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O desenvolvimento de novos meios de comunicação não consiste apenas na instituição de novas redes de transmissão de informação e produção de conteúdo. Segundo Thompson (1995), o desenvolvimento dos novos meios criou também uma nova forma de ações e relacionamentos sociais, as quais se diferenciam das que tinham prevalecido durante a maior parte da história humana: a comunicação face a face.

Enquanto a comunicação face a face se caracteriza, principalmente, pela presença física de indivíduos em um mesmo espaço e tempo, os novos meios partem do pressuposto de que não se faz mais necessária a presença destes indivíduos para efetivar a comunicação, dissociando assim a presença e ambientes físicos de tal maneira que a relação pode dar-se em

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Tradução livre de: If in the 1970s the designers at Xerox Parc modeled the first GUI on the office desk, because they imagine that the computer were designing will be used in the office, in the 1990s the primary use the computers as media access machine led to the borrowing of interfaces of already familiar media devices, such as VCR or audio CD displays controls (MANOVICH, 2001, p.95).

34 Tradução livre de: As a window of a Web browser comes to replace cinema screen, a wall in art gallery, a building and a book, all at once, the new situation manifest itself: all culture, past and present, is being filtered through a computer, with its particular human-computer interface (MANOVICH, 2001, p.76).

contextos espaço-temporais distintos. São estas a interação mediada e a interação quase- mediada.

Em uma interação mediada, os participantes encontram-se distantes, em locais e tempos distintos, fazendo-se necessário o uso de um meio técnico, tal como o papel ou telefone, que possibilite a intermediação e a transmissão do conteúdo desejado. Já na interação quase-mediada as relações sociais são estabelecidas através dos meios de comunicação de massa, como o livro, jornal, rádio ou mesmo o cartaz. Este tipo de interação nos possibilita ter o acesso a uma extensa gama de informação e conteúdo disseminados pelo espaço, porém, é limitada no que tange ao diálogo, não permitindo um fluxo na comunicação.

Isto quer dizer que, enquanto na interação mediada, o fluxo é bidirecional e dialógico, ou seja, há um retorno de ambas as partes, mesmo acontecendo em um tempo e espaço diferentes, na interação quase-mediada o fluxo é unidirecional, tornando-o monológico, não havendo reciprocidade interpessoal ou resposta por uma das partes.

De acordo com Jensen (1999), estes foram um dos motivos que causaram uma divisão nos estudos das mídias ao longo dos anos em duas linhas de pesquisa, a saber: uma que estuda os meios de comunicação de massa como um modelo de transmissão e outra que a estuda como comunicação interpessoal. Segundo o autor, isto deixou os estudos das novas mídias no entremeio de ambas as linhas, já que as novas mídias misturam comunicação de massa e interpessoal ao mesmo tempo.

Talvez este seja um dos motivos, continua o autor, porque muitos autores, incluindo Thompson (1995), ainda não chegaram a um denominador comum quando se trata de definir o termo interatividade, apesar de acreditarem que o termo derive do conceito de interação que geralmente está relacionado à troca, intercâmbio e compartilhamento entre duas partes. Segundo o autor, o significado do conceito depende de como e em que contexto é usado:

Nas ciências médicas a “interação” descreve a interação entre dois medicamentos dados ao mesmo tempo. Na engenharia, a “interação” se refere à relação entre as ações de dois diferentes materiais sob pressão. Na estatística, a “interação” representa o efeito comum de diversas variáveis em uma variável independente. Na linguistica, se refere à influência do comportamento da língua em uma criança bilíngue (JACKËL apud JENSEN, 1999, p.04)35

35 Tradução livre de: In medical Science, “interaction” describes the interplay between two medications given at the same time. In engineering, “interaction” refers to the relationship between and actions of two different materials under stress. In statistics, “interaction” represents the common effect of several variables on an independent variable. In linguistics it refers to the influence on language behavior of bi-lingual children (JACKËL apud JENSEN, 1999, p.04).

