principalmente, para divulgar e pôr em discussão os
projetos pedagógicos das duas Escolas. Participaram do
evento, além das pessoas envolvidas em ambos os projetos,
um grande número de advogados do Rio de Janeiro e
diversos intelectuais de diferentes áreas, como Roberto
Mangabeira Unger, Tércio Sampaio Ferraz Jr., Rubens
Ricupero, Bolívar Lamounier, Luís Carlos Bresser Pereira e
Wanderley Guilherme dos Santos, dentre outros.
PREPARATIVOS PARA INICIAR O CURSO:Oscar Vilhena Vieira rememora os fatos ocorridos nesse seminário: “O encontro da Serra das Araras reuniu as equipes das duas escolas de Direito da Fundação, bem como um público formado por advoga- dos de grandes escritórios do Rio de Janeiro, cientistas políticos, mem- bros do Conselho Diretor da Fundação Getulio Vargas, jornalistas, e outras pessoas. Mangabeira Unger, que havia escrito, a pedido do Joa- quim Falcão, um paper sobre ensino jurídico no Brasil67, também par-
ticipou desse evento. Esse encontro foi muito importante para nós, porque foi a primeira vez em que tivemos a oportunidade de mostrar o nosso projeto para um público mais amplo. As pessoas presentes à reunião ficaram surpreendidas com a nossa proposta. A Escola do Rio, naquele momento inaugural, adotou uma estratégia diferente da nossa, optando por não desconstruir a grade curricular tradicional. Acho que havia uma crença de que, agindo assim, encontrariam menos dificul- dades para a aprovação do seu curso junto ao MEC. Nós, embora cien- tes dessas possíveis dificuldades, seguimos uma estratégia diversa. Decidimos que nosso projeto deveria refletir a proposta real do curso que pretendíamos implementar. Assumimos o risco de dialogar com a OAB e com o MEC de maneira franca, apresentando todas as propos- tas de inovação e de rompimento de paradigmas que tínhamos em mente. Parte do público presente à reunião elogiou muito o projeto, mas houve também quem achasse que a nossa proposta, além de arris- cada, seria equivocada. Eu me lembro da intervenção de um advogado que disse que o mercado não precisaria do profissional que nós pre- tendíamos formar. Na visão dele, e de outros presentes, o nosso pro- fissional seria sofisticado demais e seguramente enfrentaria dificuldades para se relacionar com seus pares. De nossa parte, respondemos que assumiríamos o risco de formar um modelo de advogado que o mer- cado não estava acostumado a receber. Achávamos, na verdade, que os escritórios iriam se adaptar a essas mudanças, como de fato, aliás, já está acontecendo. Escritórios que antes não aceitavam estagiários cursando o terceiro ano, já aceitam os nossos alunos. Escritórios que não aceitavam estagiários em regime de meio período, agora aceitam. Por isso, creio que fizemos a aposta certa. E o encontro de Araras foi um marco importante, que fortaleceu o grupo para as etapas seguintes que precisávamos percorrer”68.
A primeira dessas etapas foi a confecção do material didático que seria utilizado quando se iniciassem as aulas do novo curso. As decisões
de reformar por completo o currículo, extinguindo diversas matérias e criando outras tantas, e de abandonar quase totalmente o uso de ma- nuais ou livros-texto consagrados durante as aulas levou inevitavel- mente à necessidade de se elaborar um material didático completamente novo para cada umas disciplinas programadas para o primeiro ano. Por conta disso, organizou-se um processo seletivo para contratar um time de pesquisadores que ficasse responsável por essa tarefa. Inicialmente, trinta pessoas foram selecionadas para a empreitada. Ronaldo Porto Macedo Junior relata: “Após a entrega do PDI, o nosso grupo original, ampliado pela chegada do José Reinaldo e do Theo Dias, se encarregou da implementação de um processo seletivo que havia sido formulado pelo Jean Paul para a contratação dos primeiros pesquisadores da Es- cola. A ideia era contratar gente para produzir o material didático para as disciplinas do primeiro ano do curso. Instituímos, na ocasião, um processo seletivo bastante amplo, bastante republicano. Naquele mo- mento, ainda não tínhamos muita clareza do perfil de pesquisador que pretendíamos contratar e do material didático que deveríamos produzir. Tudo ainda estava muito indefinido”69.
