3.2. TÜRK HUKUKUNDA ETKİ KISTASINA İŞARET
3.3.1. Genel Olarak
Apesar de o Estatuto da Terra datar de 1964, a Reforma Agrária só virou plano depois de 20 anos, em 1985, durante o governo de José Sarney, com o I Plano Nacional da Reforma Agrária - PNRA, em 10 de outubro de 1985.
Também nesse ano foi criado o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário - MIRAD.
No entanto o I PNRA era extremamente modesto e, conforme Ariovaldo U. Oliveira (2002), trazia distorções no cumprimento do Estatuto da Terra, pois declarava que sempre que possível deveriam ser evitadas as desapropriações de latifúndios. As metas de desapropriações e assentamentos eram muito acanhadas.
O PNRA anunciava, em 1986, como previsão de área para assentamento referente a 1985/1986 um total de 4.620.000 hectares, o que daria para assentar 150.000 famílias. No entanto apenas 1.078.793 hectares de área foram desapropriados, somente 23% do previsto, sendo tão-somente 258.907 hectares destinados para projetos de assentamentos, significando 5% do total previsto no plano, quando foram assentadas apenas 5,8% das famílias, ou seja, 7.966 (OLIVEIRA, 2002, p. 97).
Os movimentos do campo, a Igreja, partidos políticos, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), vislumbraram a possibilidade de efetivação do Plano, porém, por desarticulações do Governo e sucessivas trocas de ministros e presidentes do INCRA, esse não saiu do papel. Em 1987, o INCRA foi extinto e se criou o Instituto Jurídico de Terras Rurais (INTER). Isso, de certa forma, enfraqueceu a administração e atravancou o processo de efetivação do plano.
Em 1987, Sarney reduz a previsão de 1,4 milhões de famílias que deveriam ser assentadas até 1991 para 1 milhão, e a área total prevista passa para 30 milhões de hectares. Isso nada mais é do que o reflexo da falta de vontade política e da pressão dos latifundiários, sobretudo da União Democrática Ruralista - UDR, nascida em 1985, para controlar seus interesses e manter a estrutura concentrada de terras no país.
O próximo ano é marcante, tanto para as lutas rurais quanto para as lutas
urbanas8
O capítulo II, referente à “Política Urbana”, tem “[...] por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes”. E no capítulo III, referente à “Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária”, o seu artigo 184 estabelece que:
. É o ano da Constituinte. A Constituição de 1988, em seu título referente à “Ordem Econômica e Financeira”, estabelece que, tanto para a área urbana quanto para a área rural, a propriedade deve cumprir a sua função social (BRASIL, 1988).
Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos de dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até 20 anos, a partir do segundo ano de emissão, e cuja definição será definida por lei (BRASIL, 1988).
A Constituição de 1988 estabelece normas menos abrangentes que o Estatuto da Terra. Além de criar bloqueios institucionais, ela apresenta dualidade nas suas disposições. Se por um lado garante a função social da propriedade, por outro introduz o direito de propriedade e ainda coloca que terras produtivas não devem ser desapropriadas, ou seja, mais uma vez a questão da concentração da terra não é colocada, ficando a cargo do governo estabelecer a sua distribuição.
Conforme o seu artigo 185, a propriedade produtiva e a pequena e média propriedades rurais são insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária, esta última desde que a família não possua outra.
A respeito da função social da propriedade, a Constituição vem reafirmar os requisitos que o Estatuto da Terra já esboçava em seu artigo 2º., capítulo I, título I. Assim a Constituição, em seu artigo 186, determina que está de acordo com a função social a propriedade que atende, simultaneamente, às seguintes condições:
I- aproveitamento racional e adequado; II- utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; III- observância das disposições que regulam as relações de trabalho; IV- exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores (BRASIL, 1988).
Logo após a aprovação da Constituição, foi determinada a recriação do INCRA, em 1989, quando o MIRAD foi extinto. Ou seja, uma completa desestruturação dos órgãos que deveriam efetivar a Reforma Agrária. Estratégico ou não, o fato é que o governo da Nova República cumpriu apenas 6,4% das metas previstas no I Plano Nacional da Reforma Agrária.