Por ser considerado um termo multidiscursivo (multi-discursive) e uma buzzword36

,

Jensen (op. cit.) afirma que é necessário que este seja compreendido sob o ponto de vista de três áreas: a sociologia, a informática e a comunicação.

Em relação à sociologia, para o autor, a interação é tida como a unidade mais elementar dos eventos sociais e o constituinte básico da sociedade, quer dizer, o modelo básico do qual o conceito de interação deriva da troca entre duas ou mais pessoas que, em determinada situação, adaptam e adequam seus comportamentos e ações mutuamente.

Ainda dentro do campo da sociologia, continua o autor, é possível estabelecer uma comunicação sem interação como, por exemplo, quando um indivíduo escuta ao rádio. No entanto, observa, o seu contrário não é possível, ou seja, o rádio não tem como realmente comunicar-se com o ouvinte na hora em que este está determinado a interagir com o meio, portanto, não há interação sem comunicação. O que se quer dizer, em outras palavras, é que o aspecto mais importante de interação para a sociologia são os claros sistemas de envolvimento que se estabelece entre os indivíduos e não entre indivíduos-máquinas, no qual não há proximidade física ou emocional aparente.

Ao contrário do ponto de vista sociológico, na comunicação o conceito de interação está relacionado às ações dos indivíduos com o conteúdo do meio que o transmite, ou seja, a relação e interação dá-se de forma monológica, nos fazendo lembrar das interações quase- mediadas citadas por Thompson (1995):

O conceito de interação na mídia e na comunicação é geralmente usado para referir- se às ações de uma audiência ou receptores em relação ao conteúdo da mídia. Este pode ser o caso, embora nenhuma nova tecnologia de mídia esteja sendo usada para abrir a possibilidade para o input de indivíduos e comunicação de duas vias, mas o contrário, para referir-se à tradicional mídia de uma via (JENSEN, 1999, p.05)37.

Em relação à informática, o termo foi parcialmente trazido da sociologia e refere-se exclusivamente à interação do homem com o computador (human-computer interaction -

HCI), ou seja, denomina o processo em que o homem opera a máquina e não a comunicação

entre duas pessoas em ambientes informacionais distintos, que, segundo o autor, é designada de comunicação mediada por computador.

36 Clichê ou jargão em inglês.

37 Tradução livre de: The concept of interaction in media and communication studies is often used to refer to the actions of an audience or recipients in relation to media content. This may be the case of even though no new media technology is being used which would open up the possibility for user input and two way communication, but on the contrary, to refer to traditional one way media (JENSEN, 1999, p.05).

No campo da informática, afirma o autor, é possível encontrar interações entre homem e máquina sem haver comunicação, mas o seu contrário não é possível: não pode haver comunicação mediada por computador entre indivíduos sem que haja interação entre eles e a própria máquina.

Em suma, compreendemos aqui que o termo interatividade deriva do conceito de interação e que para sua melhor compreensão deve ser analisado sob três grandes áreas: a sociologia para a qual o termo define a relação entre duas pessoas ou mais; a informática, cuja interação se dá entre a relação homem e computador e, por último, a ciência da comunicação, que diz respeito às ações humanas recíprocas associadas ao uso de um meio de comunicação bem como a interação através deste.

Depois de expor seu ponto de vista e entendimento sobre o surgimento do termo interatividade, que define como “a medida do potencial da capacidade que uma mídia possui para que o indivíduo exerça uma ação ou influencie sobre o conteúdo e/ou forma da comunicação mediada”38, Jensen (1999, p.17) acredita que é inter-relacionando as várias concepções disciplinares e intervenções de tais áreas que podemos chegar a um denominador comum sobre o conceito, a tal ponto que interação e interatividade parecem ser sinônimos, apesar da sociologia não fazer uso deste último termo.

O autor nos apresenta três conceitos de interatividade que, apesar de cada um deles terem afinidades especiais com cada área anteriormente delimitada (sociologia, comunicação e informática), sugere sua interdependência na prática, buscando compreender as mídias (media) em um sentido mais amplo, por meio de estruturas, os agentes (ou agências) e dos próprios meios de comunicação.

