O funcionamento na vida de um grupo de cuidado de saúde é caracterizado pela atividade do líder e participação dos membros na realização das metas e objetivos do grupo (LOOMIS, 1979).
Nessa etapa, pode acontecer a adoção de algumas posturas relacionadas a comportamentos e atitudes que fazem parte da dinâmica das relações humanas. Como ressaltado anteriormente, foi percebida certa proximidade entre alguns membros do grupo. Já na sessão I observou-se a aproximação entre “Maria Brasil 1” e “Maria Brasil 2”, pois tinham praticamente a mesma idade e estavam há mais tempo na Casa. “Maria Brasil 1” se interessava pela história de “Maria Brasil 2”, que estava sempre sorrindo. Monteiro, Pinheiro e Souza (2008) consideraram que o tempo de convivência dessas mães está ligado à qualidade das relações estabelecidas entre elas.
“Maria Brasil 3”, “Maria Brasil 5” e “Maria Brasil 6” também estavam sempre conversando, eram as que tinham mais escolaridade e se colocavam muito bem nas discussões em grupo; representavam uma força para o grupo, apesar de que, nas sessões iniciais, demonstraram alguns momentos de tristeza e preocupação.
Para Loomis (1979), a proximidade se refere tanto ao contato consigo mesmo quanto com o outro e pressupõe um empenho para entender e ser entendido. Apesar de se relacionar a momentos breves, o conceito de proximidade insinua uma relação contínua cercada de compartilhamento aberto. Como a coesão, a proximidade é uma variável que ocorre como causa e efeito. A proximidade geralmente é aumentada pelo compartilhamento de experiências comuns e, se há certo grau de proximidade, os membros se sentirão mais seguros para compartilhamento sincero.
Assim como a proximidade, as situações de conflito são comuns durante o funcionamento do grupo, pois pode haver uma diversidade e divergência de opiniões, posicionamentos e sentimentos dos integrantes entre si, entre subgrupos, do coordenador para com os membros do grupo e ainda para com o grupo como um todo (LOOMIS, 1979). Não foram evidenciadas situações de conflito durante o funcionamento do grupo em estudo, embora tenha ocorrido divergência de sentimentos e opiniões em alguns momentos.
Logo nos primeiros encontros em que “Maria Brasil 15” participou do grupo, estava deprimida, referia saudade da família e ainda não tinha aceitado a situação a qual estava enfrentando. Quando na sessão XIV disse que estava sentindo muita falta de sua mãe e chorou, “Maria Brasil 12” a confrontou dizendo que: ...a gente deve estar preparada para
viver no mundo sozinha... já estou acostumada a passar vários dias sem ver minha mãe.
“Maria Brasil 15” falou que mesmo quando morava distante da mãe, ia lhe ver todos os dias. Chorou quando explicava que a mesma não podia vir lhe visitar porque não sabia ler, e por isso, não tinha condições de se deslocar na cidade de Sobral-CE sozinha. “Maria Brasil 12” contou que sua mãe tinha lhe trazido à maternidade e depois que ela teve o bebê foi embora e ainda não tinha vindo lhe visitar. Compreende-se que os sentimentos de “Maria Brasil 12” em relação sua mãe se justificava pelo fato, devido à separação dos pais, desde os doze anos de idade morava sozinha com uma irmã mais jovem. Sua mãe morava em outro bairro de Sobral-CE, mas mantinha pouco contato com as filhas.
Reconhece-se a importância da figura materna (avó do bebê) para as participantes do estudo. Ela foi citada por várias mães durante os encontros. Os membros do grupo se emocionavam ao se referirem as suas mães, demonstrando uma necessidade de “estar perto”. Considera-se que a mãe da mulher com filho internado constitui-se em uma das principais fontes de apoio, sendo o membro da família que mais esteve presente na experiência vivenciada pelas participantes, conforme relatado anteriormente nesse estudo. Ela também se configura na pessoa que pode dividir as responsabilidades, ajudando a cuidar dos outros filhos desta mãe (netos) que ficaram em casa.
Por se configurar em uma pessoa de referência para a mulher com recém-nascido hospitalizado, entende-se que a relação que esta estabelece com suas mães/família pode influenciar no enfrentamento dessa experiência. Percebe-se essa influência negativa nas participantes “Maria Brasil 8”, “Maria Brasil 12” e “Maria Brasil 15”, as quais não recebiam apoio de suas mães nem de outros familiares.
A resistência à mudança também se trata de um processo que pode ocorrer no funcionamento dos grupos, podendo ser assumida por todos os membros ou somente por alguns. Quando a resistência para mudar surge, normalmente é porque um, vários ou todos os membros investem no antigo comportamento, tendo dificuldade de abandoná-lo (LOOMIS, 1979). Era expresso pelas mães um desejo de que o grupo se tornasse um momento de descontração. Em muitas sessões, as participantes referiram que estavam alegres naquele instante e que gostariam que todas as sessões fossem animadas daquela maneira. Desta forma, acredita-se que não houve resistência dos membros do grupo para melhorarem o humor e sentirem-se melhor, embora esse não fosse o objetivo principal do grupo.
Tanto na situação de conflito como em casos de resistência à mudança, o líder do grupo pode contar com alguma ajuda para lidar com tais problemas. O líder, com certeza, configura-se numa grande fonte de contribuição, mas também pode solicitar a um consultor externo uma avaliação do processo. Todavia, Loomis (1979) enfatiza que os membros do grupo devem receber orientação em direção à resolução e que se o problema é do grupo, este deve procurar cooperativamente solucioná-lo. Um grupo que foi esclarecidamente estruturado e que desenvolveu alto nível de coesão tem condição para lidar com os assuntos que podem emergir durante seu funcionamento.
A resolução é a habilidade de mobilizar as capacidades dos membros para a solução de problemas do coletivo e resolvê-los de uma maneira orientada. As coordenadoras do grupo surpreenderam-se quando na sessão VI uma “Maria”, recém-chegada ao grupo, apresentava-se triste e preocupada e, quando foi interrogada, falou de seu problema. O grupo prontamente se mobilizou, buscando a solução. “Maria” queria muito ver o filho de um ano e meio que havia ficado em casa sob os cuidados do marido e o médico neonatologista havia liberado sua ida, pois não representava maiores danos ao recém-nascido. A questão era que estava sem seus pertences, inclusive suas roupas, pois viera transferida do hospital de sua cidade. Também havia a dificuldade com transporte, “Maria” morava longe, as ambulâncias do seu município não vinham com frequência à Sobral e ela não tinha dinheiro para um transporte alternativo. Sua família, por causa da distância e das condições financeiras, ainda não havia lhe visitado. A outra “Maria” que estava desde a sessão anterior, imediatamente,
disse que lhe emprestava uma de suas roupas e “Maria Brasil 6” ofereceu-lhe o dinheiro para pagar a passagem. Orientou-se em relação ao encaminhamento do caso para o Serviço Social da instituição. Naquele momento chamaram a auxiliar de enfermagem que as acompanhava e solicitaram que esta levasse o caso de “Maria” ao profissional responsável. A outra “Maria” exclamou:
... quando a gente tem um problema deve falar porque um pensa, o
outro também e aí pode ser que se resolva... ela não é desse jeito
(triste), é sempre alegre e animada, está assim só por causa disso... (“Maria”).
Apesar de não se tratar de um assunto de conflito e nem de resistência à mudança, a tristeza e preocupação da mãe que enfrentava tal problema a deixava sem condições de participar da sessão e isso incomodava o restante dos membros. Portanto, entende-se que o fato relatado configura-se em um assunto de resolução de um problema ocorrido no grupo.