Para cada disciplina, um professor foi designado para coordenar os trabalhos. Oscar Vilhena Vieira e Carlos Ari Sundfeld optaram por organizar conjuntamente a produção de material didático de diversas disciplinas – “Organização do Estado e do Direito”, “Política e Insti- tuições Brasileiras”, “Direitos da Pessoa Humana”, além das oficinas práticas de “Leitura de Jurisprudência” e “Leitura de Legislação”; Ro- naldo Porto Macedo Junior ficou à frente dos trabalhos de “Filosofia Política”; Theodomiro Dias Neto assumiu a coordenação da disciplina “Crime e Sociedade”; Rabih Ali Nasser, da equipe de “Direito Glo- bal”. Jean Paul Veiga da Rocha responsabilizou-se pela disciplina “Di- reito da Organização Econômica”; Maurício Portugal assumiu a organização do curso “Organização das Relações Privadas”; José Rei- naldo de Lima Lopes coordenou os trabalhos da disciplina “Direito e Sociedade”. Mais de 300 pesquisadores se inscreveram nesse processo seletivo e, assim, cada um dos coordenadores de disciplina pôde sele- cionar, em média, quatro pessoas para trabalhar em sua equipe – três pesquisadores pós-graduandos e um pesquisador graduando ou jú- nior70. Pouco depois, foram formadas também equipes para a elabo-
ração de material didático das disciplinas “Direito Tributário e Finanças Públicas” e “Direito dos Negócios”71.
Ao término de seis meses, as equipes produziram um material di- dático preliminar que formou a massa crítica para que as pessoas en- volvidas no projeto pudessem refletir concretamente sobre o curso. Muito do que foi feito guardou íntima conexão com as discussões sobre os métodos de ensino que a Escola já começava a desenvolver. Orientadas para elaborar um material que não se restringisse, na sua aplicação, a aulas de caráter expositivo, as equipes produziram casos, escreveram textos de autoria própria, selecionaram e traduziram textos que deveriam ser lidos pelo método de leitura estrutural, redigiram notas de ensino aula a aula, estruturaram as aulas das oficinas vincu- ladas às aulas teóricas. Esse material foi apresentado a todos os pro- fessores e pesquisadores da Escola em um workshop ocorrido nos dias 22 e 23 de agosto de 2003, no salão nobre da EAESP. Embora os re- sultados da produção de material didático tenham sido satisfatórios, ficou claro, na ocasião, que tudo precisaria passar por um processo de amadurecimento e aperfeiçoamento antes que pudesse ficar pronto para utilização em sala de aula. Ficou evidente também que o regime de contratação dos pesquisadores deveria ser modificado para que eles pudessem dedicar mais tempo à feitura desse material.
Essa primeira etapa, no entanto, foi importante para que a Escola instituísse uma cultura de produção de material didático sem paralelo em outros cursos de Direito no país. “Esse período de preparação e discussão do material didático foi muito rico”, afirma Theodomiro Dias Neto, ”primeiro, para aprofundar relações pessoais e, depois, para conhecer um pouco a visão do outro e formar, desse modo, uma Escola. Seguramente, não houve no Brasil nenhuma outra experiência como essa: uma faculdade que iniciou, dois anos antes de instituir o seu curso, um intenso e profundo processo de elaboração de material didático e de reflexão sobre grade curricular. Durante esse período, refletimos intensamente a respeito de um curso para o qual ainda não havia alunos. Montamos um centro de reflexão sobre Direito, pode- se dizer. Pois é exatamente isso que uma Escola deve ser: pessoas pen- sando juntas e dividindo projetos, satisfações e visões de mundo”72.
Salem Hikmat Nasser, na época pesquisador da equipe de Direito Global, concorda: “Aquele foi um período fenomenal, pois abrigou discussões extremamente ricas no interior dos vários grupos forma- dos e também depois, quando tivemos que apresentar em um works- hop, com todos os grupos, os resultados finais. Acredito que foi o
período que deu a marca à nossa Escola. A ideia de que estávamos construindo um curso diferente, e que essa diferença estava centrada na questão metodológica, no material didático, teve o seu gérmen ali, sem dúvida”73.
