As notícias sobre as possíveis riquezas das ilhas do Pacífico Sul instigaram o interesse da Europa em geral durante o século XVI. A Inglaterra e a Holanda iniciaram suas investidas na região. Os ingleses visitaram e mapearam algumas ilhas da área e chegaram a estabelecer um assentamento no nordeste da Nova Guiné, mas não ficaram mais que dois anos devido ao acometimento de doenças e a conflitos com os nativos. Já os holandeses, conseguiram estabelecer
atividades comerciais duradouras nas ilhas a oeste da Nova Guiné.166
As relações comerciais da Holanda com o sul asiático resultaram num
tratado com o Sultão de Tidore167. Esse tratado facilitou aos holandeses se
apossarem de territórios, dentre eles, a parte ocidental da Ilha da Nova Guiné. Os holandeses fizeram muitas tentativas de estabelecimento nessa Ilha, mas as doenças tropicais eram um grave problema. Só no final do século XIX é que
assentamentos holandeses nessa Ilha começaram a ter sucesso.Também é nessa
época, que os missionários europeus começaram a chegar. Os primeiros foram os Maristas, nas Ilhas Salomão (na metade do séc. XIX), mas, a dificuldade em lidar
165 Idem.
166 BISKUP, et al, 1968:19 apud DOBRATZ, Lee, loc. cit.
167 O Sultanato de Tidore era tradicionalmente soberano sobre grande parte das ilhas no sul da Ásia.
Cf. LANDMAN, Dave. ‘The devils own country’: The relationship between New Guinea and Dutch imperialism. Master thesis on Dutch History. University of Amsterdam, 2005. p. 27
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com a malária os fez deixar as ilhas cinco anos depois. Um grupo de italianos os
substituiu, porém, não ficaram mais que três anos.168
Além das forças holandesas e britânicas, também a França e Alemanha possuíam grande interesse em aumentar suas posses e riquezas pela exploração colonialista. O Pacífico Sul era mais um alvo. Havia uma grande disputa “imperialista” entre os governos das nações citadas pela posse de terras ao sul. Por esse motivo, para assegurar seu quinhão, surge o “Tratado de 17 de março de 1824”, firmado entre os reis da Holanda e do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Este tratado determinava os limites territoriais e as esferas de influência
desses países na região do Pacífico.169
No tratado os dois governos reconheciam como fronteira entre os dois impérios, uma linha imediatamente ao sul de Singapura. Não era um acordo vantajoso para Inglaterra, mas era oportuno, pois, o fortalecimento do reino holandês na Europa faria com que o reino francês se sentisse pressionado. Além disso, era melhor para Inglaterra ter um vizinho fraco na Ásia (a Holanda), que ter visinhos mais perigosos como França ou Estados Unidos (os EEUU estavam naquele momento em pleno desenvolvimento e com aspirações expansionistas), que certamente preencheriam o espaço caso a Holanda fraquejasse em suas colônias.170
Conforme ficou claro na declaração do secretário britânico do ‘Ministério de Relações Internacionais’, George Canning, os “ingleses e holandeses
juntos tinham o objetivo comum de serem os ‘exclusivos senhores do Oriente’”.171
Embora essa fala aparente um pleno acordo entre essas nações, a história nos mostra que, para além desse objetivo comum, havia interesses próprios em ambos os lados. Como veremos, a relação entre esses dois países enfrentará rivalidades e disputas de territórios.
1.1.1. A anexação holandesa da ‘Nova Guiné Ocidental’
Desde 1826, rumores chegavam ao rei da Holanda de que os ingleses intencionavam estabelecer um posto comercial na Nova Guiné. Preocupados com o
168 Cf. DOBRATZ, Lee, op. cit., p. 9 169 Cf. LANDMAN, op. cit., p. 8-19 170 Idem.
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crescimento de um possível monopólio britânico na região, a Holanda tratou de organizar seu estabelecimento na parte ocidental da Ilha. Mesmo comprovando que os rumores do estabelecimento inglês eram falsos, a Holanda levou a cabo seu
projeto, que desta maneira, manteria os ingleses longe.172 A anexação oficial pelos
holandeses aconteceu em 24 de agosto de 1828. Um forte erguido e nomeado em honra ao comissário geral holandês, o governador Du Bus de Gisignies, oficializou a
posse.173
Embora tenham ido com “toda sede ao pote”, o ‘Forte Du Bus’ teve vida curta. Não houve comércio com os povos nativos, nem nenhuma fonte econômica favorável à Holanda foi explorada nessa localidade. Em poucos anos, problemas de logística dificultaram a manutenção dos soldados no assentamento e ocasionaram seu término. A intrigante citação do conde italiano Vidua de Gonzalo ilustra a situação dos soldados e de outros no Forte Du Bus:
“Estão acampados por volta de quatrocentas milhas das ilhas Moluccas, sem chance de receberem nenhum apoio, num país que não provém nada, cujos habitantes estão na mais baixa posição da escada da civilização e devem ser contados entre os maiores traidores da região”.174
Da mesma forma que os britânicos haviam abandonado outros postos na Austrália, pelas mesmas dificuldades logísticas, também a Holanda determinou que suas tropas abandonassem o Forte Du Bus em 6 de julho de 1835, até que
localizassem um local mais apropriado.175 Em fevereiro de 1836 deixaram a Nova
Guiné Ocidental.176
1.1.2. Holanda X Inglaterra: “vigilância e prevenção”
A notícia do insucesso do assentamento holandês se espalhou e o
interesse na Nova Guiné passou a um estado de indiferença por alguns anos.177
Mas, em 1840, com o restabelecimento da presença inglesa no norte da Austrália, o dilema em torno da parte oriental do Arquipélago emergiu novamente. Conforme
172 Cf. LANDMAN, op. cit., p. 18-19 173 Ibid., p. 20
174 HAGA, 1884:48 apud LANDMAN, op. cit., p. 21 (Tradução Nossa) 175 Cf. LANDMAN, op. cit., p. 22
176 Ibid., p. 25
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sinalizamos, apesar do “tratado de 1824”, os conflitos anglo-holandeses eram constantes no longínquo oriente. De fato, o forte Du Bus na Nova Guiné foi uma reação clara às atividades britânicas na região em torno das Ilhas Mollucas. O objetivo holandês de anexar a parte ocidental da Nova Guiné (exemplo de política
imperialista), era o de proteger seu monopólio nas Mollucas.178 (Ver mapa 000
capIII)
Ainda nessa perspectiva, outro fato importante sobre a relação anglo- holandesa aconteceu em 1841. Londres pediu ao governo holandês que listasse as ilhas e povos sob seu domínio na região asiática oriental. Após investigar sua administração da área, a Holanda emitiu seu relatório, em 1845, onde reconhecia a insegurança de sua soberania sobre suas fronteiras. Seus limites de domínio calcavam-se em acordos assinados com o Sultão de Tidore, o que era ordinário para as negociações coloniais, mas que não eram ao mesmo tempo, de confiança. Prova disso é que, curiosamente, a maior parte do território referente aos tais acordos com Tidore, correspondia a áreas anexadas em nome do rei britânico William IV, em
1828.179
Em 1847 rumores chegaram à Holanda de que os ingleses haviam anexado uma parte da Nova Guiné. Mesmo tendo sido publicados na imprensa holandesa, esses rumores foram provados falsos em 1849. Ainda assim, em 1849, a Holanda à surdina, para não ofender abertamente os britânicos, protegeu as suas fronteiras na Ilha com armamentos. Isso caracterizava a posição do poder colonial
holandês em termos de vigilância e prevenção.180