Diante dos massacres que estavam acontecendo em Moçambique, durante este período colonial, Hastings questiona: “o que é que a Igreja diz a tudo isso?” e o mesmo Hastings, missionário em África, responde: “A igreja não toma qualquer atitude, o que é o mesmo que estar ao lado dos opressores, de quem todos recebemos dinheiro para o nosso sustento”.71
Havia uma solidariedade muito grande entre os missionários que estavam trabalhando no território moçambicano e na vizinha Rodesia do Norte. Os missionários trocavam informações de
68 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 19. 69 Idem, pp. 24-28.
70 Idem, pp. 52-53.
tudo o que estava acontecendo e apresentando relatórios detalhados aos bispos, porém estes não mostravam nenhum apoio aos missionários, como confirma Hastings:
É este o quarto relatório que fomos pessoalmente entregar a Tete. A verdade há- de vir ao de cima. Encontramos apoio em todos os nossos colegas missionários, mas nenhuma reação por parte da hierarquia ou do governo. Mais uma vez regressamos desiludidos. Até onde é que tudo isso irá?
O bispo de Tete e todos os bispos de Moçambique sabem tudo o que se passou, porque leram os nossos relatórios; as pessoas pertencentes a muitas outras missões do norte de Moçambique presenciaram a morte de muitos inocentes e estão convencidos que isto é apenas o começo duma série interminável de injustiças. Então porque é que não dizem nada neste momento histórico para Moçambique? Porque é que tiveram medo de falar disto no sínodo? Mandamos todos estes relatórios a todas as dioceses e ao arcebispo de Lourenço Marques. Porque é que continuam a silenciar-nos? Não vão conseguir nada. (...) acima de tudo devemos obediência a Deus. (...) temos a estrita obrigação, de acordo com as prescrições divinas dos evangelhos, de denunciar e desmascarar a torpeza de todas estas injustiças. Os verdadeiros responsáveis dos massacres e morticínios de Mocumbura são os governantes políticos e militares de Portugal que apóiam e defendem esta guerra totalmente injusta. O povo moçambicano, devido à sua língua, cultura, raça, costumes, mentalidade e até filosofia, tem todo o direito à autodeterminação e independência totais. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política”. É este argumento diabólico que os governantes católicos portugueses gostam de utilizar, a fim de continuarem invulneráveis, apesar de todas as suas terríveis injustiças. Nós, missionários de Moçambique, pecamos infinitamente mais por omissão do que por ação. A nossa neutralidade nestes momentos decisivos é uma traição real ao povo de Moçambique. Se continuarmos assim, sem querer calcar os pés de ninguém, perderemos para sempre e seremos responsabilizados mais tarde pela nossa atuação neste momento crucial da história de Moçambique. Os nossos bispos e nós próprios recebemos proteção do governo português e em janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do estado. Os africanos, porém são perseguidos, torturados e assassinados. (...) ainda nenhum padre foi torturado ou teve de fugir para o mato para ali dormir, noite e dia, ao ar livre e às chuvas tropicais. Cristo esteve sempre ao lado dos oprimidos. E nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está deveria estar a Igreja, corajosa e claramente, sem qualquer ambiguidade.72
Segundo Serra, “o impacto das Igrejas cristãs foi, neste período colonial, extremamente reduzido e ineficaz, sobretudo no meio rural”.73 Neste período, era muito frequente ouvir-se dizer
que o padre não se deve meter em política, e que o seu papel era pregar o evangelho de Jesus Cristo que, nunca foi político. Hastings reage veementemente a esta provocação e afirma:
72 Op. Cit., pp. 34-35.
73 SERRA, Carlos. História de Moçambique. Maputo: Livraria Universitária, Universidade Eduardo Mondlane, vol.
o padre está forçosamente envolvido em política porque, tal como Cristo, afirma de maneira profética e com autoridade que nenhuma nação foi enviada por Deus para impor a sua cultura às outras; que nenhuma lei pode escravizar o homem privando-o dos seus direitos inalienáveis; que todo o homem tem o direito de liberdade de palavra e de tomar parte ativa na vida pública; que todo o homem tem o direito de ser devidamente julgado antes de ser preso e condenado; que nunca se pode utilizar a tortura. 74
Hastings, vê no padre a missão da pessoa do Cristo. O autor entende que, tal como Cristo, o padre deve estar ao lado dos oprimidos que não conseguem fazer ouvir a sua voz. Tal como Cristo, o mensageiro dos evangelhos vive em perfeita consciência o drama daqueles para junto de quem Deus-Pai o enviou. Em Moçambique estavam ocorrendo mortes, torturas, perseguições e prisões de gente arbitrariamente. Para o autor seria, nesses moldes, dever do missionário defender os fracos, proclamar a sua inocência e, se fosse necessário, pagar com a sua vida75 as suas mortes.76
Hastings representa a voz profética de muitos missionários trabalhando neste território, que clamam por justiça e reprovam o sistema de dominação português sobre o povo moçambicano. Reprova igualmente o silêncio dos bispos, que, por conseguinte, eram todos portugueses. Também reprova o Acordo Missionário porque implica uma concepção de missão inaceitável, ao considerá-la algo que se pode ligar e servir à assimilação colonial e à destruição da cultura africana.77
Na vigésima primeira conferencia de Estudos Cristãos, em Assis, em outubro de 1973, foi feito um apelo ao Papa Paulo VI assinado por 700 pessoas que dizia:
A Igreja católica adotou uma posição de grave compromisso e co- responsabilidade: pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental, (...) pela ação intimidativa e até repressiva contra os membros das ordens religiosas que tiveram a coragem de denunciar crimes (...).78
74 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 36.
75“A Igreja anuncia a Boa Nova não só através da proclamação da palavra que recebeu do Senhor, mas também
mediante o testemunho de vida, pelo qual os discípulos de Cristo dão razão da fé, da esperança e do amor que neles existe (cf.1Pd 3,15). Este testemunho que o cristão presta a Cristo e ao Evangelho pode ir até ao sacrifício supremo:o martírio (Mc 8,35). JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós-Sinodal: Ecclesia in África. São Paulo: Paulinas, 1995. n° 55, p. 66.
76 HASTINGS, Adrian. Wiriyamu. Porto: Edições Afrontamento, 1974, p. 36. 77 Idem, p. 73.
Hastings, afirma ainda que “é seu dever expor publicamente a face destruída e agonizante de Cristo, isto é, do povo de Moçambique, a fim de que os responsáveis pela sorte desta gente pudessem parar com os massacres”.79 Contudo, os massacres foram a última e mais intensa
expressão de um sistema de governo que, na sua totalidade se revestia de um caráter brutal e destrutivo. Toda essa situação nos remete à discussão sobre cultura e alteridade.