2.1 GENET İLE ÖTEKİ, ÖTEKİLEŞTİRME VE TANINMA
2.1.2 Genet’de Tanınma Teorisinin Etkisi
O termo “romance em progresso”, no que se refere à obra de Trevisan, surge na introdução do Biblioteca Trevisan, quando Sanches Neto ainda está apresentando a abordagem metodológica que utilizará no desenrolar das páginas de seu trabalho. O crítico compara a literatura trevisaniana a um “brinquedo de montar” (SANCHES NETO, 1996, p. 11), em que os vários livros do paranaense funcionariam como peças de um jogo, os quais, constantemente, reagrupam-se, reordenam-se, para formar, assim, novas estruturas, novas narrativas – ou “brinquedos” – que seriam, consequentemente, esse mesmo grupo de elementos específicos simplesmente reposicionados10. Vemos então o novo surgindo do mesmo, do repetido, do sempre quase idêntico. A ideia de que
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O termo aqui é de Miguel Sanches Neto (1996).
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No prefácio a Guerra Conjugal, edição de 1969 – Editora Record –, Leo-Gílson Ribeiro constrói uma
analogia bastante similar. Citamos: “É um caleidoscópio com os mesmo vidrilhos coloridos que só mudam de posição e relação, presos no Inferno pessoal da solidão a dois”.
uma produção literária inteira se configuraria como um grande e repartido romance surge, justamente, desse caráter “desmontável” assumido pelas obras de Dalton Trevisan quando postas em diálogo. Vejamos a seguinte citação:
Na sua obra [de Trevisan] não há variação externa. A repetição de nomes, tragédias, expressões, estruturas e ideias atende a uma intenção declarada de exploração das variações do mesmo. [...] O que está em jogo não é causar a impressão de novidade no espírito do leitor, mas fazê-lo perceber as várias dimensões de um universo que, em essência, permanece inalterado (SANCHES NETOS, 1996, p. 12).
Ou seja, quando o autor se propõe a construir uma literatura que está toda pautada na caracterização e na problemática de um mesmo universo, que se fragmenta em uma finita – embora passível de infinitas recombinações – série de pequenas instâncias do todo, o que surge então é um texto ou uma série de textos que funcionam como peças distintas11, porém encaixadas funcionalmente dentro de uma mesma engrenagem. Daí então a ideia de enxergar a obra geral como um romance, e não simplesmente como uma série de narrativas dissociadas e agrupadas; um romance em que importa perceber as várias dimensões de um mesmo universo – às vezes, de uma mesma cena –, suas múltiplas facetas e em que a variação externa não existe, em que não há tema que fuja à coluna vertebral dessa realidade sempre inalterada.
Já a noção do constante progresso aparece porque a cada novo volume publicado pelo autor, a cada nova história escrita ou reescrita e reeditada, surge um novo olhar sobre o mesmo objeto, um ângulo de visão outro, mas que gira sempre em torno de uma determinada cadeia de cenas constituintes da mesma tragédia, essa “infindável comédia humana” 12.
Pode-se dizer, então, que, de forma geral – e essa é justamente a tese apresentada em Biblioteca Trevisan e, de certo modo, demonstrada em Do vampiro ao cafajeste, com a defesa do conceito do discurso-vampiro –, todas as obras de Dalton Trevisan fazem parte de uma mesma estrutura iterativa, estrutura serial13, que leva a cabo a ideia de uma repetição excessiva de elementos estéticos e do meticuloso trabalho de
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Tenha-se em mente que a maior parte da obra desse autor é configurada por volumes de contos, ou seja, de histórias que estariam, a priori, desprovidas de uma correlação imediata, distintas e distantes umas das outras.
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Termo utilizado por Mario da Silva Brito em “Damas e galãs da noite”, texto retirado da orelha de O
pássaro de cinco asas (TREVISAN, 1979a).
