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GENEL VE İDARİ SÜREÇLER

Tendo em vista que a nossa hipótese geral pressupõe a existência de um processo de reestruturação produtiva no Estado que atinge a RM de Fortaleza, consideramos importante avaliar inicialmente em que medida essas mudanças políticas no Ceará realmente apontaram para uma ruptura com o processo anterior, do ponto de vista econômico. Assim devemos indagar se esse processo demonstra o surgimento de novas relações que reflitam o amadurecimento de um estágio avançado no desenvolvimento econômico do Estado ou se são apenas resultados de uma simples acomodação dos movimentos do capital em busca de nova rentabilidade, na continuidade da tradicional concepção do modelo centro-periferia.

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Sob esse prisma, Bernal (2004, p. 52) considera que as transformações que ocorrem na metrópole de Fortaleza, resultantes da reestruturação produtiva no âmbito estadual, devem ser interpretadas como fruto da liberação de fluxos de capitais e de comércio provocados pela reestruturação produtiva de alcance nacional e global, em sintonia com a mundialização financeira.

Assim, propõe explicar porque o Ceará resiste a um processo de estagnação submetido ao país - juntamente com o desaparecimento do planejamento regional e das políticas compensatórias - e porque a sua capital cresceu mais do que as outras capitais nordestinas na década de 1990, apesar da pobreza relativa da sua agricultura e da sua estrutura industrial ainda tradicional. Indaga também sobre as razões do surgimento desse novo ciclo de industrialização, localizados prioritariamente na RM de Fortaleza, como também sobre a emergência do turismo, com forte expressão no litoral do Estado, mas igualmente concentrado na sua região metropolitana.

Como ponto de partida, Bernal observa que a reestruturação industrial no Brasil, tomada como estratégia defensiva em busca de competitividade no início dos anos 1990, permitiu a reorganização territorial do capital, com a fragmentação das cadeias produtivas, disseminando para regiões mais pobres, como o Nordeste, as plantas industriais de menor conteúdo tecnológico, mas igualmente integrada aos mercados globais.

Suas considerações sobre a lógica desse novo ciclo de industrialização, no Ceará, levam, em última análise, a dois fatores fundamentais que caracterizam essa estratégia de atuação: o rebaixamento das condições de reprodução da força de trabalho, apoiando-se em mecanismos considerados não capitalistas como as cooperativas de trabalho21 e de outro lado, os incentivos fiscais e financeiros, como: a isenção dos impostos e o financiamento do capital fixo ou de giro, além de empréstimos automáticos para a exportação.

Assim, para Bernal (2004, p.61) fica evidente que na ausência das políticas

compensatórias para o Nordeste, o governo do Ceará elegeu a “guerra fiscal” como

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Esta forma de organizar o trabalho flexibilizou a forma de contratação, evitando um vínculo direto

entre a empresa e o empregado, onde a cooperativa era remunerada pela produção, substituindo os encargos sociais por uma alíquota de 15% do faturamento a título de despesas com o INSS.

estratégia de atração de capitais privados, sob duas formas: primeiro, oferecendo incentivos fiscais e mão-de-obra barata para localização de novas indústrias oriundas de velhas áreas industriais do Sul e Sudeste que sofreram um processo de desindustrialização22 e segundo, investindo fortemente em infraestrutura como contrapartida para atração de recursos privados na implantação de um vigoroso polo turístico em Fortaleza e em pontos estratégicos no litoral do Estado

Esta política industrial prevaleceu até 2002, tendo passado por mudanças pouco significativas em 2003 quando houve tendência ao desaparecimento de novos benefícios, com a perspectiva de aprovação da reforma tributária que, entre outros objetivos, propõe acabar com a “guerra fiscal”. Embora fosse utilizada pelos Estados menos desenvolvidos, face à inexistência de uma política de desenvolvimento regional mais efetiva, a guerra fiscal perdeu força como instrumento de redução das desigualdades regionais porque os Estados mais desenvolvidos também passaram a conceder benefícios. Assim, o governo federal começou a tratar a guerra fiscal como prática predatória para o país porque considera que ela tem levado a uma situação de anarquia tributária gerando insegurança para os investidores e prejudicando o crescimento do país como um todo.

