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Sanches Neto se utiliza do termo “cidade duplex” para definir a realidade descrita em Cemitério de elefantes. Para entender melhor a definição desse conceito, vejamos a seguinte citação:

Somente cinco anos após a publicação de Novelas nada exemplares é que aparece o volume Cemitério de elefantes (1964), colocando em destaque uma outra tensão que é de grande importância para o entendimento da obra de Dalton. Se na coletânea anterior sobressai a antítese província versus metrópole, Cemitério de elefantes apresenta

uma temática que está relacionada com a província, mas já não mais diretamente oposta à metrópole. Essa parece ser a orientação geral do livro.

[...]

Podemos ler nesse livro o inter-relacionamento de dois ambientes e, em última análise, de duas realidades. De um lado, há as histórias que se passam em um contexto rural. Os personagens são seres à margem

do mundo moderno. A temática dessas histórias (“O primo”, “À

margem do rio”, “Dia de matar porco”, “Caso de desquite”, “O baile”,

“Ao nascer do dia”) reflete um universo fundado em valores

patriarcais. [...] No polo oposto, encontramos a temática urbana – magistralmente captada em um dos contos mais famosos de Dalton:

“Uma vela para Dario”. [...] Em outros textos reencontramos este universo urbano (“Dinorá”, “A visita”, “A casa de Lili” etc.) [...]

(SANCHES NETO, 1996, p. 19-20).

Depois da leitura da citação acima, podemos perceber que o termo “duplex” está se referindo à distinção entre duas realidades que se encontram em tensão no texto trevisaniano, entre dois universos nos quais se ambientam as histórias que compõem a referida coletânea de contos. Essas realidades estariam simbolizadas então, de um lado, pela província curitibana e, de outro, pelos lugarejos rurais dos arredores de Curitiba. Notemos, no entanto, que não se trata simplesmente de uma secção em duas esferas geográficas distintas por onde transitam as personagens dessas narrativas. A questão ali é mais complexa que isso. Essa dupla ambientação, apresentada no livro, remete-nos também à convivência – ou coexistência – de dois mundos, duas realidades dentro de um mesmo signo: Curitiba. Curitiba simboliza, então, esse universo duplo, dúbio, esse complexo de colônia/província e cidade grande – não chegando a ser exatamente metrópole, possui, no entanto, em relação aos lugarejos vizinhos, um ar urbano mais marcado. Essa coexistência, contudo, não é pacífica. É, sim, uma convivência de conflitos. A Curitiba de Trevisan é um lugar que se alimenta das contradições entre o mundo primitivo e o civilizado, ambos contidos na redoma desse Cemitério de elefantes. Desse modo, compreendemos o termo “duplex” como uma imagem que remonta a essa realidade dúbia, ora urbana, ora rural, representada na literatura do vampiro. No entanto, essa definição se problematiza quando contextualizada, quando colocada em relação, por exemplo, a um outro dado já sugerido no próprio enxerto recortado acima: o outro par antonímico metrópole/província.

Essa outra tensão, assim como a existente em Cemitério de elefantes, é uma bipartição antitética de realidades, de ambientações textuais, e está presente já no primeiro livro de contos de Trevisan, Novelas nada exemplares. Enxergamos, desse

modo, duas formas – ligadas ao âmbito geográfico – bipartidas de representar o mundo, segundo Dalton Trevisan: metrópole versus província e província versus zona rural. No entanto, não podemos tomar essas duas tensões como sinonímias, nem mesmo como representações semelhantes. Existem diferenças marcadas que devem ser levadas em conta quando pensarmos nessas duas formas bifurcadas de representar a realidade.

Diferentemente do que ocorre com o par província/zona rural, essa bipartição primeira não diz respeito a um duplo amalgamado de contradições; refere-se, sim, ao embate de duas realidades que, em não se tocando, confrontam-se, distanciam-se diametralmente. Para exemplificar essa questão, Sanches Neto (1996, p. 14) toma como exemplo o conto “Pensão Nápoles”:

Chico é um escriturário que gasta a vida às margens do Rio Belém, passando de uma pensão para outra. Vive a esperar algum tipo de contato com a Europa. Mesmo sem ter nada que o ligue a ela, indaga

ao carteiro: “Alguma carta de Nápoles?”. O seu drama é o do jovem

que anseia pela vastidão do mundo e acaba ligado à estreiteza da cidade pequena. [...] percebe-se que Chico se dilacera com a impossibilidade de participar da História. Totalmente isolado na província, o personagem vive um drama que ultrapassa a esfera pessoal. A sua solidão é a de toda uma geração que se sente desligada dos acontecimentos.

