir almoçar...

A viagem de navio é sempre relembrada e é expressa a partir de diferentes pontos de vistas. Para alguns esse é o momento de um rompimento, pois trata-se, sem dúvida nenhuma, da experiência da emigração e de tudo o que ela representa como estar longe do país de origem e se separar da família e de amigos. Para outros imigrantes, no entanto, a emigração é vista como a etapa de um processo, como se a separação e a viagem fossem apenas parte de um deslocamento necessário, para se (re)inserir em um novo ambiente, com o qual tinha afinidades culturais, como é o caso do ambiente da ‘pequena Turquia’.

A experiência vivida pelo imigrante Wadih Bedran, exemplifica um caso em que a viagem de navio é lembrada com alegria e que, portanto, reflete que a emigra- ção era vista como uma coisa boa, e que os sentimentos e as expectativas em rela- ção ao Brasil eram positivos:

(...) Lá no navio arranjei conhecidos e começamos a conversar... O navio era cheio de patrí- cios. Porque, naquele tempo, o navio só trazia libaneses. Saiu do Beirute. Parou, primeira vez... É, e depois parou em outra cidade grande... Gênova e depois veio direto pra ali, beira do mar aqui... Nós saltamos aqui e viemos pra cá [Saara]. (...) Levou é, do Líbano até a Itália, le- vou 15 dias. E de Itália até aqui, levou 15 dias... Um mês! 30 dias... [O navio] estava cheio, entupido! Dormiam no chão, dormiam lá embaixo. Quem chegou primeiro, pegou as camas lá de baixo no navio... Dois, três andares... Quando não tem mais, ficava lá em cima. (...) Só ficava olhando, brincando. A gente jogava baralho, sistema árabe, lá do Líbano. É o mesmo baralho, claro! Eu tenho aqui o mesmo baralho... Ainda eu guardei, tá muito velho, tá numa caixinha...Deixei numa caixa e botei num lugar. Tá lá! Vim de terceira classe, nem segunda não vim. Terceira. (...) Música..., tinha os libaneses!! Eles juntavam para fazer um alegria. São 30 dias de viagem... tem que distrair, né?

O significado dessas diversas experiências perpassa os depoimentos e as visões que vão dar futuramente à sua vida no Brasil e ao estabelecimento no Saara. A emigração significava o meio pelo qual poderiam ascender social e economica- mente e, nesse sentido, o trabalho era um de seus maiores estímulos. Como no caso de Elias Belassiano que em seu depoimento narrou o motivo de sua imigra- ção, quando vem para o Rio ao encontro de parentes já estabelecidos na região da rua da Alfândega, para “tentar a vida no Brasil”! No Líbano era alfaiate, membro de uma família de comerciantes de tecidos que tinham um trabalho familiar de fia- ção de linha de seda: compravam a seda pura, fiavam e faziam os tecidos, que negociavam para a Síria, para o Iraque e para a Palestina. No Rio, depois de tra- balhar como ambulante, se tornou proprietário de uma loja de objetos usados na rua Regente Feijó, que era um ramo comercial freqüente entre os judeus sefardi- tas, que também tinham no Centro brechós de roupas usadas.109 Havia uma certa cadeia comercial entre eles, pois um imigrante que trabalhasse com couro ou sa- patos, ou que fosse alfaiate, era acionado pelo conterrâneo para consertar a mer- cadoria para que ela pudesse ser vendida na loja posteriormente:

(...) Eu, o meu nascimento... na minha carteira está escrito diferente do que eu sou verdadeiro. Pois é. A data de nascimento é de 20 de abril de 1912, mas a minha carteira de identidade é 1º de janeiro de 1912. Porque naquele tempo a gente não sabia a data exata de nascimento... Dizia que fulano nasceu quando estava fazendo frio ou quando estava nevando. Isto há 70, 80 anos passados. (...) Eu vim aqui no dia 11 de junho de 1926. Cheguei aqui no Brasil no dia 8 de julho de 1926. O navio que eu vim do Líbano até Marselha, na França, chamava-se

Canadá, o outro navio, pra vim pra cá chamava-se Cap-Polonho. Era alemão o navio, navio

grande, transatlântico. Então, tinha sinagoga dentro do navio. A gente comia kasher dentro do navio (...) Quando eu vim pra cá veio mais de 40 pessoas junto comigo. Da família não, não veio. Veio uns amigos da mesma cidade. Das cidades da Síria, Aleppo, de Beirute. (...) Eu que

109 A rua Regente Feijó tinha uma grande quantidade de brechós de roupas e objetos usados,

muitos de imigrantes judeus, e que ficaram registrados na crônica de Antônio Fraga e em um de seus contos – “Roupas de segunda mão” – que engloba dois pequenos contos: “Um negócio da China” e “O Abram vende um terno”. Naquele, Fraga descreve: “O Paraíso dos negociantes em roupas usadas deveria estar situado na China, mas por um erro de localização geográfica está situado na rua Regente Feijó, nesta por fartas razões cognominadas de “mui heróica” cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A nacionalidade dos negociantes de roupas de segunda mão é vária. Mas a raça é uma só – austríacos, russos, poloneses, etc. são todos representantes do mesmo povo mercador: judeus. Dizem que o introdutor do sistema em comerciar com objetos ve- lhos ou usados, Melchior, era um cristão-novo. Fosse ou não, seu nome, depois de alterado para Belchior, passou a designar os que o imitaram nesse mercadejar com alcaides e veio mais tarde, por metonímia, indicar tal gênero de comércio, especialmente o de roupas usadas”. Cf. FRAGA, A.

decidi... Eu pensava o que eu estava fazendo ali. Não tinha futuro, não tinha nada. Já que não estava fazendo nada, então preferi vir aqui para o Brasil. Eu era alfaiate com 12 anos. Sei fazer uma calça completa, sei fazer colete, naquele tempo se usava colete, sei fazer paletó, só não sei pregar manga e botar gola. Isso aos 12 anos. Aprendi lá, com um amigo meu, chamava-se .... Gente boa..., era muçulmano.

A autorização para a entrada de imigrantes no Rio de Janeiro dependia da legislação vigente na época, e, como nos disse um depoente, dependia de “um pouquinho de sorte também”. Até a década de 1930 havia vários critérios seletivos, como, por exemplo, a não concessão de visto para os viajantes, a maioria imigrantes, da terceira classe do navio. A relação entre “a classe de uma passagem e o status social” do viajante, também era uma critério seletivo e sugere diretamente uma associação “de imigração com pobreza”, que a maior parte dos imigrantes viajava de terceira classe, isto é, na pior parte do navio e, portanto, a mais barata. Outro critério seletivo era o exame nos olhos para detectar a existência ou não de tracoma. As famosas “cartas de chamada” passaram a ser exigência do governo