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Gerçek Faydalanıcı Kavramının Ulusal Mevzuat Açısından Değerlendirilmesi

1. GERÇEK FAYDALANICI KAVRAMI VE GERÇEK FAYDALANICI KAVRAMININ

1.2. Gerçek Faydalanıcı Kavramının Ulusal Mevzuat Açısından Değerlendirilmesi

Há uma representação comum acerca da fundação da S.A.A.R.A: a de que ela foi criada no contexto de mobilização contra o projeto de construção da aveni- da Diagonal, que ligaria a Lapa à avenida Presidente Vargas na altura do Campo de Santana e da Central. Este, na memória do grupo social investigado, é o motivo expresso como o mais relevante para a sua fundação.

Em entrevista conjunta concedida ao “Projeto Memória do Saara Paulo Cé- sar Boueri e Nicolau Chucri relataram que não haviam participado da constituição da Sociedade (Boueri nem sequer comerciava no Saara), mas mantêm e transmi

tem como memória comum este evento, que é tido como muito importante e signi- ficativo, e que envolveu uma parcela da vida coletiva do Saara:

(...) Era uma avenida que eles iam abrir para sair na Lapa. Ia arrasar isso, então reuniram-se várias pessoas daqui, gente muito boa... Fizeram uma Sociedade, e aqui hoje é uma zona em que qualquer pessoa pode comprar porque é cercada de seguranças. (...) A S.A.A.R.A foi fundada por causa desta avenida Norte-Sul ... O corte dela inicial era para vir até a Presidente Vargas, entendeu? Era um corte, só que derrubaram. Com o Corredor Cultural62 acabou

mesmo. E nesta época, na época da desapropriação mesmo, é que começaram, começou a S.A.A.R.A. Isto deve ter sido mais ou menos em 60, né?

A constante ameaça de construção da avenida Diagonal, que teria cerca de 80 metros de largura (as ruas mais estreitas do Saara têm cerca de seis metros de largura) pairou sobre os comerciantes por muitas décadas e este “fantasma das desapropriações”, como disse um comerciante, aterrorizou os lojistas, que atribu- em à S.A.A.R.A (fundada em outubro de 1962) a revogação do projeto, que ocor- reu em dezembro de 1963.

Desde 1941, quando o ‘Plano de Urbanização da Esplanada’ previa a construção de várias avenidas no Centro do Rio de Janeiro, tendo como obra prin- cipal a construção dessa grande avenida Diagonal, o que é hoje o Saara, seu conjunto arquitetônico e seus ocupantes, estiveram ameaçados de ‘extinção’. O projeto esteve durante duas décadas como projeto urbanístico juridicamente apro- vado e esta avenida projetada “cortaria, numa reta em diagonal à malha urbana existente, a área compreendida entre o morro de Santo Antônio, a rua do Lavra- dio, o Campo de Santana e a praça Tiradentes”. No Saara, cortaria as ruas da Al- fândega, Senhor dos Passos e Buenos Aires, entre a praça da República (Campo de Santana) e a rua Regente Feijó. Para sua realização, seriam “desapropriados e

62 A região do Saara é uma das áreas de atuação do Corredor Cultural, responsável pelo plano de

preservação, renovação e revitalização de áreas centrais da cidade do Rio de Janeiro. Os estudos para a implantação do Projeto do Corredor Cultural foram iniciados no ano de 1979 na gestão do Prefeito Israel Klabin tendo sido transformado em lei municipal em 1984, na gestão do Prefeito Jamil Haddad. Esta legislação reconheceu-o como “ zona especial do Centro histórico do Rio de Janeiro e definiu as condições básicas para a preservação paisagística e ambiental de grande parte da área central”. Confiram-se as leis, decretos e mapas da área de atuação do Corredor Cultural em: RIOARTE, IPLANRIO. Corredor Cultural: como recuperar, reformar ou construir seu

imóvel . No caso específico do Saara a ação desse projeto, permitiu a preservação de seu conjunto

demolidos cerca de 750 imóveis, sendo 133 no atual Saara” distribuídos em: 26 na rua da Alfândega, 53 na rua Senhor dos Passos, 49 na rua Buenos Aires e cinco na rua Tomé de Souza. Apesar de o projeto da avenida Diagonal não ter sido exe- cutado, quando de sua aprovação, em 1941, iniciou-se um processo para desa- propriações tendo ocorrido, inclusive, algumas demolições na região.63

