I. HAYAT DIŞI BRANŞLAR İÇİN GEREKLİ ÖZSERMAYE
35. Gelir Vergisi
O leitor possui um papel primordial tanto na produção quanto na interpretação de um texto, pois é graças a ele que a situação de comunicação se estabelece:
Um texto postula o próprio destinatário como condição indispensável não só da própria capacidade concreta de comunicação, mas também da própria potencialidade significativa. (Eco, 1986: 37)
Eco (op. cit.) afirma que todo autor, no momento de produção de um texto, seqüência lingüística escrita ou oral produzida em uma situação de comunicação determinada, prevê um leitor específico, denominado por ele de leitor-modelo. Esse leitor deve ser capaz de atualizar e de interpretar esse texto elaborado:
Por isso, [os autores] fixam com perspicácia sociológica e com brilhante mediedade estatística o seu Leitor-Modelo: dirigir-se-ão, sucessivamente, a crianças, a melomaníacos, a médicos, a homossexuais, a surfistas, a empregadas domésticas da pequena burguesia, a aficcionados de roupas inglesas, a pescadores submarinos. Conforme dizem os publicitários, a escolherão para si um target (e um “alvo” pouco ajuda, pois espera ser atingido). Farão com que todo termo, que toda maneira de dizer, que toda referência enciclopédica, seja aquilo que previsivelmente o seu leitor pode entender.(op.cit.: 41)
Conforme ressalta Eco (op. cit.: 39), o autor empírico, ou seja, o produtor da enunciação textual, o sujeito concreto, deve ser capaz de hipotetizar esse leitor-
modelo com a finalidade de adequar seu texto a esse leitor e, assim, possibilitar a
reconstrução e a compreensão desse texto. Essa hipótese de leitor-modelo representa, portanto, uma estratégia textual por parte do autor.
Sendo assim, autor e leitor-modelo não constituem dois pólos distintos e distantes de uma enunciação1, mas sim fazem parte de um mesmo princípio denominado por Grice (1982) de princípio de cooperação. Como aponta Eco (op. cit.), obedecendo a este princípio, tanto o autor empírico quanto o leitor empírico, ambos sujeitos concretos, dedicar-se-ão no sentido de não bloquear, de não fechar essa comunicação textual.
Para que esse princípio de cooperação se estabeleça, faz-se necessário, __________
1. Concebemos enunciação nesta dissertação como um “evento único e jamais repetido de produção de um enunciado”. (Koch, 1998: 13)
diferentemente de uma comunicação face a face, que o autor empírico determine esse leitor-modelo, aquele que é capaz de “decodificar” a mensagem textual.
Em uma comunicação face a face, como apontam Eco (1986) e Kleiman (1997), tanto o lingüístico quanto o extralingüístico auxiliam na reconstrução e na interpretação de um texto:
Na comunicação face a face intervêm infinitas formas de reforço extralingüístico (gestual, ostensivo e assim por diante) e infinitos procedimentos de redundância e feedback, um em apoio do outro. Sinal de que nunca existe mera comunicação lingüística, mas atividade semiótica em sentido lato, onde mais sistemas de signos se completam reciprocamente. (Eco, op. cit.: 39)
Na interação face a face elementos do contexto ajudam a compreensão: gestos, os objetos ao redor, bem como o conhecimento mútuo dos interlocutores são todos elementos nos quais se apóia a compreensão.(Kleiman, op. cit.: 66)
No entanto, em um texto escrito, há de se prever um leitor-modelo, que é, segundo Eco (op. cit.), uma estratégia textual, assim como também outros mecanismos que possibilitem a esse leitor compreender e interpretar esse texto. Esses mecanismos são, principalmente, a utilização de um mesmo código, um conhecimento enciclopédico compatível ao texto e um respeito aos gêneros discursivos2, para que, desta forma, esse leitor-modelo possa cooperar e não seja surpreendido por algo totalmente desconhecido e novo para ele:
Os meios são muitos: a escolha de uma língua (que exclui obviamente quem não a fala), a escolha de um tipo de enciclopédia (se começo um texto com |como está claramente explicitado na primeira Crítica...|, já reduzi, e bastante corporativamente, a imagem do meu Leitor-Modelo), a escolha de um dado patrimônio lexical e estilístico... Posso fornecer sinais de gênero que relacionam a audiência: |Queridas crianças, era uma vez um país distante...|; posso restringir o campo geográfico: Amigos, romanos, concidadãos!|. Muitos textos tornam evidente o seu Leitor-Modelo, pressupondo apertis verbis (perdoem-me o __________
2. Concebemos gênero discursivo ou de discurso nesta dissertação como um tipo relativamente estável de enunciado que possui um conteúdo temático, um estilo e uma construção composicional determinados pela “especificidade de um determinado campo de comunicação” . (Bakhtin, 2003: 262)
oxímoro) uma específica competência enciclopédica. (Eco, 1986: 40)
Maingueneau (2001), assim como Eco (op. cit.), também aponta o princípio
de cooperação postulado por Grice (1982) como um dos primeiros elementos
necessários para que haja uma comunicação, ou seja, ele afirma que o leitor deve supor que o autor ao produzir um texto respeita certas regras como, por exemplo, comunicar algo sério, verdadeiro, de interesse do leitor, de forma clara e sem ambigüidade3. Podemos verificar que ao postular tais regras, o elemento primordial da enunciação continua a ser o leitor, pois o respeito a essas regras demonstra, primeiramente, a elaboração de um leitor-modelo por parte desse autor empírico e, em seguida, uma preocupação com a compreensão e a interpretação desse leitor.