O primeiro tipo de interatividade (interactivity 1), relaciona agentes (indivíduos atuantes) e meios de comunicação, referindo-se, em outras palavras, à relação que se dá especificamente por intermédio da interface. Aqui, a interatividade é uma forma de seletividade, afirma o autor: todo e qualquer indivíduo pode fazer uma escolha ou trilhar um caminho a partir da gama de opções pré-programadas pelos criadores do sistema. Ao fazer sua seleção, o indivíduo inicia um diálogo de “voltas” (turns) com o próprio sistema, ou seja, para cada click dado ou botão selecionado, uma “resposta” lhe será dada. “Seja qual for o leque de opções de resposta que desenvolvedores de sistemas e designers preparem, os usuários, até

38 Tradução livre de: A measure of a media´s potential ability to let the user exert and influence on the content and/or form of the mediated communication (JENSEN, 1999, p.17).

certo ponto, também podem personalizar sua interface e a natureza de sua interação com o sistema”39 (JENSEN, 2005, p.04).

O segundo tipo de interatividade (interactivity 2), que se dá entre a mídia e as estruturas, está mais ligado a um contexto que a uma situação em particular, quer dizer, refere-se à influência mútua estabelecida entre as tecnologias dos meios de comunicação e a sociedade. Já o terceiro e último tipo de interatividade (interactivity 3), que trata da relação entre a estrutura e os agentes, designa o relacionamento entre os próprios indivíduos, facilitados pelos meios de comunicação. Com o pressuposto básico de que “sem os meios de comunicação, não há nenhuma coordenação das agências, portanto, nenhuma sociedade”40 (JENSEN, 2005, p.04), o autor nos explica que a construção e os diálogos estabelecidos entre entidades e instituições privadas ou governamentais bem como com o ambiente de sociabilidade, físico ou virtual, só é possível e passível graças à comunicação mediada por computador. Para exemplificar, o autor nos mostra que não só as mínimas ações dos designers de automóveis ou construtores civis trabalham com o auxílio do computador para a criação do

design em si ou, fabricação (CAD/CAM), mas também as principais instituições sociais, tais

como bancos e serviços públicos se tornaram possíveis, em parte, graças à mediada do computador”.

O modelo apresentado por Jensen nos faz lembrar que, para Braga (2000, p.06):

A interatividade deve ser vista como um processo socialmente construído, utilizando variadamente determinadas características dos meios de comunicação, organizado historicamente em torno da geração de determinados produtos de sentido [...]. Se o produto mediático é posto em circulação na sociedade e, efetivamente, circula, há, inevitavelmente interatividade.

Primo (2008), mais focado no indivíduo e sua relação com a máquina, nos apresenta dois padrões de interatividade, sendo eles: interação mútua e reativa. Para o autor, os sistemas de interação mútua são aqueles cujo sistema é aberto e formado por partes interdependentes, ou seja, que permitem uma comunicação e troca entre uma ou mais partes e nas quais as ações de uma parte do sistema dependem das ações e respostas da outra. Com isso, os sistemas mútuos de interação tendem a estar voltados à construção e evolução da troca de informação, ao engajamento e envolvimento das partes bem como à um diálogo não previsível, quer dizer, cada uma das mensagens enviadas pelas partes são decodificadas de acordo ao background de

39 Tradução livre de: Whereas system developers and designers prepare the range of turn-taking, users, to a degree, also may customize their interface and the nature of their interaction with the system (JENSEN, 2005, p.04).

40 Tradução livre de: Without media of communication, no coordinated agency and, hence, no society (JENSEN, 2005, p.04).

informação e conhecimento da outra parte, a qual gera uma nova mensagem, uma nova codificação e interpretação.

Para exemplificar, podemos dizer que os sistemas mútuos de interação nos remetem, constantemente, a um jogo de tênis: os jogadores dependem um do outro para receber a bola enviada, porém, nunca saberão como a oura parte reagirá e enviará a bola de volta, por mais que esteja mantendo um contato visual e conheça o ambiente no qual está inserido.

