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A opinião mais aceita e expressiva na doutrina é a de que a revisão criminal é mesmo uma ação penal, uma vez que inaugura uma relação jurídico-processual contra a sentença transitada em julgado, não trazendo, em seu bojo, nenhuma característica específica de recurso, abstração feita ao fato de propiciar, no sentido restrito, ao tribunal um novo exame daquilo que foi decidido.

O entendimento encontra-se em consonância com a afirmação de Pontes de Miranda62:

A revisão criminal é ação, e é remédio jurídico processual, e não recurso. Não se

confundia com a revista, no direito anterior; há ação do réu – ação, no Brasil, de

direito constitucional, para a revisão do processo findo. E há o remédio processual específico, a ‘ação’ de revisão criminal. Não se trata, pois, de simples recurso. A ação rescisória contra sentenças não se aplica a decisões criminais.

Mas a revisão faz-lhe as vezes. Já alhures mencionamos dissemos nós: ‘A revisão

criminal é remédio jurídico processual da mesma natureza, mutatis mutantis, que a ação rescisória; todavia, em seus pressupostos, prazo e consequências, é

inconfundível com essa ação rescisória não se aplica às sentenças criminais’.

Também o saudoso Júlio Fabbrini Mirabete filia-se ao referido posicionamento:

A opinião mais aceita, realmente, é a de que a revisão deve ser considerada como ação penal já que ela instaura uma relação jurídico-processual contra a sentença

61 CERONI, Carlos Roberto Barros. Revisão Criminal: características, consequências e abrangência. 1ª

ed. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2005.

62

PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti apud MÉDICI, Sérgio de Oliveira. Revisão Criminal. 2.ed. São Paulo, SP: Revista dos Tribunais, 2000. p. 245.

transitada em julgado. É, pois, uma ação de conhecimento de caráter constitutivo, destinada a corrigir a decisão judicial da qual já não caiba recurso63.

João Martins de Oliveira, por sua vez, entende que a revisão é “ação destinada a rescindir julgamento definitivo, por não terem sido colhidos elementos certos que alicerçassem o justo convencimento do juiz” 64.

No mesmo sentido são os ensinamentos de Ada Pellegrini Grinover, Antônio Magalhães Gomes Filho e Antônio Scarance Fernandes:

Erroneamente rotulada entre os recursos pelo Código, que seguiu a tradição, a revisão criminal, entre nós, é induvidosamente ação autônoma impugnativa da sentença passada em julgado, de competência originária dos tribunais. A relação processual atinente à ação condenatória já se encerrou e pela via da revisão instaura-se nova relação processual, visando desconstituir a sentença (juízo rescindente ou revidente) e a substituí-la por outra (juízo rescisório ou revisório)65.

Frederico Marques66 não destoa de tal entendimento e argumenta:

A revisão criminal não é recurso, mas sim ação penal (ação penal constitutiva), funcionando como equivalente penal da ação rescisória civil. (...) A revisão criminal é ação penal constitutiva, de natureza complementar, destinada a rescindir a sentença condenatória em processo findo. Ela é ação constitutiva, porque visa a desfazer os efeitos de sentença condenatória. (...) tem por causa finalis não só impedir que o condenado continue a sofrer as sanções injustas que lhe foram impostas, como ainda, restaurar seu status dignitatis.

O entendimento de Guilherme de Souza Nucci67 no que diz respeito à ação revisional em tela, litteris:

É uma ação penal de natureza constitutiva e sui generis, de competência originária dos tribunais, destinada a rever decisão condenatória, com trânsito em julgado, quando ocorreu erro judiciário. Trata-se de autêntica ação rescisória na esfera criminal, indevidamente colocada como recurso neste Título do Código de Processo Penal.

63 MIRABETE, Júlio Fabbrini. Processo Penal. 18 ed. São Paulo: Atlas, 2006. p. 701.

64 OLIVEIRA, João Martins de. Revisão Criminal. São Paulo : Sugestões Literárias, 1967. p. 109.

65

GRINOVER, Ada Pellegrini ; GOMES FILHO, Antônio Magalhães ; FERNANDES, Antônio Scarance .

