Visto que as modalidades foram objeto de estudo privilegiado na Lógica Formal, julgamos bastante oportuno retomar alguns conhecimentos sobre os modelos idealizados pelos lógicos, ainda que as pesquisas linguísticas sobre as modalidades se desvinculem dos modelos lógicos devido ao ―caráter não-lógico, não-ordenado das línguas naturais‖, conforme nos lembra Neves (1996, p.163). Segundo expressa Cervoni (1989, p.61), ―o campo da modalidade linguística será necessariamente diferente do campo da modalidade lógica, apesar de as relações existentes; afinal, sabemos que inspirar-se em não poderia significar fazer coincidir.‖
A fim de que possamos compreender a terminologia para os subtipos modais constante em vários estudos da categoria modalidade no âmbito das línguas naturais (modalidade epistêmica e modalidade deôntica), bem como a discussão em torno da subjetividade como marca da categoria no âmbito da Linguística, faz-se mister breve incursão a noções oriundas dos modelos idealizados pelos lógicos. Noções como a de necessidade e a
de possibilidade, bem como a de eixos conceptuais (o da existência, o do conhecimento e o da conduta) nos serão, portanto, relevantes.
As noções de necessidade e possibilidade emanam da concepção aristotélica segundo a qual os enunciados de uma ciência podem ser necessariamente verdadeiros (ou seja, verdadeiros em todos os mundos possíveis) ou possivelmente verdadeiros (ou seja, verdadeiro quanto ao mundo descrito pelo enunciado). A partir dessa relativização do sentido da simples verdade, foram discriminadas, a partir do quadrado lógico, as primeiras modalidades. Na sequência, apresentamos o quadrado lógico, ou quadrado dos opostos:
Figura 01 – Quadrado dos opostos
A tábua de oposições, também chamado quadrado lógico ou quadrado dos opostos, tem origem obscura. Especula-se que o filósofo romano Boécio (Roma, c.480 – Pávia, 524 ou 525) deu-lhe a forma final. Trata-se de um artifício didático que indica as relações lógicas fundamentais. Assim, temos o seguinte esquema de premissas: A - universal afirmativa (Todo homem é mortal); E - universal negativa (Nenhum homem é mortal); I - particular afirmativa (Algum homem é mortal); O - particular negativa (Algum homem não é mortal); Exemplo da aplicação da tábua de oposição: Todo ser vivo é mortal /Contrária: nenhum ser vivo é mortal / Sub-contrária: Algum ser vivo é mortal / Contraditória: algum ser vivo não é mortal. As leis de oposição regem as relações entre as premissas. Contraditoriedade: se um modo é verdadeiro, o outro é falso. Contrariedade: ocorre apenas nos modos A e E. As premissas contrárias entre si não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, mas podem ser falsas ao mesmo tempo; pois, se assim forem, a particular afirmativa será falsa por ser a contraditória da universal negativa e verdadeira, por ser a conversão da universal afirmativa. Subcontrariedade: as premissas não podem ser falsas ao mesmo tempo, mas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, pois se assim forem, as contrárias de que elas são contraditórias serão simultaneamente verdadeiras, o que é um absurdo.
Na continuidade, apresentamos a aplicação deste quadrado à compreensão das primeiras modalidades, chamadas aléticas ou aristotélicas, modalidades essas que se referem ao eixo da existência e dizem respeito à determinação do valor de verdade dos enunciados.
Necessário Impossível
Possível Contingente
Figura 02 – Quadrado lógico aplicado à depreensão de modalidades aléticas
Da leitura de Lyons (1977), compreendemos que a lógica modal tradicional dizia respeito, quase exclusivamente, ao que, nos nossos dias, refere-se à modalidade alética, isto é, às proposições necessariamente ou possivelmente verdadeiras. Proposições necessariamente verdadeiras (ou analíticas) são aquelas cuja verdade não é uma simples
questão de como o mundo parece ser ou estar em algum tempo particular, pois são verdadeiras em todos os mundos possíveis. A veracidade de tais é estabelecida, ou garantida, pelo sentido das sentenças que as expressam, e nosso conhecimento, ou crença em sua veracidade é não-empírico, no sentido de que não está fundamentada na empiria, e não pode ser modificada pela experiência. Por sua vez, proposições possivelmente verdadeiras (ou sintéticas) são aquelas cuja verdade é condicionada pelo modo como o mundo parece ser ou estar em algum tempo particular. Asseverar que uma proposição é possivelmente verdadeira implica aceitar que, embora ela seja verdade no universo, ou, pelo menos, no estado de mundo em que ela é descrita, existem outros mundos possíveis, ou estados de mundos, nos quais ela é, ou pode ser, falsa.