Em termos gerais, o governo da Nova República cumpriu menos de um décimo da meta prevista para o número de famílias a serem assentadas pelo primeiro PNRA. Estava comprovada assim a intenção demagógica e populista do Governo Sarney com relação à reforma Agrária e mais uma vez, consolidava-se na estrutura do poder do país a política agrária ditada pelos latifundiários organizados na UDR (OLIVEIRA, 2002, p. 103)
De 88 a 93, foi publicada a Lei nº. 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, que dispõe sobre a regulamentação dos dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária, previstos no Capítulo III, Título VII, da Constituição Federal (BRASIL, 1988).
Nos próximos anos, a reforma agrária caminhou em passos lentos e inexpressivos, o número de desapropriações também foi mínimo. Esse quadro foi ainda agravado com a aprovação da Lei nº. 8.629, que claramente exclui do Programa de Reforma Agrária do Governo Federal quem for identificado como participante direto ou indireto em
conflito fundiário que se caracterize por ocupação de terra (BRASIL, 1988)9
9 Art. 2º., Inciso 7.
intimida que os movimentos de luta pela terra pressionem o governo para desapropriação de terras para fim da reforma agrária.
Nas gestões de Collor e Itamar Franco, o INCRA divulgou o assentamento de menos de 50 mil famílias.
A década de 90 foi marcada pelo surgimento de diversos movimentos autônomos, como o Conselho Nacional dos Seringueiros (Acre), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento Nacional dos Pescadores (Monape), Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR), Movimento das Quebradeiras de Coco no Maranhão. Atualmente o Brasil conta com 69 movimentos camponeses, alguns isolados, outros de grande expressão política, como é o caso do MST.
Em 1995, assumia a Presidência da República Fernando Henrique Cardoso (FHC). A política de governo deste presidente pretendia “[...] enfrentar essa questão (a reforma agrária), com vontade política e decisão, dentro dos princípios da lei e da ordem. Com a meta de aumento substancial dos assentamentos a cada ano, o objetivo é atingir cem mil famílias no ultimo ano de seu governo”. Suas medidas eram “[...] executar a reforma agrária estabelecida pela Constituição, com paz e justiça, adotar uma política agrária realista e responsável, com o assentamento de quarenta mil famílias no primeiro ano; sessenta mil no segundo ano; oitenta mil no terceiro ano e cem mil no quarto ano (OLIVEIRA, 2002, p. 106).
No início do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, houve uma retomada das ocupações de terras brasileiras, não mais efetivadas pelas Ligas Camponesas da década de 50 e 60, mas reinventadas pelo MST. De 1987 a 1994, o número de ocupações passou de 67 para 118. Alguns massacres marcantes datam desse período, como o massacre de Corumbiara, em 1995, no Estado de Rondônia, e o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, no Estado do Pará.
Na segunda gestão do governo FHC, foi implantada uma política de crédito fundiário denominada Cédula de Terra, posteriormente, Banco da Terra. Foi, de fato, uma intervenção na questão da luta pela terra por meio da política econômica, transferindo, dessa forma, o problema de distribuição de terra e da questão agrária para uma questão que se resolveria no mercado, o mercado de terras. O Banco da Terra nada mais é do que a reforma agrária de mercado, a negociação se limita ao contrato de compra e venda da terra. Essa ação diminuía o poder de negociação e reivindicação dos trabalhadores sem-terra.
O governo Luís Inácio Lula da Silva (Lula) apresentou em novembro de 2003, início da 1ª. gestão, na Conferência da Terra, realizada em Brasília, o II Plano Nacional da Reforma Agrária. E suas metas eram, para até o final de 2006, assentar 400 mil novas famílias, 130 mil famílias teriam acesso à terra por meio do crédito fundiário e outras 500 mil adquiririam estabilidade na terra com a regularização fundiária. Seria mais de 1 milhão de famílias beneficiadas e mais de 2 milhões de novos postos de trabalho gerados.
O presidente do INCRA (gestão 2002-2006), Rolf Hackbart, afirmou que a reforma agrária “[...] é o conjunto de medidas que visa promover, mediante a redistribuição da propriedade e do uso da terra, acompanhada de políticas públicas, federais, estaduais, e municipais, de apoio à produção, comercialização, educação, saúde e habitação, a integração do assentamento no mundo dos direitos” (HACKBART, Rolf, 2004).