Recursos no processo penal. 7. ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2011.p 241

66 MARQUES, José Frederico. Elementos do Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Editora Millenium, 2000, 7 v. - pág. 337

67 NUCCI, Guilherme de Souza. Código de Processo Penal Comentado. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. pág. 984

Também neste sentido é o entendimento jurisprudência dominante, conforme exemplificado no julgado abaixo:

REVISÃO CRIMINAL. FURTO. PRESCRIÇÃO RETROATIVA

RECONHECIDA EM SENTENÇA. PRETENDE O REVISIONANDO QUE SEJA DECLARADA A NULIDADE DA R. SENTENÇA TRANSITADA EM JULGADO EM 1º DE NOVEMBRO DE 1.983 PARA QUE OUTRA SEJA PROLATADA EM SEU LUGAR, RECONHECENDO-SE A EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE PELA OCORRÊNCIA DA PRESCRIÇÃO DE PLANO, SEM

A ANÁLISE DO MÉRITO DA CAUSA. (...) “A revisão criminal é ação penal,

originária de segundo grau, de caráter constitutivo e complementar, que pode ser pedida pelo réu a qualquer tempo, com a finalidade de corrigir erros de fato ou de direito ocorridos em absolutórias impróprias ou condenatórias, transitadas em julgado, se a sentença for contrária ao texto expresso de lei, oposta à evidência dos autos ou fundada em provas comprovadamente falsas, ou, ainda, quando se descobrirem novas provas de inocência ou de circunstância que determine ou autorize diminuição da reprimenda”.68(grifou-se)

Em suma, sustentam os adeptos dessa ideia que a nota característica dos recursos é a impugnação dentro da mesma relação processual. Destarte, nenhum instrumento que conduza à instauração de uma nova relação processual poderá ser considerado como recurso.

Sob essa ótica, Barbosa Moreira69 preleciona que o recurso e a ação autônoma de impugnação são espécies do gênero meios de impugnação. O recurso seria somente o meio de impugnação que faz prosseguir o processo que já vinha tramitando. Sustenta ainda que o recurso é limitado quanto às espécies, e possui requisitos de admissibilidade, sendo sua principal característica o exercício dentro do mesmo processo em que surgiu a decisão impugnada. Em razão a, os recursos são utilizados antes da formação da coisa julgada, com a finalidade de impedir a sua formação ou, mesmo, de retardá-la.

Cotejando ainda tal dialética, defende o autor, por outro lado, que as ações autônomas de impugnação são excepcionais e pressupõem a irrecorribilidade da decisão atacada – trânsito em julgado - sendo seu cabimento restrito às hipóteses taxativamente previstas em lei. Tais ações não prolongam a mesma relação jurídico-processual pré-

68 TJSP – 3º Grupo de Direito Criminal – Revisão Criminal nº 9024050-93.2007.8.26.0000 – Votuporanga.

Rel. Des. Sérgio Ribas. Julgado em 15/12/2011.

69

MOREIRA, José Carlos Barbosa, Comentários ao Código de Processo Civil, 4ª Ed, v. 5, Rio de Janeiro, Forense, 1974. p. 187.

existente, mas ensejam a instauração de um novo processo, apto a atingir o resultado do primeiro.

Entende ainda Barbosa Moreira70 que a instauração de um novo processo, independentemente do trânsito em julgado, seria justamente o principal fator diferenciador entre os recursos e as ações impugnativas.

Corrobora com tal entendimento a rica lição de Pontes de Miranda71, segundo a qual revisão criminal é ação de direito constitucional e ação constitutiva negativa. Do mesmo modo que a ação rescisória, não se trata de recurso, mas verdadeira ação contra sentença, pois, por meio dela, se instaura nova relação processual apta a desconstituir, com efeitos ex tunc, a determinação condenatória.

Entre os argumentos elencados pela doutrina contra a concepção da revisão como recurso podemos destacar, em apertada síntese: a) O transcurso do prazo normal para a interposição de recursos é característica inerente da revisão, de forma que esta surge no ordenamento justamente com o fito de reexaminar julgamentos irrecorríveis; b) O recurso é ato praticado por umas das partes da relação processual, enquanto a revisão admite outros legitimados, além do condenado (art. 623, CPP); c) enquanto o recurso se destina a provocar, dentro do mesmo processo, uma nova decisão, a revisão instaura uma nova relação processual.

Benzer Belgeler