Após o estudo do documento, de sua forma, das pessoas que o compõem e da tradição, passa-se agora, finalmente, à definição de Diplomática. Dentre os autores do Antigo Regime e os modernos selecionados para este trabalho, poucos tiveram a intenção de defini-la. Portanto, destacam-se, aqui, Mabillon, Tassin e Toustain, Giry, Bresslau e Paoli.
Mabillon a definiu como “a arte de distinguir os antigos diplomas falsos dos verdadeiros”,9 dando margem às interpretações que se seguiram sobre o real ob-
jeto da disciplina, entendido por ele como os diplomas.
Em seguida, Tassin e Toustain (1750-1765, p.1, tradução nossa), confir- mando a influência de Mabillon, definiriam-na como
a ciência ou arte de julgar fielmente os antigos títulos. Ela tem por objeto os docu mentos (chartes), fixando sua idade, para um conhecimento exato da natu- reza dos atos (actes), das escrituras e dos diversos usos próprios a cada século e a cada nação. Seu objetivo é de servir a todas as formalidades e ao julgamento, favo rável ou não, que diz respeito aos diplomas.
As definições de Diplomática propostas pelos beneditinos refletem clara- mente seu objeto e o objetivo. Para eles, seu objeto são os documentos antigos mais solenes, os diplomas, descartando qualquer possibilidade de análise de do- cumentos contemporâneos. Seu objetivo é o de servir aos propósitos de disputas de propriedades e títulos, comuns na época, identificando os diplomas falsos e os verdadeiros.
Reitera-se, com base nessas definições, que não houve nenhuma intenção por parte desses autores em aproximar a Diplomática dos documentos que não fossem os diplomas antigos, excluindo, assim, a hipótese de que Mabillon teria identificado todos os documentos de arquivo como objeto da Diplomática.
Vale destacar ainda que a Diplomática era vista, a princípio, como uma arte crítica independente, não mantendo nenhuma relação de subordinação com qualquer outra área, o que não pode ser verificado nas obras seguintes, as quais explicitaram na própria definição da Diplomática sua subordinação à História.
Bresslau (1998, p.14, tradução nossa) a define como “uma ciência auxiliar e, ao mesmo tempo, um ramo da pesquisa histórica cujo método não se diferencia daquele histórico geral [...]. Seu objetivo é verificar o valor do documento como
testemunho histórico”. Aqui, o autor destaca, também, que “a limitação aos docu mentos medievais não corresponde à noção de Diplomática, mesmo que a crítica diplomática venha aplicada preferivelmente a esses”.
Paoli (2010, p.21), indo além das discussões de Bresslau, afirma que o obje- tivo da Diplomática não é o de indagar e criticar o fato documentado com relação à verdade histórica; mas sim estudar a confecção e as formas do documento, no que tange à sinceridade do mesmo e ao seu valor como testemunho. Essa defi- nição atenta para a importância do estudo da forma do documento, fazendo desta o grande objeto de estudo da Diplomática. Seu objeto não é simplesmente o docu mento diplomático, mas, sim, sua forma.
No final do século XIX, estava claro que o objeto da Diplomática era o es- tudo da forma dos documentos diplomáticos. Embora esses documentos tenham sido definidos como testemunhos escritos de fatos de natureza jurídica, redigidos segundo a observância de formas determinadas, independentes das datas tópicas e cronológicas, o estudo da Diplomática recaía, ainda, somente sobre os docu- mentos históricos, principalmente aqueles da Idade Média.
Teoricamente, a Diplomática deveria abraçar o estudo dos documentos autên- ticos de todos os países e de todos os tempos [...] Mas é, sobretudo, a história da Idade Média que pode se beneficiar do estudo crítico das fontes diplomáticas; no entanto, sem banir dos nossos estudos os documentos mais modernos, vamos nos ater, principalmente, àqueles da Idade Média. (Giry, 1893, p.6, tradução nossa.)