Entretanto, já no final de 2004, a meta prevista no II PNRA já se mostrava obsoleta diante dos dados. Para o ano de 2003, a proposta do plano era assentar 60 mil famílias, no entanto apenas 36,8 mil foram assentadas. No primeiro semestre de 2004, a meta era assentar 47 mil famílias e até o final do ano mais 115 mil. Foram assentadas somente 63,7 mil famílias (HACKBART, Rolf, 2004).
Foram anunciados pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário, em 30 de janeiro de 2007, novos números que totalizam a soma alcançada no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006). A meta do II PNRA de efetivar o assentamento de 400 mil famílias foi quase alcançada. Conforme dados oficiais, o governo conseguiu assentar 381 mil trabalhadores rurais sem terra, equivalente a 95,3% do previsto. No entanto esse número está sendo contestado por entidades ligadas à questão da reforma agrária. O que o governo chamou de “recorde histórico” na política de reforma agrária parece ter sido alterado e “engordado”. A quantidade de famílias divulgadas não se refere à quantia assentada, mas à somatória de diversas ações durante o governo, inclusive de regularização fundiária de quem já estava na terra.
Conforme Ariovaldo Umbelino de Oliveira (2007), “Esse dado (divulgado pelo governo) aponta a soma dos números de regularização fundiária, reordenação fundiária, novos assentamentos e reassentamento de famílias atingidas por barragens". Oliveira ainda destaca que, das 381 mil famílias divulgadas oficialmente pelo governo, de fato apenas foram assentadas 83.359 famílias por meio de novos assentamentos, 85.052 por meio de
regularização fundiária, 80.304 por reordenação e 1.670 por meio de reassentamentos,
totalizando 250.385 famílias beneficiadas (2007)10.
O 2º. Plano Nacional previa o assentamento de 400 mil novas famílias, a regularização da situação de outras 500 mil já instaladas em assentamentos e posses e mais o atendimento de outras 130 mil, pelo Programa Nacional de Crédito e Combate à Pobreza Rural. No total seriam 1.030.000 famílias atendidas [...] O governo não conseguiu cumprir nenhuma dessas metas e, para inflar o resultado final, misturou tudo, chegando a esse número de 381.419 famílias. Isso representa menos de 40% da meta prevista
(CARALO, 2007).
Como se percebe, mesmo na gestão do Lula, a reforma agrária sofre certa morosidade no que se refere à sua efetivação de fato. Após a aprovação do Estatuto da Terra, há 40 anos, pouco ou quase nada foi feito para que de fato se concretizasse a Reforma Agrária. As ações estão muito aquém do que fixava o Estatuto e ainda muito mais aquém, de fato, do que reivindica a população que mora e trabalha na terra.
Enfim o que permeia toda essa discussão da questão agrária é o que realmente foi feito pelos agentes políticos em todo esse período na tentativa de efetivação da reforma agrária. Políticas, programas e projetos evidentemente não resolvem a extrema desigualdade na distribuição de terra no Brasil, mas podem suavizar e amenizar, desde que se destine recurso para isso.
Em um país onde a terra é objeto de reserva de valor ou objeto de especulação, as políticas públicas deixam a desejar, e o debate da Reforma Agrária fica extremamente prejudicado. O que se vê são pequenas ações que, de modo algum, mudam a estrutura fundiária do Brasil.
Parte do território capitalista é pautado pela monocultura de produtos agrícolas de exportação, o que denota a apropriação e o aprisionamento das terras do território nacional. A grande corrente do agronegócio que vem disputando nos últimos anos com mais intensidade o fundo público nada mais é do que uma nova versão do latifúndio.
A Lei de Terras (BRASIL, 1850), como visto, foi um grande marco nesse processo. Além de transformar a terra em mercadoria, deu a ela um caráter rentista à
10 Conforme pesquisa elaborada pelo professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, de janeiro de 2003 a 31 de julho
propriedade, tornando-se, dessa forma, na trajetória brasileira um marco latifundista. A terra, enquanto renda, não exclui o capital, mas sim o incorpora.