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Ambos os termos, “estrutura iterativa” e “estrutura serial”, aparecem já na análise de Sanches Neto
resignificação por reorganização desses elementos. No entanto, é importante frisar que não se trata de uma eterna repetição indiscriminada de si mesmo – como se a literatura trevisaniana fosse a reescrita acrítica de uma mesma fórmula narrativa –, mas sim de um “projeto consciente de reciclagem de recursos” (SANCHES NETO, 1996, p. 11). A proposta não é reler uma mesma e infindável história, e sim sondar as múltiplas instâncias de um mesmo – e jamais totalmente apreensível – universo.
Em última instância, afirma Sanches Neto (1996, p. 101), todos os livros de Dalton estão amarrados por uma unidade que transpõe os limites de volumes estanques, tramando uma rede de relações entre si que lhes dá foros romanescos. Temas que aparecem marcadamente em um determinado livro, como é o caso, por exemplo, dos problemas matrimoniais, abertamente discutidos em Guerra conjugal, reaparecem, de uma forma ou de outra, em quase todas as obras de Trevisan; metáforas, imagens completas ou fragmentos dessas, nomes de personagens e lugares, situações, às vezes até mesmo descrições inteiras transpassam e se espraiam em narrativas diversas, saltando de um livro a outro, de uma peça a outra, ressurgidas, como se fossem “uma imagem num quarto de espelhos de superfícies diversas” (SANCHES NETO, 1969, p. 66), que se reflete e se refrata constantemente, num fluxo interminável.
No entanto, essas questões do universo repetido e da obsessão pelo mesmo não existem, na literatura de Trevisan, exclusivamente quando enxergamos o quadro geral de sua obra, ou seja, na relação entre os livros. Observando, individualmente, cada volume publicado pelo vampiro, partindo de uma perspectiva isolada, podemos perceber que o mesmo mecanismo utilizado na construção das correlações entre obras também se manifesta e fomenta a elaboração dos textos que compõem uma mesma coletânea, passando ao nível da relação entre textos de um mesmo volume. Em O pássaro de cinco asas, por exemplo, a questão de uma Curitiba dupla – de um lado, a diurna e tributável, ligada à ordem (ou pelo menos de fachada ordeira), e, de outro, a do submundo, ligada à desordem, ao lado obscuro da sociedade – surge como ponto central das problemáticas retratadas na obra, transpassando, assim, todos os textos; em Guerra conjugal, como já mencionado, as histórias giram sempre em torno das desavenças da guerra particular, da tragédia do casamento, vivenciadas sempre por uma série de personagens que se chamam João e Maria, os quais são iguais sem serem os mesmos, semelhantes, tanto em nome quanto em destino. Nomes, descrições, tragédias, temas: tudo se repete e se reitera, interna ou contextualmente, na obra de Trevisan, mostrando que o sistema que
movimenta o mecanismo geral da literatura desse autor também gere as diminutas partes de cada peça individual que o constitui. Fica claro, então, o quão complexa e intrincada é a estrutura de repetições através da qual se constrói esse universo ficcional e também o quão minuciosa deverá ser nossa análise crítica dessa complicada armação estética.
Ao levarmos a cabo essa discussão do projeto consciente de literatura trevisaniano (o projeto da obra como romance fragmentado em progresso), estamos tentando demonstrar que há uma proposta latente na obra de Dalton Trevisan, uma proposta que está para além da mera discussão estilística – mas que passa fortemente por essa – do texto literário e que deve ser lida com seriedade crítica. Essa proposta diz respeito à concepção de mundo particular que há em Trevisan, à representação da realidade estabelecida e constantemente reafirmada, retrabalhada e rediscutida, que deve ser analisada a fundo, não para que possamos simplesmente decodificar a fragmentária, lacunar e caótica literatura do vampiro paranaense, mas sim para que possamos melhor compreender que universo é esse do qual tanto se fala e onde vivem todos os Nelsinhos, Joões, Marias e Dinorás – esse universo todo sempre idêntico.
Tendo sido esclarecidos esses pontos, passamos agora para os elementos que caracterizam, compõem e constroem a realidade ficcional trevisaniana.