Após a enunciação da crítica diplomática por Mabillon, o estudo dos docu- mentos contemporâneos se tornou possível para ele e para os outros autores em destaque aqui. Aplicar a crítica aos diplomas antigos escritos em papiro, ou às bulas papais da Idade Média, ou a um decreto de lei na França de 1900, permite ao diplomatista, historiador ou arquivista conhecer a gênese documental, sua forma, seu negócio jurídico, as pessoas que participam de sua formação. No en- tanto, os elementos das formas documentais nem sempre serão os mesmos e, por alguma razão, os diplomatistas do século XIX pensavam encontrar mais ele- mentos para a análise em documentos mais antigos. Em decorrência desse pen- samento, excluíam da análise diplomática os documentos contemporâneos a eles, restringindo seu estudo àqueles da Idade Média, e forçando a Diplomática a uma limitação temporal, assim como a uma relação de subserviência com a História, que será amenizada, felizmente, a partir do começo do século XX, com uma extensão do objeto da arte crítica e a criação de um vínculo com a Arquivística.
Com base nos estudos apresentados neste capítulo, pode-se concluir que, na realidade, poucas mudanças foram sentidas antes do século XIX. Houve, como dito anteriormente, um refinamento da crítica de Mabillon na obra de Tassin e Toustain, principalmente no tocante à definição dos elementos internos e ex- ternos dos documentos, mas que ainda estava longe de se tornar uma superação daquele método proposto em De re diplomatica. O mesmo ocorre com Fuma- galli. Embora o autor tenha aperfeiçoado a divisão das fórmulas, tratando-as mais didaticamente em sua obra, não representou uma mudança ou ruptura de conteúdo ou definições, como foi percebido após os estudos dos alemães.
O método de Sickel e, posteriormente, sua junção com o de Ficker, repre- senta o turning point da Diplomática Clássica para a Moderna. Nesse momento, a arte começa a deslocar seus estudos da simples análise de diplomas falsos/ autên ticos para a relação dos documentos diplomáticos – ou seja, aqueles redi- gidos segundo formas determinadas que lhes conferem força probatória e fé pú- blica – e seu contexto de criação. Novos elementos foram incorporados ao estudo dos documentos e à sua partição, expandindo seu uso aos demais países da Eu- ropa, como Itália e França.
No entanto, em que pesem as contínuas contribuições dos italianos e fran- ceses, e até mesmo dos alemães e austríacos, para a constituição de uma arte crí- tica moderna, com base na análise dos conceitos de documento diplomático e nos elementos da crítica diplomática propostos por Sickel, Ficker, Paoli, Bresslau e Giry, atenta-se para uma nova estagnação na Diplomática após as obras de Sickel e Ficker. Com exceção de Bresslau, que contribuiu para um alargamento no con- ceito de documento diplomático, os demais autores, após as obras dos alemães, não contribuíram efetivamente para uma contínua evolução do método ou das definições da Diplomática, utilizando o mesmo conceito de documento proposto por Sickel e o mesmo método de análise e partição do documento que, embora apresente algumas divergências em seus elementos – justificadas pelos tipos docu mentais diversos analisados –, são essencialmente os mesmos.
Ao estudar o conceito de documento e sua forma, as pessoas que contribuem para a formação do documento e a tradição documental, desde a publicação de Mabillon até o século XIX, algo se esclarece: Mabillon está para a Diplomática Clássica assim como Sickel e Ficker estão para a Diplomática Moderna. Isso sig- nifica que, além do importante progresso trazido à crítica dos documentos por eles, as circunstâncias que se seguiram aos seus trabalhos também são seme- lhantes: após a publicação de Mabillon, a Diplomática viveu uma estagnação no tocante à definição de seu objeto e à estruturação de seu método, apesar das constantes contribuições dos beneditinos para o estudo dos diplomas. O mesmo
pode ser sentido quando se estuda a Diplomática Moderna, ou seja, após a defi- nição de documento por Sickel e a proposição de um novo método por ele e por Ficker, os estudos diplomáticos apresentam uma estagnação, mesmo com a con- tínua contribuição de seus seguidores europeus.
No entanto, assim como a Diplomática Moderna representou um novo sopro de vida àquela clássica definição dos antigos tratados, a Diplomática Con- temporânea irá representar um momento de efervescência de ideias e mudanças conceituais fundamentais para o estudo dos documentos, notadamente na França e na Itália a partir de 1930, como se apresentará no capítulo seguinte.