GAZETELER ERDOĞA
4. GENEL DEĞERLENDİRME VE SONUÇ
João Calvino nasceu no ano de 1509, em Noyon, região da Picardia, França. O nome Calvino foi adotado quando se tornou teólogo. Deriva do nome de seu pai, funileiro de profissão, Gérald Chauvin, ou Cauvin, que remete ao latim Calvinus. Recebeu da mãe Jeanne Le Franc e depois da madrasta uma educação baseada na piedade austera, e no isolamento. Inclinou-se para os estudos das Ciências Humanas e recebeu lições de um aristocrata que fora hóspede de seu pai, sendo encaminhado mais tarde para a Universidade de Paris. Posteriormente estudou Direito na Universidade de Orleans, como alternativa para o declínio das funções eclesiásticas. Nesta ocasião, Calvino aprendeu grego com Melchior Wolmar, helenista alemão.
Retornado à Paris, Calvino publicou um livro a favor de Sêneca, a fim de demonstrar sua simpatia com os protestantes. Tornou-se pregador tentando auxiliar aos protestantes perseguidos, proporcionando certa popularidade na França. Posteriormente enfrentou perseguições nesse país, devido à intolerância com os protestantes.
Em 1536 na Suíça encontra-se com Farel que o convida a permanecer nesse local. Eleito pastor e doutor da Igreja de Genebra, na qual apresenta confissão pública de fé, integra- se definitivamente ao movimento Protestante. Na sua declaração, os pontos principais são a Bíblia tomada como única fonte da verdade; a natureza do homem considerada como perversa e incapaz do bem; o homem como possível tocado pela graça de Deus; reconhecimento das autoridades civis constituídas como vindas de Deus. Firma a doutrina da predestinação, na qual Deus já teria escolhido seus eleitos e as obras humanas não poderiam alterar esse roteiro. Nega a validade do celibato, da confissão da missa e da autoridade do Papa. Intencionou instalar em Genebra uma disciplina austera, presentificada na forma de culto e na aceitação das propostas acima como dogmas. Enfrentou a oposição do partido da cidade composto pelos “libertins” e acabou sendo expulso de Genebra. Retorna à Suíça anos depois, quando é eleito o Papa de Genebra. Morre vítima de asma e dispnéia em 1564.
Calvino, um dos principais exegetas da Reforma, fez comentários sobre a Epistola de Paulo aos Romanos, publicados em março de 1540, acreditando que esses escritos eram porta aberta para a compreensão das Escrituras. Postulou que as Palavras de Deus devem ser
entendidas a partir de Toda Palavra de Deus. Nesse sentido, o exegeta busca apoiar-se no que o autor do texto sagrado quis dizer e qual o seu propósito. Calvino afirma em As Institutas III (1985-1989) que as Escrituras são a “Escola do Espírito Santo”. O leitor deve ater-se ao que ela revela, mantendo-se fiel aos seus limites na compreensão e no ensinamento, ou testemunho. O Livro dos Salmos (1999) traz o seguinte comentário:
A função peculiar do Espírito Santo consiste em gravar a Lei de Deus em nossos corações. (...) O ensino interno e eficaz do Espírito é um tesouro que lhes pertence de forma peculiar (...) A voz de Deus, aliás, ressoa através do mundo inteiro; mas ela só penetra o coração dos santos, em favor de quem a salvação está ordenada. (Calvino, 1999, p.228-229).
É notável que em muitas passagens de suas obras Calvino clarifica seu ponto de vista que as Escrituras são a escola do Espírito Santo, bem como a Escola de Cristo (Efésios, 1998). O Espírito é o mestre, o mestre interior (As Institutas III, 1985-1989). Assim o primeiro ponto que deve ser notado em relação uma concepção de misticismo em Calvino pode ser encontrado na relevância que é dada função e ao papel do Espírito de Deus. A compreensão das escrituras, seu ensinamento emanam do único interprete capaz de torná-la próxima e íntima em sua mensagem para o leitor: o Espírito de Deus. Assim é a comunicação entre mistério e homem que se dá mediante o conhecimento do sentido da Palavra. O revelar-se da palavra torna-a sagrada, quando tal processo se dá pela relação que emana com Deus de modo direto e confiável. Com essa concepção, Calvino dedicou-se a exegese ampla do texto sagrado, buscando com o tempo tornar sua teologia acessível, incluindo as crianças, conforme observa Lindsay (1985). Para tanto, Calvino fez traduções para o latim visando integrar as diversas igrejas e criou formas pedagógicas que promoviam a compreensão através de perguntas e respostas. Essa postura indicava a importância da Palavra como meio de comunicação entre homem e divindade, promovendo uma espécie de misticismo letrado, e ao mesmo tempo indicando que essa relação era o ponto central e inicial da atitude humana para com o divino. A leitura (e o conhecimento) da Bíblia passa a ser um traço primordial que marca a identidade protestante ao ver de Calvino.