Vemos, então, simbolizada na realidade da personagem Chico, a antítese metrópole/província. De um lado, apresenta-se Curitiba como um espaço provincial, um lugar atrasado do mundo, subdesenvolvido, onde os acontecimentos passam despercebidos da corrente histórica da humanidade; no outro lado, oposto diametralmente, temos a Europa, palco real da História com letras maiúsculas, centro oficial do mundo. O isolamento da província opõe-se ao universalismo da metrópole e, no meio dessa antitética relação, surge a personagem Chico. Impossibilitado de viver a realidade do mundo, vê-se obrigado a aceitar uma falsificação fajuta desse ideal de vida: casamento e vida na Pensão Nápoles – “um local que é, apenas na fachada, a solução irônica para o seu problema” (SANCHES NETO, 1996, p. 14). Põe-se a vista, então, o embate que existe entre essas duas tão distintas e distantes realidades.

Vemos, dessa maneira, os dois pares antitéticos apresentados por Trevisan em suas primeiras obras: província/zona rural e província/metrópole. O primeiro par nos fala de dois polos conectados apenas pela tensão que os aparta, enquanto que o segundo nos remonta a um signo que contém em si próprio uma tensão bipolar interna. Dois

modos de representar a realidade bastante distintos, portanto. Sendo assim, “duplex” não poderia ser empregado como conceituação em Novelas nada exemplares, pelo menos não com o sentido que é utilizado na definição de Cemitério de elefantes. Ficam, então, distintas e apartadas essas duas problemáticas anteriormente sinalizadas.

Diferenciadas as tensões, porém, chama-nos a atenção determinado ponto que as conecta, o qual foi justamente a nossa motivação para comentar essas duas representações divergentes: a redundância de duplicidades no modo trevisaniano de enxergar a realidade, isto é, a aparente insistência numa representação bifurcada do mundo. Embora tratem de questões distintas, “província e metrópole” e “província e zona rural” têm em comum essa característica de tomar a realidade como um universo bipolar, dotado de contradições, confrontos e tensões proeminentes. Sendo assim, compreendemos que há, por trás da aparente distinção, um eixo que aproxima essas duas formas de construir a realidade ficcional trevisaniana.

Tendo sido introduzida a questão que ora desenvolvemos, devemos agora suspender essa discussão sobre as representações trevisanianas da realidade por um momento. Passaremos, então, a um nível mais pormenorizado do texto: o campo das metáforas, o arcabouço de imagens poéticas do autor. Não deixaremos, no entanto, de também enxergar, através dessas figurações, a forma como está representada a realidade em Dalton Trevisan, o que nos possibilitará, posteriormente, a junção das duas pontas de nossa argumentação.

Para comentar as metáforas de Trevisan, podemos nos voltar a dois trechos do texto de Berta Waldman que ilustram bem o quadro que ora nos propomos a comentar. Vejamos:

No plano das imagens que se repetem, aponto para a presença de

metáforas que sobrepõem movimento e fixidez, do tipo “pássaro de cinco asas” que aparece, com variações, em diferentes contextos [...].

Ao movimento de alçar voo inerente ao pássaro sobrepõe-se o contramovimento dado pela imparidade das asas. Pássaro deslocado, a virtualidade do voo ecoa no silêncio de uma potencialidade para sempre perdida: preso ao chão, mas ainda pássaro (WALDMAN, 1989, p. 23).

A solução talvez seja a da ambiguidade terrível da catalepsia. A realidade é, para o escritor, cataléptica. Morta-viva. Porque é preciso encontrar a forma que, fixando, esteja em lugar de todo o movimento (WALDMAN, 1989, p. 51).

Waldman adentra então o terreno da estilística trevisaniana, fazendo uma análise mais detida dos significados emanados pelas metáforas, tomando como exemplo da linguagem figurativa do autor a expressão “o pássaro de cinco asas” – título do nono livro do autor, publicado em 1974. Como se pode perceber, esse termo passa a ser visto como um signo complexo que contém em si duas imagens distintas e antitéticas: de um lado o pássaro, representando, através de seu voo, a mobilidade, e, do outro, a disparidade do número de asas, simbolizando a paralisia, a atrofia desse mesmo voo. Enxerga-se, portanto, uma tensão interna e inerente à própria metáfora, que se constrói a partir de um jogo de amalgamação de contradições – assim como acontece no par província/zona rural –, uma estrutura que se fundamenta no contraste entre dois polos. Waldman percebe, na construção das metáforas de Trevisan, certa recorrência dessa mesma estrutura bifronte, que separa as figuras entre as que manifestam fixidez e as que sugerem movimento, ou, mais ainda, certa recorrência de imagens que põem em confronto, dentro de um mesmo signo, essas duas perspectivas15.

