2. MÜDAHALE EDİLMESİ MÜMKÜN OLMAYAN DURUMLAR
2.2. Müdahalesi Mümkün Olmayan Diğer Durumlar
2.2.3. Genel Grev Ve Lokavt Olması Durumunda Yapılması Gerekenler
Pelo menos uma década antes da Lei de Cotas de 2012, já existiam no Brasil outras leis que instituíam cotas para outros segmentos, como mulheres e pessoas com deficiência (JACCOUD; BEGHIN, 2002). O primeiro projeto de lei que tratou sobre cotas étnico-raciais em instituições de ensino foi o PL nº 14/1995, da então senadora Benedita da Silva (PT/RJ). Passou quatro anos tramitando do Senado antes de ser arquivado. A lei que conhecemos hoje vem mesmo do PL nº 73/1999, que versava sobre o ingresso nas universidades e foi apresentado na Câmara
em fevereiro de 1999 pela então deputada Nice Lobão (PFL-MA). Entre audiências públicas, discussões em comissões, e, principalmente, longos períodos parado, o PL demorou nove anos até seguir para o Senado em 2008, como PL nº 180/2008. Na segunda casa legislativa, o caminho foi semelhante, porém, mais curto: quatro anos23. Ao longo desse tempo no Congresso, o PL recebeu emendas e foi agrupado a outros projetos de lei – dos quais falarei mais adiante – específicos sobre reservas de vagas para estudantes de escolas pública, negros e indígenas. Em agosto de 2012, foi aprovado em plenário e seguiu para sanção da então presidenta Dilma Rousseff.
Em 2013, sua implementação, regulamentada pelo Decreto nº 7.824/2012 e instruída pela Portaria Normativa nº 18/2012, começou em dezenas de instituições federais de ensino. A Lei determina a reserva de 50% das vagas de universidades federais e institutos federais de educação, ciência e tecnologia para estudantes que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Esses 50% são ainda subdivididos: metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio, per capita, e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário mínimo e meio. Nessas duas metades, deve ser considerada a porcentagem de pretos, pardos e indígenas em cada estado de acordo com o último censo demográfico do IBGE24. Todas as instituições federais tinham até 2016 para atingir esse percentual de 50%.
Obviamente, todo esse processo nas casas legislativas e no Executivo Federal não aconteceu isolado do debate sobre cotas raciais na sociedade brasileira. Alguns acontecimentos merecem destaque e refletiram, de algum modo, nos períodos de mais ou menos discussão no Congresso Nacional25. Como lembra Heringer (2006), as cotas na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, embora só fossem aprovadas naquela instituição em 2003, começaram a ser pensadas ainda em 1999. Essa experiência da UnB acendeu um grande interesse da imprensa não somente porque foi pioneira, mas, sobretudo, porque a universidade instalou uma comissão para verificar o pertencimento racial dos candidatos (CAMPOS, 2013, p. 113). Também a partir de 2003, houve a implementação de cotas nas universidades estaduais do Rio de Janeiro através de lei estadual. Essa lei provocou uma mudança no debate: a política de cotas “deixava de ser uma medida abstrata, defendida pelo governo federal de forma vacilante, para se focar numa política concreta” (CAMPOS, 2013, p. 137). Em 2004, o Governo Federal decide enviar ao Congresso o PL
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A tramitação do PL na Câmara e no Senado pode ser vista em detalhes nos links:
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=15013 e
http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=88409.
24
http://portal.mec.gov.br/cotas/perguntas-frequentes.html
25
Luiz Campos (2013) traz, a partir da análise de publicações da imprensa, um estudo profundo sobre as fases do debate acerca das cotas. Sobre isso, ver também Botelho et al, 2011.
nº 3627/2004, que previa a reserva de vagas para estudantes de egressos de escolas públicas, em especial negros e indígenas, nas instituições federais de ensino. Com esse PL, logo apensado ao PL nº 73/1999, o Executivo Federal queria expandir e legitimar as iniciativas de várias universidades pelo País (HERINGER, 2006, p. 24-25). Nesse meio tempo, houve a Conferência de Durban, em 2001, onde o relatório do governo brasileiro também previa a adoção de cotas para estudantes negros no ensino superior.