A fim de testar os novos métodos de ensino e também o material didático elaborado pelos pesquisadores, o GVlaw, em parceria com a equipe do curso de graduação, passou a oferecer cursos para graduan- dos em Direito de outras instituições de ensino superior. Esses cursos tiveram boa receptividade. No primeiro semestre de 2004, 129 graduan- dos frequentaram os nove cursos oferecidos74. O número se ampliou
ainda mais no segundo semestre de 2004, alcançando 270 alunos75.
O material produzido em 2003 foi também o embrião de uma série de livros didáticos que seriam publicados posteriormente, como Di-
reitos Fundamentais – uma Leitura da Jurisprudência do STF76, de
Oscar Vilhena Vieira, com colaboração de Flávia Scabin; Curso de
História do Direito77, de José Reinaldo de Lima Lopes, Rafael Mafei
Rabelo Queiroz e Thiago dos Santos Acca; Organização das Relações
Privadas78, organizado por Flavia Portella Püschel; Curso de Direito Tributário e Finanças Públicas79, coordenado por Eurico Marcos Diniz
Lançamento das primeiras publicações editadas pela DIREITO GV em parceria com outras editoras. Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, 2004.
de Santi; e Curso de Filosofia Política80, coordenado por Ronaldo
Porto Macedo Junior.
No final do primeiro semestre de 2003, a Diretoria da Escola de- cidiu diminuir o número de pesquisadores contratados, ampliando, em contrapartida, a carga horária de trabalho. Instituiu-se, então, um novo processo seletivo divulgado apenas para os pesquisadores que participaram da primeira etapa de produção do material didático. Nesse momento, onze nomes foram escolhidos para continuar a ta- refa: Conrado Hübner Mendes, Diogo Coutinho, Evandro Menezes de Carvalho (substituído ainda na vigência do contrato por Michelle Ratton Sanchez), Flávia Portella Püschel, Luciana Gross Siqueira Cunha, Luís Virgílio Afonso da Silva, Maíra Rocha Machado, Vi- viane Müller Prado. A esse grupo se juntou ainda, já no fim de 2003, Salem Hikmat Nasser, que também havia participado da primeira etapa. Além desses pesquisadores, que haviam sido escolhidos no pri- meiro processo seletivo, foram também contratados como pesquisa- dores em regime de tempo integral Alexandre dos Santos Cunha e Lígia Paula Pires Pinto.
A Direção, deliberadamente, optou por contratar jovens pesqui- sadores que estivessem comprometidos a finalizar em um curto prazo os seus programas de doutorado, já que abria a eles a real perspectiva de se tornarem professores efetivos da entidade: “A Escola não foi buscar doutores no mercado”, diz Eurico de Santi, “ela preferiu in- vestir em jovens pesquisadores que possuíssem um perfil em sintonia com a filosofia da instituição. A Viviane, a Flávia, o Salem, a Maíra, a Michelle, todos eles estavam terminando seus doutorados quando vieram trabalhar aqui. Foi algo curioso, porque esses pesquisadores foram remunerados, por um período de seis meses ou um ano, mais ou menos, não só para produzir material didático, mas também para concluir seus doutoramentos. A Escola, de certo modo, financiou parte da formação dos professores que ela havia escolhido, aqueles nos quais ela havia decidido investir”81.
Em abril de 2004, Michelle Ratton Sanchez, Flávia Portella Püschel, Maíra Rocha Machado, Viviane Muller Prado e Luciana Gross Siqueira Cunha, pesquisadoras em regime de tempo integral, foram efetivados como professoras da DIREITO GV. A direção da Escola optou por mudar o regime de contratação dos pesquisadores que já tivessem con- cluído ou que planejassem concluir seu programa de doutorado até o
final de 2004, véspera do início do curso de graduação. Com a mudança do regime de contratação, esses professores incorporaram às suas atri- buições acadêmicas o cumprimento de metas de pesquisa, com ampla liberdade para a definição dos temas a serem pesquisados. Em setembro do mesmo ano, em outro processo seletivo, foram contratados novos pesquisadores em regime de tempo integral, especialmente para a ela- boração dos programas das disciplinas do segundo ciclo. Eram eles: Alessandro Octaviani, André Rodrigues Corrêa, Érica Gorga, Gui- lherme Leite Gonçalves, Karime Costalunga, Marta Rodriguez de Assis Machado, Paulo Eduardo Alves da Silva, Rafael Domingos Faiardo Vanzella, Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Tamira Maira Fioravante.