O termo alética, portanto, é derivado da palavra grega que significa verdade. O que é tradicionalmente descrito como verdades necessárias pode agora referir-se às proposições aleticamente necessárias. Todas as proposições aleticamente necessárias são aleticamente possíveis, mas não inversamente. Um termo tradicional alternativo para aleticamente necessário é apodêitico 38.
38 Acerca do termo apodêitico, Bruno Latour (2001), ao discutir em que os retóricos se opõem aos peritos, nos
Nos dias atuais, dois outros tipos de necessidade e possibilidade são reconhecidos e formalizados, de vários modos, pelos lógicos: a necessidade e a possibilidade
epistêmica (eixo conceptual do conhecimento) e a necessidade e a possibilidade deôntica (eixo conceptual da conduta). Segundo Lyons, a necessidade epistêmica está presente em
expressões como ―Eu (com confiança) infiro que Alfredo é não-casado‖ 39
e a necessidade
deôntica em expressões como ―Alfredo é obrigado a ser não-casado‖.40
A necessidade epistêmica é intuitivamente mais próxima da necessidade alética que a deôntica.
Vários critérios têm sido usados por linguistas para distinguir a necessidade epistêmica da deôntica. Kurylowicz (1964 apud LYONS, 1977, p.792), por exemplo, diria que a expressão ―Eu (com confiança) infiro que Alfredo é não-casado‖ envolve subjetividade (isto é, a expressão da atitude do falante), enquanto a expressão ―Alfredo é obrigado a ser não-casado‖ não envolve. Halliday (1970a apud LYONS, 1977, p.792) diz que essa segunda expressão envolve o que ele chama de modulação, não de modalidade, e ele também assume que a primeira expressão é mais subjetiva do que a segunda.
No entanto, ressalta Lyons, é preciso destacar que os linguistas e lógicos têm uma visão muito diferente da modalidade. Assim, ―Eu (com confiança) infiro que Alfredo é não- casado‖ é uma glosa linguística, não lógica. Os lógicos provavelmente optariam por algo como ―De acordo com o que é sabido, é necessariamente o caso de Alfredo ser não-casado‖. 41
Observa-se que, nessa construção, não há referência ao falante ou à realidade das inferências traçadas. Há referência apenas à evidência que determina a necessidade epistêmica da proposição em questão, e essa evidência seria tratada como algo objetivo. A subjetividade da modalidade epistêmica, a qual tem sido adotada por certos linguistas, incluindo Hengeveld e Mackenzie, como sendo um dos traços que distingue mais acentuadamente a modalidade epistêmica da deôntica, não é representada nos sistemas oficiais da modalidade lógica epistêmica.
Para Lyons, ao traçarmos a distinção entre a visão lógica e a visão linguística no estudo das modalidades, observamos que, no âmbito dos estudos linguísticos, há modalidade
recursos e floreios de linguagem, enquanto estes defendem o conhecimento apodêitico, ou seja, a demonstração matemática, supostamente inabalável, já que racional e universal. O conhecimento apodêitico é a base do que chamamos de conhecimento científico ocidental.
39―I (confidently) infer that Alfred is unmarried‖ (LYONS, 1977, p. 791) 40―Alfred is obliged to be unmarried‖ (LYONS, 1977, p. 791)
epistêmica subjetiva e objetiva; o que também ocorre com a deôntica. Assim, assevera o estudioso que não apenas a expressão ―Alfredo é obrigado a ser não-casado‖ é uma interpretação deôntica de ―Alfredo deve ser não-casado‖, como também o é a sentença ―Eu (por essa declaração) obrigo Alfredo a ser não-casado.‖ 42 Nesse caso, tem-se um enunciado performativo. Para Lyons, o fato de a modalidade epistêmica e a deôntica, ambas, poderem ser interpretadas tanto como subjetivas como objetivas significa que a explicação de vários linguistas acerca da distinção entre modalidade epistêmica e deôntica não pode estar correta. Nem mesmo pode ser proposta uma análise em termos da diferença entre uso intransitivo (modalidade epistêmica) e transitivo (modalidade deôntica) dos verbos modais. Lyons questiona por que tem sido plausível a tantos linguistas pensar a modalidade epistêmica como sendo mais subjetiva que a deôntica.43
Assim, enquanto a modalidade alética relaciona-se ao equacionamento do valor de verdade das proposições, a modalidade epistêmica concerne à necessidade ou possibilidade da verdade da proposição, envolvendo, portanto, o conhecimento e a crença, e a modalidade deôntica, por seu turno, diz respeito à necessidade e possibilidade de atos executados por agentes, estando associada às funções sociais de obrigação e permissão. Para efeito de síntese, correlacionamos os eixos conceptuais às respectivas modalidades no quadro 03.