Esses fatores fizeram o debate crescer pelo País. Em 2004, eram 12 universidades públicas, federais e não federais, com iniciativas de cotas (HERINGER, 2006, p. 20-21). Quando a Lei foi aprovada, em 2012, já eram 70 universidades26 implementando ações afirmativas – entre cotas, cotas e acréscimo de vagas, e bônus (FERES JÚNIOR et al, 2013, 2014). Em 2004, o Ministério da Educação implementou o Programa Universidade para Todos (PROUNI), que também reserva vagas para negros, indígenas e pessoas com deficiência. Entre os anos de 2005 e 2007, foram 414 mil bolsas em universidades privadas só para estudantes negros (JACCOUD, 2008, p. 146).
Nos anos seguintes, o PL nº 73/1999, juntamente com o Estatuto da Igualdade Racial (PL nº 3.198/2000) tramitaram de forma mais rápida, o que causou a elaboração e a entrega de dois manifestos aos presidentes da Câmara e do Senado, um manifesto a favor e outro contrário a esses projetos de lei. Campos (2013, p. 19) explica que os manifestos corroboraram com uma ideia muito difundida na imprensa: havia pouco consenso acerca das cotas raciais. Segundo o autor, o resultado foi que o projeto de lei, que estava prestes a ir direto para a sanção presidencial, teve que entrar na fila de pautas a irem ao plenário. O Governo Federal também começou a reavaliar o projeto. O debate ampliava-se e envolvia uma gama enorme de atores contra27 e a favor: intelectuais de todas as áreas de pesquisa e estudo, formadores de opinião, autoridades públicas, políticos, instituições, e movimentos sociais (SANTOS, 2007). Um papel importante foi exercido pela imprensa, que não apenas convidou fontes para falar sobre o assunto, mas também se posicionou, emergindo como um espaço de formulação e fixação de sentidos e como local de disputa do consenso em torno do assunto (MARTINS, 2005, p. 204). O tratamento dado por ela ao tema contribuiu em muitos momentos para constituir a imprensa como principal esfera de debate público da questão, em detrimento de outros espaços (CAMPOS, 2013, p. 139).
Outro momento importante foi o período de judicialização da discussão, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) “passa a reivindicar o status de esfera pública competente para
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https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/431773/complemento_1.htm?sequence=2
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Atores, posições e argumentos contrários às cotas podem ser melhor buscados em Silvério (2005), Martins (2005), Santos (2007) e Campos (2013).
deliberar sobre a questão” (CAMPOS, 2013, p. 135). As políticas de cotas sempre foram alvo de ações na justiça. As mais importantes foram a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 186, impetrada em 2009 pelo Partido Democratas (DEM), questionando a política de cotas da Universidade de Brasília (UnB); a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3330, ajuizada pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenem), o Democratas (DEM) e a Federação Nacional dos Auditores Fiscais da Previdência Social (Fenafisp), que desde 2004 contestava o Programa Universidade para Todos (ProUni); e o Recurso Extraordinário (RE) 597285 feito em 2009 pelo estudante Giovane Pasqualito Fialho, que não foi aprovado no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Foram anos de tramitação no Judiciário. O STF realizou uma série de audiências públicas, da qual participaram diversos atores. Nesse período, o número de universidades com cotas aumentava e a imprensa diminuía o foco no tema. Os julgamentos só aconteceram em abril e maio de 2012 com decisões favoráveis pela constitucionalidade das ações das UnB e do Prouni e com a negação do provimento ao RE 597285. Isso apressou a discussão no Congresso. Em quase três meses, o PL foi discutido e aprovado no Senado e sancionado pela presidenta Dilma Rousseff.
Esses momentos, que serão retomados nas seções e capítulos seguintes, são marcas de uma discussão que, ao longo das últimas décadas, tornou-se urgente: as “diferentes condições de educação oferecidas a diferentes segmentos da população; de privilégios que têm se restringido a alguns grupos; do papel da educação superior, de a quem e a que ela serve; dos critérios para ingresso na universidade” (SILVÉRIO, 2005, p. 146). Temas que só viraram leis e políticas públicas porque há tempos são pauta de luta dos movimentos sociais negros no Brasil, que, ao levantarem questões como ações afirmativas e cotas, demonstraram para a sociedade brasileira que é possível redistribuir políticas públicas de boa qualidade e questionar a ideologia racial brasileira (SANTOS, 2007, p. x). Esse percurso é o que tento apresentar a seguir.