As respostas deste tópico permitiram saber o número de apresentações de cada banda e os seus respectivos locais. As respostas foram variadas, porém trouxeram dados que carecem de esclarecimento, em face da falta de especificidade e direcionamento de algumas respostas.
As respostas apontam para duas direções. Os professores mencionam principalmente as apresentações nas suas bandas posteriores, ou seja, as bandas em que começaram a se profissionalizar formalmente, de fato. Percebi a tendência ao direcionamento dessas respostas por parte dos professores. Sobre essa tendência, Bourdieu (1996) afirma:
Sem dúvida, temos o direito de supor que a narrativa autobiográfica inspira-se sempre, ao menos em parte, na preocupação de atribuir sentido, de encontrar razão, de descobrir uma lógica ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, uma consistência e uma constância, de estabelecer ligações inteligíveis, como a do efeito com a causa eficiente, entre estados sucessivos, constituídos como etapas de um desenvolvimento necessário (é provável que esse ganho de coerência, e de necessidade esteja na base do interesse, variável conforme a posição e a trajetória, que os entrevistados atribuem à entrevista bibliográfica). Essa inclinação a se tornar ideólogo de sua própria vida, selecionando, em função de uma intenção global, certos acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles conexões que possam justificar sua existência e atribuir-lhes coerência, como aquelas que implicam na sua instituição como causa ou, com mais frequência, como fim, encontra a cumplicidade natural do biógrafo para quem tudo, a começar por suas disposições como profissional da interpretação, leva a aceitar essa criação artificial se sentido (Bourdieu, 1996, p. 75, 76).
Observei que, ao longo dos questionamentos, os professores sempre mantinham a tendência de quase nunca falar da banda em que começaram. O fato
de as bandas serem, por vezes, vítimas de preconceito nos meios formais de ensino, pode explicar esse tipo de reação aos questionamentos. Alves (1999) afirma:
O referido preconceito se revela através de fatos, que buscam respaldo e justificativas numa suposta ideia de má qualidade artística das bandas em geral. Estas são muitas vezes vistas como corporações de importância, riqueza e desempenho artístico diminuto face às orquestras sinfônicas, por exemplo, como se não existissem bandas com nível bastante elevado e orquestras de má qualidade (Alves, 1999, p. 02).
Os professores de flauta, fagote e saxofone mencionaram teatros em suas respostas. Pude concluir que eles não estão se referindo às suas bandas de origem, pois, no caso de bandas evangélicas, teatro não é um local usual para as apresentações. Entretanto o professor de saxofone relata aspectos interessantes quanto às funções da Banda da Igreja Assembleia de Deus, na qual ele iniciou seus estudos:
Como o município [de Santa Izabel] não tinha banda, a gente sempre foi requisitado. Era como se fosse banda do município. Precisava de uma banda num evento, chamava a Banda da Assembleia de Deus, e a gente ia. Seja no 7 de Setembro, 15 de Novembro. [...] Tocávamos hino do município, hino do Estado, Hino Nacional, qualquer outra coisa se tivesse que acompanhar escola (Entrevista realizada em março de 2012).
Mesmo em datas festivas e comemorativas, os teatros não são usados por bandas pertencentes a igrejas.
Ainda sobre o que foi mencionado pelo professor de saxofone, havia uma carga de apresentações muito grande na banda da igreja, pois as apresentações aconteciam, além dos domingos, às segundas feiras, perfazendo, assim, uma carga de apresentações de mais de cem por ano, levando em consideração que a banda se apresentava semanalmente.
O professor de flauta mencionou, ainda, casas de espetáculo, o que confirma o que observei anteriormente. Dentro do contexto da banda da igreja, ele menciona outros locais em que a banda se apresentava com certa frequência:
Como tinha muitos profissionais e semiprofissionais no grupo, tocávamos em casamentos, éramos um grupo bem requisitado pela qualidade, era uma qualidade reconhecida no meio. Então, casamentos, recepções, nós participávamos desse tipo de trabalho (Entrevista realizada em março de 2012).