Ary Oswaldo Mattos Filho depõe a respeito do papel representado pelos vários nomes que participaram desses primeiros momentos da DIREITO GV: “Nossa Escola contou, desde o início, com um grupo de professores oriundos da PUC-SP e da São Francisco que foram es- senciais desde a concepção do projeto até a sua implementação. Deve- mos muito ao grupo carinhosamente apelidado de ‘majores’, face à idade da maioria dos demais professores. Assim é que muito da ‘cara’ da DIREITO GV se deve ao trabalho generoso – e, por alguns anos, gratuito – de Carlos Ari Sunfeld, Oscar Vilhena Vieira (atualmente coordenador do nosso Mestrado), Ronaldo Porto Macedo Junior, José Reinaldo de Lima Lopes e Theodomiro Dias Neto. Outro que tem con- tribuído imensamente é o professor José Eduardo Faria, ao qual a Es- cola deve inclusive a belíssima formação dada a vários de nossos professores, os quais, como alunos da São Francisco, foram bolsistas do programa PET-Capes. Assim, os professores ‘majores’ já vieram for- mados, com ideias prontas e uma bela experiência docente. À mesma época, abrimos vagas para a contratação de pesquisadores-doutoran- dos em tempo integral, para ajudar na preparação do material didático e mergulhar na busca de metodologias mais eficientes para o ensino do Direito. Na medida em que esses pesquisadores obtinham o seu doutoramento e que a Escola abria o processo de seleção para a con- tratação de professores, esses moços e moças foram candidatos quase imbatíveis, pois conheciam o Direito, as metodologias, tinham a cabeça aberta para os novos ramos do Direito que surgiam e eram doutores formados no Brasil ou no exterior. Essa é, e de forma resumida, a his- tória ainda não terminada da formação do nosso corpo docente, que ainda continuará por um longo tempo a ser construída”82.
Paralelamente à produção de material didático, outras pesquisas já vinham sendo financiadas pela Escola. Três delas tiveram início ainda durante o primeiro semestre de 2003: i) projeto na área de Direito do Comércio Internacional, intitulado “A regulação do setor têxtil pelos Acordos da OMC e suas consequências para o Brasil: perspectivas das negociações da Rodada de Doha”, coordenado pelo professor Guido Fernando Silva Soares e pela então professora da EAESP Maria Lúcia Pádua Lima83; ii) projeto na área de Estado e Mercado, encomendado
pelo Ministério da Justiça, intitulado “Parecer Crítico sobre a Proposta de Emenda Constitucional n. 29/200, sobre a Reforma do Judiciário”, que contou com a participação de pesquisadores da DIREITO GV e da FUNDAP; iii) outro projeto na área de Direito do Comércio Inter- nacional intitulado “Política Comercial: Institucionalidade Compa- rada”, desenvolvido por pesquisadores da DIREITO GV e da EAESP em parceria com um representante do Ministério das Relações Exte- riores, o embaixador Jadiel Ferreira de Oliveira. Outros trabalhos se- riam ainda iniciados em 2003, como a pesquisa histórica sobre o papel dos juristas na formação do Estado-Nação Brasileiro, coordenada pelo professor Carlos Guilherme Mota84, e também uma pesquisa sobre os
sistemas de informação do Judiciário, com financiamento do BID, sob a coordenação de Luciana Gross Cunha85.
Dois espaços de intercâmbio intelectual importantíssimos para a constituição de uma cultura pedagógica e reflexiva comum a todos os envolvidos na construção da DIREITO GV foram estabelecidos ainda nesse ano de 2003. O primeiro deles, o chamado “Núcleo de Metodo- logia”, foi coordenado por Jean Paul Veiga da Rocha, que tinha especial interesse pelo tema dos métodos de ensino participativos. Esdras Borges Costa, professor aposentado da EAESP que passou a integrar a equipe da DIREITO GV, ofereceu também constante apoio nas atividades desse núcleo, ajudando a difundir a técnica do “método do caso” entre os pesquisadores (e posteriormente professores) da DIREITO GV86.