Alguns comerciantes contam que havia um certo “terrorismo” nas desapro- priações e nas ordens de despejo e o caso de um lojista que chegou às 8:00 horas da manhã para trabalhar e encontrou um caminhão do Estado, em frente à porta de sua loja, para despejá-lo, é rememorado com freqüência. A construção do Edi- fício dos Contabilistas na rua Buenos Aires, esquina com rua Regente Feijó, já no alinhamento do que seria a avenida Diagonal, é um marco, um testemunho, desse período. Além de sua arquitetura destoar dos imóveis ao seu redor, esta constru- ção foi resultado da demolição do Clube Ginástico Português que tinha um salão de festas que era alugado pela comunidade que vivia e comerciava na região, onde faziam bailes e concurso de beleza.

A comunidade judaica asquenazita também alugava o salão para festejos religiosos, quando o Rio ainda não tinha uma grande sinagoga, como relembrou, o tipógrafo Jechiel Kafensztok, de origem polonesa, que chegou ao Rio em 1929:

(...) Mas, naquela época não havia..., a gente alugou uma sala para rezar. (...) Foi no Saa..., numa sala ali para rezar... as festas judaicas, as festas dos nossos Rosh Hashaná... Ano Novo israelita... alugava na rua Buenos Aires, ia lá... numa Beneficência Portuguesa ou outra coisa assim. Tinha uma linda casa, o prédio..., um salão lindo. (...) Na primeira vez que eu cheguei, no dia 21 eu cheguei aqui, em setembro, sempre é Ano Novo. Então, eu fui rezar com o velho Bloch, ele me convidou pra ir rezar com ele naquele salão. Fica mais ou menos na... rua Regente Feijó, quase esquina ali. Não me lembro se era sobrado, não me lembro... Mas um salão lindo! Lindo, lindo, lindo. Beneficência Portuguesa..., ou outro nome Portuguesa, não sei, não importa... E já estavam construindo o Templo da rua Te- nente Possolo...

63 O projeto da avenida Diagonal foi substituído em 1957 pelo projeto da avenida Norte-Sul, que

integrava o Plano de Realizações/SURSAN e seria uma paralela à avenida Rio Branco. O projeto não foi concluído integralmente, sendo executado apenas o trecho entre a Lapa e a rua da Cario- ca, que recebeu o nome de avenida Chile. Cf. BLYTH, A., op. cit., p. 39-56.

O Estado se tornou proprietário da maior parte dos imóveis situados no quarteirão que inclui a rua da Alfândega, a rua Tomé de Souza (entre Alfândega e Senhor dos Passos) e rua Senhor dos Passos. Já o quarteirão que vai da rua Se- nhor dos Passos (lado ímpar), rua Tomé de Souza e rua Buenos Aires (lado par) os imóveis são de propriedade da Ordem Religiosa Santa Casa de Misericórdia. Essas instituições, e seus inquilinos, ao não preservarem seu patrimônio, tratando- os com descaso, contribuem para a feição antiga e relativamente de abandono desse quarteirão do Saara. Esses prédios são majoritariamente de dois andares e os lojistas negociam principalmente com o ramo atacadista de meias, brinquedos, malhas, armarinho e bazares. A maioria das lojas são simples, sem vitrines, com algumas bancas nas portas, ou mercadorias expostas em caixas de papelão, além de algumas preservarem ainda os grandes e antigos balcões de madeira e rolos de papel e barbante, que já não são mais usados para embrulhar mercadoria.

É interessante observar nesse contexto que o poder público nunca teve muito interesse por esse espaço da cidade, que considerava como um lugar “anti- quado” que contradizia um ideal de desenvolvimento e progresso do Centro do Rio. A região da rua da Alfândega era vista como uma área obsoleta e um modelo urbano não muito desejado. A maior parte das renovações urbanas na região pressupunham o desaparecimento das ruas e de seus ocupantes e, algumas de- las nem sequer cogitavam em dar lugar a um outro tipo de modo de vida mais mo- derno.64 No caso da avenida Diagonal, ela pressupunha apenas a construção des- sa agressiva grande avenida.

