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De acordo com a teoria da conditio sine qua non, desenvolvida pelo penalista alemão Maximiliano von Buri88, em 1860, todos os eventos que concorreram para a ocorrência de dano são considerados causa deste. Não se faz, portanto, uma diferenciação entre as condutas que antecederam ao dano, isto é, não se distinguem causas de condições.

Causa é, dessa maneira, toda condição da qual dependeu a realização do efeito, independentemente de sua maior ou menor proximidade ou relevância. Havendo pluralidade de causas, portanto, todas devem ser consideradas essenciais na produção do dano. É de tal característica que advém a nomenclatura “teoria da equivalência das condições”, já que há uma equivalência entre os fatores causais89.

Evidencia-se, portanto, que, em princípio, a aplicação da teoria da equivalência não geraria grandes dificuldades ao julgador, bastando a esse enumerar todas as condições que precederam a ocorrência da conduta danosa para estabelecimento do nexo de causalidade. Seu inconveniente mais evidente, entretanto, é que essa enumeração levaria exageradamente longe o dever de indenizar.

A teoria em comento foi adotada pelo Código Penal (CP) brasileiro, que no art. 13 dispõe:

“Art. 13. O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido”.

A despeito do emprego da teoria pelo Código Penal90, esta é muito ampla para aplicação no Direito Privado. De fato, conforme tal raciocínio, causa seria tudo aquilo que,

88 ITURRASPE, Jorge Mosset. Responsabilidad por daños – parte general, t. I, p. 212. 89 GOMES, Luiz Roldão de Freitas. Elementos de responsabilidade civil, p. 70.

90 Conforme assinala Fernando Noronha, no âmbito penal a teoria pode ser convenientemente aplicada em razão da existência de dois filtros que restringem o número de eventos que podem ser considerados: “por um lado, não é qualquer evento danoso que interessa, já que o imprescindível tipo legal é integrado pelo próprio ‘resultado, de que depende a existência do crime’, e, por outro lado, só têm relevo os fatos danosos que, como regra geral, sejam resultantes de condutas dolosas, isto é, preordenadas à realização de determinados resultados” (Direito das obrigações: fundamentos do direito das obrigações – introdução à responsabilidade

se não existisse preliminarmente, teria evitado a ocorrência do dano, o que não pode subsistir tendo em vista as dificuldades de aplicação prática.

Para ilustrar o entendimento esposado por este estudo, traz-se à lume exemplo citado por Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho, qual seja, o do indivíduo que se serve de uma arma para matar seu inimigo91. Nesse caso, de acordo com a teoria da equivalência de condições, dever-se-ia considerar como causa do ilícito não somente o disparo, como também, sucessivamente, a aquisição da arma de fogo, sua confecção, a compra de ferro e pólvora pela indústria que a fabricou, entre outros, em uma cadeia causal que pode prosseguir ad infinitum92.

Os doutrinadores pré-citados assinalam, ainda, que a teoria vem sendo utilizada pelos próprios penalistas com a limitação das causas à necessária previsibilidade, isto é, só ingressam no nexo causal os agentes que atuaram com dolo ou culpa para a ocorrência do dano. Nesse caso, o fabricante da arma seria excluído, pois, ao confeccioná-la, não tinha por intenção, e nem mesmo poderia imaginar, que o adquirente fosse cometer um crime93.

Verifica-se, contudo, que no âmbito da responsabilidade civil a limitação da causa à atuação culposa ou dolosa do agente poderia ser aplicada somente no que tange à responsabilidade subjetiva, tendo em vista que nessa esfera se admite, e, em verdade, exige-se, a apuração da culpa. No tocante, porém, à responsabilidade objetiva, não é possível a aplicação da teoria da equivalência das condições de modo algum, razão pela qual esta se mostra inadequada94.

civil, p. 590). Acrescenta, ademais, que: “Na infração penal, os fatores causais em princípio não passam de meios que o agente preordena com vista aos efeitos queridos, isto é, à consumação do crime, como é muito bem enfatizado nos quadros da chamada teoria finalista da ação, que vê a ação humana como uma atividade instrumental, dirigida à obtenção de determinados resultados: sempre que o resultado ainda é atribuível à vontade do agente, os elementos subjetivo-interiores do comportamento dele são incindíveis dos elementos objetivo-exteriores. Somente nos crimes culposos, sempre excepcionais (Cód. Penal, art. 18, parágrafo único), a teoria da equivalência das condições poderia suscitar alguns problemas, mas mesmo quanto a eles a tipicidade legal sempre serviria de filtro da punibilidade do agente” (Direito das obrigações: fundamentos do direito das obrigações – introdução à responsabilidade civil, p. 590).

91 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de Direito Civil – responsabilidade civil, p. 87.

92 Carlos Roberto Gonçalves recorre ao mesmo exemplo para chegar a conclusões idênticas (Responsabilidade civil, p. 522).

93 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo, op. cit., p. 88. No mesmo sentido, Gisela Sampaio da Cruz (O problema do nexo causal na responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Renovar, 2005. nota 73, p. 41). Fernando Noronha assinala que, mesmo no âmbito penal, a teoria da equivalência das condições está ultrapassada (op. cit., p. 591).

94 CRUZ, Gisela Sampaio da, op. cit., p. 48-49: “A grande oposição que se faz à Teoria da Equivalência dos Antecedentes Causais, todavia, diz respeito ao seu excessivo apego à causalidade natural. Com efeito, ao lado da causalidade natural (física e psíquica), há de se levar em conta os limites objetivos traçados pelo sistema jurídico, sob pena de se chegar a resultados contraditórios. Do contrário, o nexo causal estaria afastado na

Prossegue-se, assim, com a análise de outras teorias nas quais se procede à distinção entre condição e causa.

Benzer Belgeler