O segundo ponto a ser demarcado na visão de Calvino, no que tange ao misticismo é sua perspectiva de que foi à Igreja que Deus confiou o cuidado com seus ensinamentos e a
orientação às práticas que se desdobravam desse conhecimento. Aos pastores45 cabe zelar pela relíquia da preservação da Palavra sobre as quais tem responsabilidade. Visto que se trata do sacerdócio universal dos crentes, então de certo modo pode-se entender que a autoridade sobre as escrituras emana não só do especialista, mas de todo aquele cuja compreensão basear-se no ensinamento de Espírito de Deus. A pregação é instrumento central da transmissão da Palavra, ocupando parte das preocupações e recomendações de Calvino. Tal ponto de vista esta de acordo com a idéia de edificação da Igreja. Porém, parte dessa igreja será visível, parte dela invisível, na medida em que surgem recomendações para práticas não só coletivas, mas também solitárias, como a oração. Esse aspecto pode ser observado em sua obra O Livro da Oração (2003), no qual Calvino mostra não só sua concepção da prática da oração, como enuncia uma série de regras para o fiel atinja sua finalidade, apontando inclusive as modalidades inadequadas46 de orar, como mostra essa citação:
Esta, na verdade, é aquela filosofia secreta e oculta que ao pode ser apreendida por silogismos; uma filosofia entendida completamente por aqueles cujos olhos Deus tem de tal forma aberto para que vejam a luz em sua luz. (...)
Primeiramente, para eu nosso coração possa sempre estar inflamado com um contínuo e ardente desejo de buscá-lo, amá-lo e servi-lo enquanto nos acostumamos a recorrer somente a ele, como uma âncora sagrada em cada necessidade. (...) Isso nós realizaremos ao admitirmos à mente se deixando de lado os pensamentos carnais e os cuidados que podem interferir com a
contemplação pura e direta de Deus e isto não seja apenas em relação á oração, mas também te onde possível, nasça e erga-se acima de si mesmo.(...) Deus nos concede a liderança do Espírito em nossas orações para ditar aquilo que é certo e regular nossos sentimentos (...) para que enquanto a inspiração do Espírito é efetiva para a formação da oração, de nenhum modo impede ou retarda nosso próprio empenho; visto que nesta questão Deus se agrada de provar quão eficientemente a fé influencia nossos corações (...) a oração propriamente não é outra coisa que este afeto interno do coração que se manifesta diante de Deus que esquadrinha os corações. (Calvino, 2003, p. 14 e ss.).
A visão Calvinista da oração aponta para as condições da existência humana, permeadas pelo sofrimento, o que conduziria o fiel a fazer petições e pedidos a divindade para
45 Em sua obra As Pastorais (1998) Calvino orienta os pastores sobre a importância de suas atividades de
pregação, como modalidade de transmissão e difusão da Sagrada Escritura, através do qual a Igreja se mantém fiel à verdade que emana de Deus.