Assim, Bernal esclarece que embora o Ceará despontasse como um dos mais dinâmicos Estados da região Nordeste, no período do “Governo das Mudanças”, tal dinamismo é verificado em períodos anteriores, onde se destaca o intervalo dos anos 1970-1985. Foi nesse período que os governos militares implantaram uma ampla infraestrutura para dar suporte à moderna industrialização, incentivada através do FINOR e do sistema 34/18 da SUDENE (BERNAL, 2004. p. 65).

Na tabela 2.1, abaixo, vemos o crescimento do PIB industrial do Ceará, nos anos 1970 – 1985, comparado ao do período posterior. Temos também o total do Estado comparado com o do Nordeste e o do Brasil. É claro que na década de 1970 vivíamos o contexto do

“milagre econômico” e no Nordeste, a fase de implantação das indústrias pelos

incentivos da SUDENE. No entanto, mesmo nos anos 1980 o crescimento é

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O conceito de desindustrialização é utilizado como a fragmentação de cadeias produtivas, isto é: no sentido de que diferentes plantas industriais podem ser deslocadas para lugares diferentes do território. Assim, não se trata do tipo de desindustrialização ocorrido nos EUA, por exemplo, nas cidades de Chicago, Detroit e Nova York, como resultado da reestruturação produtiva levada às últimas consequências, como a ruptura do modelo fordista (idem, p. 61).

significativo. Note que em 2000-2001 o crescimento do PIB industrial (-3,91%) é negativo e o total fica abaixo da média nacional, demonstrando uma tendência ao esgotamento do modelo adotado ao longo da década de 1990 (BERNAL, 2004, p.71).

O período que se segue após os limites temporais analisados na pesquisa de Bernal 23 é particularmente importante porque caracteriza o aprofundamento da efêmera estagnação econômica da economia estadual que começa entre 2000-2001, apresenta o seu pior índice em 2002 para, em seguida, ter uma discreta mudança a partir do ano seguinte, diferenciando-se do comportamento da economia no Brasil que se mantém baixa, mas não atinge níveis negativos.

Assim, o relatório da Conjuntura Econômica do Ceará no 1º trimestre de 2003, aponta no Gráfico 2.1, abaixo, que o ano de 2002 ostenta o menor índice na evolução do PIB no primeiro trimestre de 2002, ao mesmo tempo em que é possível verificar, no ano seguinte, uma discreta reversão da tendência, ainda com taxa de crescimento negativo no primeiro trimestre de 2003.

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O período de análise do PIB vai até 2001 e entre 1970-2003 (*) os valores apresentados na Tabela 1 são baseados em dados provisórios levantados pelo IPECE, mas que confirmam a tendência de crescimento que foi verificada nos anos seguintes.

TABELA 2.1

TAXA MÉDIA DE CRESCIMENTO ANUAL DO PIB CEARÁ E NORDESTE (%)

Períodos Agropecuária Indústria Serviços Total Total - NE Total BR

1970-1975 14,98 12,81 8,65 12,1 10,24 1,01 1975-1980 -1,03 17,06 13,03 9,61 7,24 0,76 1980-1985 7,92 12,62 7,65 9,02 4,36 -0,18 1985-1990 -0,29 5,76 3,57 3,84 2,62 2,11 1990-1995 5,52 4,59 2,87 3,70 2,25 2,79 1995-2000 -7,53 5,31 3,23 3,07 2,89 2,84 2000-2001 -13,99 -3,91 2,25 -1,08 0,95 1,91 1970-2001 2,42 9,13 6,30 6,57 4,76 1,56 1970-2003* 2,32 8,60 5,96 6,21 4,52 1,52

Fonte: SUDENE - Boletim Conjuntural (até 1984) - IBGE - Contas Regionais (BERNAL, 2004).