Partindo dessa leitura, chega-se então a um veredito – manifestado no segundo enxerto supracitado – sobre as representações que são emuladas a partir dessa configuração específica de imagens. As metáforas de fixidez e movimento são lidas como representações, como símbolos de uma realidade que se apresenta cataléptica, morta-viva. Ou seja, Waldman enxerga nessas imagens estéticas recorrentes a representação de um mundo em contradição, em tensão constante, de um mundo que se comporta como um constructo bifronte, pautado em polos opostos que se digladiam em sua coexistência jamais pacífica. Sendo assim, vemos então que a literatura de Trevisan nos remonta a um universo vibrante de embates, repleto de dualismos e contraditos.

Partindo-se da análise de um nível mais restrito do texto trevisaniano foi que se pôde chegar a essa interpretação mais contextual da obra, traçando, assim, a linha que salta da leitura estilística minuciosa para a compreensão social mais ampla. O que Waldman faz, de certa forma, é comprovar com exemplos concretos a leitura de representações da realidade que ela faz da literatura de Trevisan.

15

Waldman (1989, p. 23) cita ainda, como exemplo, o “pessegueiro florido que caminha sobre as águas”

como sendo uma imagem que remete à fixidez – da árvore – e ao movimento – do caminhar –, simultaneamente. A representação carrega também um tom de tensão, posto que a árvore, quando solta nos passos, perde as raízes; caminha sobre as águas, mas delas não pode beber; libertando-se da paralisia, vê-se obrigada também a abandonar a sua nutrição, seguindo então vazia de vida, contraditória em sua liberdade mutiladora.

Retomando agora a discussão que havíamos deixado em suspensão páginas atrás e fazendo-a dialogar, como havíamos prometido, com a que está explicitada acima, podemos chegar a um denominador comum entre essas duas leituras críticas. Esse denominador diz respeito à constante representação de elementos bifurcados como meio de caracterizar uma realidade em tensão na obra trevisaniana. Não estamos aqui tomando uma leitura pela outra, nem de forma alguma afirmando, por exemplo, que a secção mundo rural versus mundo urbano se iguala à que existe entre fixidez versus movimento. Estamos, sim, pondo em diálogo essas várias estruturas, já percebidas por outros críticos, para que possamos nos guiar para um maior esclarecimento acerca da literatura desse autor paranaense.

Em suma, o que se pode concluir é que tanto Sanches Neto quanto Berta Waldman percebem que o elemento fundamental nas representações da realidade trevisaniana é a ambiguidade – quase sempre manifestada através de um signo de fronte bifurcada: metrópole versus província, província versus zona rural; metáforas onde coabitam signos de movimento e fixidez; uma realidade que é simbolizada pela figura do morto-vivo, o ser, por natureza, ambíguo. Além dessas, também podemos citar mundo diurno versus mundo noturno, macho dominador versus fêmea submissa e vice- versa: homem versus mundo, violentado versus violentador e mais uma série de amálgamas que de alguma forma reúnem sob o mesmo domo essas – e tantas outras – formas bifurcadas de representar a realidade. Do nível mais estrito, como na construção das metáforas, ao nível mais amplo, como nas representações emanadas pelas ambientações e secções geográficas das narrativas, o universo de Trevisan é aquele que, não podendo ser representado por uma imagem única e acabada, se vê fadado a comunicar vasos divergentes de significação sob uma única redoma de signos, criando assim um constructo literário de contradições e, principalmente, de tensões marcadas.

Partindo dessa premissa, e dando continuidade a essa linha de raciocínio, quando então nos debruçamos sobre a composição de Cemitério de elefantes, percebemos ainda um outro par antitético, uma outra bifurcação de contradições e tensões, concretizado na seguinte dualidade: “mundo paralítico” versus “mundo em violência”. Para melhor explicar essa questão, apresentaremos agora uma leitura pormenorizada.

Benzer Belgeler