No meu caso, a banda da igreja em que iniciei realizava apresentações quase que exclusivamente no ambiente da igreja, geralmente em cultos realizados sempre aos domingos, à noite. O que significa que a banda se apresentava, em média, cinquenta vezes por ano, regularmente. Entretanto havia outras atividades para as quais a banda sempre era convidada, como desfiles alusivos ao Dia da Bíblia, datas cívicas em que eram realizadas passeatas comemorativas e comemorações diversas da própria igreja, que demandavam atividades, às vezes, durante uma semana inteira. Os tipos de atividades da banda em igrejas podem variar muito. O professor de trompa descreve uma dessas atividades, que era realizada ao ar livre:
Nesse período, na igreja, a gente tinha os sábados de consagração, e aí, nós fazíamos o ensaio e pegávamos os músicos, e tocávamos nas feiras, no sábado pela manhã. Então, tinha uma parte de pregação, e tinha algum outro irmão responsável pela pregação, e a gente fazia essa parte musical no meio da feira mesmo. Uma bateria bem simples, uma caixa, um teclado, um baixo e alguns músicos da banda: dois trompetes, uma trompa, um trombone, um sax e aí nós tocávamos os hinos da Harpa, os corinhos e fazia a divulgação do trabalho de evangelização (Entrevista realizada em abril de 2012).
O professor de fagote mencionou, além do teatro, apresentações ao ar livre. Sua menção é uma referência que trata especificamente da Banda do Instituto Carlos Gomes, e não da sua banda de origem, já que a banda participava de apresentações no teatro e também mantinha uma agenda anual de concertos realizados ao ar livre.
Além do professor de clarinete, o professor de trompete também mencionou sua participação nas apresentações na banda da igreja nos cultos dominicais, totalizando também uma média de cinquenta apresentações anuais.
Concluo aqui que os professores de flauta, fagote, saxofone, trompa e trombone/tuba referem-se às apresentações das bandas para as quais eles
migraram após sua experiência com as bandas de origem e que suas bandas de origem provavelmente se apresentavam no contexto a que estavam atreladas.
Um aspecto que podemos notar, observando as respostas e analisando o contexto das bandas de música no Estado do Pará, é o vasto campo de atuação das bandas, o que, em grande medida, determina o seu repertório e toda a sua prática. As bandas do interior do Pará têm variadas atividades, entre as quais podemos destacar a atuação em desfiles escolares, procissões dedicadas a santos da igreja católica, as quais acontecem invariavelmente em quase todas as cidades do interior e na capital, festas de aniversário das cidades, além de apresentações em que a própria banda é o foco principal nos coretos das praças. Em Belém, as bandas podem atuar em atividades ligadas às instituições às quais pertencem, como escolas e quartéis, participando de desfiles, cerimônias oficiais e apresentações em que também podem ser o foco principal, como nos diversos teatros da cidade em ocasiões como o Festival Internacional de Música do Pará, realizado pela Fundação Carlos Gomes, e o ENARTE – Encontro de Arte de Belém, realizado pela Escola de Música da UFPA, ambos com periodicidade anual. Esses diversos espaços de atuação moldam, de forma significativa, o repertório que é tocado por essas bandas e direcionam os integrantes a um determinado foco. Minha experiência como docente, primeiramente do Instituto Carlos Gomes e atualmente da EMUFPA, mostra que os alunos provenientes de um determinado organismo musical têm o seu repertório moldado por ele. Frequentemente, nas audições das quais tomei parte nos testes de admissão das duas instituições, quando há opção de peças de livre escolha, candidatos oriundos de bandas de igrejas evangélicas sempre executam peças do hinário das igrejas e canções gospel. Já candidatos que passaram por bandas escolares e militares trazem dobrados e arranjos de música popular. Raros são os que executam trechos de métodos ou obras específicas, salvo quando já existe algum tipo de contato com professores ou alunos das escolas em que desejam ingressar.