O país possui uma área total de 850 milhões de hectares, onde as propriedades com até 100ha representam 86,3% do número de imóveis rurais e 19,7% da área. No outro extremo, propriedades acima de 1.000 hectares, representam 1,6% do total imobiliário rural e 46% da área agrícola.
É nesse contexto que moram os conflitos agrários do país, no atual status quo as políticas até então foram e são de assentamentos, não de reforma agrária.
Por faltar política pública séria e efetiva a respeito, as cidades continuam recebendo grande número de trabalhadores que saem do campo na esperança de melhores atendimentos de saúde, educação, condições de vida digna.
Nessa dialética cidade-campo, faz-se necessária a reflexão sobre o campo, a partir do campo. É fato que na cidade se encontram os centros de poder, a presença dos aparelhos do Estado, que tem o papel de fazer a interlocução desses processos.
Urge a retomada da discussão da distribuição de terras no país e das condições de vida no campo. Caso contrário, a questão agrária provavelmente será estendida por mais alguns anos em nosso país.
Capítulo 2
As ações no tocante à produção habitacional
“Numa vasta extensão, onde não há plantação, nem ninguém morando lá,
Cada um pobre que passa por ali, só pensa em construir seu lar.
E quando o primeiro começa os outros depressa procuram marcar seu pedacinho de terra para morar [...]”.
Favela
Capítulo 2
As ações no tocante à produção habitacional
Como retratou o capítulo primeiro, as migrações da população rural, seja para demais áreas do território, seja para grandes centros urbanos, representam uma das características do campesinato. A mobilidade espacial nesse caso fez (e ainda faz) com que grande parte das famílias sem perspectivas de vida segura no campo migre para as cidades em busca de escola para os filhos, melhores condições de moradia, saúde e assistência do governo.
Esse movimento campo-cidade se intensifica a partir da segunda metade do século passado, período em que o Brasil apresentou intenso processo de urbanização.
Segundo dados do IBGE, em 1960, a população urbana representava 44,7% da população total, contra 55,3% da população rural. Dez anos mais tarde essa situação se inverte. Em 1996, a população que vive na cidade cresce para 78,4% e, em 2.000, esse número já ultrapassa os 81% (IBGE, 2000).
Nesse processo de territorialização do capital e desterritorialização do campesinato, muito comum é o camponês se tornar trabalhador temporário na agricultura capitalista. Por falta de uma política específica, muitos migraram para bairros pobres das cidades, mas alguns continuam com o trabalho agrícola, tendo assim que se deslocar para a área de trabalho, ou seja, da cidade para o campo, sendo então chamados “bóias-fria”.
Segundo Santos (1996, p. 259), “[...] palco de todos os capitais e todos os trabalhos, as grandes cidades podem atrair e acolher as multidões pobres expulsas do campo e das cidades médias pela modernização da agricultura e dos serviços”, aumentando ainda a diversidade e a desigualdade socioespaciais.
Essa modernização, como aponta Santos (1996), agrega apenas o setor superior da economia, calcado por uma lógica especulativa do capital. Recursos nacionais, historicamente, foram aplicados de forma seletiva, privilegiando o setor capitalista. Se, por um lado, a economia do país beneficia o setor “monopolista da economia”, sobretudo nas grandes cidades e metrópoles, favorecendo as grandes empresas, além do mais subordinadas
por interesses externos, por outro, faz-se eclodir um empobrecimento devastador das classes mais populares da sociedade, que nem sequer participavam diretamente dessa modernização.
Um olhar sobre as cidades brasileiras, nos dias atuais, mostra-nos um quadro alarmante de desequilíbrio socioeconômico. Junto com o crescimento e o urgente avanço industrial, vieram as diversidades e desigualdades sociais, econômicas e culturais, gerando núcleos imensos e fortemente marcados por exclusão socioterritorial. Esse quadro de desigualdade, no que diz respeito à paisagem construída, pode ser associado à maneira como as administrações públicas freqüentemente enfrentaram e ainda enfrentam os problemas tanto da cidade como do campo.
A noção de desigualdade gerada pelo rápido processo de modernização aponta uma íntima relação entre o desenvolvimento econômico e as tensões sociais. O país por um lado se modernizou e por outro mantém e arrasta uma condição de desigualdade social e regional expressa por uma maioria empobrecida da população.