Seguindo o pensamento de Hastings, se um dos pilares da política de Portugal tinha sido o comércio de pessoas escravizadas, depois substituído pelo trabalho forçado, pode-se relacionar a portugalização, denominada “assimilação”, como outro aspecto que gerou a imposição da língua e cultura portuguesa, bem como da religião católica aos povos das colônias. Para o “assimilado” não haveria barreiras; não haveria qualquer discriminação de cor, mas apenas a identificação ou não identificação com a política portuguesa.36
A educação na África portuguesa manteve-se num tal atraso que até 1974 somente entre 3 e 4% da população havia conseguido ultrapassar a primeira condição dessa assimilação, isto é, o conhecimento da língua portuguesa. Hastings questiona a respeito de quantos africanos quereriam abandonar a sua herança cultural para se tornarem portugueses de cor. E mesmo se o quisessem, apenas um pequeno número tinha oportunidade de vir a ter o estatuto de “assimilado”. O recenseamento de 1950, em Moçambique, mostrou que de uma população negra de 5 733 000, apenas 4 353 possuía este estatuto.37
Ao lado da assimilação cultural portuguesa, tem-se considerado o casamento entre brancos e negros como outro aspecto da colonização portuguesa. Na realidade estes casamentos eram raros e a maior parte deles dava-se entre brancos e mestiços ou entre população já mestiça, que não passava de 1% da população na década de 1970.
Um outro pilar da política colonial portuguesa foi a influência da Igreja Católica. O artigo 14º do Ato Colonial de 1930 considera as missões católicas portuguesas no ultramar instrumentos
35 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 13. 36 Ibidem
de civilização38 e influência nacional. Esse trabalho deveria ser levado acabo quase exclusivamente através da língua portuguesa, o que dificultou a tarefa tanto aos missionários protestantes, como aos missionários católicos estrangeiros que não eram de origem portuguesa. Porém, o número de padres e freiras católicos portugueses dispostos a ir para a África era muito limitado. Daí que, tanto do ponto de vista missionário, como do ponto de vista econômico, cultural e político, a África portuguesa se tenha tornado a parte mais atrasada de todo o continente.39
Do ponto de vista eclesiástico, Moçambique em 1940 possuía apenas uma única diocese, a de Lourenço Marques. Isto demonstra o pouco trabalho feito pelas missões, enquanto que a vizinha Rodesia do Norte, hoje Zâmbia com uma população que era cerca da metade da população de Moçambique, e onde o trabalho das missões católicas só começou de forma ativa no século XX, já havia em 1940 seis dioceses e prefeituras diferentes.40 Chamamos atenção para o fato de que, nesta época, havia duas Rodesias. A Rodesia do Sul é o que se tornou o atual país de Zimbábue.
Em 7 de Maio de 1940, foi estabelecida uma concordata de acordo missionário entre o governo português e o Vaticano, para remediar esta situação. Dado que havia poucos missionários portugueses, Roma estava interessada em poder enviar para Angola e Moçambique missionários de outras nacionalidades. A troco disto, Roma teve que concordar que só se nomeassem para esses territórios bispos e membros do clero superior de nacionalidade portuguesa, tendo o governo português o direito de votar a sua nomeação. Além disso, as escolas das missões, exceto no que dizia respeito à instrução religiosa, eram obrigadas a usar a língua portuguesa, em vez de línguas africanas, sendo obrigadas a enviar anualmente ao governo português relatórios pormenorizados do trabalho realizado. Por sua vez, o governo português
38“os missionários cristãos foram para a África como agentes da civilização ocidental. Eles acreditaram, que esta
civilização era a civilização cristã. O moderno empreendimento missionário na áfrica foi fundado em cima de um modelo teológico errôneo por identificar a fé cristã com o cristianismo ocidental, ignorando a mais importante afirmação teológica da Fé cristã desde o tempo de Jesus: conversão ao cristianismo não exigia necessariamente a aculturação na cultura do missionário, renunciando a herança cultural local. Esta situação de exigir aos convertidos de renunciar a sua herança cultural e aceitar aquela dos missionários, conduziu à primeira grande controvérsia na historia do cristianismo. Ela conduziu a um conflito teológico significativo entre Paulo e Pedro. O primeiro Concílio ecumênico de Jerusalém declarou que não era necessário aos gentios serem legítimos judeus para serem cristãos. Muitos missionários insistiram que os africanos deveriam se tornar brancos assimilados, como precondição para se tornarem cristãos. Esse foi um crasso erro teológico”. Cfr. STINTON, Diane B.. Jesus of Africa. Voices of Contemporary African Christology. New York: Orbis Books, Maryknoll, 2004, pp. 29-30.
