217 HEIDEGGER, M. Para que poetas, p. 336.
218 Tanto Parmênides quanto Heráclito consideraram a questão do Ser e da união de todas as coisas no Ser. 219 HEIDEGGER, M. A questão da técnica. In: Ensaios e conferências, p. 36.
Como uma obra de arte pode manifestar o seu caráter coisal? Heidegger responde à questão dizendo que é preciso que tudo o que se queira entrepor entre nós e a coisa deve ser afastado. Neste ponto de vista – considerando a obra de arte como uma coisa é preciso deixá-la livre, em seu estar-em-si. Somente quando uma coisa está livre, ela tem a possibilidade de manifestar diretamente o seu caráter coisal, isto é, na medida em que ela está livre de agressões nas quais perde suas características, passando a ser aquilo que o indivíduo quer que ela seja. Por isso, Heidegger frisa a necessidade de a obra de arte ser vista como ela é, a saber, como o lugar da luta entre a revelação e o ocultamento da verdade. “Devemos voltar-nos para o ente, pensá-lo em si mesmo, no seu ser, mas, ao mesmo tempo, deixá-lo repousar em si mesmo, na sua essência”221. Sendo assim, para Heidegger, a coisidade na obra nunca poderá ser encontrada, enquanto o puro estar-em-si mesma (reine Insichstehen) da obra não se tiver claramente manifestado222, já que a acessibilidade da obra só é possível quando ela é retirada de todas as relações com aquilo que é outro e não ela. Isso a faz repousar por si própria. Há uma liberdade para o puro estar-em-si-mesma.
Grande é a dívida de Heidegger para com Edmund Husserl. Neste não encontrou somente a fenomenologia, enquanto uma abertura à compreensão pré-conceptual dos fenômenos, mas também, um instrumento metodológico capaz de exibir os processos do ser na existência humana, de tal modo que esta, e não a ideologia de cada um, pudesse tornar-se patente223. O próprio Heidegger chega a afirmar, em sua conferência La pregunta
fundamental por el ser mismo, que só através do seu encontro com Husserl, cujos escritos
já conhecia, de antes, pode lograr uma relação mais viva e frutífera com a ação efetiva da pergunta e o descrever fenomenológico224. Entre os dois existem pontos de divergência; se para Husserl o objetivo era tornar visíveis as operações da consciência humana, a ela remetendo todos os fenômenos (subjetividade transcendental), Heidegger percebe nesta compreensão pré-conceitual o meio vital do ser-no-mundo-do-homem, alcançando na história e na temporalidade as pistas indicativas da sua natureza, defendendo a facticidade como um problema essencial, que não poderia resumir-se num problema de conhecimento ou num dado de consciência. Entenda-se facticidade como a maneira pela qual os seres e
221 Idem. A origem da obra de arte, p. 23. 222 Ibid., p. 31.
223 ESPÓSITO, V. Hermenêutica: estudo introdutório. In: Cadernos da sociedade de estudos e pesquisa
qualitativos, p. 92.
224 HEIDEGGER, M.
La pregunta fundamental por el ser mismo. Disponível em
os entes estão no mundo. Neste ínterim, Heidegger alia-se ao pensamento grego antigo, principalmente ao do filósofo Aristóteles, interpretando a descrição fenomenológica enquanto intuição das essências como logos. Heidegger tenta revelar, a partir da fenomenologia, o significado originário do fenômeno.
Deve-se manter como significado da expressão “fenômeno” o que se revela e o que se mostra em si mesmo. Os “fenômenos” constituem a totalidade do que está à luz do dia ou se pode pôr à luz. Ora, o ente pode-se mostrar por si mesmo de várias maneiras, segundo sua via e modo de acesso, existindo até a possibilidade de o ente se mostrar como aquilo que, em si mesmo, ele não é. A fenomenologia diz, então: deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo. O mostrar-se não é um mostrar-se qualquer e, muito menos, uma manifestação.
O ser dos entes nunca pode ser uma coisa “atrás” da qual esteja outra coisa “que não se manifesta” [...] “Atrás” dos fenômenos da fenomenologia não há absolutamente nada, o que acontece é que aquilo que deve tornar-se fenômeno pode velar. A fenomenologia é necessária justamente porque, de início e na maioria das vezes, os fenômenos não se dão. O conceito oposto de “fenômeno” é o conceito de encobrimento225.
Deixar-ser, para Heidegger, significa o entregar-se ao ente. Por sua vez, isso não deve ser compreendido apenas como simples ocupação, proteção, cuidado ou planejamento de cada ente que se encontra ou que se procurou. Deixar-ser significa entregar-se ao aberto e à sua abertura, na qual todo ente entra e permanece226. O deixar-ser – a liberdade – é, em si mesmo, exposição ao ente, isto é, ek-sistente. A essência da liberdade, entrevista à luz da essência da verdade, aparece como exposição ao ente enquanto ele tem o caráter de desvelado. Ainda incompreendida, a ek-sistência do homem historial começa naquele momento em que o primeiro pensador é tocado pelo desvelamento do ente e se pergunta o que é o ente. Nesta pergunta, para Heidegger, o ente é pela primeira vez experimentado em seu desvelamento. O ente, em sua totalidade se revela como physis, “natureza”, que aqui não aponta um domínio específico do ente, mas o ente enquanto tal em sua totalidade, percebido sob a forma de uma presença que eclode227. Este é o deixar-ser ek-sistente que desvela o ente, acontecendo quando a essência da verdade se desvelou como liberdade.