46 Referindo-se aos aspectos subjetivos da oração, Calvino (2003) mostra que é necessário que o fiel proceda
com dois afetos e que os mantenha durante essa prática: gemer pelos males que sofre em seu presente e tema pelos novos. Deus responderia ao fiel de acordo com sua fé, não devendo se pedido mais do que Deus permite, para não ofender a majestade divina. Assim, Calvino ressalta a importância da fé, diante dos sofrimentos humanos, fazendo menção ao parentesco que existe entre a oração e a ação de graças, dizendo que se pode compreendê-las com o mesmo nome. Afirma que Cristo querendo estabelecer uma lei perfeita de oração, mandou que o fiel entrasse em seu aposento, fechasse a porta e orasse secretamente ao Pai, para que esse que também vê em secreto, o escutasse e recompensasse.
que se minimizasse ou alterasse essas situações. Calvino parecia ser sensível às situações de seu contexto sócio-cultural, uma vez que dá relevância a esses aspectos da oração. Não exclui a ação da graças e o louvor da oração, mas o foco dessa prática, parece ser a esperança de mudança da condição do fiel, baseada na relação de confiança de que alcançaria um futuro melhor. A emoção na oração é uma referência constante, sendo que o lócus para seu aparecimento e reconhecimento parece ser a subjetividade do fiel. Calvino também faz referência a orações feitas em grupos como a família e a igreja, porém alerta o fiel para que a reverência e o respeito sejam mantidos, parecendo referir-se a uma certa sobriedade e a limites comportamentais. Portanto, a emoção religiosa para Calvino permanece como um elemento central na relação do fiel com Deus, para ser manifesta ou experimentada apenas na intimidade, com a finalidade de resguardo da igr eja ou do próprio fiel, separando assim o sagrado do profano, constituindo-se como uma espécie de linha demarcatória de um ritual. A concepção Calvinista da oração remete o fiel a um tipo de prática religiosa caracterizada pela individualidade, intimidade, dependência e afirmação da relação direta com o sagrado, firmando um dos elementos de identidade desse tipo de protestantismo. As influências dessas orientações Calvinistas sobre a oração podem ser observadas na publicação do jornal evangélico Puritano, datado de 25/12/1919:
“Quanto mais o crente depender de Deus, mais independente será ele dos homens; e quanto mais depender dos homens, mais independente será de Deus” . Reverendo A. C. Menezes de Lavras “ A Deus revelamos cousas que nem aos amigos mais íntimos poderíamos revelar” . Reverendo S.R. Gammon, em aula bíblica.
“ Comunicarmos-nos com Deus é comunica com a maior potencia que há no universo todo: que força então receberemos dessa potencia extraordinária” .
Quanto mais oramos, mais dominados ficamos pelo Espírito Santo, mais agarrados com Jesus, menos presos ao mundo.
As orações que saem do fundo da alma expressam o estado espiritual ou mural em que nos achamos
A oração é a alma do Evangelho: a pessoa que não ora não é crente!
O crente que ora torna puro e santo o ambiente em que se acha, e faz em espiritual a aqueles com os quês convive ou fala.
Vale lembrar que as práticas religiosas medievais místicas ressaltavam as ordens divinas, mantendo com ela vínculos profundos especialmente através da oração e da contemplação. A dimensão histórica da realidade era pouco significativa, quando comparada a sua dimensão espiritual, observa Azzi (1987). A valorização da atividade espiritual trazia conseqüentemente uma visão de desvalorização das práticas terrenas associadas ao trabalho. Castigo e trabalho eram, pois associados aos escravos vistos como herdeiros da culpa original que tinha de ser expiada do mundo. Os cristãos são os escolhidos como guarda-fiel da boa
nova, a ser anunciada a todos e comprovada ou iluminada pelas Escrituras Sagradas. Essa atitude era divinizada e não vista como humana. O homem tinha que encontrar em sua privacidade e intimidade a maneira de salvar-se do dilúvio dos pecados mundanos e de não se perverter. A Reforma, pensada simultaneamente como abertura de um campo religioso que aproxima diretamente o homem do sagrado, ao mesmo tempo em que o lança como participante de uma comunidade (Igreja), promove uma tensão entre ação no mundo e a preservação do mundo celestial. Podem-se observar traços das recomendações de Calvino sobre a oração, prática que aponta e traduz essa tensão. As relações entre cultura e protestantismo, serão um lócus privilegiado para observação desses conflitos, como se verá a seguir.