O que o Instituto de pesquisa argumenta como justificativa ao comportamento da queda no setor industrial é que o efeito deveu-se ao decréscimo verificado na construção civil com uma taxa de - 9,23%, influenciando o índice como um todo, tendo em vista que esse segmento representa 42% do total da indústria cearense. Os demais segmentos industriais registraram taxas positivas, embora ainda baixas, sendo o de transformação apenas 1,25%, o de extrativismo 3,13%. Apenas o de eletricidade, gás e água apresenta taxas superiores, na ordem de 13,73% (Gráfico 2.2).

Outo dado que demonstra uma visível instabilidade no comportamento da economia, nessa fase de transição, pode ser visto na Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) /IBGE. Nos meses que se seguem ao primeiro trimestre, a indústria de transformação cearense registrou um aumento mensal na produção física de 3,17%. No entanto, o indicador de

Gráfico 2.1

2.12.

Gráfico 2.2

abril/2003 sobre abril/2002, mostrou queda anual na produção industrial de -5,47%, superior à taxa de queda registrada para o Brasil, -4,2%.

Com esses resultados, a indústria de transformação cearense acumulou uma taxa anual negativa de –0,54%, (Gráfico 2.3) o que demonstra a tendência à desaceleração da atividade industrial entre 2002-2003 e o esgotamento do modelo de industrialização adotado. Isso acabou contribuindo com a perda da hegemonia do grupo político no poder, coincidindo também com as mudanças políticas no âmbito nacional.

O que é relevante esclarecer nessa trajetória de depressão e posterior recuperação da economia cearense é que a queda da atividade econômica nesse período de instabilidade vai influenciar o quadro político dominante ao ponto de desestabilizá-lo. A partir dos anos seguintes, sobretudo, em 2004 ela se adequa ao novo quadro político nacional e segue o ciclo de crescimento dos anos posteriores acompanhando o crescimento da economia brasileira como um todo: como podemos ver no gráfico 2.4, abaixo.

Gráfico 2.3 - Produção da indústria de transformação - Ceará - Abril/2003

Nosso objetivo nesse segmento, portanto, foi destacar os aspectos políticos e econômicos relevantes que foram caracterizados por permanências e rupturas no processo de reestruturação produtiva no Ceará contemporâneo. Assim foi possível reconhecer que as bases que fundamentaram tal reestruturação foram, na verdade, iniciadas ainda nos anos 1960 com as políticas desenvolvimentistas que se estenderam até meados dos anos 1980. Por outro lado, o novo governo propõe uma primeira ruptura estrutural importante: a mudança do protecionista processo de substituição de importações fundamentado no planejamento governamental, para a estratégia de inserção da economia do Estado no circuito globalizado da economia, expondo-se às pressões do jogo de forças do livre mercado.

Os fundamentos que explicam as bases dessa reestruturação, portanto, combinam elementos de antigas permanências e novas rupturas. As irreversíveis transformações nas práticas políticas e econômicas, como também nos arrojados projetos estruturantes de desenvolvimento conviveram com a antiga opção de trabalhar com uma matriz produtiva dependente de baixos salários, convertendo-se num perverso modelo concentrador de renda. Assim, enquanto aumentava-se a taxa de crescimento do PIB, aumentava também os indicadores de pobreza.

Prova disso são os indicadores revelados pelo (IBGE-Metrodata, 2000) para a RM de Fortaleza, onde predomina “a faixa de 47% a 65% das famílias com renda per capita até ½ salário mínimo” (CUNHA & PEDREIRA, 2008, p.158) 24, denotando a permanência de um elevado nível de pobreza no território metropolitano. Entre outros fatores, os baixos indicadores sociais também acabaram arranhando a imagem do governo e da expectativa positiva que se tinha sobre os resultados socioeconômicos do novo modelo de desenvolvimento cearense.

2.4.4.3 Aspectos socioespaciais da reestruturação produtiva na RM de Fortaleza

Benzer Belgeler