Isso fica reforçado, quando analisamos as declarações de alguns técnicos envolvidos no processo de “remodelação” do Centro à época. Em sua dissertação de mestrado, Annabella Blyth transcreve trechos de entrevistas feitas com alguns desses profissionais e vale reproduzir uma passagem, que expressa o pensa- mento que vigorava na época. Através do depoimento do engenheiro José de Oli- veira Reis, chefe da Comissão de Plano da Cidade, quando da elaboração e apro- vação do projeto da avenida Diagonal, pode-se dar conta de um certo “desprezo”

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em relação à área do atual Saara e ao seu comércio: “(...) Agora, como aquilo se conservou durante muito tempo, a Prefeitura não cuidou de desapropriar, nem ti- rar, e nem se interessava. Interessava, isso sim, a remodelação da cidade para fazer o reloteamento daquelas casas (...). Mais tarde veio uma outra administração e resolveu achar que aquilo é uma área que deveria se tombada como caracterís- tica de centro do Rio de Janeiro antigo. Aquilo não é antigo, aquilo pode ser, no máximo, de final de século passado para cá. Ficou um comércio que não evoluiu, ficou um comércio secundário [grifo meu] do centro da cidade do Rio de Janeiro, porque o comércio chique era na rua do Ouvidor e na avenida Rio Branco.”

Os representantes do poder público também não tinham muita simpatia pela comunidade que ali se fixou, pois, como observamos anteriormente através do trabalho de J. Lesser, as imigrações árabes e judaicas eram consideradas “in- desejáveis” no país, por não representarem o ideal de “europeização” da raça e da cultura brasileira, por não terem o perfil agrícola necessário para o desenvolvi- mento do Brasil, e, por seus indivíduos serem considerados “inassimiláveis”, por terem uma forma de se agruparem, nos centros urbanos, tido como fora do “pa- drão” desejado.65 Essa opinião fica corroborada quando lemos a continuação do depoimento do eng. José O. Reis, concedido a Blyth: “(...) aquilo foi espontâneo, eles foram se localizando naquela região porque as casas eram praticamente ba- ratas por causa do aluguel, eles tinham a vantagem de fazer seu comércio embai- xo e morar em cima. Então aquilo ficou, vamos chamar, um feudo [grifo meu], pra- ticamente, da população do Líbano, da Síria e, inclusive, judeus (...)”.

65 Acerca deste assunto, ELHAJJI, M., op. cit., p. 131-132, aponta, com razão, que a imigração

árabe nunca fez parte dos projetos imigratórios no Brasil e por isso considera que “toda a história da imigração árabe para o Brasil é constituída de fatos e aventuras pessoais ou familiares e não pela imigração de massa organizada e planejada como no caso alemão, italiano e japonês”. A esta eu acrescentaria também a judaica, que com exceção das duas colônias agrícolas formadas no Rio Grande do Sul, entre os anos de 1904 e 1924, e que caracterizaram-se como imigrações orga- nizadas, a imigração judaica também se constitui basicamente de histórias de vida e trajetórias únicas. Para uma discussão mais ampla sobre as colônias judaicas no sul do Brasil, cf. entre ou- tros: GRITTI, Isabel Rosa: A imigração judaica para o Rio Grande do Sul: a Jewish Colonization

Association e a colonização de Quatro Irmãos. Dissertação de mestrado. Porto Alegre, Departa-

mento História da PUC-RGS, 1992; KULKES, Marlene (ed.). Histórias de vida: imigração judaica no

Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Instituto Cultural Judaico Marc Chagall,1989; LESSER, J. O Brasil e a questão judaica, op. cit.

Fica claro nessa afirmação, o que Blyth corretamente confirma, isto é, que a concepção do Estado era “remodelar a cidade, tornando-a homogeneamente ‘chi- que’, desprezando a coexistência da diversidade cultural e socioeconômica” do espaço que ficaria conhecido como Saara.66

A sociedade comercial S.A.A.R.A é fundada, nesse contexto ideológico, como uma expressão jurídica de um movimento que resistia socialmente, “contra a violência historicamente praticada pelo poder público, em nome da modernização da cidade, e em detrimento da herança urbana”. 67 Para nós, no entanto, fica claro também o caráter de resistência cultural desse grupo, pois a organização da S.A.A.R.A reforça os laços de identidade entre os membros do grupo, e entre eles e o seu território ameaçado.68

A constituição da