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A partir do entendimento das unidades familiares russas do início do século XX, Alexandre Chayanov desenvolveu A Organização da Unidade Camponesa, publicado em 1925. Esta obra se destaca diante de outras interpretações sobre a temática, já que, fugindo do entendimento marxista ortodoxo, Chayanov desenvolve uma teoria que preconiza a existência de outro modo de produção inserido na formação social capitalista11. E, longe de entender essa existência como um problema, o autor destacava a tendência do aumento de unidades econômicas familiares como consequências do avanço capitalista.

No desenvolvimento da teoria da organização da unidade econômica camponesa, Chayanov fundamenta sua crítica à teoria econômica ao importar-se em estudar apenas a formação social capitalista e aponta a necessidade da análise teórica dos outros modos de produção, já que uma área vasta da vida econômica baseia-se em formas não capitalistas de produção.

A esfera da produção agrária é um exemplo claro de formação não capitalista. “Esta unidade tem motivações muito específicas para a atividade econômica, bem como uma concepção específica de lucratividade” (CHAYANOV, 1981, p. 134). Deste modo, ele propôs

11 No contexto das ciências sociais, suas ideias foram representantes do pensamento neopopulista (GERARDI; SALMONI, 1994).

o estudo da distribuição dos recursos (terra, trabalho e capital) no interior das unidades camponesas a fim de enfatizar as suas particularidades e constatar a racionalidade singular dos camponeses.

Antes do aprofundamento da teoria desenvolvida por Chayanov, é preciso lembrar que, como destacado por Harrison (apud GERARD; SALMONI, 1994), seu modelo pode ser interpretado como uma análise microeconômica interna das unidades camponesas. Logo, é necessário abstrair relações externas que envolvem as unidades camponesas, como o comércio inter-regional e internacional, ou a expansão urbana.

A organização social capitalista é definida pela íntima relação entre as seguintes categorias: salário (remuneração do trabalho); renda (remuneração pelo uso da terra); juros (remuneração pelo uso do capital constante); lucro (a diferença entre receita e custo); e preço (valor das mercadorias no mercado). As unidades de trabalho familiar camponês e artesanal, já que serão unidas por processos monetários de troca, são influenciadas pela categoria preço, a partir do momento em que a produção camponesa se relaciona com o mercado capitalista. Entretanto, a categoria salário é ausente, assim como as categorias lucro, juros etc.

O resultado do ano de trabalho de um camponês ou artesão que dirige sua unidade de produção sem trabalho pago é o “produto do seu trabalho”, considerado pelo autor como uma categoria específica dessa forma de organização. Com a ausência da categoria salário, o fenômeno social de lucro líquido também está ausente e a lógica que guia as decisões de produção é diferente.

Na estrutura capitalista, a decisão de investimento e produção baseia-se na mensuração do custo de oportunidade, termo não empregado diretamente pelo autor, mas que está presente em significado quando Chayanov afirma que a chave para o entendimento da vida econômica na sociedade capitalista é a fórmula de mensuração do lucro comparado com a possibilidade de ganho em outro tipo de “investimento”, como no mercado financeiro que proporcionará o ganho de juros.

Na estrutura produtiva rural, a maior parte da esfera da produção baseia-se numa forma não capitalista, e sim em forma de unidade econômica familiar não assalariada, onde as decisões são baseadas nas necessidades de cada unidade familiar de produção e de consumo. As necessidades consideradas são de ordem tanto biológica (alimentação e vestuário), como também aquelas impostas social ou economicamente.

Estas últimas são reflexo da sua integração ao circuito da economia mercantil e, nesse casso, a aquisição de bens duráveis (maquinaria agrícola,

eletrodomésticos, automóvel…) e o pagamento de encargos públicos (taxas, impostos…) passam a fazer parte do consumo familiar (GERARDI;

SALMONI, 1994, p. 199).

Aqui, as unidades de produção e consumo se identificam; então, o limite da produção, ou, de outro modo, o grau de autoexploração é determinado pelo equilíbrio entre a satisfação da demanda familiar e a penosidade do trabalho. A determinação deste equilíbrio se dá de forma subjetiva, já que leva em consideração forças internas, em contraposição às forças do mercado, como a fertilidade da terra, o tamanho da família que deve ser sustentada por essa produção e a parte da família apta ao trabalho. Ou seja, a família define o máximo e o mínimo da atividade econômica da unidade.

Chayanov (1981) destaca que a intensidade do cultivo e suas formas organizativas dependem da relação entre a extensão e a qualidade da terra em comparação com a extensão das necessidades da família, fortemente influenciadas pela densidade populacional. “A densidade populacional e as formas de utilização da terra tornam-se assim fatores sociais extremamente importantes, que determinam fundamentalmente o sistema econômico [...] além do padrão de vida tradicional” (CHAYANOV, 1981, p. 145).