DA EXISTÊNCIA Modalidade alética DO CONHECIMENTO Modalidade epistêmica DA CONDUTA Modalidade deôntica Determinação do valor de
verdade dos enunciados.
Possibilidade ou necessidade da verdade da
proposição
Possibilidade ou necessidade
de atos executados por agentes moralmente responsáveis.
Quadro 03 – Eixos conceptuais e respectivas modalidades
Praticamente todos os trabalhos cujo objetivo é o estudo quer da modalização lógica quer da modalização linguística partem da classificação dessas três modalidades. E a
42―I (hereby) obligue Alfred to be unmarried‖ (LYONS, 1977, p. 793).
43 Esse ponto é-nos especialmente caro. No capítulo IV, discutiremos a questão da subjetividade na
crítica à lógica modal, em decorrência de os parâmetros da lógica, quando aplicados ao estudo de línguas naturais, muitas vezes, mostrarem-se incompatíveis com tal estudo, contribui para o desenvolvimento das pesquisas sobre a categoria modalidade.
Embora cientes de ―que é muito improvável que um conteúdo asseverado num ato de fala seja portador de uma verdade não filtrada pelo conhecimento e pelo julgamento do falante‖, tal como nos lembra Neves (1996, p.171), isto é, seja absolutamente não- modalizado, analisamos, nesta pesquisa, apenas enunciados que apresentam um segmento modal. Se todo conteúdo asseverado passa pelo crivo do conhecimento e do julgamento do falante, a utilização dos segmentos modais dá-se em decorrência de propósitos comunicativos. Reconhecemos, assim, a expressão da atitude do falante como essencial para a caracterização das modalidades linguísticas e adotamos o entendimento expresso por Coracini (1991, p.113), de que modalidade é ―a expressão da subjetividade de um enunciador que assume com maior ou menor força o que enuncia, ora comprometendo-se, ora afastando-se, seguindo normas determinadas pela comunidade em que se insere.‖
Destacamos a complexidade da classificação dos subtipos modais, em línguas naturais, em decorrência de essa categoria constituir um campo cuja precisão de limites semânticos é controversa. Vários estudiosos da categoria no âmbito da Linguística registram o quão complexa é a classificação dos subtipos modais. Entre esses estudiosos, destacamos Lyons (1977), Palmer (1986), Cervoni (1989), Dall‘Áglio-Hattnher (1985), entre outros. Palmer (1986, p. 1-3), por exemplo, menciona que, embora a modalidade seja uma categoria passível de organização assim como o são as categorias de aspecto, tempo, número e gênero, a caracterização da função semântica da modalidade é menos óbvia do que a caracterização semântica das citadas categorias. Explica o autor que a categoria que expressa o passado, o presente e o futuro pode ser definida como relacionada ao tempo; a que expressa o número, por sua vez, como relacionada à enumeração; e que, embora existam alguns problemas em precisar a definição de aspecto e gênero, na prática, não há dificuldade em decidir o que deve ser tratado como exemplos de tais categorias. A noção de modalidade, no entanto, diz Palmer, é muito mais vaga e deixa em aberto um número de definições possíveis. O estudioso ainda aponta como obstáculo ao estudo da modalidade a inexistência de uma característica prototípica, claramente básica, capaz de identificar a categoria apesar da grande variação de significado entre as línguas.
Apesar das controversas em torno dos limites semânticos da categoria modalidade, os estudiosos no âmbito linguístico parecem convergir no que diz respeito à aceitação de dois principais tipos: epistêmica e deôntica. Mesmo em trabalhos nos quais não
encontramos exatamente a terminologia que acaba de ser citada, defrontamo-nos com correspondências ao que a maioria dos autores entende por modalidades epistêmica e deôntica. O motivo da não inclusão da modalidade alética entre as comumente consideradas como os principais tipos de modalidade em estudos linguísticos dá-se, porque, como citamos, a modalidade alética relaciona-se ao equacionamento do valor de verdade das proposições, daí seu estudo ser de valor periférico em investigações das modalidades em línguas naturais. Acerca dessa questão, Neves (1996, p.172) se expressa nas seguintes palavras:
Uma investigação sobre o valor puramente alético de uma proposição a retiraria do contexto de enunciação para centrar-se na organização lógica interna de seus termos e na relação que ela mantém com os mundos possíveis, nos quais seria, ou não, verdadeira [...] Nessa linha de reflexão se entende por que a modalização alética não constitui matéria privilegiada de investigação quando se trata de ocorrências reais de uma língua. Nesse sentido, ela se opõe à modalização deôntica e epistêmica, que se prestam bem a uma investigação linguística dos enunciados.
3.3 A categoria modalidade na seara Linguística – propostas tipológicas de Lyons e