225 HEIDEGGER, M. Ser e tempo, p. 66. 226 Idem. A essência da verdade, p. 32. 227 Ibid., p. 37.
De acordo com Stein, a fenomenologia hermenêutica e a ontologia fenomenológica de Heidegger foram resultados de uma manobra de superação da metafísica que produziu o “encurtamento hermenêutico”228. A analítica existencial, então, pretende descrever os três modos fundamentais do estar-aí, enquanto ser-no-mundo: a representação do ente puramente subsistente (Vorhandenes), o lidar com o ente disponível (Zuhandenes) e o compreender-se em direção da existência229. Heidegger pretende
“fundamentar” descrevendo (fenomenologia) a questão da racionalidade. Esta, em conseqüência do “encurtamento hermenêutico”, não se pode produzir a partir do espaço metafísico (mundo natural e teologia natural). É esse espaço metafísico que Heidegger visa desmascarar com sua “destruição da metafísica”.
Heidegger mostra os diferentes modos possíveis de encobrimento dos fenômenos, a saber, um fenômeno pode-se manter encoberto por nunca ter sido descoberto. Dele não há nem conhecimento nem desconhecimento. Um fenômeno pode estar entulhado. Isto significa: antes tinha sido descoberto, mas depois, voltou a encobrir-se. Este encobrimento pode ser total ou, como geralmente acontece, o que antes se descobriu ainda se mantém visível, embora como aparência. Há tanta aparência quanto “ser”. Este encobrimento na forma de “desfiguração” é o mais freqüente e o mais perigoso; as possibilidades de engano e desorientação são particularmente severas e persistentes.
Benedito Nunes afirma que os significados de logos, alétheia e
phainómenon forneceram a Heidegger as três intuições decisivas para a questão do Ser e
para o vínculo ontológico da ontologia com o pensamento grego. É que as significações interpenetrantes dessas palavras foram, com a dimensão de um arcabouço ontológico da língua, prévio à reflexão, o travejamento das acepções do ser distinguidas por Aristóteles, sobre que se firmou o estatuto primordial da categoria de substância, da ousía, na investigação metafísica do ente enquanto ente230. Os fenômenos incluem a “totalidade do
que está ou pode pôr-se à luz, o que os gregos identificaram às vezes simplesmente como
tà ónta (os entes)” – em outras palavras, a totalidade do que se dá a ver, seja a inspeção
ocular, sejam os olhos do espírito 231. A forma preliminar de verdade de desocultamento
228 Stein entende por essa expressão a inauguração de um novo paradigma na filosofia, que se determina
basicamente por uma delimitação de um conhecimento possível na filosofia, implicando na exclusão de um discurso sobre o mundo natural e sobre a teologia natural e que passa a constituir o “mundo hermenêutico”.
229 STEIN. E. Prefácio. In: Heidegger: a arte como cultivo do inaparente, p. 12. 230 NUNES, B. Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger, p. 59. 231 Ibid., p. 59.
(Entborgenheit) dos entes, seria a aísthesis, a simples percepção. O movimento interno do método fenomenológico, enfim, pressupõe uma experiência de desvelamento ou de desocultação do ser. Para Nunes, não há para a fenomenologia outro tema senão o ontológico. A fenomenologia é ontologia, e como ontologia, uma Hermenêutica fenomenológica. Porquanto em sua nova possibilidade, a descritividade do método terá o alcance de um trabalho de interpretação, de acesso ao sentido.
Descrever o fenômeno, o ser dado nas vivências, consiste em explicar o sentido que nelas se encobre, assim como se explica, por meio de uma interpretação, o significado original de um texto, de uma obra de arte ou de um produto histórico, em geral encoberto nas significações, e que o esforço hermenêutico desembaraça ou restitui232.
Então, retraduzida em grego, de acordo com a orientação do pensamento ontológico que forma o seu veio histórico, a fenomenologia é, reiterando, um légein
(apophaínesthai) tà phainómena, um permitir ver o que se mostra, tal como se mostra
efetivamente por si mesmo. Destarte, o mostrar fenomenológico que somente pode ocorrer por si mesmo como o liberar de um fundo que mostra esse fundo, nunca é estranho ao
Dasein. O que é o Dasein? “Dasein” é uma palavra-chave do meu pensar, diz Heidegger,
“por isso ela é causa de graves erros de interpretação. ‘Dasein’ não significa para mim exatamente ‘eis-me’, mas, se é que me posso exprimir num francês sem dúvida impossível:
ser-o-aí e o-lá significa exatamente alétheia, desvelamento-abertura”233. Em suma,
Heidegger distingue três modos de conceber a coisa desenvolvida pela tradição: Ela é portadora de propriedades; ela é unidade de uma multiplicidade de sensações; ela é matéria formada.