Isso posto, podemos afirmar que Maingueneau dá a mesma importância ao leitor no momento de elaboração de um texto que Eco (op. cit.). O teórico francês (1996: 31) considera que o destinatário de um texto desempenha um papel decisivo tanto na produção quanto na interpretação de um enunciado. Maingueneau (op. cit.) assinala, ainda, que diferentemente da comunicação face a face, o texto escrito é mais frágil pelo fato de o destinatário não partilhar a mesma situação temporal e espacial do enunciador. Todavia, esse fato não torna o destinatário do texto oral mais privilegiado do que o do texto escrito. Ele afirma que um texto escrito só terá sentido no momento em que for lido, compreendido e interpretado por um leitor, denominado por este autor (op. cit.: 32) co-enunciador, destacando, então, o seu papel primordial no processo de leitura:
não é possível continuar a proporcionar uma função secundária à posição de leitura; o termo “co-enunciação” adquire aqui toda a sua força. Num sentido, é o co-enunciador que enuncia a partir das indicações cuja rede total constitui o texto da obra. Por mais que uma narrativa ofereça como a representação de uma história __________
3. Grice nomeia cada uma dessas regras: máximas de qualidade, máximas de quantidade, máximas de relação e
máximas de modo. Todavia consideramos ser suficiente para esta dissertação apenas assinalarmos que na relação entre autor e leitor, o primeiro respeita certas regras para que possa, assim, atingir o segundo.
independente, anterior, a história que conta só surge através de sua decifração por um leitor.
Maingueneau (2001) assegura que para se produzir e se interpretar um texto de maneira adequada, deve haver, além do princípio de cooperação entre autor e leitor, três fundamentais competências: uma competência lingüística, uma
competência genérica e uma competência enciclopédica.
Possuir competência lingüística significa que autor e leitor precisam ter conhecimento e domínio de uma mesma língua, uma vez que seja este princípio básico para que haja comunicação.
Por sua vez, possuir uma competência genérica quer dizer que o autor deve adequar seu texto a certos gêneros de discurso, que são, segundo o próprio Maingueneau (op. cit.: 61), “tipos de discurso4 associados a vastos setores de atividade social”, e o leitor-modelo, instituído por esse autor, precisa ser capaz ao menos de distinguir diferentes gêneros a fim de que este consiga compreender e interpretar o texto lido.
O teórico francês (op. cit.) assinala que ao se comunicar, seja de forma escrita, seja de forma oral, os indivíduos sempre obedecem a um certo gênero de discurso e não utilizam, então, o discurso como tal. Por esse motivo, é necessário que eles conheçam tais gêneros, pois desta forma podem se adequar a eles:
De fato, “o” discurso jamais se apresenta como tal, mas sempre na forma de um gênero de discurso particular: um boletim de meteorologia, uma ata de reunião, um brinde etc. (...) Mesmo não dominando certos gêneros, somos geralmente capazes de identificá-los e de ter um comportamento adequado em relação a eles.(Maingueneau, op.cit: 43-4)
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4. Adotamos, nesta dissertação, a distinção entre texto e discurso proposta por Maingueneau (1998). Para ele, texto possui uma forte estruturação e o destaque é dado à sua unidade, “que faz dele uma totalidade e não uma simples seqüência de frases” (op. cit.: 142). Entretanto, o discurso “é concebido como a associação de um texto a seu contexto” (op. cit.: 45).
A terceira competência apontada por Maingueneau para que haja uma comunicação, ou entre falantes, ou entre autores e leitores, é a competência enciclopédica, ou seja, é necessário que haja por parte desses indivíduos participantes de um ato de comunicação um considerável conhecimento sobre o mundo:
É a nossa competência enciclopédica que nos diz, por exemplo, que uma sala de espera existe para que as pessoas esperem sua vez; que a proibição de fumar se aplica ao tabaco; que os cigarros, charutos, cachimbo, queimam tabaco e soltam fumaça e que a fumaça é geralmente considerada pelos médicos como prejudicial à saúde; que nos lugares fechados a fumaça fica estagnada e pode ser inalada pelos não-fumantes; que existem regulamentos nas repartições, autoridades encarregadas de aplicar sanções etc. (Maingueneau, 2001: 42)
Esse autor (op. cit.) aponta ainda que, dentre essas três competências, uma não se sobrepõe à outra e que elas não obedecem especificamente a uma seqüência ordenada. As três são igualmente importantes e interagem para que o autor produza seu texto de forma que o seu leitor-modelo possa compreendê-lo e interpretá-lo.