39 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 14.
40 FERRO, Marc. História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII a XX. São Paulo:
comprometia-se a pagar aos bispos o mesmo vencimento que aos governadores de distritos, e dar ajuda financeira às missões, pagando aos missionários as viagens de ida e volta. Desta forma, a troco de um poder de influência muito maior e de todos estes privilégios, a igreja católica aceitou uma “sujeição” que a levava a ser nas mãos do governo português um instrumento deliberado da colonização de milhões de africanos.41
Segundo Hastings, a política unificadora dominante que tem estado por detrás de tudo o que aconteceu desde 1930 até 1974 raramente teve melhor expressão do que nas palavras místicas do presidente de Portugal Craveiro Lopes, proferidas na cidade da Beira, na sua visita a Moçambique em 1956:
aqui estamos há mais de quatro séculos e meio; aqui estamos hoje, com a ajuda de Deus, mais empenhados do que nunca numa grandiosa tarefa, erguendo bem alto a bandeira portuguesa, desbastando a selva, construindo cidades e fazendo- as prosperar, ensinando, educando e conduzindo a uma vida melhor a rude massa dos indígenas, disciplinando os seus instintos rudimentares, moldando a sua alma a uma forma superior de Cristianismo, administrando justiça com carinhosa compreensão. Tudo indica que estamos nos alvores de uma nova era, de uma fase decisiva da história – da nossa História - e que temos diante de nós um futuro grandioso cheio de bons auspícios. Tudo a bem da pátria e para o seu engrandecimento.42
A visão política do presidente Craveiro Lopes não tinha qualquer relação com a sua contemporaneidade, tal que essa visão vai contrastar com o nacionalismo africano e o desejo da liberdade dos africanos nos anos sessenta. A maior parte dos territórios da África colonial ia-se tornando politicamente independente. No decorrer deste processo, os habitantes de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique encaravam com impaciência o crescente estado de dependência política e de atraso geral dos seus países. A África portuguesa aumentava progressivamente os laços com a África do Sul e com a Rodesia, países governados por colonos brancos, muito embora expressassem apenas 3% da população total dessas localidades.43
Nos anos sessenta já há um descontentamento dos moçambicanos contra o regime português, porém, Portugal tinha um instrumento de repressão muito forte que era a Policia Política ou PIDE44 (chamada de DGS45 no tempo de Caetano). Essa polícia tinha como tarefa
41 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 14. 42 Idem, pp. 14-15.
43 Idem, p. 15.
44 Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) foi a polícia política portuguesa entre 1945 e 1969. cfr.
desmantelar qualquer oposição potencial. Os principais movimentos de libertação, o MPLA,46 o PAIGC,47 e a FRELIMO,48 já existiam anos antes da guerra começar como movimentos políticos não revolucionários. Uma repressão cada vez mais brutal levou-os à resistência aberta que teve o seu início em Angola em 1961, na Guiné-Bissau em 1963, e em Moçambique em 1964. Desde então, a história da África portuguesa começou a ser marcada por uma história duma guerra que se alastrava em áreas cada vez mais vastas dos três territórios.49
É preciso entender que os movimentos de libertação tiveram grande apoio da população e o governo português sabia muito bem disso, e esse vai ser um dos motivos pelos quais o povo será castigado e massacrado. Portanto, em resposta à forte ameaça dos movimentos de libertação e ao apoio maciço que os mesmos recebiam da população em muitas áreas, o governo português não só tentou esmagá-los pela força, como também tentou conquistar o apoio dos africanos através de uma política aparentemente nova. Aboliu o estatuto do indigenato50 e criou em sua substituição um novo estatuto, semi-autónomo, para os territórios ultramarinos dando o direito de voto a maior número de africanos.
45 Pelo Decreto-Lei n.º 49 401, de 24 de Novembro de 1969, o Governo presidido por Marcello Caetano em Portugal,
substituiu a PIDE pela Direcção-Geral de Segurança (DGS), que, por sua vez, foi extinta na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974, pelo Decreto-Lei n.º 171/74, de 25 de Abril. Cfr. http://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADcia_Internacional_e_de_Defesa_do_Estado. Acesso: 10/04/2010.
46 O MPLA ou Movimento Popular de Libertação de Angola foi um movimento de luta pela independência de
Angola de inspiração comunista e apoiado pela URSS, que se transformou num partido político após a
Independência. Cfr. http://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_Popular_de_Liberta%C3%A7%C3%A3o_de_Angola. Acesso:10/04/2010.
