A consagração é o ato que ocorre após sete dias da realização do concílio. A consagração acontece durante um culto público, realizado na sede da igreja que consagrou o(a) vocacionado(a) ou na sede da igreja, onde servirá o(a) candidato(a) aprovado(a). O ato solene é consumado quando os membros do concílio de pastores, convocados pela igreja, impõem as mãos sobre o(a) vocacionado(a), ação esta acompanhada da oração de consagração. (Sócrates Oliveira de SOUZA, 2011, p. 19). Esse é o procedimento relatado e documentado, porém essa consagração pode ser realizada mesmo sem o(a) vocacionado(a) passar por um concílio. Por conta da autonomia da igreja, fica a critério da igreja local, convocar ou não um concílio. Esse procedimento da consagração tem sido realizado com a maioria das mulheres vocacionadas ao ministério pastoral. Essas mulheres para não se indisporem e não exporem a igreja local, deixam de realizar o concílio (ato público) e recebem a consagração da igreja (ato privado) e registram a consagração em Ata.
O fato de não passar por um concílio examinatório não tira a possibilidade da mulher exercer o ministério pastoral. A consagração é mais uma maneira de legitimar seu ministério, porém quando a mulher deixar de passar pelo concílio, ela abdica de ser incluída na seguinte premissa batista:
Quando um pastor é examinado e consagrado, sempre e necessariamente o é através de uma igreja. Todavia, ele não é consagrado para ser pastor exclusivamente daquela igreja. Daí a necessidade de serem adotados alguns procedimentos para que ele seja reconhecido como pastor batista por toda a denominação. (Sócrates Oliveira de SOUZA, 2011, p. 11).
As mulheres batistas consagradas ao ministério pastoral estão se tornando pastoras locais, já que seu ministério só possui o reconhecimento da igreja local, pois, para não expor suas igrejas, as vocacionadas, decidem ou optam por não convocar concílio, já que ao fazê-lo muitas são as dificuldades e os ataques sofridos e vivenciados por essas mulheres. A dificuldade é tão grande que, no Estado de São Paulo só foram realizados quatro concílios com candidatas mulheres, no período entre 1999 e 2015, ou seja, em 16 anos, apenas quatro concílios, num Estado que conta com a atuação de 26 pastoras.
É necessário compreender também que as organizações que auxiliam as igrejas batistas se institucionalizaram e com isso novos cargos são disputados entre os pastores, trazendo visibilidade para sua persona e seu ministério. Pensando de maneira política, o posicionamento sobre determinados temas polêmicos pode resultar na obtenção dos cargos de liderança nessas organizações, e de maneira indireta o pensamento vindo da liderança influencia todos que estão sob sua autoridade. É possível compreender essa afirmação com o relato da pastora Esperança23:
“Em grande parte do Brasil uma liderança, das secções e das subsecções, elas são contra as pastoras por que os pastores que eram favoráveis à ordenação, como a liderança da ordem nacional por um bom tempo, ela foi contra, consequentemente os líderes que acendiam às posições de liderança eram pastores que se alinhavam com o pensamento da ordem nacional, isso não é unânime, lógico que tem secções e subsecções da ordem cujos pastores são favoráveis, mas são poucos e a ordem começou a ter pastores na liderança que se declaravam favoráveis. Uma coisa é nos bastidores um pastor vir e me dizer que é favorável e a outra coisa é ele assumir essa posição publicamente. A ordem começou a ter pastor declaradamente favorável eu acho que foi com o pastor Eber Silva que é um pastor de Campos que ele é novamente presidente da ordem, ele foi presidente da ordem em 2011 e 2012, depois o pastor Estevão Fernandes de Joao Pessoa, 2013 e 2014 e agora em 2015 o pastor Eber Silva voltou a ser presidente, foram eles que facilitaram o processo das pastoras nos últimos 4 anos, tanto que a gente chegou, onde chegou, é um processo bastante difícil[...] Tem um alto executivo da convenção batista brasileira, hoje, que ele me disse pessoalmente, que apesar de ele ser favorável às pastoras, ele dava graças a Deus que quando ele era pastor de uma igreja local, ele não ordenou uma mulher, por que se
ele tivesse ordenado, ele não teria chegado no cargo que ele chegou”. (ESPERANÇA, 21 jul., 2015)
Esse relato nos ajuda a perceber a influência que a OPBB-SP exerce na vida pessoal e ministerial de diversas pessoas de maneira indireta (ou direta?), como o poder que existe e circula nas relações entre pessoas e entre pessoas e instituição. É possível que, ascender a esses cargos gere poder e evidência, fazendo com que as ideias da liderança sejam tidas como verdades a serem seguidas denominacionalmente e sem questionamentos.
Ainda assim, até o momento, a quantidade de pastoras batistas no Brasil soma um total de 205. (Zenilda Reggiani CINTRA, 2015).
Figura 1- Presença numérica de pastoras da Convenção Batista Brasileira por Estados
Fonte: Elaborado pela autora
De acordo com o mapa, a maior concentração de pastoras está localizada no Rio de Janeiro, com 64 pastoras batistas, esse é o estado que segundo o IBGE mais sente as modificações religiosas, pode-se dizer que no Rio de Janeiro tudo o que se planta dá, é o maior estado com crescimento de igrejas neopentecostais, é o estado que mais possui pessoas que se declaram “sem religião”, grupo que vem crescendo significativamente no Brasil e com relação à presença de pastoras batistas, o Rio de
Janeiro segue na frente.
Levando em consideração as subdivisões topográficas, a região Norte conta com a presença de nove pastoras, é a região que menos possui pastoras, sendo que Roraima é um dos estados que não tem pastoras. A região Nordeste é agraciada com 53 pastoras, um quarto do total em todo o país, ainda assim o Rio Grande do Norte não tem pastoras. A região Centro-Oeste tem 22 pastoras. Já a região Sudeste tem a maior soma, quase a metade de todo o contingente pastoral feminino, conta com a atuação de 99 pastoras, chegando a 26 só no Estado de São Paulo. E toda a região Sul conta com a presença de 23 pastoras, considerando que o estado do Rio Grande do Sul outro estado sem a presença de pastoras.
Por Estado os números ficam assim: Nenhuma pastora: Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Roraima. Uma (1) pastora: Acre, Alagoas, Goiás, Piauí, Rondônia e Tocantins. Duas (2) a três (3) pastoras: Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Sergipe. Cinco (5) a oito (8) pastoras: Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná. Onze (11) a dezessete (17): Bahia, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Pernambuco e Santa Catarina. Vinte e seis (26) a sessenta e quatro (64): Rio de Janeiro e São Paulo.
Esses números mostram que o ministério pastoral feminino no contexto batista (r)existe, apesar da não divulgação desse grande contingente de mulheres nos próprios canais de comunicação da denominação. É de se suspeitar que a omissão é uma tentativa de esconder a (r)existência dessas mulheres e uma indisposição em se reorganizar (em termos de mudanças documental, financeira e hierárquica) para acolher esse novo grupo na denominação.