O aumento do número de trabalhadores de uma mesma família, realmente, deve ser preocupante segundo Chayanov, pois, o camponês tem o conhecimento da Lei dos rendimentos decrescentes.

Quanto maior o número de trabalhadores em uma mesma família, menores serão as possibilidades de ver o seu produto aumentado. Isto porque, à medida que um novo membro for adicionado ao conjunto de mão de obra familiar, tem-se que a fração de produto suplementar que ele obtém com seu trabalho tende a zero, e a parcela corresponde à renda individual decresce: a

chamada “lei dos rendimentos decrescentes12” (GERARDI; SALMONI,

1994, p. 200).

Assim, o aumento da família de um camponês afeta o balanço que guia as decisões da unidade familiar, tornando necessário o aumento da produção via intensificação da utilização da terra ou a compra de outra terra para evitar a inatividade forçada13. No caso extremo, a família terá que completar a renda disponibilizando sua força de trabalho para a exploração capitalista.

12 Problema maior se considerar excesso de mão de obra combinado com limitada terra e ausência de progresso tecnológico.

Mesmo com a possibilidade de o trabalho assalariado estar presente nas unidades familiares, não significaria, para o autor, a transformação do caráter da produção para a forma capitalista, já que a presença do trabalho assalariado adquire caráter subordinado à lógica da produção camponesa. “A presença da categoria salário modifica um pouco o conteúdo das categorias usuais de exploração familiar, mas não chega a substituí-las pelas categorias de uma exploração capitalista” (CHAYANOV, 1981, p. 156).

A comparação entre retorno (em satisfação) e fadiga do trabalho também guia as decisões em relação à procura de crédito para investimento em capital, visto que o pagamento dos juros irá diminuir a satisfação da unidade familiar ou, de outro modo, obriga quantidade maior de trabalho. A solicitação de empréstimos depende, portanto, da percepção de que este dispêndio será vantajoso para a unidade econômica, além de levar em consideração que o montante necessário para essa despesa será fruto do rendimento do trabalho.

A lógica diferente da agricultura camponesa, em relação à capitalista, explica a permanência do camponês mesmo em situações consideradas, do ponto de vista capitalista, irracionais. A racionalidade camponesa está baseada, segundo Chayanov, na procura do equilíbrio entre satisfação e fadiga do trabalho. Assim, provavelmente uma unidade familiar específica produzirá menos que uma unidade capitalista, já que pesará para a primeira a degradação da força de trabalho, tornando-se irracional do ponto de vista capitalista14. “Deste modo, a lógica da análise marginalista é inaplicável, já que para o camponês a noção de utilidade marginal decrescente do trabalho se defronta com a noção de satisfação de suas necessidades” (PONTES, 2005, p. 36).

Apesar desta diferença significativa, são os mesmos os fatores que geram maior lucro para o capitalista do campo e incremento do rendimento por unidade de trabalho da unidade camponesa: o melhor solo, a melhor localização das terras em relação ao mercado, as formas de escoamento das mercadorias etc. Porém,

O produto do trabalho indivisível de uma família, e por conseguinte a prosperidade da exploração familiar, não aumentam de maneira tão marcante quanto o rendimento de uma unidade econômica capitalista influenciada pelos mesmos fatores, porque o camponês trabalhador, inevitavelmente, equilibrará os fatores econômicos internos de sua granja, ou seja, com menor auto exploração de sua capacidade de trabalho (CHAYANOV, 1981, p. 141).

14 Observando a história agrária russa, Chayanov encontra um bom exemplo ilustrativo: o fato de, mesmo com a baixa dos preços do mercado, ser observado aumento da produção.

O autor define, portanto, as categorias para a estrutura econômica de uma sociedade onde a produção se baseia nas unidades camponesas e no artesanato, e onde não existe a instituição do trabalho assalariado:

- O rendimento do trabalho familiar, único e indivisível, que reage frente aos fatores, já citados, formadores de renda;

- Os preços das mercadorias;

- A reprodução dos meios de produção (formação do capital); - Os preços do capital na circulação de crédito;

- Os preços da terra, definidos pela demanda do camponês pela terra.

Deste modo, a partir do entendimento de categorias diferentes em relação às apresentadas pelo sistema capitalista, o autor classifica a unidade econômica camponesa como não capitalista.

Por fim, Chayanov, apesar de não vislumbrar o desaparecimento dos camponeses, como explicado anteriormente, não nega o processo de industrialização agrícola em grande escala e coloca as cooperativas coletivas como alternativa para a exploração camponesa diante desse fenômeno.

Benzer Belgeler