O processo de secularização abre as portas para o conhecimento investigativo possibilitando ao leitor da Escritura uma interpretação sustentada nas descobertas científicas. Todavia as populações pobres não teriam acendido democraticamente a esse conhecimento, mesmo que tendo acesso ao texto bíblico diretamente, gerando uma multiplicidade de interpretações subjetivas, possivelmente sobre a influência sócio-cultural do meio no qual se encontravam. Calvino valoriza muita a simplicidade da interpretação do texto bíblico, uma vez que faz correlação entre esse traço e a luz do Espírito de Deus. Nesse sentido dá importância ao conhecimento científico, a retórica, a erudição, mas concede superioridade à ciência celestial, que emana de Cristo. “O conhecimento de todas as ciências não passa de fumaça quando separada da ciência celestial de Cristo” (1996 p.60). Assim, a interpretação bíblica, conforme a concepção de Calvino, já está orientada em uma visão mística, que parece ter aqui o sentido de organizar o mundo social, pautado nas diferenças sócio-econômicas. O misticismo parece ter um papel de acordo social entre o intelectualismo leigo e o intelectualismo letrado e institucionalizado, que deixa antever os processos sociais que os produziram e foram por eles produzidos, assunto que foi explorado por autores como Max Weber (2000).
A relativização dos valores culturais e religiosos realizada pelos processos de modernidade modifica as bases da coesão social, abrindo brechas para o pluralismo de idéias e posições. Surge então a necessidade de buscar outras formas de coesão social, que compensem o aumento de autonomia, para se manter minimamente a unidade de um grupo ou de um movimento religioso. No processo de institucionalização do Protestantismo, ao mesmo
tempo em que, se reconhece o valor da subjetividade da experiência religiosa, há que haver um ajuste no sistema cultural e simbólico, para que a integração do grupo não se desfaça. Um novo padrão ou traço cultural tende a funcionar como sistema unificador dentro da diversidade das construções de subjetiva dos fieis. Essas considerações fazem pensar na relação existente entre um sistema racional de pensamento religioso, como o proposto por Calvino, e a coexistência de elementos místicos no interior desse movimento. Aqui novamente encontramos traços desse processo no Brasil, conforme o jornal O Puritano (10/4/1919), que descreve discurso realizado no Seminário Theológico das Egrejas
Evangélicas Congregacionaes:
(...) Reverendo Álvaro Reis, pastor da Egreja Presbyteriana do Rio de Janeiro proferiu em vibrante discurso de animação aos novos estudantes, fazendo-lhes ver que, a bem da dignidade do sagrado mister que é dado ao homem exercer, eles se deviam aplicar ao estudo procurando adquirir a maior soma possível de conhecimento, por outro lado, sendo certo que o Brasil do futuro, pela sua extensão e pelos seus recursos naturaes, está fadado a ser uma das primeiras, sinão a primeira nação do mundo – a nos competia desenvolver o trabalho evangélico em nossa pátria, de modo a ganhar o Brasil para Cristo.
Dentro de um sistema de valores morais, e da organização da Igreja como proposta por Calvino, nota-se ambigüidade e contradição. Porém se mantém a configuração de certos elementos e linhas mestras que embasam a crença e a ação, de modo que não se imprensa de que qualquer líder ou grupo dirigente se torne de caráter último e absoluto. Harvey Cox (1968) afirma que na modernidade dois aspectos subsistem como unidade, apesar de sua aparente diferença. São esses traços: a necessidade de controle, através de elementos formais e técnicos que forneçam um padrão identificatório do grupo, e o pluralismo nas relações sociais, vistas como uma rede de possibilidades culturais. O grupo religioso é o horizonte de criação do homem anônimo, despersonalizado, inexpressivo e pertencente a um todo, maior que ele. Simultaneamente à impessoalidade da massa de crentes, ditada um sistema de valores, a proposta da subjetividade, se dá como o produto final do todo. Privado e público de distinguem na modernidade, constituindo-se em campos coexistentes, no homem urbano nascente. Encontraremos sinais dessa concepção calvinista de mundo conforme escrito por Harold Cook, no jornal Puritano (13/3/1919) intitulado Ofensiva Evangélica:
O terceiro ponto esforce-vos para imitá-lo em tudo. (João X. 27) trata da Organização da Egreja (...) Devemos distinguir entre os methodos e modos, e o poder divino com que procuramos por em pratica taes arranjos ou planos. Em outras palavras, entre a machina e o fogo que a machina precisa para ir adiante. A força é um assunto tão importante que merece ser tratado separadamente, e voltaremos ao assumpto oportunamente. Aqui trataremos da machina.