47 Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, também conhecido pela sigla PAIGC, foi o
movimento que organizou a luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, que eram colónias de Portugal. Atualmente, o PAIGC é um dos grandes partidos políticos da Guiné-Bissau. Cfr. http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Africano_para_a_Independ%C3%AAncia_da_Guin%C3%A9_e_Cabo_Verde. Acesso: 10/04/2010.
48 FRELIMO é o acrónimo da Frente de Libertação de Moçambique, uma força política oficialmente fundada em
25 de Junho de 1962, com o objectivo de lutar pela independência de Moçambique do domínio colonial português. Cfr. http://pt.wikipedia.org/wiki/Frente_de_Liberta%C3%A7%C3%A3o_de_Mo%C3%A7ambique. Acesso: 10/04/2010.
49 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 15.
50 Em 1954 foi aprovado para a Guiné, Angola e Moçambique o Estatuto do Indígena que vigorou até aos anos
sessenta. O Estatuto Político Civil e Criminal dos Indígenas, vulgo estatuto do Indigenato, foi o instrumento que permitiu aos seus promotores organizar e potenciar os desígnios coloniais que passaram pela ocupação das terras, condição primeira para a plena e efectiva colonização. “Consagrava a divisão administrativa da população em dois grupos: os “civilizados”, que eram cidadãos, e os “indígenas”, “ que não possuíam ainda a instrução e os hábitos individuais e sociais pressupostos para a aplicação integral do direito público e privado dos cidadãos portugueses”. Cfr. http://www.wook.pt/ficha/o-estatuto-do-indigenato-e-a-legalizacao-da-descriminacao-na-colonizacao- portuguesa/a/id/175444. acesso em 12/01/2011. 09:41.
No entanto, estas alterações legais não trouxeram qualquer modificação significativa à política governamental, continuando os brancos a controlar o poder. Apesar de certas modificações no sistema educacional, apenas um número muito reduzido de negros conseguia chegar à universidade. A situação piorou muito nos dez anos subseqüentes, de 1964 a 1974.51
Com a guerra entre a FRELIMO e as tropas portuguesas, estas aumentaram o seu poder e o seu efetivo, e muito mais perigosa ainda era a Polícia Política. Em Moçambique e Angola o poder da DGS foi tão grande que passava por cima do próprio Marcelo Caetano, então presidente português. Ao lado da DGS estava o poder dos chefes militares. Outro poder era o do grande capital que estava por trás deles: o capitalismo internacional, constituído por Alemanha, França, Inglaterra, Grã-Bretanha e Estados Unidos. E é a serviço deste que Portugal vai cometer todo tipo de atrocidades nas colônias.52
Por exemplo, entre 1930 a 1960, houve muito pouco investimento internacional na África portuguesa. Salazar, então presidente de Portugal, temia os seus efeitos. Porém esta situação alterou-se entre 1964 a 1974. O governo português chegou à conclusão de que a melhor forma de fortalecer o seu poder em África (Angola e Moçambique) era obter apoio do capitalismo internacional. Este para manter a política governamental portuguesa, investiu pesado nestas colônias. Disto resultou um novo fator de maior importância: antes de 1960 Portugal não dependia de ninguém em África, enquanto que agora, a partir deste pacto ele ficou enfeudado a uma aliança cada vez mais estreita quer com o poder econômico ocidental em geral, quer com a União Sul-Africana e com a Rodesia.53 Apesar de uma tradição política diferente, os governos destes três países acabaram por descobrir que tinham opções políticas de fundamentos idênticos. Todos os três estão empenhados na manutenção de uma supremacia branca em países de grandes maiorias negras.54
Assim, o domínio português em Moçambique apresentava seis características fundamentais: 1) Uma velha tradição colonial, por vezes relativamente liberal, a maior parte das vezes extremamente brutal, sempre bastante ineficaz; 2) Uma concepção mítica da grandeza do império, ressuscitada por Salazar e perpetuada por Caetano de uma forma ligeiramente diversa; 3) Um grande exército com um corpo de oficiais cada vez mais poderoso; 4) Uma polícia secreta
51 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 16. 52 Idem, p. 89.
53 FERRO, Marc. História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII a XX. São Paulo:
Companhia das Letras, 1996, p. 259.
implacável; 5) Uma dependência do capitalismo internacional que permitiu os enormes investimentos para o projeto da construção da barragem de Cahora Bassa sobre o rio Zambeze através de sociedades com sede em Johanesburgo; 6) Uma aliança política e militar cada vez mais estreita com a África do Sul e com a Rodesia.55