Quanto aos sistemas reativos de interação, estes se caracterizam por serem fechados, de relações lineares e unilaterais, ou seja, nenhuma das partes depende da outra para que a troca possa acontecer. De fato, nos sistemas reativos não há uma troca de informações, quanto menos uma comunicação entre duas ou mais partes. O que encontramos em sistemas reativos são respostas programadas para estímulos previstos, quer dizer, todo e qualquer movimento já foi previamente pensado, planejado e elaborado para que acontecesse da forma que se planejou, caso contrário, é falha do sistema.

Ao mesmo tempo em que o usuário age criativamente na escolha, ele apenas circula por perguntas que foram feitas antes de sua chegada na interação e obtém respostas que foram emitidas antes mesmo desse relacionamento se estabelecer. Logo, o usuário que aparenta ser agente no processo, está apenas reagindo às perguntas e possibilidades pré-estabelecidas (PRIMO, 2008, p.09).

Uma máquina de bebida, um caixa automático de banco, um jogo de computador e um cartaz digital, por exemplo, são exemplos de um sistema reativo de interação. Nele o usuário imerge e participa, porém, todo e qualquer estímulo assim como as respostas que receberá já foram trilhadas meses ou anos antes. O caminho a seguir será sempre ditado por um programador ou designer.

O conceito de interação reativa apresentado por Primo nos remete ao primeiro tipo de interatividade (interactivity 1) defendido por Jensen (1999). Em suma, ambos os autores estão se referindo ao relacionamento programado e pré-estabelecido entre designer-máquina- usuário e à limitação que esta interação oferece: apenas entradas e saídas programadas. De acordo com Andrade (2009), este tipo de interatividade cria um relacionamento ilusório com a máquina:

Quando o produto da mídia traz em si mesmo a simulação da ação do recepto no processo [...] cria-se, de imediato, um mecanismo dialógico ilusório, fazendo o receptor ter a impressão de que está interagindo, de certa maneira, com o produto [...] Enfim, são mecanismos ilusórios de diálogo cujo objetivo é mudar o status inoperante do receptor, criando um envolvimento deste com o produto de forma enganosa (ANDRADE, 2009, p.212-213).

Para Stranbhaar e Larosse (apud ANDRADE, 2009), no entanto, pensar a interatividade na mídia não só se encerra apenas ao simulacro das máquinas, o que nos traz novas possibilidades de colocações. De acordo com os autores, em uma concepção mais abrangente, interatividade na era das máquinas de comunicação refere-se “a situações onde respostas em tempo real provêm de receptores de um canal de comunicação e são utilizadas pela fonte para continuamente modificar a mensagem, conforme esta é evitada pelo receptor” (op. cit, p.211).

Seguindo o raciocínio desta definição, dificilmente existiria interatividade com as máquinas em geral uma vez que alterar as mensagens dos meios de comunicação não é fato simples – salvo em alguns casos, como afirmam os autores. Talvez ter a opção de escolher o conteúdo ou emitir uma opinião sobre este seja possível para o receptor, embora sua ação limite-se apenas a tal.

Contudo, para Andrade (2009), de alguma forma, o status do indivíduo é redefinido a partir da possibilidade de sua forma de agir ou inserir-se no produto, já que este [o produtor] o retira de um lugar “apático”, fornecendo-lhe [ao indivíduo] um novo papel, fazendo-o sentir- se dentro de uma relação comunicativa. Nesse aspecto, continua o autor, pode-se considerar traços de um novo modo de interatividade na relação com as máquinas.

Sendo assim, nos perguntamos se o envolvimento com o produto, em um sentido imersivo no conteúdo do produto e de experiências emocionais e físicas, não poderiam ser tidas como uma forma de interatividade, mesmo que esta já esteja limitada aos outputs programados pelos designers, como as oferecidas hoje pelos cartazes digitais interativos cujo principal objetivo é “submergir” o indivíduo em sua mensagem, mesmo que tenha sido planejada meses antes de circulação – o que de fato, não é algo com que o usuário tenha alguma preocupação. A vontade deste é de participar e estabelecer contato com o conteúdo da máquina, neste caso cartazes.

Benzer Belgeler