As “reuniões de metodologia” eram realizadas com periodicidade quinzenal e assumiram diferentes arranjos ao longo do tempo. No co- meço, tinham uma preocupação mais conceitual, concentrando-se es- sencialmente na realização de seminários em que foram lidos e discutidos textos sobre diferentes técnicas de ensino. Em cada reunião, um dos pesquisadores ou professores da Escola se encarregava de relatar um texto previamente lido por todos os participantes. Flávia Portella
Püschel expõe sua visão da experiência: “As reuniões de metodologia, pilotadas pelo Jean Paul e pelo professor Esdras, começaram com vá- rias leituras sobre métodos de ensino. Nessa época, descobri coisas que eu não tinha a menor ideia de que existiam. Eu não sabia, até então, que havia uma revista de educação jurídica, por exemplo. Antes de me tornar pesquisadora da Fundação, jamais havia me passado pela ca- beça que existisse material para ser publicado em uma revista desse tipo. O simples fato de existir o Journal of Legal Education foi, para mim, algo muito revelador”87.
No segundo semestre desse mesmo ano de 2003, as reuniões de metodologia voltaram-se para a experimentação com um método de ensino específico – o role-play. Ao longo do semestre, cada um dos pesquisadores contratados em regime de tempo integral foi instado a elaborar uma aula que se caracterizasse pela utilização desse método. Continua Flávia Püschel: “Houve uma fase das reuniões de metodo- logia em que todos os participantes, cada um na sua área, se dedicou à elaboração de um role-play. Percebemos, nesse momento, que não havia apenas um único tipo de role-play, mas vários deles. Cada um de nós apresentava uma visão diferente do método, e isso levava a que pudéssemos ampliar nossa perspectiva a esse respeito”88.
No ano seguinte, as reuniões de metodologia alternaram-se entre fóruns sobre educação jurídica e oficinas de materiais didáticos. Nes- sas últimas, discutiu-se a aplicabilidade do material didático que vinha sendo produzido pelos grupos de pesquisa. Carlos Ari Sundfeld co- menta a importância dessas reuniões para a construção de uma iden- tidade da nova Escola: “Nos dois anos que antecederam o início do curso, nós nos reunimos para debater o material didático de todas as disciplinas que seriam ministradas no primeiro ciclo. Instituímos um processo de criação coletiva que jamais havíamos experimentado, e que foi extremamente salutar para que se construísse uma linguagem e uma identidade comuns a toda a Escola. Esses encontros permitiram que nós, professores, montássemos um discurso bem sintonizado sobre os objetivos do curso, sobre a metodologia a ser adotada, sobre o alcance das técnicas de pesquisa etc. Essa identidade construída pelo grupo inicial foi depois transmitida, de certa forma, aos outros que foram chegando”89.
Theodomiro Dias Neto acrescenta: “De repente, me vi palpitando sobre a disciplina do Ronaldo, do Carlos Ari. Foi um momento de
reflexão conjunta em que todos discutiam o papel de todos. Para mim, foi o momento mais rico em termos de vivência”90. Conrado Hübner
Mendes expõe a sua impressão: “Foi um período muito fértil de de- bate. A gente acabou sendo até mais produtivo e criativo porque não leu tanta literatura estrangeira. Tivemos contato com alguns textos, é claro, mas não foi um período de discussão de artigos ou livros sobre Pedagogia, sobre ensino jurídico. A partir de algumas referências, a gente botava a mão na massa e ia desenvolvendo o debate por nossa própria conta”91. Por fim, Michelle Ratton Sanchez oferece a sua visão
do processo: “O mais interessante, em tudo o que discutimos sobre metodologia, foi constatar, efetivamente, o quão grande era a carência que existia a esse respeito na área jurídica. Buscamos nos apropriar de alguns conceitos e materiais estrangeiros, até mesmo de outras áreas. Lemos artigos norte-americanos sobre o método do caso na eco- nomia, na administração de empresas, mas logo percebemos que ne-