Para análise do corpus documental, a pesquisadora utilizou como referencial teórico metodológico a Análise de Discurso (AD) de linha francesa de Eni Orlandi. Assim, levou-se em consideração que o discurso estava na exterioridade, inserido na vida social do sujeito. No entanto, coube ao analista, nessa fase, superar as estruturas linguísticas para chegar aos resultados almejados. Desse modo, foi preciso sair especificamente do linguístico, direcionar- se a outros espaços, para procurar descobrir, descortinar, o que estava entre a língua e a fala
126.
Na AD o analista deve ir além das evidências, sendo necessário que ele compreenda e acolha a opacidade da linguagem, a determinação dos sentidos pela história, a constituição do sujeito pela ideologia e pelo inconsciente, visualizando o que é possível, o que é singular, quais as rupturas e as resistências 126.
Fernandes 127 e Orlandi 126: 64 dizem que para se analisar um objeto específico, tem-se que ter uma teoria, pois esta fará com que o analista recorra aos seus conceitos e, assim, busque esclarecimentos teóricos para sua compreensão e análise. É necessário, portanto, que “a teoria intervenha a todo o momento para reger a relação com o objeto, com os sentidos, com ele mesmo e com a interpretação”. Indo mais além, Scherer e Taschetto 128 e Orlandi 126
revelam que sua utilização, requer uma interlocução com a teoria das ideologias, com a história, com o materialismo histórico, com a linguística e com a psicanálise.
A proposta é a construção de um dispositivo da interpretação. Esse dispositivo tem como característica colocar o dito em relação ao não dito, o que o sujeito diz em um lugar com o que é dito em outro lugar, o que é dito de um modo como o que é dito em outro, procurando ouvir, naquilo que o sujeito diz, aquilo que ele não diz, mas que constitui igualmente os sentidos de suas palavras 126:59.
Para Orlandi 126, a base da análise na AD requer em um primeiro momento que o analista desenvolva a constituição do corpus, que por sua vez não seguirá critérios empíricos, mas teóricos. Deve haver um corpus experimental e o de arquivo, sendo também necessário, interessar-se por práticas discursivas de diferentes naturezas, as quais se destacam: imagem,
som, grafia, dentre outros. Quanto à natureza das linguagens pode ser: oral, escrita, científica, literária, narrativa, descritiva e outros.
A pesquisadora, inicialmente, realizou leituras exaustivas verticais sobre o material empírico coletado, com o intuito de aprofundamentos conceituais, metodológicos e em relação aos objetivos da análise e à temática proposta. Essa exaustividade possibilitou evidenciar os fatos da linguagem com sua memória, sua espessura semântica, sua materialidade linguístico-discursiva 126.
Orlandi 126: 66-67 evidencia ainda que:
Inicia-se o trabalho de análise pela configuração do corpus, delineando-se seus limites, fazendo recortes, na medida mesma em que se vai incidindo um primeiro trabalho de análise, retomando-se conceitos e noções, pois a análise de discurso tem um procedimento que demanda um ir e vir constante entre teoria, consulta ao corpus e análise. Esse procedimento dá-se ao longo de todo o trabalho.
Cabe entender que, para Orlandi 126, a construção do corpus e a análise encontram-se intimamente ligadas e, na medida em que o investigador define o que faz parte do corpus, consequentemente, ele delineia as propriedades discursivas; assim, as montagens discursivas foram construídas obedecendo aos princípios da análise de discurso e, desse modo, se chegou a uma compreensão. Para isso, foram realizadas leituras da superfície linguística com a finalidade de identificar sinais, vestígios e pistas que se aprofundem ao fio do discurso, processo denominado de superficialização. Concluída esta fase, foi constituído o corpus discursivo considerando o objeto de estudo e seus objetivos.
A partir do corpus discursivo, foi observada, no enunciado, a discursividade e, incidindo em primeiro lance, a análise de natureza linguístico-enunciativa, construindo-se o objeto discursivo. Em seguida, foi realizada uma análise cujo intuito foi relacionar as formações discursivas (FD) distintas, mediante a constatação e identificação de processos parafrásicos, polissêmicos e metafóricos 126.
Após esse processo, identificaram-se as FD que, segundo Pêcheux 129;130, é nessa fase que o pesquisador deverá ter mais cuidado, pois a identificação da FD envolve o sujeito, a memória e os sentidos, isso porque, é sobre a base linguística que se desenvolvem os processos discursivos, mas ao mesmo tempo, todo processo discursivo remete para outros discursos que estão no domínio da memória, ou seja, daquilo que já foi dito, que por sua vez, é a base de sustentação dos dizeres.
Courtine 131 revela que o papel central para o desenvolvimento da noção de FD, é pensá-la como “Fronteiras que se deslocam” cujo movimento é impulsionado pela memória
discursiva. Essa ideia de deslocamento insere na noção de FD, o papel fundamental da memória, seja na dispersão ou na regularidade.
Nessa direção, formaram-se os Blocos Discursivos assim, descritos: Visões paradigmáticas das enfermeiras terapeutas comunitárias e Visões paradigmáticas das enfermeiras após a formação: Tipologia da Enfermeira Terapeuta Comunitária. Conforme apresentados nas figuras adiante:
Figura 2- Visões paradigmáticas das enfermeiras terapeutas comunitárias antes e após a formação em TCI.
Fonte: Enfermeiras terapeutas comunitárias da atenção básica à saúde dos municípios de João Pessoa, Campina Grande, Patos e Santa Luzia, 2014.
Assim, a partir desta etapa, os enunciados que caracterizaram os discursos dos sujeitos foram analisados quanto à posição ideológica do sujeito, sua relação com outros discursos e as relações ideológicas com as formações discursivas, redes de filiações históricas, interdiscurso e memória discursiva. De outro modo, passou-se da superfície linguística ao processo discursivo 126.
Visando realizar uma discussão bem fundamentada na AD, o referencial teórico utilizado para se alcançar tal objetivo baseou-se: 1) na história da enfermagem e as tipologias desse profissional apresentado ao longo dos anos; 2) Nos avanços emanados na profissão a
partir da reforma psiquiátrica e sanitária do país e cujo foco, é a promoção da saúde, prevenção de doenças e a reabilitação dos sujeitos; 3) No tipo ideal do terapeuta comunitário criado por Adalberto Barreto e nas tipologias construídas por Weber.
Logo, infere-se que a análise do discurso foi pertinente na medida em que possibilitou que a pesquisadora atingisse os objetivos propostos nesse estudo, ao revelar a tipologia das enfermeiras com formação em terapia comunitária que estão atuando na rede de cuidado da ABS dos municípios pesquisados.