Melhorá-la, lubrificá-la, parafusar os parafusos soltos, etc. (...) Por exemplo, instalar uma biblioteca evangélica; pagar e melhorar as finanças da Egreja.
Calvino sustentou muitas posições e idéias nem sempre coerentes entre si: predestinação e esforço dos eleitos para purificar os pecadores. Defendeu a teocracia como a forma de governo por excelência. Rejeitou os sacramentos, conservando apenas a eucaristia e o batismo. Negou a existência do Purgatório e a idolatria, representada pela imagem dos santos. Chegou a estabelecer uma ordem eclesiástica, admitindo autoridades religiosas como os pastores, os doutores, os anciãos, e os diáconos. Instaurou por último uma instância de governo e poder da igreja composta por pastores e anciãos que deveriam se responsabilizar pela doutrinação e repreensão dos fiéis, administrar as posses da instituição, fazer censuras eclesiásticas e condenar os que merecessem através de excomunhão. Baseou-se em Lutero na visão da predestinação, em Zwinglio na interpretação da eucaristia e em Bucer nas noções contraditórias sobre a vontade divina como causa última de todos os acontecimentos e a necessidade de uma vida pura para testemunho da predestinação. De certo modo as idéias de Calvino correlaciona-se com o crescimento do capitalismo, uma vez que seus sistemas éticos estimulam as virtudes comerciais e econômicas, dando respeitabilidade ao lucro, considerado antes como pecado, conforme apontam os estudos de Weber (1981) na obra A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo. Sinais das posições Calvinistas podem ser
encontrados no jornal Expositor Christão de 15/11/1889, que foi uma pub licação quinzenal da Igreja Metodista Brasileira, com o artigo intitulado: O Evangelho faz progredir aos países:
Como já dissemos aonde quer que vá adiante o Evangelho, alli progredirão também os interesse materiais. Quanto mais evangelizada for uma nação, tanto mais próspera, mais diligente e mais dedicada será ela ao desenvolvimento de seus pais. Há anos que está sendo evangelizada a terra dos cafres, isto é, a Zululandia. Outrora os cafres eram selvagens. É fato que esses zulus hoje gastam quantias imensas nos Estados Unidos com a compra de arados modernos.
Há uma importante observação de Harvey Cox (1968) sobre o protesto persistente contra os ídolos e ícones na história da fé bíblica. Tal atitude, enfatizada pelos reformadores como Calvino e Lutero, contribui de modo relevante para um relativismo construtivo, no qual todas as criações culturais e sociais pelas quais as representações religiosas se imbricam são passageiras. Mesmo que se possa radicalmente pensar que essa postura se manifeste através das interpretações subjetivas das experiências religiosas, guarda uma relação estreita com as representações coletivas. Cox (1968) aponta que Émile Durkheim já havia postulado que um certo relativismo é uma conseqüência da fé no criador. A alteridade firmada da divindade,
alcançada de modo mais direto, retira de outro homem a hierarquia do ídolo e do ícone. Interessante observar como as idéias calvinistas chegavam ao Brasil, cerca de trezentos anos depois e através da imprensa iam norteando a conduta do fiel e delineando uma proposta de campo religioso, havendo mudanças no enfoque sobre certos aspectos das regras norteadoras do comportamento religioso, abaixo elencadas, provavelmente de acordo com a relação entre religião e cultura representando as práticas missionárias possíveis no contexto social. Essas regras já sinalizam as tentativas de institucionalização do Protestantismo brasileiro, ainda no final do século XIX, de acordo com o jornal Expositor Christão, datado de 15/08/1889: com o artigo intitulado: Sete Regras Christãs para Christãos Novos:
I) Nunca vos esqueçais de fazer oração diária em particular e quando orardes, lembrae- vos que Deus está presente, e ouve as vossas orações (He. XI: 6).
II) Nunca vos esqueçais de ler a Bíblia diariamente e quando a ledes lembrai-vos de que Deus está falando convosco e que deveis crer no que Elle diz, obedecendo -o.